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Nem tão recentemente

Favela: visibilidade, contradições e algumas conclusões

Dia de eleição. Fico aliviada de São Paulo ter um segundo turno sem Russomano. Lamento que o Rio não vá ter segundo turno, porque seria uma oportunidade excelente de aprofundar debates, discutir planos, em vez de apenas legitimar o governo em curso. Com uma atuação que, em vários aspectos, lembra a de Pereira Passos. E isto não é um elogio. Minha avaliação, no fim das contas, é muito positiva. A campanha do Marcelo Freixo foi bonita, engajada, limpa, e deu novo sentido à participação política, principalmente de uma parcela expressiva da população mais jovem. Teve coragem de levantar questões polêmicas, expor falcatruas e apresentar uma ideia de cidade que eu abraço e subscrevo. Ele surge como uma nova e forte liderança política na cidade e isso é excelente. Como uma das muitas frases marcantes, Freixo disse, no último debate, que “Favela é cidade”, verbalizando uma noção ampla e inclusiva de cidade como há muito não vemos.

Eu disse lá na rede social e repito aqui: algumas vitórias (e algumas derrotas) só se veem com o tempo. A gente vai aprendendo que uma eleição não se faz só no dia do voto ou durante a campanha. De vez em quando a gente planta, mas a colheita só vem lá na frente.

Dito isto, apresento o último post da série sobre favelas, extraída do texto de Maurício de Abreu. Muitos outros temas já estão prontinhos para serem explorados neste espaço.

Toda a visibilidade que as favelas ganharam na imprensa e nas artes, fosse para falar mal ou para idealizar, acabou atraindo a curiosidade de estrangeiros, que passam a desejar visitar as favelas da cidade. Veja bem, estamos falando das décadas de 20-30. Ou você acha que gringo querendo visitar favela é novidade? Em alguns dos relatos gerados por essas visitas, fica claro, entre outras coisas, o surgimento de uma nova relação entre a polícia e os moradores. O jornal Correio da Manhã, em 1926, fala especificamente de uma situação no Morro da Favela (atual Morro da Providência), em que dois chefões locais, donos de botequins e de pontos de jogo do bicho, dividiram o morro em áreas de influência distintas, e faziam acordos com a polícia para acompanhar visitantes ilustres pela favela. Era, segundo o jornal, uma situação de entente-cordiale. Os chefes da contravenção, inclusive, faziam questão de garantir: “vê-se aqui a miséria da cidade, mas é gente que trabalha… aqui há disciplina, há ordem…”. Fiquei pensando nas milícias de hoje, que garantem “ordem” em diversas comunidades, sabemos bem a que preço.

Com tudo isso, o preconceito contra a favela persistia. Aquele senhor, já mencionado, Mattos Pimenta, que depois foi presidente da Bolsa de Imóveis do Rio de Janeiro, dizia que os intelectuais “glorificavam as favelas”, e que se esses intelectuais descobriam poesia e beleza em alguma coisa era por uma “perversão do gosto”. Para ele, isso era “deplorável e incompreensível, nefasto e perigoso, ridículo e revoltante”. E bradava:

“Não. Aos intelectuais extravagantes que fazem apologia da malandragem e da sujidade, que exaltam o capadócio e a sordideza, que celebram as senzalas e as fedentinas, e proclamam que isto é brasileiro, que isto é carioca, oporemos nós a voz do bom senso, as regras incorruptíveis da verdadeira Arte, os preceitos legítimos da verdadeira Ciência, salvando do desmantelo futurista esta obra prima da Natureza que é o Rio de Janeiro”. (Correio da Manhã,18/11/1926)

Soa familiar? Porque essas mesmas críticas continuam existindo, eu mesma já as ouvi algumas vezes. Quando ele diz “oporemos nós a voz do bom senso”, eu tenho vontade de perguntar “nós, quem, cara pálida?”.

O debate sobre a favela segue firme e forte durante a década de 20. De um lado, a arte dando status poético aos seus territórios e personagens. De outro, o saber urbanístico denunciando as inconveniências de sua presença na cidade. Seguem as campanhas de erradicação da favela, com forte apoio do urbanista francês Alfredo Agache, contratado pelo governo para elaborar o primeiro grande plano de urbanização do Rio. Entretanto, tanto Agache quanto outros críticos da favela continuam batendo, sem resposta, na mesma tecla: eles acreditam que para extirpá-las é imprescindível criar-se um plano habitacional, com a construção de bairros operários (nos subúrbios, evidentemente).

A ascensão de Getúlio Vargas ao poder em 1930, sustentado principalmente pelos setores urbanos da sociedade, leva a um período de menos pressões sobre as favelas. Isso dura de 1930 até aproximadamente 1960, quando um novo jogo de forças toma forma, favorecendo sobretudo os interesses imobiliários. O governo passa a patrocinar campanhas ferozes de erradicação das favelas, com ações muitas vezes truculentas de remoção da população, principalmente nas zonas mais privilegiadas da cidade. A maioria dos terrenos onde essas favelas se situavam abrigam hoje edifícios destinados à moradia das classes mais altas, no Leblon, Lagoa, Ipanema. Parte da população que residia nestas favelas foi removida para conjuntos na Zona Oeste, distantes em média 40 km do centro da cidade. Mas a maior parte (além de vários que não deram conta e acabaram voltando para perto do trabalho, das redes de família e amigos e dos serviços que os atendiam) acabou mesmo foi engrossando as favelas encravadas nos morros de toda a cidade.

UMA BREVE SÍNTESE, ALGUMAS CONCLUSÕES, VÁRIAS QUESTÕES EM ABERTO

Acompanhamos, nas últimas semanas, uma espécie de resumo comentado do texto de Maurício de Abreu sobre a origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro. Vimos que as favelas existem há mais de 100 anos no Rio de Janeiro. Surgiram no final do século XIX por conta da grave crise habitacional e, dez anos depois, começaram a se expandir pelo tecido urbano. Se a Reforma Passos trouxe embelezamentos fundamentais para a cidade, também agravou o deficit habitacional, ao não prover solução para as remoções que ocorreram, jogando grande quantidade de gente para uma situação de informalidade e ilegalidade. Foi um momento em que a cidade cresceu muito, tanto em termos de território ocupado quanto de vigor econômico, aumentando a oferta e a descentralização da mão-de-obra, além de atrair levas de migrantes em busca de melhores oportunidades de vida. Acrescente a isto os seguintes fatores:

  • Ausência de política habitacional que promovesse a construção de casas operárias;

  • Destruição sistemática e continuada das antigas habitações coletivas;

  • Adoção de uma legislação edilícia aplicada a toda a cidade, que exigia o uso de materiais de construção de alta qualidade, inviabilizando a ocupação dos subúrbios pelas camadas mais pobres;

  • Ausência de política de transportes de massa que permitisse o deslocamento rápido, fácil e eficiente das pessoas aos seus locais de trabalho.

O que se tem é o cenário prefeito para o surgimento e expansão descontrolada das favelas.

Alguns autores dizem que a favela só começou a chamar a atenção a partir dos anos 1940. Como vimos aqui, guiados pelo texto e pela pesquisa primorosa de Maurício de Abreu, a favela se tornou visível e passou a incomodar o poder público muito antes disso. Mas era tratada como problema temporário, e só a partir de 1940 o governo se deu conta que a favela era uma realidade que tinha se instalado de fato, passando a incluí-la nos mapas e nos planos oficiais.

Um outro processo também se inicia aí, ligando “o poder de barganha dos moradores da favela ao grau de liberdade política existente no país”. Segundo o autor, isto quer dizer basicamente que, em períodos de restrição das liberdades, o combate às favelas é mais truculento, e na vigência de regimes democráticos, de modo geral, há maior aceitação e reconhecimento da realidade da favela, ensejando as lutas pela melhoria das condições de vida de seus moradores e seus espaços urbanos. Faço um parêntese aqui para declarar que não é bem o que temos visto em nossas grandes cidades brasileiras nos últimos anos. Há lutas e mobilização, sim, mas há uma imensa pressão pela expulsão desses cidadãos de seus espaços de moradia, para que estes espaços possam ser incorporados pelo mercado imobiliário, na crescente valorização da terra urbana como mercadoria ao alcance de poucos. Basta ver os exemplos recentes de Pinheirinho, em São Paulo e das áreas objeto de projetos para as olimpíadas, no Rio de Janeiro (cito aqui expressamente o Morro da Providência e a Vila Autódromo).

Em períodos mais recentes (pós 1960), fora do intervalo de tempo que este artigo se propôs analisar, agregou-se a este cenário o fenômeno da violência crescente imposta pelo crime organizado, especialmente o tráfico de drogas, que estabelece uma relação territorial perversa com a favela e seus moradores. Este é tema para muitas outras conversas, e só acrescenta complexidade e controvérsia à realidade.

ABREU, Maurício. Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro. In: Espaço & Debates. São Paulo: Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos, ano XIV, 1994, no. 37. pp 34-46

As novas faces da favela

Estamos quase terminando nossa série sobre a origem das favelas na paisagem urbana do Rio de Janeiro. No ultimo post, fiz algumas digressões sobre habitação, movimentos migratórios e política urbana, em nível nacional. Agora, voltamos a falar do Rio de Janeiro do início do século XX, abordando o imaginário que se criou sobre estes assentamentos a partir, por exemplo, da música popular.

Com a multiplicação e adensamento das favelas na paisagem carioca, ficou cada vez mais difícil executar a solução da erradicação, especialmente a partir da década de 1920. As mudanças culturais desta década também contribuíram para isso, e neste cenário consideramos especialmente a Semana de Arte Moderna, manifestação artística, política e cultural do nascente Movimento Modernista (nascente no Brasil, é bom frisar), que:

– promovia a experimentação artística;

– pregava a busca de novas possibilidades culturais, afrontando os padrões vigentes;

– defendia a adoção de uma estética nova;

– enfatizava a necessidade de libertação da dominação cultural estrangeira.

Como resultado, passamos a valorizar as “estéticas brasileiras”, na literatura, pintura, música e – também – na arquitetura, o que levou a um processo de transformação na imagem da favela. Antes, era um lugar feio e pobre, onde moravam marginais e proletários. Agora, havia ali beleza e lirismo, poetas e musas. E mais, como uma das capacidades da modernidade é a de integrar o seu contrário, essas categorias não eram mutuamente excludentes!

 

 

Fonte: http://aperoladanet.blogspot.com.br/2011/06/malandro-que-e-malandro.html

Os personagens e tipos que habitavam os morros eram descritos na imprensa de forma que hoje nos soa caricatural e até romântica. Eram os bambas (misto de valentão e malandro, corajoso e destemido, trapaceiro e ladrão) e as cabrochas. No Correio da Manhã de 22 de julho de 1923, as cabrochas eram descritos como “salomés crioulas, com seu encanto perfumado e sua graça inebriante e sedutora. (…) Seus olhos são quebrados, seu colo é morno, sua boca é lasciva. Ela simboliza a perdição daquele mundo infecto, onde os homens se esfaqueiam com a calma e a simplicidade com que nós, do lado de cá, nos abraçamos”.

Li isso e fiquei pensando nos sambas, cujas letras enfatizam tantas vezes esses aspectos esquemáticos e de vez em quando idealizados desses personagens. A “Homenagem ao Malandro”, do Chico Buarque, é um desses. Evoca esse personagem que existiu nas décadas de 20 e 30 (como Madame Satã e outros do gênero) e não existe mais, substituído por outros “malandros” muito mais nocivos:

 

Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem não existe mais

Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da Central.

Olha essa da Ângela Maria, “Salve a cabrocha”:

Fonte: http://www.poesias.omelhordaweb.com.br/index.php?cdPoesia=67900

Eu nasci no morro, sim
Não desprezo o tamborim
E no morro eu vivo bem
Sou feliz como ninguém,
Gosto mais da batucada
Numa noite enluarada
É tão bom sambar
Como o samba no morro não há, não há
Não há, não há, nem pode haver
A gente samba sem querer.

Ganha-se pouco mas é divertido
Lá tudo é belo, tudo é florido
As cabrochas têm no corpo um feitiço
Não há quem não goste do seu reboliço
Carregam água o dia inteiro
A noite estão lá no terreiro
Sambando, gingando, mexendo com as cadeiras
Salve a cabrocha brasileira…

Subitamente, a favela deixa de ser apenas o lugar do crime e da desordem e passa a criar sonhos. O cotidiano é retratado de forma idílica, como na música “Chão de Estrelas”, de Orestes Barbosa, imortalizada na voz de Nelson Gonçalves:

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de ‘doirado’
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Nosso barracão no morro do salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a alegria desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.

De que outros vocês lembram, deste momento (décadas de 20 a 50, aproximadamente), que descrevam a favela e seus moradores dessa maneira idealizada?

No ultimo post, vamos fechar com o levantamentos de algumas contradições nestas visões sobre a favela, a relação com a polícia e o fascínio que as comunidades exercem (não é de hoje) sobre visitantes estrangeiros. Na conclusão, o autor do texto original que estamos comentando aponta para outras questões, que se somaram, em anos mais recentes, à enorme complexidade do fenômeno favela.

O texto original é:

ABREU, Maurício. Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro. In: Espaço & Debates. São Paulo: Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos, ano XIV, 1994, no.37. pp 34-46

PS: O post tá pronto há tanto tempo (faltava só colocar as imagens) que eu já quase tinha esquecido dele. Nesse ínterim, entrou no ar novela nova que fala justamente desse período, e do surgimento das primeiras favelas no Rio. Coincidência? Ou é o assunto que está mesmo na moda?

Digressões sobre planejamento urbano, habitação e movimentos migratórios

Estávamos falando de como a dispersão da favela pelo território carioca se tornou um fenômeno incontrolável. Aí lembrei que sempre tem gente disposto a dizer que “a culpa das mazelas das grandes cidades é esse bando de migrantes pobres que vem entupir as favelas e que se os governos mandassem todo mundo de volta o problema acabava”.

Meu argumento sobre o assunto começa considerando a falta que faz um planejamento urbano e econômico articulado, em nível nacional. O problema da migração maciça de trabalhadores, que nesse momento faziam majoritariamente o percurso norte/nordeste – centro/sul é fruto de uma política desequilibrada, que investe quase exclusivamente nos estados mais ricos (São Paulo e Rio de Janeiro, nesse momento), dotando-os de infraestrutura e promovendo sua rápida urbanização, enquanto deixa à míngua outros estados.

Vejamos: uma cidade como o Rio tem, naquele momento, uma rede de transporte mais ou menos desenvolvida, e um porto, essencial para fazer chegar a matéria-prima e escoar os produtos; está próxima das instituições políticas e bancos (o que agiliza a parte burocrática e o financiamento), tem oferta abundante de mão de obra. Isso possibilita, para o governo, instalar empreendimentos de grande porte ou facilitar (através de crédito e políticas tarifárias, por exemplo)  sua instalação por parte da iniciativa privada. Essas indústrias e negócios de todo tipo atraem mais gente, num ciclo contínuo. Onde tem gente, cresce a demanda por produtos e serviços, estimulando o desenvolvimento do comércio, aumentando a demanda por equipamentos públicos como escolas e hospitais, calçamento de ruas, instalação de redes de água, esgoto e luz. A cidade fica mais urbanizada, mais infraestruturada, a oferta de mão de obra cresce, e isso atrai mais gente (não só atrás de emprego, mas de melhores condições de vida, acesso a educação, saúde, bens de consumo) mais indústrias, e assim por diante.

Superfácil de entender e atire a primeiro pedra quem nunca imaginou mudar de cidade ou mesmo de país atrás de condições melhores, seja porque vai atrás de um curso bacana, seja porque a empresa em que você trabalha vai abrir uma filial nova em outro lugar, e isso abre a chance de uma promoção, seja porque no seu campo de trabalho as melhores ofertas estão em outro lugar e não onde você mora, seja porque sua área está num momento de estagnação e você cogita mudar de ramo. Quem nunca? Então não ache ruim com o agricultor que resolve tentar a vida como peão de obra, que vê seus filhos morrerem de fome no campo, sem comida, sem estudo, e sonha em poder botar os meninos na escola pra terem um futuro melhor. É tudo filho de deus, querendo o mesmo que você.

A grande questão é que cabe ao governo distribuir de maneira mais igualitária as benesses públicas, de forma a atrair investimentos de forma mais bem distribuída pelo território nacional. É o governo quem determina as prioridades em termos de obras de infraestrutura, por exemplo, que são fundamentais para todo o resto, e ajudariam (entre outras medidas, não é só isso) a fixar as pessoas na terra, a dar condições de prosperidade e desenvolvimento a todos.

Outro aspecto do mesmo problema, e que é o foco deste texto aqui, é a questão da habitação. Sem uma política habitacional decente, robusta, o que vai se ver sempre é exatamente isso que está descrito no texto e flagrante em todas as nossas grandes cidades. Porque, caso você ainda não tenha pensado nisso, TODO MUNDO MORA EM ALGUM LUGAR. Se você vive, você mora. Ninguém passa o dia andando e de noite é dobrado e guardado na gaveta. Se a pessoa não tem casa, ela se vira. Se tem condições, compra uma casa, aluga, constrói. Se não tem outra opção, mora na casa de parente, constrói barraco em morro, em beira de rio, em qualquer lugar onde haja terra disponível (desocupada) e ninguém impeça. Se tiver menos ainda ou for expulso de onde estava, vai procurar abrigo debaixo de uma marquise, num banco de praça, vai juntar folhas de papelão, de lata, de madeira, vai fazer uma fogueirinha pra se aquecer. A gente faz isso desde o tempo das cavernas. Procurar abrigo é natural. O que não é natural é que hoje, milhares de anos depois da primeira casinha ter sido construída por alguém com barro e folhas, com todos os recursos que nós geramos, toda a tecnologia que desenvolvemos, toda a riqueza que produzimos coletivamente, tanta gente ainda não tenha onde viver. Isso sim, não é natural – no sentido de que isso é produzido, é fruto de decisões, escolhas coletivas, sistemas culturais, econômicos, políticos, que fazem a gente naturalizar o fato de que poucos tenham muito e tantos não tenham quase nada, sem a gente se questionar por quê.

Escolher onde morar depende de uma série de fatores, e dinheiro é apenas um deles. A gente vê os mais pobres em áreas de risco e tende a achar fácil colocar a culpa neles: “eles sabem que aquilo vai cair na primeiro chuva, por que não se mudam?”. Mudam pra onde, meu amigo? Vão morar na sua casa? Não, nem na minha. Vão construir nos fundos daquele terreno que o seu avô tem não-sei-onde? Também não. Se eles construírem em qualquer terreno que tenha dono conhecido, o dono vai lá e tira, está no direito dele. Quais são os pedaços de terra que sobram, que ninguém reclama, ou reclama no vazio, vê e não faz nada? As terras que não têm valor para o mercado imobiliário, porque justamente estão em áreas onde não é possível ou adequado construir.

E não basta morar, você sabe. É preciso trabalhar, comer, se vestir, se deslocar. Moradia é algo que vai MUITO além da casa onde se vive, simplesmente. O valor da moradia tem a ver, sobretudo, com a localização da terra e a existência de serviços próximos, desde o mínimo de infraestrutura urbana (abastecimento de água e luz, coleta de esgoto, recolhimento de lixo, rede de telefonia, pavimentação) até facilidades de transporte, acesso fácil a hospitais, escolas, comércio, lazer; passando por aspectos como:

- vizinhança – ter vista pro mar / pra uma área arborizada ou vista para a favela / chaminé de fábrica, por exemplo, fazem diferença; ter como vizinho um estádio de futebol, um baile funk, uma boca de fumo ou uma igreja qualquer que faça barulho domingo 6 hs da manhã, tudo isso influi no valor da moradia;

- estar perto da família pode ser fundamental pra quem tem filho pequeno e trabalha;

- segurança;

- beleza – quem não gostaria de morar num lugar bonito, com praças arborizadas, mobiliário urbano bem cuidado (bancos, luminárias, sinalização, lixeiras, quiosques), calçada sem buraco?

Cada um sabe o que prefere, e tem todo o direito de fazer suas escolhas, conforme suas preferências, necessidades, condições. Mesmo que a gente considere a situação hipotética de famílias com a mesma condição financeira e, portanto, mesma possibilidade material de escolha, vai haver quem prefira morar numa casa maior, com quintal, mesmo que seja longe das áreas mais centrais, e que não tenha cinema nem teatro perto. Vai haver quem faça questão de estar perto do trabalho e do agito, mesmo que pra isso tenha que morar num apartamento pequeno. E assim por diante.

O que não pode é ter gente, morando na cidade, em condições de completa indignidade. Se o cara vai ter tv a cabo com 258 canais, ar condicionado em todos os quartos, 2 vagas na garagem, ou vai pagar aluguel num quitinete, ou num quartinho numa casa de vila, isso não é problema, não tem que morar todo mundo igual. Mas todo mundo deveria ter água tratada, luz, coleta e tratamento de esgoto e recolhimento de lixo, pra começar. É o mínimo do mínimo. E eu estou sendo conservadora aqui. Confesso que o meu mínimo inclui mais que isso.

Voltemos ao texto do Maurício de Abreu, onde é que a gente estava? Olha a perfeição de análise deste parágrafo, extraído da Revista da Semana de 15/08/1936, página 36:

O tempo e o intenso desenvolvimento da cidade demonstraram que mesmo os morros, depois de beneficiados, eram um excelente negócio para a venda de terrenos em lotes. E, tangidas pela intimação de mudança, centenas e centenas de criaturas, cujo único mal é serem pobres na cidade mais linda do mundo, vão sendo periodicamente privadas do teto misérrimo que a força do hábito já as levara a considerar como seu… Uns se dispersam; outros vão formar novos núcleos em terras de outros donos – casos futuros de ruído e de escândalo.

O autor lembra, portanto, que a permanência e disseminação da favela no Rio de Janeiro não atende apenas a interesses do Estado ou do capital, mas revela a luta – existente até hoje – dos mais pobres por moradia e pelo direito à cidade.

Com mais dois posts a gente encerra essa série sobre a origem das favelas e começa outras. No próximo, vamos olhar juntos a mudança que se opera na visão que a cidade contrói sobre a favela, e que fica patente nas letras de música e na literatura. Vai lembrando das que você conhece aí. E não esqueça, estamos fazendo uma leitura comentada do texto:

ABREU, Maurício. Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro. In: Espaço & Debates. São Paulo: Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos, ano XIV, 1994, no. 37. pp 34-46


Da Favela às favelas

Prossigamos. Já falamos sobre a crise habitacional do século XIX, agravada pelo combate aos cortiços das áreas centrais e pela reforma Passos. Já vimos que existem barracões nos morros do Rio desde meados do século XIX, mas até esse momento, eles não formavam aglomeração de vulto e eram exceção à regra das habitações em cortiço, por isso não mereceram atenção devida do poder público. Com relação às ocupações dos morros de Santo Antônio e Providência, na virada do século, o que talvez explique a ausência de condenação imediata foi a chancela da autorização militar e o caráter provisório atribuído aos assentamentos.

As poucas ações de remoção indicam a tentativa de retomada do controle do espaço urbano por parte do Estado. Não só foi uma tentativa frustrada nesse momento como não visou a todos os assentamentos. O Morro da Providência, por exemplo, mais afastado do centro da cidade, foi poupado, ficando como exemplo de desafio à ordem, e ocupando, aos poucos, papel de destaque na crônica policial carioca.

Os crimes que começam a acontecer no morro não diferem dos que ocorrem em outras áreas da cidade, mas chamam a atenção por alguns fatores:

  1. a localização “exótica” da aglomeração;
  2. a inexistência de aparato preventivo de repressão;
  3. o fato de que a ida da polícia ao morro tem caráter de operação militar, em função das dificuldades de acesso e dos riscos de emboscada (soa familiar?).

Até 1910, “Favela” era um termo sempre escrito com letra maiúscula, por ser nome próprio. Aos poucos, a imprensa começa a comparar as aglomerações nos morros, ainda não chamadas de favelas, com o “modelo original” (lembra? O morro da Favela, hoje, se chama morro da Providência). A fama de perigoso do morro da Favela se estende a outros morros, e a imprensa rapidamente associa o termo “favela” às imagens de perigo, crime e descontrole.

Também contribui para isso a Revolta da Vacina (1904). A manifestação popular contra a obrigatoriedade da vacina e contra as demolições foi manipulada por grupos políticos interessados na destituição do governo.

O período da Reforma Urbana (1903-1906) tira o morro da Favela do noticiário, preferindo dar destaque às obras e modificações na forma da cidade. Apesar disso, a imprensa continua denunciando o agravamento da crise habitacional e cobrando do governo a elaboração e execução de uma política de construção de casas operárias, o que não acontece. A partir da década de 20 o termo favela se generaliza, passando a designar “todas as aglomerações de habitações toscas que surgiam na cidade, geralmente nos morros, e que eram construídas em terrenos de terceiros e sem aprovação do poder público”.

As imagens da favela

Numa sociedade recém-saída da escravidão, não é de admirar que a maioria da população das favelas fosse negra. Os jornais identificavam esse fato como símbolo do atraso. As referências feitas à favela incluíam as expressões: “persistências da África no meio da civilização”, “ralé de cor preta”. Contraditoriamente, os mesmos jornais mostravam também aspectos positivos da favela. Um relatório de 1905, de autoria de Everardo Backheuser (guarde esse nome, que nós vamos falar dele de novo mais adiante), admitia que, na favela, não moravam apenas desordeiros e criminosos, mas também trabalhadores honestos, que foram morar ali por falta de alternativas.

Nas palavras de Maurício de Abreu: “lugar de criminosos, mas também lugar de trabalhadores; lugar onde se mora mal, mas onde se mora barato; lugar insalubre, mas que é mais saudável do que as opções que se oferecem aos pobres na cidade legal; a favela vai assumindo assim as suas imagens contraditórias, e vai permanecendo também na paisagem carioca”. (p. 40)

A dualidade de imagens segue, como segue também a dualidade de tratamentos que a favela e seus habitantes recebem por parte da imprensa. Em 1909, um mesmo artigo reconhecia que a Favela abrigava numerosas famílias, mas defendia seu arrasamento, em nome da “decência e higiene da Capital Federal”.

Nicolau Sevcenko explica a duplicidade de imagens, lembrando que a própria lei dificultava a definição do legal e do ilegal. Para a lei, o indivíduo sem domicílio certo era vagabundo. A mesma lei não considerava as habitações em favelas como permanentes, logo, os seus moradores seriam todos vagabundos, ou seja, mais sujeitos a serem importunados pela polícia.

Adançadas favelas

O relatório de 1905, já citado, afirma que governo deve adotar uma política habitacional popular com casas salubres, baratas e próximas aos locais de trabalho. Não fazer isso, diz o documento, seria arriscar-se a enfrentar revoluções sociais.

O governo ignora a recomendação, argumentando que elaborar uma política de construção de casas para os mais pobres seria “perigosa investida no socialismo”. A iniciativa privada também não se interessa por esta fatia do mercado, apesar de incentivos e subsídios do estado. Mesmo assim, e embora a população tenha crescido muito (De 811.443 habitantes em 1906 para 1.157.873 em 1920, crescimento de 43% em 15 anos), as previsões de revolução não se confirmaram.

Estudos apontam que uma das razões para isso foi justamente a permanência da favela, que funcionou como um fator de estabilidade. Tudo indica que a favela não só não contrariava os interesses do capital como favorecia sua reprodução, já que fornecia mão de obra conveniente (barata e próxima) para indústria, construção civil e serviços domésticos.

Isso não significa que a presença da favela fosse aceita com tranquilidade.Sua existência e afirmação foram marcadas por inúmeras tensões. Um exemplo importante é o do Morro de Santo Antônio:

Vista do morro de Santo Antônio, com o convento em primeiro plano. Quando o morro foi demolido, a parte do convento e igreja foi preservada, e ainda pode ser vista, do Largo da Carioca. O restante foi arrasado, e sobre a esplanada foram construídos os prédios da Petrobrás, BNDES, do então BNH (Banco Nacional da Habitação) e a nova catedral metropolitana da cidade. Fonte da imagem: http://www.rioquepassou.com.br/2004/03/09/1556/

- Existente desde meados do século XIX, a favela do morro de Santo Antônio foi removida em 1901 e voltou a existir em 1904/5, durante a reforma urbana (moradores vinham, durante a noite, buscar material de construção nos escombros das demolições feitas para a abertura da Av. Central);

- Em 1910, a favela foi novamente removida, mas o governo autorizou, em troca, que os moradores construíssem seus barracos no Morro do Telégrafo (Mangueira).

- Pouco tempo depois, os moradores voltaram ao Centro, para o mesmo morro, sendo novamente ameaçados de despejo em abril de 1916. Em maio, conseguiram o adiamento da execução da ordem judicial, mas em junho um grande incêndio (criminoso) destruiu os barracos mais uma vez. Os moradores foram novamente autorizados a construir no Morro do Telégrafo, o que faz da favela da Mangueira a única, talvez, a ter contado com aprovação (até incentivo, parece) do poder público.

- Em 1919, para horror da burguesia, a favela do Morro de Santo Antônio já estava de volta no mesmo lugar de sempre.

- Esta favela só desapareceu com o arrasamento do morro, na década de 50. A maioria de seus moradores permaneceu nas áreas centrais, passando a criar novas favelas ou aumentando as existentes, em outros morros próximos.

As remoções prosseguiram, ora alegando interesses de segurança militar, ora necessidades estéticas (como a erradicação da favela do Morro 
Dois Irmãos, no Leblon, por ocasião da visita dos reis da Bélgica, em 1920), ora atendendo a ordens judiciais de reintegração de posse. A cada 
remoção, surgia um novo assentamento em outro lugar, gerando uma verdadeiradança das favelas, que chegou a merecer artigos nos jornais
da época e campanhas (por exemplo, do Rotary Club), alertando o governo de que a estratégia de demolir barracos não era eficiente, sendo 
necessário construir casas para a população.

Neste ponto, Maurício de Abreu põe uma nota de pé de página para destacar que tudo indica que essa campanha não se fazia por desejos 
puramente humanitários ou estéticos. Segundo a revista Rio Ilustrado, de setembro de 1940, página 151, Mattos Pimenta (um dos idealizadores 
da campanha e autor de vários textos na imprensa) se tornoupresidente da Bolsa de Imóveis do Rio de Janeiro. No tabuleiro da terra urbana, os 
empreendedores imobiliários são sempre jogadores poderosos.

A situação se tornou incontrolável, e na década de 20 mais de 100 mil pessoas habitavam as favelas do Rio. Esse número só tendia a aumentar, 
já que o crescimento econômico atraía cada vez mais gente dos estados mais pobres do Brasil. A seguir, farei uma pausa para algumas digressões 
pessoais sobre o assunto, porque sempre tem gente disposto a dizer que a culpa das mazelas das grandes cidades é esse bando de migrantes pobres
que vem entupir as favelas e que se os governos mandassem todo mundo de volta o problema acabava. Será?

Você está acompanhando uma série baseada no texto:
ABREU, Maurício. Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro. In: Espaço & Debates. 
São Paulo: Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos, ano XIV, 1994, no. 37. pp 34-46
Para saber mais sobre o autor e sua obra, visite o site Maurício de Abreu.
As partes iniciais desta série estão aqui, aqui e aqui.

Favela: a rápida expansão de uma “forma urbana inusitada”

Eu estou gostando tanto de estar de volta e de escrever sobre esse tema!

Nós estamos vivendo um momento que se assemelha de alguma forma ao início do século passado. Também hoje temos o alinhamento de decisões políticas das esferas federal e municipal, que usam a realização de grandes eventos, como a Copa e as Olimpíadas, como pretexto e justificativa para diversas obras de grande porte na cidade. Mais uma vez, as áreas centrais e a região do Porto estão no foco de várias dessas intervenções. E mais uma vez, a população que reside nesta área é a que menos se beneficia das obras. Pelo contrário, uma parcela desta população está sendo removida, por métodos altamente questionáveis, ecaso o cenário de renovação econômica previsto pela prefeitura se realizemesmo a parcela que permanecer verá aos poucos os imóveis sendo valorizados, o pequeno comércio desaparecer e o custo de vida aumentar, numa escalada que frequentemente leva à expulsão dos moradores mais pobres. É um fenômeno comum, infelizmente, e largamente estudado.

No texto que estamos acompanhando, falamos sobre a crise habitacional na cidade e sobre a reforma urbana do período Pereira Passos. Porém, a favela é anterior à reforma. Maurício de Abreu defende que a origem da favela remonta a dois focos de tensão: acitada crise habitacional e as crises políticas do final do século XIX, nomeadamente os desdobramentos da Revolta da Armada (1893-1894) e da campanha militar de Canudos (1896-1897). Vejamos:

Revolta da Armada (movimento de rebelião promovido por unidades da Marinha do Brasil contra o governo do marechal Floriano Peixoto, supostamente apoiada pela oposição monarquista à recente instalação da República): o governo precisa resolver a situação de alojamento dos soldados, e autoriza a ocupação temporária do convento de Santo Antônio. Como as acomodações não são suficientes, autoriza a construção de barracos na encosta. Em 1901, o comissário de higiene alerta para o crescimento deste assentamento, sem reação por parte da prefeitura. A imprensa começa então a noticiar e denunciar a existência dos casebres, e o impacto é imediato. A esta altura, o governo verifica inclusive que os militares passaram a ser minoria da população residente, tendo vendido suas casas para civis. São 400 casebres, cuja destruição é ordenada pelo prefeito.

Canudos (confronto entre o Exército Brasileiro e os integrantes de um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior da Bahia, terminando com o massacre de centenas de civis): indícios de que os barracões no morro da Providência começaram a ser construídos em 1893/94,após a demolição do cortiço Cabeça de Porco eantes do fim da campanha de Canudos. Não prova de que o governo tenha autorizado soldados retornados de Canudos a se instalarem e certamente não foram esses soldados que deram origem à favela na cidade. Entretanto, o termofavelarealmente procede do Morro da Providência, em alusão ao arbustofavelaexistente na caatinga. O nome do morro foi, inclusive, e durante muito tempo, Morro da Favela.

Morro da Providência, ontem e hoje. Na imagem da esquerda, foto de 1958, do Arquivo Geral da cidade. Encontrada em http://guiajosecarlosmelo.blogspot.com.br/2008/09/em-projeto_7947.html. Na direita, um panorama atual, em http://ensaiosdanega.blogspot.com.br/

A era das demolições

A reforma urbana aumenta o déficit habitacional. Em curto espaço de tempo, grande parte do parque construído é demolido. Um relatório de 1906 conta mais de 600 habitações coletivas demolidas, que abrigavam mais de 13.000 pessoas.

O quadro é agravado com o aumento das migrações campo-cidade. Não esqueçam que o Rio de Janeiro era um canteiro de obras muito atrativo. Em determinado momento do artigo, Maurício de Abreu diz o seguinte:

“A imprensa diária também fornece um quadro dramático da situação. As ordens de despejo eram geralmente afixadas nos portões dos prédios a serem demolidos e definiam prazos extremamente curtos para a sua total evacuação. Expulsa de suas residências, a população tinha que resolver rapidamente o problema da moradia. Para alguns, mais abonados, a saída para os subúrbios foi a solução. Para muitos outros, entretanto, que não podiam arcar com os gastos de transporte, a permanência no centro, ou em suas proximidades, tornou-se ainda mais fundamental. Por essa razão, passaram a se apinhar nas habitações coletivas restantes, pagando altos aluguéis”. (p. 37)

É surpreendente que os documentos da época não estabeleçam relação entre o agravamento do problema habitacional e o crescimento das favelas. Isso se deve, provavelmente, ao fato de que essa forma de habitação ainda era inexpressiva diante do fenômeno das aglomerações em cortiços.

A “caridade da Terra”: a expansão inicial das favelas

Se a favela não começa por causa da reforma Passos (1903-1906), é durante esse período, entretanto, que ela se expande. Os jornais diários não se deram conta disso durante o processo, apenas ao final da Reforma, quando a fisionomia da cidade tinha mudado, colocando as amplas avenidas e edifícios ecléticos de um lado e a grande quantidade de barracos nos morros, de outro.

A expansão rápida daforma urbana inusitada”, representava a negação da modernização urbana que a reforma de poucos anos antes tinha se proposto trazer. No início, o jornal se referia ao fenômeno de forma condescendente, afirmando que restavamas montanhas agasalhadoraspara aqueles que haviam sido expulsos do centro pelas obras da reforma ou pelo aumento subsequente do custo de vida. Olha só:

 ”O êxodo não cessa. Diariamente passam carrocinhas carregando trastes desconjuntados, latas, vasilhas de barro, gaiolas, baús arcaicos, e vão pelas estradas dos subúrbios, param nas fraldas das montanhas. Os bosques alpestres e os das planícies abrem-se acolhedores e entre as árvores aboletam-se os expulsos, sentam-se nas pedras, nas grossas raízes, penduram os fardos aos ramos e, enquanto os homens, à pressa, vão levantando os ranchos, as mulheres instalam a cozinha ao tempo… A montanha povoa-se. É a caridade da Terra… assim vai a pobreza recuando para as eminências, abrigando-se nos cerros, repelida pela Grandeza, pelo fausto arrasador das casas humildes, pelo Progresso que não consente na permanência de um pardieiro no coração da cidade. A montanha abre o seu manto verde e acolhe os pobrezinhos como os santos no tempo suave dos eremitas”. (Correio da Manhã, 02/02/1907, tirado do texto do Maurício de Abreu, p.38)

Não há datas exatas em que os morros começaram a se favelizar, mas algumas notícias, muitas vezes vindas da crônica policial, permitem mapear o processo.

1907: surgem barracões no Morro da Babilônia (entre o Leme e a Urca)

1909: começa a tomar corpo a favela do Salgueiro (Tijuca)

1910: surge a favela da Mangueira. Processo de favelização ganha ímpeto.

1912: a encosta do morro do Andaraí está toda edificada;uma população numerosa em casebres deploráveis na Vila Rica (Copacabanarecém-aberta); mais barracões no morro do Leme; a favela no morro de São Carlos aparece no fim do mesmo ano.

1913: segundo a Saúde Pública, o Morro da Favela (Providência) tem 219 casebres e o Morro de Santo Antônio tem 450, totalizando 5.000 habitantes.

1915: surgem indícios de favela no Morro dos Cabritos (nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas), e se confirma a existência de outra no Morro do Pasmado, em Botafogo.

1916: novas favelas no Catumbi, Ipanema, Lagoa e Leblon. Além disso, as favelas começam a se espalhar pelos bairros proletários do subúrbio.

Morro do Pasmado (das três favelas mostradas nesta imagem, é a única que não existe mais), Cabritos e Mangueira.

Em 10 anos, são inúmeras favelas, com localização nas encostas dos morros, sobretudo na proximidade dos locais com oferta de emprego, tanto no centro comercial e de negócios quanto nos bairros residenciais. A grande demanda de mão de obra doméstica e da construção civil, aliada àfalta de políticas de habitação, consolida o espraiamento desta forma de moradia por toda a cidade.

No próximo “capítulo”, o governo esboça algumas ações de remoção das favelas, numa tentativa de retomada do controle do espaço urbano. Enquanto isso, o imaginário urbano em torno da favela e de seus habitantes é construído na oscilação entre dois polos. A favela é o lugar do crime ou dos trabalhadores pobres porém honestos?

Não custa lembrar que este texto e os próximos são um resumo, com comentários, do artigo: ABREU, Maurício. Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro. In: Espaço & Debates. São Paulo: Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos, ano XIV, 1994, no. 37, pp 34-46.

 

Onde esse povo todo vai morar?

Alguns dias atrás falamos sobre o início da favela no Rio de Janeiro, a partir de um texto cujo resumo me propus a partilhar aqui com vocês, acrescido de alguns comentários.

Seguimos hoje com mais um trecho, que faz um brevíssimo apanhado do panorama da cidade no final do século XIX, do ponto de vista da crise habitacional e das demandas por reformas nesta que era a capital do Brasil no início da República. Maurício de Abreu trata esse período com muito detalhe e de maneira brilhante no livro A Evolução Urbana do Rio de Janeiro, amplamente adotado como referência bibliográfica nas principais faculdades de arquitetura do Rio.

No artigo que estamos acompanhando, o autor faz uma abordagem mais sintética, destacando como a última década do século XIX é um período de transição importante na história do Brasil.uma série de transformações em todos os campos, que inserem o país na nova ordem mundial surgida com a segunda revolução industrial. Neste cenário, o Rio de Janeiro é palco privilegiado para tais transformações.

Muitas contradições se acumulam tempos na cidade, entre elas a ausência de um porto moderno e a permanência de uma trama urbana colonial, com problemas de circulação. Além disso, havia problemas de insalubridade, com a ocorrência repetida de epidemias de febre amarela, que incidiam mais violentamente sobre as habitações coletivas e cortiços, dizimando parcela da força de trabalho.

As propostas de solução para estes problemas são várias e coincidem na necessidade de intervenção sobre o meio ambiente, natural e construído, mas não vão adiante por falta de capital ou de determinação política. Entre as medidas propostas em diversos estudos e relatórios na segunda metade do século XIX estão:

  • A drenagem dos pântanos
  • O arrasamento de morros
  • A elevação do solo em alguns pontos
  • A construção de um porto moderno
  • O alargamento de ruas
  • A construção de casas higiênicas (nos moldes do que vinha sendo feito na Europa)

Prioritariamente, foi atacada a questão sanitária, que este problema em especial prejudicava a política imigratória e reduzia o fluxo de capitais.

O combate às habitações coletivas

Como principal exemplo da atuação higienista do governo, estava o combate às habitações coletivas (cortiços e estalagens), desde o Império, através da Inspetoria de Higiene Pública e da Academia de Medicina. Segundo o argumento científico oficial da época, os responsáveis pela insalubridade eram osmiasmas(vapores ou emanações mal cheirosas), provocados pela alta densidade das habitações. A erradicação das casas também atendia a exigências de ordem policial, que os aglomerados de população pobre eram identificados como focos de distúrbios e desordem de todo tipo.

Por outro lado, a lógica rentista prevalecia. Os cortiços eram fonte de renda também, e muitoempresárioganhava seu sustento alugando quartos em casarões abandonados ou construindo estalagens com condições precáriasporém preços baixospara aluguel. A Câmara Municipal atua, então, em duas frentes: promulga posturas severas de combate às habitações coletivas, mas faz vistas grossas quanto ao cumprimento.

 

Charge publicada na Revista Ilustrada, em fevereiro de 1893, mostrando a destruição do cortiço Cabeça de Porco pelo prefeito Barata Ribeiro. A imagem foi tirada do livro de Maurício de Abreu, A Evolução Urbana do Rio de Janeiro

A abolição da escravatura leva ao aumento da população urbana e coincide com o recrudescimento da febre amarela, levando à intensificação da campanha contra os cortiços. Vários são demolidos a partir de 1890, o mais famoso deles, o Cabeça de Porco, em 1893, por ordem do prefeito Barata Ribeiro, agravando a situação habitacional.

Traduzindo, um monte de pobres morava no centro da Cidade e arredores imediatos, nas piores condições de salubridade, amontoados em casarões ouvilasem que cada família ocupava um domicílio de um único cômodo e todas partilhavam uma única cozinha e latrinas comuns. As classes médias e dirigentes ficamou se colocamna seguinte sinuca de bico: por um lado, esses pobres estorvam a circulação, enfeiam a cidade, causam problemas e doenças. Por outro lado, são mão de obra necessária e indispensável para as atividades portuárias, domésticas, de comércio e serviço, portanto os empregadores precisam deles mão, nada de empregado que mora nos cafundós e chega atrasado no serviço), e eles precisam dos empregos.

Você pode construir casas decentes para esta população, e se o local dessas casas for distante, pode prover infraestrutura adequada e transporte de massa. Esta solução foi adotada em alguma medida na Inglaterra, na França, na Alemanha e outros países europeus. Tanto como iniciativa governamental quanto como empreendimento privado regulado por legislação específica, algumas vezes com incentivo fiscal ou facilidades de crédito.

Para que uma medida destas funcione, é necessário também oferecer condições salariais melhores, porque o custo da moradia aumenta (além do transporte, morar em condições legais significa incorporar ao seu orçamento alguns impostos e tarifas que frequentemente não são pagos quando a moradia é ilegal). É que a porca torce o rabo. O empreendedor argumenta que não pode oferecer salárioos melhores, que permitam aos trabalhadores arcar com custos maiores de moradia e transporte, porque seus próprios custos de produção são muito altos, e isso iria provocar aumento de preços das mercadorias; o governo não pode abrir mão de seus impostos e o trabalhadorbem, o trabalhador é o elo mais fraco da corrente.

Resultado:removem-se as casas insalubres e cortiços; não se constrói nada no lugar nem se oferecem condições para que essas pessoas possam morar com dignidade em nenhum outro local; as condições e locais de trabalho permanecem os mesmos, com indústria, comércio e serviços oferecendo e demandando os mesmos postos de trabalho (na verdade, oferecendo cada vez mais trabalho, que a economia está em expansão); a população urbana cresce, que mais trabalho atrai mais gente e a abolição da escravidão despeja centenas de pessoas na cidade, sem qualificação profissional, sem emprego e sem casa, (e sem nenhum tipo de política que permita ou facilite sua absorção pela cidade); a estas pessoas somam-se as que tiveram suas moradias demolidas, mas precisam continuar trabalhando e não podem pagar aluguel em lugares melhores nem arcar com o custo do transporte pra morar mais longe. Pra onde vocês acham que vai esse povo todo?

Em consequência, muito se fala, muito se propõe, mas a forma urbana permanece inalterada. Junta-se a isso a instabilidade política da transição do império para a república, que afugenta o capital estrangeiro. Com a retomada do poder pela oligarquia cafeeira na virada do século, recupera-se a credibilidade e a tão sonhada reforma urbana pode finalmente ter lugar. Estamos falando da Reforma do prefeito Pereira Passos, conjunto de obras realizadas entre 1903 e 1906, com aporte maciço de recursos do governo federal.

Da próxima vez, veremos que a favela, de todo jeito, é anterior à reforma Passos, queagravou o problema, através do que chamamosa era das demolições.

Sempre lembrando que este texto e os próximos são um resumo, com comentários, do artigo:

ABREU, Maurício. Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro. In: Espaço & Debates. São Paulo: Núcleo d eEstudos Regionais e Urbanos, ano XIV, 1994, no.37. pp 34-46

Origem e imagem das favelas no Rio de Janeiro

Depois de longo e tenebroso inverno, eis-nos de volta.

Muita coisa, nem sei se é o caso de ficar explicando. Basicamente trabalho. E o doutorado. E tem algo que andou me incomodando, mas que é invencionice da minha cabeça. Tem tanta coisa acontecendo o tempo todo, e eu andei me cobrando escrever sobre todos os assuntos, cobrir todos os temas que pipocavam. Como se eu tivesse obrigação de me posicionar sobre tudo, ter opinião sobre tudo. Não dá, simplesmente não dá. Eu tenho medo de quem tem opinião sobre tudo. Acabei me recolhendo.

Em dezembro, acabou meu contrato como professora na UFRJ, eu confesso que sinto muita falta de dar aula. O ambiente da escola permite e até enseja uma liberdade de pensamento e reflexão que o dia a dia pragmático de projeto não facilita muito.

Eu receio ser repetitiva com essa história, mas não sei se cheguei a comentar aqui, neste espaço, sobre minhas novas atividades profissionais. No final de 2010 eu fiz concurso para a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), concorrendo à única vaga para o perfil de urbanismo, e fui aprovada. Só que no início de 2011, pouco depois que o concurso foi homologado em Diário Oficial, o governo federal suspendeu todas as nomeações e contratações, e meu concurso ficou congelado quase um ano. Há pouco mais de dois meses as coisas “desentupiram”, e eu fui chamada. Comecei a trabalhar mês passado, e estou gostando muito.

Enquanto isso, continuo fazendo o doutorado. Nesta fase de adaptação com o trabalho novo, confesso que os estudos e leituras estão meio parados (meio é eufemismo, tem dois meses que eu não mexo em nada disso). Preciso retomar, tem muita coisa que está por definir ainda. Muitos dados levantados, muita leitura realizada, e tudo ainda sem uma formatação mais clara e segura.

pensei em retomar o blog e aproveitá-lo como espaço para ir escrevendo algumas coisas. Vou publicar aqui um dia desses o meu projeto de tese, com uma linguagem mais simples (o formato acadêmico às vezes pode ser meio cansativo), a partir do texto que eu apresentei dois anos, para a seleção da universidade. Muita coisa ali se modificou, o foco e os termos são outros, mas pra ter uma ideia do que estou pretendendo estudar.

Hoje, porém, vou começar uma série (ela está toda pronta e escrita, portanto éir colocando no ar aos poucos) que é, na verdade, o fichamento comentado de um texto que eu li pouco tempo, sobre a origem das favelas no Rio de Janeiro e aimagem que fomos fazendo sobre elas. O texto foi escrito pelo professor Maurício de Abreu  (recentemente falecido, mais uma dessas perdas enormes) em1994 e publicado na Revista Espaço & Debates, com o título Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro.

O objetivo do trabalho foi estudar os primeiros anos da favela (final do século XIX até 1930 aproximadamente), com a intenção de resgatar do esquecimento toda uma história de luta pelo direito à cidade (…) que ainda permanece obscura. Para isso, o autor recorreu a uma intensa e interessantíssima análise da imprensa periódica, com atenção especial a edições do Correio da Manhã (de 1901,quando foi fundado, a 31/12/1930).

Maurício de Abreu destaca que, neste período, a imprensa foi basicamente a única fonte que acompanhou o processo de expansão da favela. É verdade que, de maneira geral, os jornais e revistas faziam isso exaltando a ordem burguesa, e apresentando uma visão tendenciosa da favela, identificada como a negação da ordem e do progresso. Entretanto, ao mesmo tempo, traçavam um panorama rico e pouco explorado dessa nova realidade que se impunha à cidade e sua paisagem. a imprensa operária era combativa, mas não dava atenção ao assunto.

O recorte de tempo destacado neste artigo não contempla algumas das questões mais prementes que temos hoje, envolvendo violência e tráfico de drogas, por exemplo. Entretanto, é extremamente interessante para percebermos que algumas das imagens e percepções que temos da favela são tão antigas quanto a própria história da favela. Algumas queixas feitas por determinados setores da sociedade continuam idênticas. E sobretudo o tratamento dado pelo poder público a estes assentamentos e seus moradores continua seguindo muitos dos mesmos princípios. O que será que a gente pode aprender com isso?

Vamos ao texto:

 

Introdução

 

Panorama da cidade do Rio de Janeiro em 1860, Emil Bauch. Litografia, 71,9 x 242 cm [O Brasil redescoberto. Rio de Janeiro, Paço Imperial, 1999] Fonte: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.096/143

O autor começa apresentando o Rio de Janeiro como terra de contrastes, comentada por viajantes dos séculos XVIII e XIX, que identificavam perplexos adiferença gritante que se verificava entre o magnífico quadro natural que envolvia a cidade e o acanhamento e feiúra de seu quadro construído.

Neste quadro, a favela pode não ser o elemento mais importante, mas é dos mais visíveis. Por outro lado, a favela também não é uniforme e exibe seus próprios contrastes e singularidades. Quando consideramos a favela, fazemos uso frequentemente de pares simbólicos e identititários de expressões como: abrigo da marginalidade x lugar do trabalhador honesto; chaga urbana x berço do samba; solução urbana desprezada x elogiada.

A verdade é que a favela é a forma de habitação popular mais difundida no país. Em1991, havia no Rio de Janeiro 545 favelas com 1.100.000 habitantes. Segundo o Censo de 2010, realizado pelo IBGE, são hoje 1.700.000 pessoas vivendo nestas condições. Entretanto, pouco conhecimento sobre a origem e expansão inicial das favelas. Segundo o autor, dois motivos contribuem para isso:

a dificuldade de obtenção de informações;

- a difusão de dois trabalhos da década de 1960 que indicam que as favelas teriam se tornado elemento importante na estrutura urbana carioca, chamando a atenção, a partir da década de 1940 (voltaremos a este tópico adiante).

Até 1930, a favela estava de fato presente no tecido urbano, mas não de direitoera ausente das estatísticas e mapas, por exemplo. Considerada solução habitacional provisória e ilegal, elas simplesmente não existiam para o poder público. A exceção é o Plano Agache (primeiro grande plano urbano feito, por encomenda, para a cidade, durante a década de 20), que recomendava, porém, a erradicação das favelas.

Com a mudança de regime em 1930, os moradores foram beneficiados pela legislação trabalhista e social de Getúlio Vargas, mas as favelas continuaram ausentes dos documentos oficiais, como se não existissem como realidade urbana.

A partir de 1940, de fato, o governo municipal começa a realizar levantamentos, com objetivos higienistas. O cadastramento dos habitantes visa à sua transferência para parques proletários a serem construídos pelo governo, liberando as áreas centrais e valorizadas até então ocupadas pelas favelas para as negociações imobiliárias. Em 1948, o primeiro rescensamento das favelas aponta a existência de quase 300 mil moradores nessas condições, que perfaziam 14% da população da cidade. O texto alerta, todavia, para o fato de que metodologias distintas de conceituação de favela levam a resultados diferentes obtidos em outras pesquisas.

No próximo post, um breve panorama do Rio de Janeiro no final do século XIX, no que diz respeito às condições de habitação, e o combate às habitações coletivas que abundavam no Centro da cidade.

 

Este texto e os próximos são um resumo, com comentários, do artigo: ABREU, Maurício. Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas no Rio de Janeiro. In: Espaço & Debates. SãoPaulo: Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos, ano XIV, 1994, no.37. pp 34-46

 

Férias (pfff) de inverno

Foram pouquinhos dias, mas descansei um bocadinho, passeei, dormi. Caxias do Sul é a cidade onde moram meus sogros. A gente vai lá com certa frequência. No verão é mais fresquinho que o calor escaldante do Rio, no inverno dá pra curtir o friozinho da Serra Gaúcha com muito vinho e lareira.

Desta vez, meados de julho, o frio nem estava tão intenso. Num passeio, descendo a serra em direção a Porto Alegre, passando por Nova Petrópolis, eu queria descrever a paisagem. Do banco de trás do carro, vendo as imagens pela janela, pensando sobre tanta coisa que aquilo me despertava, não deu pra fazer muita coisa, mas eu não queria perder a chance. Pensei em escrever algumas palavras-chave, que me ajudassem, depois, a compor um texto corrido melhor. No final, optei por deixar só as palavras mesmo. Elas abrem pistas, vocês preenchem como gostarem mais.

SERRA

Camélias, amores-perfeitos, cerejeiras em flor
Tangerineiras carregadas, frutos redondos cheirosos
Casas de madeira, antigos moinhos,
galpões industriais, metalúrgicas, motores, carrocerias

Parreirais retorcidos
muitas tangerinas colorindo o verde seco
Galhos nus se elevam decíduos

Serra, encostas, lenha, chaminés
Curvas, vertentes, fontes, pedras,
serpentes de prata nos vales,
rio, sol
vinho, risadas, raízes, família.

 

PS: Não vou prometer nada. Confio que vocês acreditem que não é falta de vontade de estar aqui. Pra contribuir com algumas reflexões, partilho textos que tenho deixado de rastro, lá no facebook, sobre os distúrbios em Londres: Harvey (esse tá em inglês), Bauman, Esquerdopata.

Até o mais breve possível.

Obeliscos

O obelisco da 9 de Julio, em Buenos Aires

Enquanto eu não volto com mais Mestre Valentim, partilho com vocês este texto, fruto de dois e-mails que escrevi, em épocas diferentes, para pessoas diferentes, por acaso em torno do mesmo tema: a função dos obeliscos nas cidades. Em 2007, uma amiga foi a Buenos Aires, adorou, mas na volta falou o seguinte:  “Agora, uma coisa que eu não consigo achar graça é o tal do Obelisco da Avenida 9 de Julio. E daí? Uma avenidona enorme, muito larga, tá bom. Cadê a beleza disso?”

Depois, em 2009, outras amigas foram a Paris e eu não lembro se elas me pediram para falar a respeito ou se eu, enxerida, meti o bedelho por conta própria, morrendo de inveja por não poder ir junto. Começando por Buenos Aires, eu propus contextualizar a criação da própria avenida, antes de falar sobre o monumento.

A Av. 9 de Julio, cujo traçado já era estudado, como eixo Norte-Sul para a cidade, desde o final do século XIX, começou a ser aberta em 1937, e levou cerca de 40 anos até se completar toda a sua extensão, que eu procurei na internet, mas não descobri de quantos quilômetros é. Tive preguiça de pegar um mapa em escala e medir. Se alguém tiver essa informação, com a fonte, eu agradeço.

À esquerda e no meio, a localização da 9 de Julio em Buenos Aires. À direita, a Av. Presidente Vargas, no Rio.

É uma época de abertura de grandes avenidas, no mundo todo, pelo menos no mundo que ainda não tinha feito isso no século XIX, tipo Paris. A nossa Av. Presidente Vargas (aqui no centro do Rio de Janeiro) é de 1945, por exemplo, e tem os mesmos propósitos funcionais/simbólicos. Grandes avenidas se prestam a exibir poder, ordem, glória; abrem canais de ventilação e iluminação em cidades excessivamente adensadas, disciplinam e otimizam fluxos, além de escoar o tráfego. E neste momento (décadas de 30 e 40), o urbanismo Modernista ainda dá as cartas, com sua aposta na primazia do automóvel (crise do petróleo? Naquela época isso merecia risadas incrédulas), baseada na crença de que a indústria e sua fabricação em massa barateariam os custos e tornariam o automóvel acessível e necessário a todos. Bom, junta tudo isso, e abriu-se a 9 de Julio. São 130 metros de largura. Pra vocês terem uma medida de comparação, de novo, a Av. Presidente Vargas tem 80 metros, chegando a 90 em alguns poucos trechos, no finalzinho. Em São Paulo eu não saberia mencionar uma comparação adequada. Mas sei que a 9 de Julio é considerada, segundo diversas fontes, a mais larga do mundo, deixando seguramente a Champs Elysées parisiense no chinelo. E está sempre lotada de carros e engarrafada, que coisa!

Fonte: livro "Imágenes de Buenos Aires 1915-1940". Ediciones de la Antorcha, 2006.

Eu vi um site que eu queria deixar como sugestão, mas depois que fechei, não consigo mais lembrar como cheguei ali, e perdi a referência. Mas aqui tem umas informações interessantes sobre esta avenida. Quanto ao obelisco, oras, tem também suas explicações. Um obelisco é um monumento, normalmente em pedra (os mais moderninhos já o fazem de concreto, e já vi até obeliscos estilosos em aço, mas vamos nos ater aos clássicos), esguio e alto, erguido por (ou em homenagem a) grandes reis ou líderes militares, servindo tradicionalmente para celebrar uma vitória em batalha, uma conquista importante, ou a glória do soberano. Os homens (sim, é evidentemente um monumento bem carregado de simbologia masculina, bem fálico mesmo) erguem elementos marcantes para comemorar suas vitórias ou realizar rituais místicos desde tempos imemoriais, pré-históricos.

Menir em Portugal

Muito antes dos obeliscos, já havia os menires de pedra, menos sofisticados e de razões supostamente mais esotéricas que militares, mas ainda assim impressionantes. Eram pedras imensas, altas, mas bem irregulares, brutas, cravadas no solo. Aquelas pedras em Stonehenge (Inglaterra) são como menires. Mais tarde, alguns desses monumentos passaram a se sofisticar mais e se tornaram mais associados com essa coisa da batalha mesmo, perdendo a conexão com o divino. Passaram a ser blocos de pedra mais altos, mais trabalhados, com as faces geometricamente talhadas, recebendo inscrições que narram as glórias da guerra, desenhos e entalhes, alto-relevos, enfim, tinham também uma função didática, porque impunham respeito e temor, ao descrever o poder do líder e do império, os suplícios dos perdedores, as marchas vitoriosas do exército. Eram cravados em algum espaço importante da cidade, para que todos pudessem contemplá-lo. Eram uma espécie de jornal, de panfleto, eram em si mesmos uma narrativa histórica.

Os egípcios e os romanos foram mestres no uso de obeliscos, e alguns deles mais tarde foram roubados pelos novos conquistadores e trasladados para lugares como Paris (por Napoleão, claro), Roma, Londres, como um troféu. Bem mais tarde, no Renascimento e principalmente durante o Barroco, a partir do século XVII, os urbanistas se deram conta de que aqueles marcos verticais tão imponentes serviam como elementos estéticos e compositivos espetaculares nas novas ordenações urbanísticas. Eles servem, por exemplo, como ponto focal, ao final do eixo de perspectiva formado por uma longa, reta e larga avenida, ou para enfatizar a simetria de uma imensa fachada.

Os obeliscos de Paris e do Vaticano, respectivamente.

Como exemplo do primeiro caso, temos o obelisco do templo de Luxor, que Napoleão trouxe do Egito e posicionou na Champs Elisées, na Place de la Concorde (no outro extremo da avenida, em relação ao Arco do Triunfo). No segundo caso, temos o obelisco, também egípcio, trazido para Roma por Calígula, no século I, para ostentar a sua própria glória no centro do Circo que levava seu nome. No século XVI, quando o circo já não existia mais e a Basílica de São Pedro, no Vaticano, começou a ser construída no lugar da milenar Basílica de Constantino, o obelisco de Calígula não estava na posição em que está hoje. Ficava ao lado da nova basílica e, pelos princípios barrocos, atrapalhava o eixo da perspectiva, desviando o olhar de quem se postasse diante da fachada em construção. O papa da ocasião, Sisto V, incomodado esteticamente, com toda a razão, cismou em remover o monolito do lugar e trazê-lo para o centro da praça, onde ele direcionaria a visada para a o eixo certo, valorizando a praça e a igreja. Foi uma empreitada de engenharia supercomplexa, com uma história genial!

Fonte: SCOTTI, R.A. Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano. RJ: Nova Fronteira, 2007. p.80

Em 1586, tendo se dado conta de que o obelisco estava deslocado, e sua imponência era tal que desviava o olhar do que deveria ser o centro da composição, o papa ordenou que ele fosse removido e reposicionado. Como ninguém achasse que isso era possível, Sisto V fez um concurso público, vencido pelo engenheiro e arquiteto Domenico Fontana, que pôs o obelisco na sua posição atual, a partir de estudos históricos de como os próprios egípcios tinham transportado o bloco de pedra pelo Nilo, quase 3 mil anos antes, e de cálculos precisos que envolviam o uso de macacos hidráulicos, alavancas e polias. Esta história está contada, em detalhes deliciosos, no livro Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano, de R. A. Scotti, publicado pela Editora Nova Fronteira.

A planta final e a perspectiva da Basílica e Praça de São Pedro, com o obelisco reposicionado.

Se você pensar bem, um obelisco tem mesmo esse poder de atrair o olhar, e quando bem usado, ele pode ajudar a equilibrar uma composição muito horizontal, dar proporção e senso de profundidade a uma visada muita ampla. É o caso do enorme obelisco da Av. 9 de Julio, em Buenos Aires. Pena que mais modernamente, o pessoal – que ouviu o galo cantar, mas não sabe bem onde – tem usado levianamente desse recurso, que não serve pra celebrar mais nada, e muitas vezes é projetado sem manter proporção com porcaria nenhuma, só para a glória duvidosa de algum político chinfrim ou para a vaidade de algum arquiteto que “se acha”. Preciso dar exemplos? Cada um aqui dá conta de lembrar de mais de um, se duvidar.

Tá bom, não dá pra comparar o obelisco da Praça de São Pedro com o da 9 de Julio, mas é pra dizer que são marcos verticais que ajudam a dar proporção, senso de profundidade e orientar a perspectiva. Como elementos verticais de destaque na paisagem servem de referência e ajudam as pessoas a se situarem. Isso, claro, num momento em que as construções ainda não eram tão altas a ponto de achatarem os ditos cujos. A largura da 9 de Julio ajuda muito a que o obelisco ainda se destaque, a despeito dos prédios construídos ao redor.

O obelisco da Av. Rio Branco. Fonte: Google Streetview

No final da Av. Rio Branco (Centro do Rio) também há um obelisco e uma vez eu comentei isso com meu marido. Ele, que passa ali desde sempre, perguntou, incrédulo: Tem? Nunca vi… Claro, o obelisco era perfeitamente visível na abertura da Avenida, quando todos os prédios em volta tinham a altura da Biblioteca Nacional, do Museu de Belas Artes, do Teatro Municipal. Depois que os arranha-céus foram construídos indiscriminadamente (e criminosamente, também, na minha modesta opinião), a avenida ficou com uma cara apertadinha e o obelisco ficou com a escala ridícula de um palitinho de fósforos. É tudo uma questão de proporção, e não é da proporção do lucro que eu estou falando, mas isso é outra história.

Buenos Aires tem coisas muito mais interessantes e legais que o obelisco da 9 de Julio, mas se algum dia um de vocês for visitar a bela capital argentina, não deixe de considerá-lo como um marco na paisagem da cidade, na história urbanística local e como um testemunho de um modo de pensar e construir a cidade.

PS: Eu não sei como, mas as fontes se desconfiguraram aqui e eu não consegui arrumar de jeito nenhum.

Update: como vocês podem ver, as fontes foram arrumadas. Oba!

Mestre Valentim: um filme, uma conversa, uma cidade

Eu tenho tanto texto “pronto” que é uma vergonha eu ficar tanto tempo sem postar. O problema (para mim) é que a maior parte é uma rascunhada, reflexões mais ou menos soltas de acordo com alguma coisa que eu esteja lendo ou tenha visto, material que sobrou de artigos que eu não cheguei a completar, trechos de e-mails que eu escrevi há algum tempo, e nos quais me estendi além da conta em assuntos sobre os quais algum pobre coitado me perguntou alguma coisa, sem imaginar que eu desembestaria a falar como um bonde sem freio.

Mas qual o problema?, você pode me perguntar. É que no meu traço obsessivo, eu sempre acho que o texto precisa de uma melhorada, uma atualizada, uma revisada. Eu tenho que inserir links, fontes, imagens. E essa é a parte que demora. Daí me dá preguiça, ou eu me enrolo com prazos mais urgentes, e vou sempre me prometendo escrever no próximo final de semana. Por vício acadêmico, se bobear, eu inseriria inclusive as notações bibliográficas, até que a Dedéia me lembrou que isso aqui é um blog, não uma revista científica.

Semana passada me aconteceu uma coisa que eu achei muito legal. Eu cheguei a dizer por telefone, a uma amiga, que não iria divulgar as ideias que me ocorreram depois deste evento, enquanto a gente não amadurecesse e formatasse melhor os planos que nos ocorreram, mas eu não resisto. Então vou falar um pedacinho, sobretudo para não perder o entusiasmo e para repartir um pensamento ou dois, que eu já mencionei aqui, mas que eu gosto de reforçar.

No início do semestre, apareceu uma moça lá no Departamento de Urbanismo da FAU (FAU é Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a unidade da UFRJ em que eu trabalho), falando alguma coisa sobre estar fazendo um documentário sobre Mestre Valentim (já explico quem foi), e gostaria de saber se algum professor poderia dar um depoimento a respeito. Alguma coisa assim, sem mais detalhes. O secretário do departamento, muito solícito, anotou os dados da moça e encaminhou em e-mail para os professores, contando a história e pedindo que algum de nós entrasse em contato com ela, se quisesse saber mais. Eu achei interessante e escrevi. Queria saber do que se tratava exatamente, qual o objetivo, se era uma produção independente ou se estava vinculada a um programa para alguma tv, quem estava produzindo, essas coisas.

A moça foi tremendamente gentil e profissional, me respondeu em seguida, agradeceu o contato, deu todas as explicações. É um trabalho acadêmico, de uma turma que estuda Cinema na Faculdade Estácio de Sá, para uma disciplina chamada Documentário II. A professora deu algumas alternativas de temas, o pessoal escolheu esse e eles têm que apresentar no final do semestre. Fizeram uma pesquisa preliminar (ela me encaminhou o roteiro que eles estavam seguindo, com alguns dados levantados e eu achei tudo bastante pertinente), e estavam em busca de profissionais que topassem gravar entrevistas sobre a vida e a obra deste que foi um dos maiores mestres-artesãos do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVIII. Expliquei a ela que minha área era de História, de Urbanismo. Eu não saberia fazer crítica de arte sobre o trabalho dele, mas poderia, se ela achasse válido, falar sobre a cidade naquele momento, as circunstâncias sociais, políticas, econômicas e urbanas do Rio de Janeiro no qual Mestre Valentim viveu e atuou. Ela gostou e nós marcamos a data. Foi quarta passada, num recanto agradabilíssimo do Jardim Botânico. A equipe, pequena e afiada, me deixou muito à vontade e acabou sendo um papo delicioso, espero realmente ter contribuído para que eles apresentem um trabalho bacana. Eu não entendo tanto de cinema, mas sei que eles gravaram entrevistas com outras pessoas, fizeram tomadas com imagens variadas das diversas obras do Mestre Valentim espalhadas pela cidade, e agora eles precisam juntar tudo isso, editar, montar, sonorizar, sei lá mais o quê, e que leva um tempo pra ficar pronto. Eles me disseram que eu vou ganhar um dvd com o documentário pronto, deve ser lá pra julho, eu fiquei toda boba e feliz.

Mesmo falando sobre um assunto que faz parte do conteúdo das minhas aulas, é claro que eu fui dar uma estudada antes, ler alguma coisa a mais, pra não fazer feio. Eu sei um bocadinho sobre o panorama do Rio naquela época, sei alguns nomes e datas de tanto ler e repetir semestre após semestre, conheço a contribuição do Mestre Valentim para a cidade, mas não sabia muita coisa sobre a biografia dele. Descobri coisas interessantíssimas, que me puseram pra pensar e fazer outras conexões e suposições.

Pra esse post não ficar muito comprido, eu prometo que faço outro, em seguida, só sobre isso. O que eu queria mesmo, agora, é falar do que eu pensei depois da gravação.

Eu fiquei tendo mil ideias. Não, não vou contar todas agora, mas me deu vontade, por exemplo, de fazer uma exibição do documentário para os alunos de Arquitetura, na FAU. A galera de Cinema adorou e topou na hora. Dá pra desdobrar um monte de coisas a partir daí. Os alunos de arquitetura estudam isso. Eles falam sobre Mestre Valentim nas aulas de História da Cidade, nas aulas de História da Arte e da Arquitetura (o cara deixou um legado precioso em esculturas e talhas barrocas em várias igrejas do Centro do Rio), nas aulas de Paisagismo. Foi ele que desenhou e fez o Passeio Público do Rio. É verdade que o Passeio que está lá, hoje, não tem mais o traçado original de Mestre Valentim, e é fruto de uma reforma feita pelo paisagista francês Auguste-Marie Glaziou, em meados do século XIX, seguindo já outros princípios filosóficos e projetuais, conforme a moda dos jardins românticos ingleses da época, em contraste com os jardins barrocos predominantes no século XVIII. Mas aquela área ali, entre a Cinelândia e a Lapa, era uma lagoa fétida até 1770, a Lagoa do Boqueirão, local de depósito de lixo e acúmulo de mosquitos, quando o vice-rei, D. Luís de Vasconcelos, resolve aterrá-la para transformar a área em um jardim, e é o mestre Valentim que projeta e executa o primeiro jardim público do Brasil.

O que me encantou nesse projeto foi algo que, como eu disse no início do texto, eu já falei aqui neste blog outras vezes. Me encanta e me interessa o amor pela cidade. Pelas cidades, como produto humano, como construção e processo. E dentro disso, claro, pela minha cidade, tão linda, tão rica, tão cheia de possibilidades pouco exploradas. Me fascinam iniciativas como esta, de jovens que querem falar sobre a cidade, sua história, seus personagens, seu legado. A gente só ama e só dá valor àquilo que conhece. Como falar em preservação de patrimônio se só meia dúzia de estudiosos sabe o que significa determinado monumento ou pedaço da cidade? É preciso que as pessoas comuns, todas as pessoas, se interessem por conhecer, discutir, que sintam a cidade como sua, aquele cantinho, aquele bairro, aquela praça, aquele prédio meio em ruínas. Só assim elas vão defender esses lugares e objetos da sanha especulativa que tudo destrói em nome do lucro rápido.

Eu às vezes ouço com dó e profunda discordância alguns técnicos e profissionais, não apenas na minha área, de arquitetura e urbanismo, mas em algumas outras também, falando como se tivessem o monopólio do direito ao discurso sobre a cidade. Como se fossem os detentores de um saber que os coloca acima dos pobres mortais, do cidadão comum, coitado, que não sabe nada e só fala bobagem (e vamos combinar que especialistas vira e mexe falam bobagens também, eu já ouvi algumas bem constrangedoras).

Eu não quero com isso desqualificar o saber técnico-acadêmico e nivelar toda a conversa pelo senso comum. O que eu penso é que há percepções e instrumentos de análise diferentes, que se complementam e enriquecem. O pesquisador se debruça sobre autores variados, documentos, reflete, supera visões cristalizadas, escreve montes de páginas em artigos e teses que, muitas vezes, só outros pesquisadores como ele vão ler, se ele tiver sorte pra tanto. As pessoas em geral (e os próprios pesquisadores, que também são pessoas em geral, que vão à padaria, andam de ônibus e frequentam bares) vivem a cidade, seu cotidiano, suaz mazelas. As pessoas todas – médicos, executivos, economistas, motoristas de ônibus, donas de casa, mendigos, aposentados, estudantes, vocês entenderam – constroem esse objeto-cidade, todos os dias. Têm queixas, demandas, reivindicações, preferências, prazeres, memórias. Elas conferem significados, afetos, estabelecem vínculos com certos lugares e práticas, criam relações sociais e espaciais. As pessoas mudam os lugares e estes mudam as pessoas.

Por que não prestar atenção a isso, não ouvir com atenção, não considerar? Por que os projetos que vão incidir sobre as cidades, interferir na vida das pessoas, alterar paisagens e rotinas, precisam ser concebidos em âmbitos exclusivamente técnicos e políticos, sem incorporar a participação efetiva dos interessados? Não apenas uma consultinha do tipo “vocês querem que ponha a praça aqui ou ali?”, mas uma participação de verdade, uma troca, um protagonismo. Tudo bem, eu sei a resposta para estas perguntas, mas não me conformo com elas e não gostaria que minhas indagações ficassem no campo da retórica. Participar nas decisões implica em assumir co-responsabilidades pelo que será feito e suas consequências, e estimula cuidados maiores do que os que a gente costuma ter com coisas que simplesmente nos são dadas ou impostas.

De novo. Comecei querendo falar de uma coisa e acabei enveredando por outra. Só pra resumir então. Eu fiquei felicíssima com o convite, emocionada com o carinho e empenho com que o trabalho está sendo realizado, e quero expressar publicamente o quanto valorizo e prezo essas iniciativas, que tendem a atingir muito mais gente e dar muito mais resultado em termos de preservação de patrimônio e discussão sobre a cidade do que mil palestras em congressos. Acho a troca interdisciplinar (e interinstitucional) fundamental para arejar ideias e acredito que sempre temos muito para aprender uns com os outros. Depois conto pra vocês o que aprendi com esta experiência.