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Foram pouquinhos dias, mas descansei um bocadinho, passeei, dormi. Caxias do Sul é a cidade onde moram meus sogros. A gente vai lá com certa frequência. No verão é mais fresquinho que o calor escaldante do Rio, no inverno dá pra curtir o friozinho da Serra Gaúcha com muito vinho e lareira.
Desta vez, meados de julho, o frio nem estava tão intenso. Num passeio, descendo a serra em direção a Porto Alegre, passando por Nova Petrópolis, eu queria descrever a paisagem. Do banco de trás do carro, vendo as imagens pela janela, pensando sobre tanta coisa que aquilo me despertava, não deu pra fazer muita coisa, mas eu não queria perder a chance. Pensei em escrever algumas palavras-chave, que me ajudassem, depois, a compor um texto corrido melhor. No final, optei por deixar só as palavras mesmo. Elas abrem pistas, vocês preenchem como gostarem mais.
SERRA
Camélias, amores-perfeitos, cerejeiras em flor
Tangerineiras carregadas, frutos redondos cheirosos
Casas de madeira, antigos moinhos,
galpões industriais, metalúrgicas, motores, carrocerias
Parreirais retorcidos
muitas tangerinas colorindo o verde seco
Galhos nus se elevam decíduos
Serra, encostas, lenha, chaminés
Curvas, vertentes, fontes, pedras,
serpentes de prata nos vales,
rio, sol
vinho, risadas, raízes, família.
PS: Não vou prometer nada. Confio que vocês acreditem que não é falta de vontade de estar aqui. Pra contribuir com algumas reflexões, partilho textos que tenho deixado de rastro, lá no facebook, sobre os distúrbios em Londres: Harvey (esse tá em inglês), Bauman, Esquerdopata.
Até o mais breve possível.
 O obelisco da 9 de Julio, em Buenos Aires
Enquanto eu não volto com mais Mestre Valentim, partilho com vocês este texto, fruto de dois e-mails que escrevi, em épocas diferentes, para pessoas diferentes, por acaso em torno do mesmo tema: a função dos obeliscos nas cidades. Em 2007, uma amiga foi a Buenos Aires, adorou, mas na volta falou o seguinte: “Agora, uma coisa que eu não consigo achar graça é o tal do Obelisco da Avenida 9 de Julio. E daí? Uma avenidona enorme, muito larga, tá bom. Cadê a beleza disso?”
Depois, em 2009, outras amigas foram a Paris e eu não lembro se elas me pediram para falar a respeito ou se eu, enxerida, meti o bedelho por conta própria, morrendo de inveja por não poder ir junto. Começando por Buenos Aires, eu propus contextualizar a criação da própria avenida, antes de falar sobre o monumento.
A Av. 9 de Julio, cujo traçado já era estudado, como eixo Norte-Sul para a cidade, desde o final do século XIX, começou a ser aberta em 1937, e levou cerca de 40 anos até se completar toda a sua extensão, que eu procurei na internet, mas não descobri de quantos quilômetros é. Tive preguiça de pegar um mapa em escala e medir. Se alguém tiver essa informação, com a fonte, eu agradeço.
 À esquerda e no meio, a localização da 9 de Julio em Buenos Aires. À direita, a Av. Presidente Vargas, no Rio.
É uma época de abertura de grandes avenidas, no mundo todo, pelo menos no mundo que ainda não tinha feito isso no século XIX, tipo Paris. A nossa Av. Presidente Vargas (aqui no centro do Rio de Janeiro) é de 1945, por exemplo, e tem os mesmos propósitos funcionais/simbólicos. Grandes avenidas se prestam a exibir poder, ordem, glória; abrem canais de ventilação e iluminação em cidades excessivamente adensadas, disciplinam e otimizam fluxos, além de escoar o tráfego. E neste momento (décadas de 30 e 40), o urbanismo Modernista ainda dá as cartas, com sua aposta na primazia do automóvel (crise do petróleo? Naquela época isso merecia risadas incrédulas), baseada na crença de que a indústria e sua fabricação em massa barateariam os custos e tornariam o automóvel acessível e necessário a todos. Bom, junta tudo isso, e abriu-se a 9 de Julio. São 130 metros de largura. Pra vocês terem uma medida de comparação, de novo, a Av. Presidente Vargas tem 80 metros, chegando a 90 em alguns poucos trechos, no finalzinho. Em São Paulo eu não saberia mencionar uma comparação adequada. Mas sei que a 9 de Julio é considerada, segundo diversas fontes, a mais larga do mundo, deixando seguramente a Champs Elysées parisiense no chinelo. E está sempre lotada de carros e engarrafada, que coisa!
 Fonte: livro "Imágenes de Buenos Aires 1915-1940". Ediciones de la Antorcha, 2006.
Eu vi um site que eu queria deixar como sugestão, mas depois que fechei, não consigo mais lembrar como cheguei ali, e perdi a referência. Mas aqui tem umas informações interessantes sobre esta avenida. Quanto ao obelisco, oras, tem também suas explicações. Um obelisco é um monumento, normalmente em pedra (os mais moderninhos já o fazem de concreto, e já vi até obeliscos estilosos em aço, mas vamos nos ater aos clássicos), esguio e alto, erguido por (ou em homenagem a) grandes reis ou líderes militares, servindo tradicionalmente para celebrar uma vitória em batalha, uma conquista importante, ou a glória do soberano. Os homens (sim, é evidentemente um monumento bem carregado de simbologia masculina, bem fálico mesmo) erguem elementos marcantes para comemorar suas vitórias ou realizar rituais místicos desde tempos imemoriais, pré-históricos.
 Menir em Portugal
Muito antes dos obeliscos, já havia os menires de pedra, menos sofisticados e de razões supostamente mais esotéricas que militares, mas ainda assim impressionantes. Eram pedras imensas, altas, mas bem irregulares, brutas, cravadas no solo. Aquelas pedras em Stonehenge (Inglaterra) são como menires. Mais tarde, alguns desses monumentos passaram a se sofisticar mais e se tornaram mais associados com essa coisa da batalha mesmo, perdendo a conexão com o divino. Passaram a ser blocos de pedra mais altos, mais trabalhados, com as faces geometricamente talhadas, recebendo inscrições que narram as glórias da guerra, desenhos e entalhes, alto-relevos, enfim, tinham também uma função didática, porque impunham respeito e temor, ao descrever o poder do líder e do império, os suplícios dos perdedores, as marchas vitoriosas do exército. Eram cravados em algum espaço importante da cidade, para que todos pudessem contemplá-lo. Eram uma espécie de jornal, de panfleto, eram em si mesmos uma narrativa histórica.
- Os egípcios e os romanos foram mestres no uso de obeliscos, e alguns deles mais tarde foram roubados pelos novos conquistadores e trasladados para lugares como Paris (por Napoleão, claro), Roma, Londres, como um troféu. Bem mais tarde, no Renascimento e principalmente durante o Barroco, a partir do século XVII, os urbanistas se deram conta de que aqueles marcos verticais tão imponentes serviam como elementos estéticos e compositivos espetaculares nas novas ordenações urbanísticas. Eles servem, por exemplo, como ponto focal, ao final do eixo de perspectiva formado por uma longa, reta e larga avenida, ou para enfatizar a simetria de uma imensa fachada.
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 Os obeliscos de Paris e do Vaticano, respectivamente.
- Como exemplo do primeiro caso, temos o obelisco do templo de Luxor, que Napoleão trouxe do Egito e posicionou na Champs Elisées, na Place de la Concorde (no outro extremo da avenida, em relação ao Arco do Triunfo). No segundo caso, temos o obelisco, também egípcio, trazido para Roma por Calígula, no século I, para ostentar a sua própria glória no centro do Circo que levava seu nome. No século XVI, quando o circo já não existia mais e a Basílica de São Pedro, no Vaticano, começou a ser construída no lugar da milenar Basílica de Constantino, o obelisco de Calígula não estava na posição em que está hoje. Ficava ao lado da nova basílica e, pelos princípios barrocos, atrapalhava o eixo da perspectiva, desviando o olhar de quem se postasse diante da fachada em construção. O papa da ocasião, Sisto V, incomodado esteticamente, com toda a razão, cismou em remover o monolito do lugar e trazê-lo para o centro da praça, onde ele direcionaria a visada para a o eixo certo, valorizando a praça e a igreja. Foi uma empreitada de engenharia supercomplexa, com uma história genial!
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 Fonte: SCOTTI, R.A. Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano. RJ: Nova Fronteira, 2007. p.80
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- Em 1586, tendo se dado conta de que o obelisco estava deslocado, e sua imponência era tal que desviava o olhar do que deveria ser o centro da composição, o papa ordenou que ele fosse removido e reposicionado. Como ninguém achasse que isso era possível, Sisto V fez um concurso público, vencido pelo engenheiro e arquiteto Domenico Fontana, que pôs o obelisco na sua posição atual, a partir de estudos históricos de como os próprios egípcios tinham transportado o bloco de pedra pelo Nilo, quase 3 mil anos antes, e de cálculos precisos que envolviam o uso de macacos hidráulicos, alavancas e polias. Esta história está contada, em detalhes deliciosos, no livro Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano, de R. A. Scotti, publicado pela Editora Nova Fronteira.
 A planta final e a perspectiva da Basílica e Praça de São Pedro, com o obelisco reposicionado.
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- Se você pensar bem, um obelisco tem mesmo esse poder de atrair o olhar, e quando bem usado, ele pode ajudar a equilibrar uma composição muito horizontal, dar proporção e senso de profundidade a uma visada muita ampla. É o caso do enorme obelisco da Av. 9 de Julio, em Buenos Aires. Pena que mais modernamente, o pessoal – que ouviu o galo cantar, mas não sabe bem onde – tem usado levianamente desse recurso, que não serve pra celebrar mais nada, e muitas vezes é projetado sem manter proporção com porcaria nenhuma, só para a glória duvidosa de algum político chinfrim ou para a vaidade de algum arquiteto que “se acha”. Preciso dar exemplos? Cada um aqui dá conta de lembrar de mais de um, se duvidar.
Tá bom, não dá pra comparar o obelisco da Praça de São Pedro com o da 9 de Julio, mas é pra dizer que são marcos verticais que ajudam a dar proporção, senso de profundidade e orientar a perspectiva. Como elementos verticais de destaque na paisagem servem de referência e ajudam as pessoas a se situarem. Isso, claro, num momento em que as construções ainda não eram tão altas a ponto de achatarem os ditos cujos. A largura da 9 de Julio ajuda muito a que o obelisco ainda se destaque, a despeito dos prédios construídos ao redor.
 O obelisco da Av. Rio Branco. Fonte: Google Streetview
No final da Av. Rio Branco (Centro do Rio) também há um obelisco e uma vez eu comentei isso com meu marido. Ele, que passa ali desde sempre, perguntou, incrédulo: Tem? Nunca vi… Claro, o obelisco era perfeitamente visível na abertura da Avenida, quando todos os prédios em volta tinham a altura da Biblioteca Nacional, do Museu de Belas Artes, do Teatro Municipal. Depois que os arranha-céus foram construídos indiscriminadamente (e criminosamente, também, na minha modesta opinião), a avenida ficou com uma cara apertadinha e o obelisco ficou com a escala ridícula de um palitinho de fósforos. É tudo uma questão de proporção, e não é da proporção do lucro que eu estou falando, mas isso é outra história.
Buenos Aires tem coisas muito mais interessantes e legais que o obelisco da 9 de Julio, mas se algum dia um de vocês for visitar a bela capital argentina, não deixe de considerá-lo como um marco na paisagem da cidade, na história urbanística local e como um testemunho de um modo de pensar e construir a cidade.
PS: Eu não sei como, mas as fontes se desconfiguraram aqui e eu não consegui arrumar de jeito nenhum.
Update: como vocês podem ver, as fontes foram arrumadas. Oba!
Eu tenho tanto texto “pronto” que é uma vergonha eu ficar tanto tempo sem postar. O problema (para mim) é que a maior parte é uma rascunhada, reflexões mais ou menos soltas de acordo com alguma coisa que eu esteja lendo ou tenha visto, material que sobrou de artigos que eu não cheguei a completar, trechos de e-mails que eu escrevi há algum tempo, e nos quais me estendi além da conta em assuntos sobre os quais algum pobre coitado me perguntou alguma coisa, sem imaginar que eu desembestaria a falar como um bonde sem freio.
Mas qual o problema?, você pode me perguntar. É que no meu traço obsessivo, eu sempre acho que o texto precisa de uma melhorada, uma atualizada, uma revisada. Eu tenho que inserir links, fontes, imagens. E essa é a parte que demora. Daí me dá preguiça, ou eu me enrolo com prazos mais urgentes, e vou sempre me prometendo escrever no próximo final de semana. Por vício acadêmico, se bobear, eu inseriria inclusive as notações bibliográficas, até que a Dedéia me lembrou que isso aqui é um blog, não uma revista científica.
Semana passada me aconteceu uma coisa que eu achei muito legal. Eu cheguei a dizer por telefone, a uma amiga, que não iria divulgar as ideias que me ocorreram depois deste evento, enquanto a gente não amadurecesse e formatasse melhor os planos que nos ocorreram, mas eu não resisto. Então vou falar um pedacinho, sobretudo para não perder o entusiasmo e para repartir um pensamento ou dois, que eu já mencionei aqui, mas que eu gosto de reforçar.
No início do semestre, apareceu uma moça lá no Departamento de Urbanismo da FAU (FAU é Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a unidade da UFRJ em que eu trabalho), falando alguma coisa sobre estar fazendo um documentário sobre Mestre Valentim (já explico quem foi), e gostaria de saber se algum professor poderia dar um depoimento a respeito. Alguma coisa assim, sem mais detalhes. O secretário do departamento, muito solícito, anotou os dados da moça e encaminhou em e-mail para os professores, contando a história e pedindo que algum de nós entrasse em contato com ela, se quisesse saber mais. Eu achei interessante e escrevi. Queria saber do que se tratava exatamente, qual o objetivo, se era uma produção independente ou se estava vinculada a um programa para alguma tv, quem estava produzindo, essas coisas.
A moça foi tremendamente gentil e profissional, me respondeu em seguida, agradeceu o contato, deu todas as explicações. É um trabalho acadêmico, de uma turma que estuda Cinema na Faculdade Estácio de Sá, para uma disciplina chamada Documentário II. A professora deu algumas alternativas de temas, o pessoal escolheu esse e eles têm que apresentar no final do semestre. Fizeram uma pesquisa preliminar (ela me encaminhou o roteiro que eles estavam seguindo, com alguns dados levantados e eu achei tudo bastante pertinente), e estavam em busca de profissionais que topassem gravar entrevistas sobre a vida e a obra deste que foi um dos maiores mestres-artesãos do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVIII. Expliquei a ela que minha área era de História, de Urbanismo. Eu não saberia fazer crítica de arte sobre o trabalho dele, mas poderia, se ela achasse válido, falar sobre a cidade naquele momento, as circunstâncias sociais, políticas, econômicas e urbanas do Rio de Janeiro no qual Mestre Valentim viveu e atuou. Ela gostou e nós marcamos a data. Foi quarta passada, num recanto agradabilíssimo do Jardim Botânico. A equipe, pequena e afiada, me deixou muito à vontade e acabou sendo um papo delicioso, espero realmente ter contribuído para que eles apresentem um trabalho bacana. Eu não entendo tanto de cinema, mas sei que eles gravaram entrevistas com outras pessoas, fizeram tomadas com imagens variadas das diversas obras do Mestre Valentim espalhadas pela cidade, e agora eles precisam juntar tudo isso, editar, montar, sonorizar, sei lá mais o quê, e que leva um tempo pra ficar pronto. Eles me disseram que eu vou ganhar um dvd com o documentário pronto, deve ser lá pra julho, eu fiquei toda boba e feliz.
Mesmo falando sobre um assunto que faz parte do conteúdo das minhas aulas, é claro que eu fui dar uma estudada antes, ler alguma coisa a mais, pra não fazer feio. Eu sei um bocadinho sobre o panorama do Rio naquela época, sei alguns nomes e datas de tanto ler e repetir semestre após semestre, conheço a contribuição do Mestre Valentim para a cidade, mas não sabia muita coisa sobre a biografia dele. Descobri coisas interessantíssimas, que me puseram pra pensar e fazer outras conexões e suposições.
Pra esse post não ficar muito comprido, eu prometo que faço outro, em seguida, só sobre isso. O que eu queria mesmo, agora, é falar do que eu pensei depois da gravação.
Eu fiquei tendo mil ideias. Não, não vou contar todas agora, mas me deu vontade, por exemplo, de fazer uma exibição do documentário para os alunos de Arquitetura, na FAU. A galera de Cinema adorou e topou na hora. Dá pra desdobrar um monte de coisas a partir daí. Os alunos de arquitetura estudam isso. Eles falam sobre Mestre Valentim nas aulas de História da Cidade, nas aulas de História da Arte e da Arquitetura (o cara deixou um legado precioso em esculturas e talhas barrocas em várias igrejas do Centro do Rio), nas aulas de Paisagismo. Foi ele que desenhou e fez o Passeio Público do Rio. É verdade que o Passeio que está lá, hoje, não tem mais o traçado original de Mestre Valentim, e é fruto de uma reforma feita pelo paisagista francês Auguste-Marie Glaziou, em meados do século XIX, seguindo já outros princípios filosóficos e projetuais, conforme a moda dos jardins românticos ingleses da época, em contraste com os jardins barrocos predominantes no século XVIII. Mas aquela área ali, entre a Cinelândia e a Lapa, era uma lagoa fétida até 1770, a Lagoa do Boqueirão, local de depósito de lixo e acúmulo de mosquitos, quando o vice-rei, D. Luís de Vasconcelos, resolve aterrá-la para transformar a área em um jardim, e é o mestre Valentim que projeta e executa o primeiro jardim público do Brasil.
O que me encantou nesse projeto foi algo que, como eu disse no início do texto, eu já falei aqui neste blog outras vezes. Me encanta e me interessa o amor pela cidade. Pelas cidades, como produto humano, como construção e processo. E dentro disso, claro, pela minha cidade, tão linda, tão rica, tão cheia de possibilidades pouco exploradas. Me fascinam iniciativas como esta, de jovens que querem falar sobre a cidade, sua história, seus personagens, seu legado. A gente só ama e só dá valor àquilo que conhece. Como falar em preservação de patrimônio se só meia dúzia de estudiosos sabe o que significa determinado monumento ou pedaço da cidade? É preciso que as pessoas comuns, todas as pessoas, se interessem por conhecer, discutir, que sintam a cidade como sua, aquele cantinho, aquele bairro, aquela praça, aquele prédio meio em ruínas. Só assim elas vão defender esses lugares e objetos da sanha especulativa que tudo destrói em nome do lucro rápido.
Eu às vezes ouço com dó e profunda discordância alguns técnicos e profissionais, não apenas na minha área, de arquitetura e urbanismo, mas em algumas outras também, falando como se tivessem o monopólio do direito ao discurso sobre a cidade. Como se fossem os detentores de um saber que os coloca acima dos pobres mortais, do cidadão comum, coitado, que não sabe nada e só fala bobagem (e vamos combinar que especialistas vira e mexe falam bobagens também, eu já ouvi algumas bem constrangedoras).
Eu não quero com isso desqualificar o saber técnico-acadêmico e nivelar toda a conversa pelo senso comum. O que eu penso é que há percepções e instrumentos de análise diferentes, que se complementam e enriquecem. O pesquisador se debruça sobre autores variados, documentos, reflete, supera visões cristalizadas, escreve montes de páginas em artigos e teses que, muitas vezes, só outros pesquisadores como ele vão ler, se ele tiver sorte pra tanto. As pessoas em geral (e os próprios pesquisadores, que também são pessoas em geral, que vão à padaria, andam de ônibus e frequentam bares) vivem a cidade, seu cotidiano, suaz mazelas. As pessoas todas – médicos, executivos, economistas, motoristas de ônibus, donas de casa, mendigos, aposentados, estudantes, vocês entenderam – constroem esse objeto-cidade, todos os dias. Têm queixas, demandas, reivindicações, preferências, prazeres, memórias. Elas conferem significados, afetos, estabelecem vínculos com certos lugares e práticas, criam relações sociais e espaciais. As pessoas mudam os lugares e estes mudam as pessoas.
Por que não prestar atenção a isso, não ouvir com atenção, não considerar? Por que os projetos que vão incidir sobre as cidades, interferir na vida das pessoas, alterar paisagens e rotinas, precisam ser concebidos em âmbitos exclusivamente técnicos e políticos, sem incorporar a participação efetiva dos interessados? Não apenas uma consultinha do tipo “vocês querem que ponha a praça aqui ou ali?”, mas uma participação de verdade, uma troca, um protagonismo. Tudo bem, eu sei a resposta para estas perguntas, mas não me conformo com elas e não gostaria que minhas indagações ficassem no campo da retórica. Participar nas decisões implica em assumir co-responsabilidades pelo que será feito e suas consequências, e estimula cuidados maiores do que os que a gente costuma ter com coisas que simplesmente nos são dadas ou impostas.
De novo. Comecei querendo falar de uma coisa e acabei enveredando por outra. Só pra resumir então. Eu fiquei felicíssima com o convite, emocionada com o carinho e empenho com que o trabalho está sendo realizado, e quero expressar publicamente o quanto valorizo e prezo essas iniciativas, que tendem a atingir muito mais gente e dar muito mais resultado em termos de preservação de patrimônio e discussão sobre a cidade do que mil palestras em congressos. Acho a troca interdisciplinar (e interinstitucional) fundamental para arejar ideias e acredito que sempre temos muito para aprender uns com os outros. Depois conto pra vocês o que aprendi com esta experiência.
Se eu ficar esperando ter tempo para escrever alguma coisa que preste, vocês só vão me ver de novo daqui a quatro anos. Ou algo assim. Então vou dizer oi só pra espanar o pó.
O semestre começou fervendo. Para conciliar minha carga horária como professora substituta e as disciplinas que preciso cursar no doutorado, minha grade ficou pulverizada e picadinha, então eu acabo indo à universidade todos os dias da semana, às vezes para uma única aula. Mas como é longe e o transporte é ruim, isso me gasta metade do dia, em qualquer circunstância. E os horários não ajudam, quase sempre logo antes ou logo depois do almoço. Mas não vim aqui pra reclamar. Tou adorando tudo, cansada mas empolgada. E gripadíssima nas últimas duas semanas, agora melhorou. Resfriado só, garganta e tal, nada de dengue, amém.
Hoje eu li com carinho e uma ponta de preocupação uma querida, no Facebook, me fazendo um elogio pra lá de generoso, como se eu fosse modelo pra alguma coisa. O carinho é porque me enternece que alguém me veja com olhos tão gentis, a preocupação é porque a vaidade é um bicho sutil e ardiloso, e é preciso estar vigilante o tempo todo pra não se deixar seduzir pelo espelho narcísico. Eu me confesso vulnerável a esse desagradável defeito, e por isso me lembro de vez em quando (e advirto quem quiser saber) de minhas falhas. Se alguém tem a mínima ilusão a meu respeito, saiba que eu peno horrores pra me manter minimamente em dia com os assuntos que me interessam e pago o preço de deixar montes de pedaços de vida perdidos no caminho. Disperso-me com facilidade, atiro pra um monte de lados e perco o foco em coisas que deviam exigir a minha atenção mais concentrada. Pode até parecer diferente, mas não dou conta de ler nem 1/10 do que eu gostaria (mas nisso, vamos combinar, quem dá?). Protelo, procrastino, perco prazos, prometo coisas que não dou conta de cumprir, faço outras tantas numa qualidade medíocre que deixa a desejar e depois me irrito. Sou ansiosa, impaciente, crítica, sou menos controladora hoje do que já fui, mas ainda tenho dificuldades em lidar com falhas, sobretudo as minhas próprias. Em minha defesa (ou não), acrescento que finjo muito bem e passo a maior pinta de quem dá conta do recado.
Assumo também que, com o tempo, deixei de incensar outros ícones, e passei a compreender que mesmo as pessoas que eu mais admiro, aquelas em quem me espelho profissionalmente, aquelas por quem eu suspiro e digo “puxa, eu queria ser como fulano/a”, são tão humanas e falhas quanto eu. Entender isso dá um alívio enorme e você pára de correr atrás de uma perfeição inexistente. Não há glamour na minha profissão, não sei se há em alguma. Há trabalho, há esforço, há dedicação e estudo, há até talento, mas também há medos, dúvidas, vaidades, invejas. Falhas. Como em tudo e em todos nesta vida.
Isso me faz lembrar que eu estava pensando uma coisa esses dias. Uma dessas alegorias nada ortodoxas que me vêm à mente depois de alguma aula, ou meio do nada, pensando sobre as cidades. Não é à toa que esse tema da cidade ideal, da possibilidade de organização da cidade, dos modelos, sempre me interessou tanto. E volta à tona em algumas das aulas que eu dou. Você fala de Renascimento, estão lá os tratadistas, as cidades ideais (alguém pensou n’A Utopia, de Thomas Morus?); fala de século XIX, das mazelas da vida urbana durante a Revolução Industrial e estão lá os pensadores utópicos, todos propondo modelos, soluções, medidas tanto mais rígidas quanto mais caótica é a percepção que eles têm da cidade e suas transformações. Estamos no século XXI e muita gente ainda espera o plano mágico, saído da cartola, que vai resolver todos os problemas urbanos e arrumar a cidade de uma vez por todas. Eu repito incontáveis vezes todos os semestres, para espanto e decepção de alguns alunos, que isso é impossível, esperar por isso é garantia de frustração. É preciso se conscientizar que tudo muda, o tempo todo, nada permanece. Tudo é dinâmico, está em movimento.
E foi aí, que estava eu caraminholando e me veio a imagem de uma menina de cabelos longos e revoltos, uma menina sapeca, agitada, que não pára quieta. Imagina que você pretenda pentear os cabelos dessa menina, fazer uma trança bonita, dar ordem no desmazelo daquela cara afogueada. Teoricamente (eu disse teoricamente) você conseguiria até fazer sossegar essa menina por alguns minutos e arrumar o penteado. Não acredito que dure, mas vá lá que por tempo suficiente para tirar uma foto.
Uma cidade é uma menina assim. Arisca. Mas que não adianta porque ela não parará nem sequer por um segundo para que você a penteie. É preciso amá-la enquanto ela se mexe. Às vezes desgrenhada, às vezes de vestido novo que se suja em seguida. Melhor ainda: amá-la exatamente por conta disso, dessa sua capacidade inesgotável de se transmutar, de envelhecer, de renascer, de ser muitas faces numa só.
Uma professora de uma das minhas matérias no doutorado estava dizendo isso semana retrasada: a gente trabalha com um objeto – a cidade – que não fica quieto para ser observado. Daí você constrói as suas análises e teses sobre algo e quando você termina de escrever, esse algo já é diferente do que era quando você começou. E o trabalho acadêmico, a reflexão intelectual, tantas vezes não consegue acompanhar o ritmo. Outras linguagens talvez. Por isso meu fascínio pela música, pelo cinema, pela literatura, mais ágeis e flexíveis pra representar essa mutação constante.
Mais descomposta que a menina dessa minha história, eu me recolho por hoje. O sono é repouso mas também é movimento. E eu levanto amanhã junto com a cidade para mais um dia de trabalho e de “despenteio”.
Foram cinco dias em São Paulo. Eu gastei dois posts longos pra falar do primeiro dia e agora vou escrever mais um pra falar de todo o resto e fazer um apanhado geral das coisas que pensei com essa viagem.
Como eu disse, eu cheguei lá na quarta já de tardinha. Na quinta flanei sozinha pela cidade, conhecendo o Centro e o Bom Retiro. Na sexta, o dia foi das amigas. Acordei mais tarde, encontrei a Flávia pra um café delicioso no Conjunto Nacional, ali na Av. Paulista. Papo atrasado há mais de um ano, ela tinha que voltar ao trabalho e eu ali querendo segurá-la só mais um pouquinho, contar só mais uma novidade, perguntar só mais um detalhe. Toda vez que nos encontramos eu fico com a sensação de que é pouco demais, e de que poderíamos ficar conversando por mais muitas horas, com o mesmo deleite.
 Nham nham
Almoço na Aclimação, com mais duas queridas, bem de frente para o parque. Com direito ao melhor bolinho com recheio de creme de limão siciliano e cobertura de chocolate branco que eu jamais comerei na minha vida, de sobremesa, na casa de uma delas logo depois.
Mais tarde, fui dar pitacos arquitetônicos para outra amada que acabou de comprar apartamento, enquanto visitávamos o stand de vendas do prédio e o apartamento decorado que eles colocam lá pra encher os olhos dos clientes. Todos os cômodos com teto (bem) rebaixado de gesso, polvilhado de lâmpadas dicróicas a pouco mais de meio metro da cabeça das pobres criaturas, inclusive no banheiro. Como este apartamento-vitrine é todo climatizado, ar central, fresquinho até no banheiro, parece tudo lindo. Mas se você vai viver num lugar normal, em que isso não é o padrão, essas lampadinhas vão cozinhar os seus miolos. Devagar com o andor. Mas minha amada fez uma compra muito boa. Agora é torcer pro empreendimento ser concluído e entregue no tempo previsto.
 Tirando onda na lambreta
De noite, fomos de grupinho para o Zé do Hamburguer, em Perdizes. Vocês não têm noção do tanto que eu gostei. O bar tem decoração temática 100% anos 50. Do piso ao teto, passando por todos os móveis, copos, pratos, talheres, cores e ornamentos. Tem até uma jukebox e uma lambreta verde no meio do salão! A trilha sonora também segue a onda, e eu me fartei de ouvir Elvis Presley, Chucky Berry e Cely Campelo. Comida boa, preço justo, companhia indescritivelmente gostosa e divertida. Meninas, adorei cada minutinho ao lado de vocês, não tenho como agradecer por tantos mimos e atenção.
No sábado, fui para a Av. Paulista ver o MASP e render minha homenagem à Lina Bo Bardi por um projeto tão bacana. Mas minha maior surpresa foi mesmo o Trianon, o parque que fica bem em frente. Aliás, antes, quando eu falava em parque urbano em São Paulo, só me vinha à cabeça o Ibirapuera. Minha ignorância me levava a crer que o Ibira era uma ilha verde no meio do interminável maciço cinzento da cidade. Que surpresa. São Paulo tem uma grande rede de parques urbanos muito bacanas. E, diferentemente de tantos parques aqui no Rio em que a classe média evita transitar, porque são frequentados majoritariamente por desocupados, mendigos e pivetes (é o que escuto, por exemplo, em relação ao Passeio Público e à Praça da República, também conhecida como Campo de Santana, aqui no Centro), os parques paulistanos têm bastante movimento. Pelo menos dos que eu conheci, eu gostei muito. No sábado, ali no Trianon, tinha gente lendo livros e jornais em bancos sob as árvores, correndo ao som de seus ipods, senhoras fazendo tai chi chuan, crianças brincando em parquinhos, casais passeando de mãos dadas.
 Cenas da Av. Paulista e do MASP
 O Trianon visto do MASP e ao lado um passeio pelas trilhas do parque
 Av. São João, vista lá de cima do mirante do Banespa
Dali, voltei ao Centro para percorrer, do início, a famosa e cantada Av. São João. Bom, eu me lembro pelo menos de Ronda, do Paulo Vanzolini, e Sampa, do Caetano Veloso, que citam a longa avenida. Não pude deixar de passar na Galeria do Rock, claro, onde descolei, com enorme surpresa e prazer, o cd dos Beatles ao vivo em Hamburgo, gravado em 1962, no lendário Star Club. Eu tinha isso em vinil no século passado
Pensei em tirar uma foto da placa ali onde cruza a Ipiranga e a Avenida São João, mas achei que era cliché demais e segui adiante. O percurso pela avenida também é um dos roteiros do meu livrinho de viagem, e eu até tencionava caminhar o trajeto todo sugerido no guia, ou ir pelo menos até o Largo de Santa Cecília. Mas pouco antes de chegar ao Arouche o cansaço me venceu e eu resolvi que já tinha visto o bastante. Meia-volta, metrô até o Araçá, ônibus para Pinheiros, e fui encontrar Juju, minha anfitriã e sister, na feira da Praça Benedito Calixto. Eu amo essas feirinhas de antiguidades, fico alucinada com os cristais e porcelanas, babando por tacinhas coloridas de licor que possam incrementar minha fajuta coleção. Mas era tudo caro demais. Apaixonei por um oclinhos de sol, redondo, bem John Lennon. Experimentei, ficou divino, perguntei o preço, disposta a extravagâncias. 180 paus. Desapaixonei imediatamente e fui fuxicar as quinquilharias de outras barracas. Máquinas velhas, bonecas encardidas, carrinhos de quando meu avô era criança, revistinhas, puxadores de gaveta de cerâmica esmaltada, LPs de Dalva de Oliveira, espelhinhos de penteadeira com cabo em madrepérola, aldravas de ferro fundido, camafeus, caçarolas de cobre. De um tudo, como se diz por aí. Quase surtei.
Sob um toldo armado no meio da praça, um grupo tocava os clássicos do chorinho. Delicado, Odeon, Pedacinho do Céu. Isso só enquanto eu tomava uma água de côco numa barraquinha ao lado. Rebatemos a água de côco com uma cerveja bem gelada no barzinho em frente, enquanto esperávamos a chuva passar, Juju e eu, rindo, contando planos, falando bobagens e seriedades, como só se faz com pessoas a quem se ama.
Minha visita terminou no domingo. Passeio pela Liberdade de manhã, de novo com as amigas mais queridas que se pode ter, bem no dia em que os chineses comemoravam o Ano Novo, sob o signo do Coelho. Gente demais da conta, um calor de fritar ovo no asfalto, mas a festa estava tão linda e colorida que eu adorei assim mesmo. Almoçamos num restaurante chinês, e se eu não visse eu não acreditava: o chef produzindo fios perfeitos de macarrão, ali na minha frente (a cozinha é aberta, você pode olhar tudo por um painel de vidro), só esticando e dobrando a massa, sem um corte, sem uso de nenhum instrumento. Uau!
 Comemorações do Ano Novo Chinês na Liberdade
Ficou faltando tanta coisa. Eu não comi pastel no japa, nem sanduíche de mortadela no Mercado Municipal. Não vi o Museu do Futebol, a Faculdade de Arquitetura da USP, a Sala São Paulo, a Estação Júlio Prestes. Não fui ao Brás, à Mooca, à Lapa, não visitei Santa Ifigênia. Não passeei nos Jardins, nem mesmo para conferir o desenho urbano calcado no princípio das cidades jardins de Ebenezer Howard. Não fiz compras na Oscar Freire, e tanto minha conta bancária quanto meu marido suspiram aliviados com isso, aleluia! Não visitei a Fal, olha o pecado maior (mas só porque ela não estava na cidade). Ótimo. Assim, tenho pretextos a rodo para voltar.
Cheguei com olhar de carioca, saí com um monte de reflexões e descobertas. Que eu sou apaixonada pela vida urbana, pela diferença e pela diversidade já é sabido. Sou fascinada por este construto social e cultural tão complexo que são as cidades. Essa forma que nós, humanos, há milênios, encontramos de nos organizar espacialmente, economicamente, politicamente.
Ficou muito claro para mim, muito mais óbvio que em qualquer outra ocasião, que para apreciar uma cidade, é preciso de certa forma se despir das outras cidades que nos habitam. Fala-se tanto (com exagero demais, pro meu gosto) das rivalidades entre paulistas e cariocas, cada um defendendo, entre outras coisas, as vantagens de sua cidade e de seu jeito de ser urbano. Acontece que não dá para ir a São Paulo tendo o Rio como parâmetro e vice-versa. São identidades e trajetórias históricas diferentes, suportes físicos diferentes, que geram espaços, paisagens e vivências urbanas diferentes. Se você vai esperando encontrar o Rio, comparar com o Rio, a frustração é grande. Mas se você vai aberto para o novo, é uma cidade fantástica, cheia de oportunidades, uma síntese do Brasil e do mundo. São Paulo é a nossa Nova York, eu acho. Gentes de todos os lugares, línguas e cores. Camadas de história sobrepostas, justapostas, expostas.
O Brasil colônia está lá, o Brasil bandeirante, indígena. O Brasil do açúcar, do negro. O Brasil do café, dos barões, da ferrovia. O Brasil da indústria, do imigrante. O Brasil digital. O Brasil da elite rica e às vezes arrogante, dos negócios e investimentos, da cultura e da gastronomia, da vanguarda intelectual, e também o Brasil de todos os brasis, da periferia, do futebol, do hip hop, dos “mano” e dos “truta”. Os Jardins e a Cracolândia. A Oscar Freire e a 25 de março. Os arranha-céus e os parques lindíssimos, bucólicos, deliciosos. Um Brasil de trabalhadores das mais diversas origens. Em São Paulo, os paulistas são gaúchos, cariocas, paraibanos, mato-grossenses. E são também italianos, judeus, armênios, sírios, coreanos, bolivianos, turcos, japoneses. São até paulistanos, veja só.
Agora que eu cheguei por aqui é que eu tudo entendi. Rondar a cidade revela que, por trás da dura poesia concreta das esquinas, a lira é paulistana.
 Panorama geral. Acima, à esquerda, Vale do Anhangabaú; à direita Mercado Municipal. Embaixo, à esquerda, o conjunto da Igreja de São Bento, à direita, Av. São João.
As férias vão chegando ao fim e minha preguiça vai aumentando exponencialmente. Mas vamos voltar a São Paulo.
Naquele mesmo primeiro dia de passeio, depois de lanchar na Casa Godinho, eu achei que dava tempo de mais um roteirinho do meu livro, e me mandei pro Bom Retiro, um dos bairros mais antigos da cidade, verdadeiro testemunho urbano desde 1800. Primeira parada: Estação da Luz. Estava louca há anos para conhecer o Museu da Língua Portuguesa, que funciona ali numa parte reformada da estação. Não me decepcionei. Lindíssimo o museu, uma pena a loja e a cafeteria estarem fechadas. Mas a estrutura é toda muito bem organizada, há a parte das exposições temporárias, que dessa vez era sobre Fernando Pessoa, um andar inteiro e imenso com painéis, projeções e todo tipo de artefato interativo e tecnológico, contando a formação da língua, desde lá atrás, na bifurcação dos ramos linguísticos, de onde surgiu o indo-europeu que dá origem à grande quantidade de línguas que hoje conhecemos, extintas (como o latim) ou vivas, como seus derivados português, espanhol, francês, romeno, para ficar só nas mais conhecidas.
O que eu achei mais legal foram os vários computadores à disposição, que mostram as contribuições das diversas línguas africanas e indígenas à formação do português que falamos hoje no Brasil. Cada computador com um dialeto ou língua, explicando sua origem, falando dos povos que falavam essas línguas, um monte de outras informações culturais interessantíssimas e finalmente uma lista das palavras incorporadas ao nosso vocabulário, em todas as áreas, que são oriundas dessas línguas e do saber desses povos. É impressionante, a gente não se dá conta do tanto que fala e que vem de jejes, eve-fons, iorubás, guaranis, tamoios, e tantos outros. Ah, há também as palavras que vieram de outros grupos de imigrantes, das mais diversas nacionalidades, principalmente nos dois últimos séculos.
Entretanto, o que mais me emocionou mesmo foi a projeção com artistas e escritores declamando trechos de poemas em português. A versão rap para um poema de Gregório de Matos ficou sensacional. Na pequena arena circular em que a projeção era feita nas paredes, em 360°, os textos e imagens abstratas iam se encaixando no tema ou no ritmo, enquanto nós sentávamos em arquibancadas de madeira. O piso, no centro, é escuro, e aqueles versos estão escritos em luz, numa montagem simples e poética. Foi muito lúdico também. Havia crianças se divertindo com a maleabilidade da língua, as aliterações, a cadência que dá vida às frases. Será que eu sou boba porque eu chorei um pouquinho, algumas vezes?

 Estação da Luz
Na saída do Museu, fiz questão de verificar que a Estação da Luz continua funcionando como um ponto intermodal importante em São Paulo, integrando a malha ferroviária com o metrô e o ônibus. O prédio original era de 1867, mas desapareceu sob o fogo. O que está lá foi inaugurado em 1901, símbolo da indústria e da arquitetura do ferro e do tijolo da Revolução Industrial. Como aconteceu tantas vezes (e aqui no Rio não é diferente), foi a estrada de ferro que urbanizou a região, levando ao loteamento das chácaras e abertura de ruas. Isso atraiu moradores, casas comerciais, oficinas, armazéns e depósitos. Ainda hoje, é fascinante observar aquele monte de gente passando por ali, como fizeram centenas de milhares italianos, japoneses, coreanos, judeus (de origens várias), mineiros, baianos, paraenses, pernambucanos, peruanos, paraguaios, desde o século XIX até hoje. Isso sem falar nas toneladas de café que vinham do interior do estado rumo ao Porto de Santos e que fizeram a riqueza da metrópole.
Por recomendação das amigas (e do guia), fui passear no parque em frente, o Parque da Luz. O jardim é anterior à estrada de ferro, e foi aberto em 1825, com um jardim botânico e um zoológico! Tem o típico desenho romântico inglês, com imensas árvores, lagos, canais, pontezinhas, estátuas, grutas artificiais, tudo emulando uma paisagem campestre e nostálgica, que convida o passante à ilusão de que, por um momento, se saiu da cidade e se mergulhou em alguma paisagem idílica. O lindo coreto de ferro ao centro está reformado, e o programa mais delicioso a fazer é simplesmente caminhar e contemplar. O parque é muito frequentado, com dezenas de pessoas percorrendo os caminhos sinuosos, ou sentados jogando dominó, lendo, batendo papo. Ah, antes que eu esqueça, a Pinacoteca fica ali, quase de frente para a Estação da Luz, e o prédio é lindo, mas eu não tive tempo de visitá-la desta vez. Ao seu lado, há um belo Jardim de Esculturas, com obras de geniais artistas contemporâneos brasileiros, como Waltércio Caldas, Amílcar de Castro, Franz Weissmann e Ascânio MMM.
 Movimento e vida no parque
Antes de entrar no coração do bairro propriamente, assinalado por uma placa de Bem-vindo ao Bom Retiro, numa esquina da rua José Paulino, uma das mais conhecidas e badaladas, um pequeno trecho do livro que me serviu de Guia, no capítulo escrito pelo historiador Roney Cytrynowicz:
“Poucos bairros e lugares da cidade de São Paulo têm uma característica tão definida como o bairro do Bom Retiro, principalmente por três aspectos relacionados entre si: o comércio têxtil (…) que atrai pessoas e negócios de todos os cantos da cidade e do país; os restaurantes de culinária ‘típica’ de vários grupos étnicos, citados com destaque em todos os roteiros gastronômicos da cidade e, por fim, a presença visível de paulistanos de várias origens étnicas e nacionais. O Bom Retiro tornou-se assim uma espécie de cartão-postal ou vitrine do cosmopolitismo da cidade, [de um] multiculturalismo efetivo, cotidiano, que embaralha pessoas, culturas e comércio. O lado cartão-postal convive com o dia-a-dia dos imigrantes, seus descendentes de várias gerações e sua intensa produção de signos culturais, de letreiros de loja a cardápios de restaurante em várias línguas, brincando com os nomes, seus sentidos, as sonoridades e seus grafismos.
Mas é interessante superar uma visão folclorizante do bairro e dos seus habitantes, que seria olhar para seus moradores como seres pitorescos originário de outras terras: ; ‘coreano’, o ‘italiano’, o ‘judeu’ e assim por diante, como se as pessoas portassem uma etnicidade ou cultura ‘pura’ ou ‘original’. (…) Estas identidades existem, mas sempre em combinação com outras e em um jogo no qual os grupos reinventam sua cultura na troca com os outros, criando estratégias de manutenção interna de sua identidade e outra de consumo para o público ‘externo’.
Uma visita ao bairro é uma viagem a esse mundo em que ‘assim é se lhe parece’. O próprio comércio (…) convida a esse turismo de identidade, mas ele é apenas a superfície, a fachada de uma complexa vida diária na metrópole, de sucesso de imigração, de liberdade e afirmação étnica, cultural e religiosa, mas também de fracassos, de retornos, de frustrações, de ilegalidades no trabalho e de vidas sofridas, clandestinas e sem registro formal”.
Assim que passei a placa, procurei um café, sentei, tomei meu indefectível capuccino (adooooro), enquanto rabiscava minhas impressões daquelas primeiras horas e lia esse trecho que acabei de transcrever. Já eram mais de 4 horas da tarde, e eu tinha pressa de ver tudo o que pudesse. A mistura de culturas, arquiteturas, gentes e tempos é gritante. E deliciosa. Como diz o Roney mais adiante: “o descompasso geométrico das construções, com alturas, tamanhos, estilos, cores e estado de conservação inteiramente diferentes, cada um brotando para um lado” não deixa de ter seu charme. Os resquícios do passado industrial prioritariamente têxtil do bairro estão por todos os lados. Galpões que viraram centros comerciais, armarinhos, malharias, fiações. Lojas elegantes e caras numa rua, e logo ali depois da esquina, botequins, lojas de 1,99, pechinchas em bolsas e vestidos. Não desejo reforçar os estereótipos, mas meu espírito mulherzinha baixou num transe intenso, e quando eu vi, já tinha gasto mais de mil reais! Calma! Só mentalmente. Era o que eu teria gasto se tivesse comprado tudo o que cobicei nas lojas em que parei pra perguntar o preço. Na verdade, comportei-me estoica e prudentemente (mais ou menos) e minhas já sufocantes dívidas foram acrescidas de apenas cerca de 10% desse valor exorbitante. Mas veja se não valeu a pena: uma calça de malha (aquela viscose com elastano, de boa qualidade) marrom, lindésima, meio pantalona; uma camiseta de malha clarinha, com uma gola de cetim pérola, meio fru-fru, básica e elegantinha; um cinto tressê preto, de couro, fininho; uma echarpe bem levinha, de renda, ideal para o verão. Tudo isso junto, mais o café, o doce a que eu me referi no post anterior, e passagem incluída, somando pouco menos de cem reais. Não está mal, diz?
É uma tentação andar pelo Bom Retiro, aviso logo. Melhor voltar para a apreciação histórica. Pelo que li, além da maioria de italianos e judeus que chegaram no final do século XIX e princípios do XX, houve também grande quantidade de árabes, armênios, gregos, búlgaros. Eu, por exemplo, queria comer um falafel (sanduíche com variações comuns na culinária tanto de Israel quanto de diversos países árabes), ou uma bureka, na Casa Búlgara, mas na hora em que passei por lá, já estava fechada. Outro que ficou anotado para a próxima foi o Restaurante Acrópole, de comida grega (dãããã), na Rua da Graça.
Foi bom passar por lá de toda forma. Uma entrada estreita, em paralelepípedos, me chamou a atenção, bem como a placa sobre o portal, que dizia Vila Michele Anestasi. Antes mesmo de criar coragem para entrar, reconheci na casinha ao fundo, a tipologia característica das vilas operárias dos oitocentos. Meninos pequenos e descalços brincavam no pequeno pátio, e eu puxei conversa na cara de pau. Carinha de bolivianos, mas falavam português. Pedi para fotografar, já fotografando, e a mãe de um deles apareceu, grávida, desconfiada, cara feia e pouco assunto, mandando o filho entrar. Não admira. Se cem anos atrás essas vilas eram ocupadas por italianos pobres, hoje é moradia principalmente de bolivianos (e outras nacionalidades latino-americanas), que quase sempre vêm para o Brasil atraídos pela ilusão de uma vida melhor, e acabam instalados clandestinamente, trabalhando em condições de miséria e escravidão em fábricas de tecidos e confecções. Quando a mãe fechou a porta atrás de si, a fresta da porta me permitiu vislumbrar uma casa escura e pobre. Para a situação de tantos trabalhadores estrangeiros ou não, ainda presos em relações de trabalho de escravidão, por este Brasil afora, recomendo que acompanhem o blog do Sakamoto.
 Vila Operária
Na rua Três Rios entrei – já quase na hora de fechar – numa lanchonete de nome Burekita, onde bebi um refrigerante bem gelado (ô calor!) e comi um docinho, enquanto a família de proprietários judeus conversava ao mesmo tempo em que o guri de seus 4 anos brincava de aviãozinho de papel com o avô. E comigo, né, já que a potente aeronave cismou de pousar na minha mesa algumas vezes. Dali, mais uma caminhada, dessa vez por uma área um tanto esquisita, com oficinas, terrenos baldios e hotéis de categoria duvidosa. Faz parte. Mas logo cheguei de volta à movimentada Av. Tiradentes, de onde peguei o metrô para casa. Um dia inesquecível.
Pergunta: onde mais, neste imenso Brasil, eu posso, num dia só:
- ser abordada por um iraniano pedindo que eu tirasse uma foto dele em frente a uma catedral católica,
- ouvir emocionada um trio nordestino, vestido a caráter, com sanfona, zabumba e triângulo, cantar Asa Branca numa pracinha, enquanto uma multidão se forma em volta,
- depois conversar com uma família de americanos num mirante no alto de um prédio, bem no Centro, de onde se vê a cidade quase toda,
- fotografar um menino boliviano descalço e remelento, provavelmente imigrante clandestino, numa vila operária do século XIX,
- comer um doce azedinho e bom, sentada sozinha num bar de judeus e acabar brincando de aviãozinho de papel com o Abraãozinho, neto do dono (era mesmo o nome do guri)?
Resposta: Em São Paulo.
Eu saí do Rio dia 27 de janeiro, para passar cinco dias na capital paulista, visitando amigas queridas, algumas das quais eu não via há mais de um ano. No caminho me dei conta de que era a primeira vez que eu ia a São Paulo a turismo, com disposição de conhecer a cidade. Sempre fui rapidinho, para algum evento específico, e ia do local onde estava hospedada para o evento e voltava. Tá, algumas vezes rolou um restaurante ou um barzinho, sempre ótimos, mas sempre guiada por moradores da cidade, e eu nunca prestei atenção em muita coisa à minha volta durante as andanças de carro. Ou então, passava por São Paulo (de novo de carro) a caminho do sul, e via só a parte ruim: os engarrafamentos da Marginal. Definitivamente, de carro é o pior jeito de conhecer uma cidade.
Vou confessar: São Paulo me intimidava. Engraçado que eu já visitei cidades estrangeiras, grandes, onde nem sempre eu sabia falar a língua local, e jamais deixei de pegar um mapinha e sair só (muitas vezes sozinha mesmo, enquanto o marido trabalhava) para bater pernas, conhecer, fotografar. Pego ônibus, bonde, metrô, entro em lojas, exploro bairros mais afastados, paro para almoçar em lugares comuns (evito os restaurantes típicos para turistas, prefiro os cafés e bares onde vejo toda a gente da cidade sentada). Numa boa, adoro, e no final do primeiro dia já sinto como se tivesse a cidade nas mãos. Mas em São Paulo? Eu achava que ficaria paralisada, que ia acabar me perdendo, que todo mundo ia sacar que eu era uma carioca acuada. Pois vou logo dizer: foi mais fácil do que eu pensava, e muito mais agradável e emocionante também (fora o calor, que só não estava pior que no Rio, de onde eu me livrei dos mais de 40 graus que andou fazendo enquanto eu estava fora). Apaixonei.
É verdade que eu tive um guia fantástico, que eu recomendo muito, mesmo aos paulistanos (eu descobri coisas que minhas amigas locais desconheciam, hohoho). É um livro que eu ganhei de um amigo uns anos atrás e que andou comigo diariamente, debaixo do braço, na mão, na bolsa: Dez roteiros históricos a pé em São Paulo. Um projeto da Secretaria de Estado da Cultura, realizado pelo Programa de Ação Cultural e publicado pela Editora Narrativa Um, em 2007. Cada roteiro é escrito por um autor diferente: arquitetos, historiadores, antropólogos, artistas plásticos, com olhares, formações e experiências urbanas distintas, e uma forma particular de tecer sua narrativa e apresentar seu “pedaço” da cidade. Todos têm um mapinha com o trajeto sugerido, em que os pontos citados no texto estão assinalados, bem como um pequeno histórico do bairro ou região descrita e sugestões de quitutes a experimentar, edifícios a visitar, praças a desfrutar, hábitos e personagens a observar. MUITO legal.
Mas vamos lá. Eu cheguei numa quarta de tardinha. Na quinta, todo mundo trabalhando, eu resolvi que iria explorar o centro histórico a pé. A querida Juju, que me recebeu, pegou comigo o primeiro ônibus ali do Caxingui, onde eu estava (perto do estádio do Morumbi) até a Av. Paulista e de lá eu poderia tomar o metrô para quase qualquer lugar. Escolhi fazer este circuito aqui:

Foi na Praça da Sé, início do percurso, que o tal iraniano me pediu que eu o fotografasse diante da catedral, num inglês meio cheio de mímica, provavelmente porque ele não sabia se eu entenderia. Comunicação estabelecida, ele se ofereceu pra tirar uma foto de mim também, e me perguntou de onde eu era. Eu falei que era brasileira e perguntei de onde ele era. Irã. Que legal!
 Eu diante da catedral, depois a Praça da Sé vista das escadarias da igreja
O livro adverte: “o passeante curioso, ao ir descendo a Praça da Sé em direção ao antigo Pátio do Colégio, certamente vai trombar com meninos de rua, passar por cima de sem-tetos dormindo, desviar de camelôs, cruzar com ciganas ledoras de mão e ouvir a voz esganiçada de pregadores das mil seitas evangélicas que prosperam na cidade rica habitada exageradamente pelos muito pobres, atentos ouvintes embasbacados pelo som dos alto-falantes”. Só não vi as ciganas. Mas isso tudo faz parte das nossas cidades, e traduz nossa situação urbana. Seria tapar o sol com a peneira querer andar só pelos ambientes assépticos dos shoppings e bairros mais requintados, onde vigora a vigilância privada.
Sorri, portanto, e prestei atenção, absorvendo tudo, ali no famoso “triângulo” que compõe o núcleo de fundação da cidade, formado pela Rua de São Bento, que liga a igreja dos beneditinos à dos franciscanos, a Rua Direita, fazendo ângulo reto com ela e a Rua Quinze de Novembro em oposição a este ângulo. Bem próximo a uma das pontas do triângulo, o Pátio do Colégio ostenta uma reprodução da igreja e do colégio dos jesuítas, construída já na década de 70, em substituição ao conjunto original, do século XVI, há muito desaparecido (não esquecer que em meados do século XVIII, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de terras portuguesas). Há ali uma cripta dedicada ao Padre José de Anchieta, que expõe inclusive um dos fêmures do padre, como relíquia religiosa. Essa veneração por restos de corpos de santos me dá arrepios, juro que não entendo, mas passemos adiante.
 Pátio do Colégio
Esse capítulo do livro é escrito pelo arquiteto Carlos A. C. Lemos, e ele faz uma descrição bem… arquitetônica (!!!) de tudo. Vai apontando as obras mais importantes, com os nomes dos arquitetos e datas de construção, sem se furtar a elogiar os prédios e estilos que ele admira (o colonial autêntico, o eclético historicista da linhagem de Ramos de Azevedo, o próprio art déco) e descrever com visível desapreço obras mais contemporâneas e as neocoloniais, estilo que ele menosprezava. Olha só dois exemplos:
 Acima, a cobertura de Paulo Mendes da Rocha. Embaixo, a igreja de São Francisco e da Ordem Terceira
1) Falando da cobertura no Viaduto do Chá: “Muita gente achava inexpressiva tal cobertura art déco acoplada ao Viaduto do Chá, certamente também projeto de Elisiário Bahiana. Construção simples, nada semostradeira, na expressão de Mário de Andrade. Foi demolida e substituída por outra concebida por outro notável arquiteto, o nosso amigo Paulo Mendes da Rocha. Obra inteligente e até bonita, mas uma intrusa a clamar: ‘cheguei!’. As pessoas em geral têm que saber que Patrimônio Cultural não é composto apenas de obras belas; algumas históricas são inexpressivas. Aliás, quem é o fazedor de juízos de valor com procuração do povo para derrubar e construir?”
2) Falando da Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco: “guandiloquente construção neocolonial projetada por Ricardo Severo e Felisberto Ranzini para o Escritório Técnico Ramos de Azevedo – Severo e Vilares, por volta de 1932/33, para substituir uma legítima e mais que histórica construção colonial. Substituíram um original por uma contrafação num total desrespeito ao nosso Patrimônio Cultural (…) É uma pena. Agora ali está a Igreja de São Francisco, último remanescente do século XVII, toda encolhida e amedrontada pela massa insólita de alvenaria pretensiosa”.
Eu vou bancar a atrevida e discordar do eminente mestre. Em primeiro lugar, eu não chamaria a atual Faculdade de Direito propriamente de neocolonial. Seu frontão é neocolonial, mas o pórtico que marca o corpo central, com colunas coríntias, e a própria disposição e ritmo das aberturas, classicizantes, enquadrariam este edifício, a meu ver, no estilo eclético em seu sentido mais estrito (a mistura de elementos e linguagens distintas). Em segundo lugar, ele fala como se este edifício que aí está tivesse tomado direta e abusivamente o lugar do original colonial. Pois bem, como podemos acompanhar pelas imagens abaixo (eu infelizmente não fotografei a faculdade, apenas o conjunto franciscano), até 1862, pelo menos, ainda era de fato o convento anexo à igreja que servia de Academia de Direito. Colonial, ok. Mas a foto seguinte, de 1867, já mostra uma reforma bastante modificadora, de feição neoclássica, com o telhado cerâmico escondido pela platibanda, a adição de pilastras decorativas sugerindo apoio ao entablamento e a criação de uma entrada destacada por uma porta em arco pleno, encimada por uma pequena torre com relógio. Neste momento, o edifício já deixou de ser o colonial original, que Carlos Lemos adoraria ter preservado. Ao prédio hoje existente não cabe a culpa pela destruição do patrimônio, a meu ver. Se algum colega mais apto, lendo isto, quiser dar seu parecer, eu agradeço.
 À esquerda, 1862; ao centro, 1867. Fotos de Militão Augusto de Azevedo, em http://marcos.mazo.nom.br/site/node/187. À direita, pórtico em 2011. Fonte: http://www.panoramio.com/photo/24618569
Vamos prosseguir, que eu nem cheguei na hora do almoço e já vi que meu passeio ao Bom Retiro vai ficar pro próximo post. O texto de Carlos Lemos, de toda forma, é cheio de indicações preciosas, e, por causa dele, eu almocei na tradicional Casa Godinho, no térreo do edifício Sampaio Correia, primeiro arranha-céu paulistano, projetado em 1924 por Cristiano Stockler das Neves. Depois, parei para prestar homenagem ao Edifício Martinelli, de 1929, que para mim sempre estará associado a duas situações. A primeira, é que ele é mencionado no belíssimo livro Olhai os lírios do campo, de Érico Veríssimo e a festa de inauguração do prédio é um momento importante no livro. A segunda – vamos botar uma lenhazinha na fogueira da rivalidade rio-sãopaulo – é que eu sei que o Martinelli foi erigido na mesma época que o Edifício A Noite, sede da Rádio Nacional, aqui na Praça Mauá, e havia uma velada disputa para saber quem completaria mais depressa o primeiro edifício de concreto armado do Brasil, que seria o mais alto da América Latina naquele momento. Há controvérsias.
 Da esqerda para a direita: A Noite, Martinelli e Cavanagh. O primeiro foi tirado de http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1147645&page=4, os outros são fotos da autora.
O projeto do A Noite é do francês Joseph Gire (o mesmo do Copacabana Palace) e de Elisiário Bahiana. Foi inaugurado com 22 andares, em 1929, com 102,80 m, o que equivale em nossos dias à altura de um prédio de mais de 30 andares. O Martinelli acabou sendo mais alto, atingindo 105,65 m (o livro fala em 80 metros, mas as outras fontes pesquisadas todas batem em torno de 105). Porém, alguns autores consideram que só foi concluído realmente em 1930, tendo apenas a estrutura terminada em 1929. Ficamos assim: o Rio inaugurou primeiro, mas São Paulo fez o mais alto. De que adianta? Em 1935 ambos perderiam a majestade para Buenos Aires, com os 120,35 m de seu Edifício Cavanagh.
Foi ali do ladinho do Martinelli, na Praça Antonio Prado, que eu parei para ouvir Asa Branca, embevecida. Já falei que adoro a vida popular das praças? Guiada pelos conselhos de Carlos Lemos, segui logo depois para o Banespa, em cujo topo há um mirante com uma visão soberba da cidade. Desci de lá pensando que eu definitivamente amo as cidades. Esses centros meio sujos, tumultuados, de ruas estreitas. Buzina, edifícios antigos e novos lado a lado, mendigos, vendedores ambulantes, artistas de rua, ônibus, gente. Certo, podíamos não ter os mendigos. Mas não no sentido do “choque de ordem” do nosso prefeito carioca, que tira todos dos lugares mais valorizados da cidade, apenas para que não sejam vistos, como quem varre a sujeira para baixo do tapete, e assim crê que a casa ficou limpa. Podiam não existir mendigos no sentido de não existir tamanha miséria, tanta desigualdade e desamparo. Se é para eles existirem, então acho que devem mesmo estar diariamente às nossas vistas, confrontando nosso conforto e sucesso (e nossas responsabilidades) com o longo caminho que ainda devemos percorrer para extirpar essa chaga do país.
De resto, os cafés e botequins, os homens fumando de pé nas esquinas, o burburinho, os becos, as pessoas tão diferentes em suas cores, tamanhos e jeitos, em sua faina de formigas, tudo me fascina. Me deu um carinho, como se eu quisesse pegar São Paulo no colo.
No próximo episódio, uma tarde maravilhosa: a Estação da Luz, o Museu de Língua Portuguesa, Pinacoteca, e como lutar bravamente – e falhar! – na tentativa de resistir às compras no fantástico bairro do Bom Retiro.
* Thanks, Mario de Andrade!
Enquanto eu estou aqui terminando de colocar fotos e links no post sobre São Paulo, que deve ir ao ar amanhã, deixo vocês com um texto que eu li no final do ano passado, quando estava escrevendo o projeto de tese. O texto original está aqui, mas eu vou tomar a liberdade de copiar e colar, porque sei que muita gente tem preguiça de clicar em link
Antes, deixa eu dizer. Eu fiquei um bocado impressionada quando a polícia tomou a Vila Cruzeiro e o Morro do Alemão em novembro. Não pela ação em si, mas por um conjunto de fatores. Primeiro que, coincidentemente, eu estou propondo estudar estratégias de planejamento e de projeto urbano exatamente naquela área do subúrbio da Leopoldina, pegando os bairros de Bonsucesso, Olaria, Ramos e Penha, e estava ali, aos 45 do segundo tempo, escrevendo o projeto, quando o conflito todo se armou, colocando aquela área sob intenso holofote. Mas principalmente porque, independente de apoiar a presença do Estado nas comunidades mais pobres (e Estado é MUITO MAIS que segurança e policiamento), achei a cobertura toda muito “espetaculosa”, muito teatral, como que jogando uma cortina de fumaça sobre questões mais profundas, mas estruturais e mais incômodas, que precisam ser debatidas com urgência. Eu só não sei (?) se há interesse nisso.
Aí, uns dias depois, li este artigo e achei que tem bastante coisa boa aí para ser pensada e conversada. Acho que partilhei com alguns amigos na época, mas não pus aqui e acho que é o caso de retomar a discussão. Neste momento, estamos de novo, pela enésima vez, com o tema da corrupção policial e da “banda podre” nas manchetes dos jornais aqui no Rio, e o artigo fala disso também, e bem. Eu podia fazer um blog inteirinho só sobre esse assunto, com postagens diárias por muitos anos – política de segurança, polícia, tráfico, violência – e não chegaria perto de esgotá-lo. Mas não posso deixar de frisar duas coisas:
1) Como eu disse lá no Primeira Fonte, eu sonho com uma cidade em que a segurança é corolário de um estado de justiça social, e não locomotiva da ação do Estado. Todo mundo diz isso, mas é difícil colocar na prática: não basta tirar os traficantes e instalar delegacias, quartéis, UPPs. Tem que ter escola, creche, posto de saúde, saneamento, luz, água, telefone, transporte, lazer, comércio, praças. Tem que ter oportunidade real de melhoria de vida, emprego, casa digna, ser tratado com respeito. A segurança vem a reboque. Eu sei que em situações extremas, é preciso cuidar prioritariamente de desfazer a rede da bandidagem, mas se o resto não vier em seguida, não adianta de nada. Daqui a pouco está tudo como antes. Só vigilância, blitz e ações assistenciais não dão conta.
2) Sobre o título do post. Eu li o que eu vou falar agora em algum lugar, mas não guardei e por isso não encontrei a fonte para colocar aqui. Mas a grande questão é que quando a gente vê um monte de vozes se levantando para criticar a corrupção policial, principalmente vozes da “boa sociedade”, da nossa ilibada classe média (da qual sou parte, não me esquivo), a gente deve se perguntar com sinceridade: nós queremos MESMO uma polícia honesta, que não corrompa e não seja corrompida? Porque não tem mais ou menos nisso.

Não dá pra ser duro e inflexível na favela, e aliviar a barra do cidadão bacana que foi pego com documento vencido, aceitar uma cerveja pra não multar a criatura que estacionou em fila dupla pra deixar o filho na escola (ô, seu guarda, libera aí, é rapidinho!), trocar a multa por excesso de velocidade por 50 pratas e uma advertência faz-de-conta. Nós tentamos driblar a lei todos os dias, mas só com delitos insignificantes. Afinal, nós somos pessoas de bem, pagamos nossos impostos, tem coisa muito mais grave para a polícia se preocupar por aí, em vez de perder tempo com essas mixarias. Todos os dias os jornais têm alguma notícia sobre pais que vão à delegacia liberar seus filhos que atropelaram alguém porque estavam dirigindo bêbados, ou que foram pegos com drogas numa festa ou brigando numa boate, ou espancando uma prostituta ou um gay. Mas afinal, eles são jovens, estudam, são bons meninos, estavam só brincando, quem é que nunca fez suas artes por aí, não justifica tanto rigor, enquanto os bandidos de verdade estão soltos. Uma cesta básica e estamos conversados.
Estamos dispostos a ter uma polícia realmente comprometida com o cumprimento da lei, igualmente, para todos? Que não vai aliviar nossos insignificantes delitos de cidadãos de bem? Ou continuamos preferindo nos enganar de que é possível (e desejável) ter uma polícia que sabe “distinguir as coisas” e quebra o nosso galho mas não amolece com vagabundo? Porque, pra mim, é tudo uma coisa só. O problema é sistêmico, estrutural. Leiam o Luiz Eduardo Soares que é melhor:
LUIZ EDUARDO SOARES: A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –- supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu–, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –- ou sob tanta pressão — quanto os jornalistas.
Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:
(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.
(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –- em uma palavra, banido –, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?
(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –- nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes.
Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.
Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:
(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?
Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?
Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.
A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.
A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.
(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?
Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.
Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –- isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia — teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.
Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.
Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –- mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente.
O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção.
É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.
(c) O Exército deveria participar?
Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.
E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.
(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?
Claro. Mais uma vez.
(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.
Palavras Finais
Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente.
As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo.
A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social –um dos melhores gestores do país–, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.
O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar.
Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –- as bandas podres das polícias — prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?
As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça.
A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania.
A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.
E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino “gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada.
Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.
O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.
Estar de férias é bom. Hoje eu fiz as unhas, almocei com uma amiga querida, com direito a algumas horas de conversa de mulheres – marido, filhos, trabalho, idade, nossa relação com o corpo e com o mundo (eu sei que é tremendamente clichê e reducionista chamar isso de “conversa de mulheres”, mas isso é outro assunto). Depois fui ao cinema.
Eu tinha em mente mesmo sentar e escrever hoje, o que eu ia postar já está até pronto, é sobre São Paulo, faltava só acrescentar algumas imagens e links e publicar. Mas estou sob tão forte impacto do filme que acabei de assistir que preciso falar dele enquanto ainda está tudo borbulhando.
Fui ver Cisne Negro (The Black Swan), com o qual eu espero que a Natalie Portman ganhe o Oscar de melhor atriz esse ano.
Eu sou chorona e me envolvo emocionalmente com personagens e histórias, em filmes e livros. Por tudo o que eu já tinha lido e ouvido falar sobre este filme, eu esperava mesmo me impressionar. Só que eu não chorei desta vez. Fiquei tensa e atenta, acompanhando a história crescer. Atenta às minhas emoções e às angústias da personagem, analisando cenas e diálogos, processando imagens, luz, cores, enquadramentos, atuações. Enlevada com a excelência de tudo, as escolhas perfeitas de todos os detalhes. Mas na hora que o filme acabou e começaram a subir os créditos, eu me vi colada na cadeira; subitamente as lágrimas brotaram grossas e eu precisei me esforçar para conter uma forte crise de choro ali mesmo. Estou me segurando até agora, embora não consiga parar de tremer. Respirei fundo, fui ao banheiro lavar o rosto, as palavras começaram a jorrar na minha cabeça e eu achei melhor sentar para tomar um café e escrever (a cadernetinha, lembra?). Neste exato momento estou em casa passando a limpo o que saiu às pressas ao longo de uma grande xícara de capuccino.
Uma das coisas deliciosas do bom cinema (cada um sabe o que considera bom) é justamente permitir leituras várias, na medida em que encontra em cada espectador terrenos diferentes, predisposições diferentes, e desperta fantasmas, feridas, resistências, crenças, lembranças e afetos diferentes. Nenhuma dessas leituras invalida a outra, todas se enriquecem e complementam, numa grande e coletiva recriação da obra. Aliás, é por isso que eu odeio quando perguntam pra meninos e meninas de escola, obrigados a ler livros que não desejam porque “cai no vestibular”: o que o autor quis dizer com…? Porra, eu sei lá? Faz diferença? No máximo – e já é muito se eu der conta disso – eu sei o que aquilo disse pra mim, o que eu senti naquele momento, e que pode ser diferente do que eu sentirei se reler em outro momento da vida.
Meu café acabou e eu estou mais calma. A partir de agora, eu devo alertá-los de uma coisa. Se você não viu o filme ainda, é hora de parar aqui e voltar depois. Daqui pra diante é só spoiler, por sua conta e risco. Se você já viu, ou não vai ver, ou não se importa de saber previamente de cenas e desfechos, fique à vontade para entrar na conversa.
Basicamente, o filme mostra a trágica e delirante trajetória de uma jovem bailarina, competentíssima e dedicada, além de meiga e vulnerável, em direção à loucura, ao aceitar (ela mais do que aceita, ela deseja) o papel de Rainha dos Cisnes numa montagem da célebre obra de Tchaikowsky. Aí entram outros elementos, claro. A mocinha tem uma mãe tirana e manipuladora, ex-bailarina que nunca saiu do anonimato do corpo de baile, abandonou o palco quando engravidou, e agora esmaga a filha com a obrigação de vingar suas frustrações. Aflige ver, na primeira metade do filme, a garota como dócil massinha de modelar nas mãos da mãe, sublimando seus próprios desejos, ao mesmo tempo em que pressentimos a revolta sob a pele, manifesta em compulsões como se coçar ou cutucar até arrancar sangue. Ao mesmo tempo, há o diretor da companhia, déspota e sedutor (Vincent Cassel, magnífico), que molda suas estrelas a ponto de subjugá-las, para substituí-las quando seu desempenho já não rende o necessário para a companhia de dança. Sem falar da culpa que a novata sente ao destronar a bailarina que até então era a diva intocável, invejada e venerada. De todo lado há pressões e tormentos, que por habilidade do diretor do filme, nem sempre distinguimos de imediato se são reais ou alucinatórios. Prato cheio.
No balé Lago dos Cisnes (que música arrebatadora) há essa personagem, a mocinha que é enfeitiçada e vira um lindo cisne branco. Só o verdadeiro amor pode salvá-la. O amor chega na forma de um príncipe, mas eis que surge um cisne negro, que encanta, seduz e conquista o amor desse príncipe, levando-o embora. Em desespero, o cisne branco se atira de um precipício, pois entende que só assim terá a sonhada liberdade. A montagem visceral e inovadora idealizada pelo diretor da companhia e coreógrafo bam-bam-bam para a abertura da temporada propõe que a mesma bailarina interprete ambos os cisnes, o branco e o negro.
Nossa mocinha, Nina, é perfeita para o papel de cisne branco: técnica apuradíssima, doçura, inocência e entrega às raias do desamparo. Mas o cara duvida que ela seja também capaz de incorporar o lado sombrio, passional, do outro cisne. Ela ensaia exaustiva e repetidamente. Seus movimentos são tecnicamente irretocáveis. Ele empurra seus limites, quer mais, reclama, não está satisfeito. Ela não entende, quer saber onde está errando. Ela quer ser perfeita. Num dos momentos que mais me tocaram no filme, ele lhe diz que perfeição não tem a ver com controle, com disciplina. Perfeição não existe. Existe o maravilhamento que vem da entrega absoluta. É preciso se soltar, diz ele. Eu não entendi direito no original se ele diz “loose yourself” ou “lose yourself”. Eu sei que a pronúncia é ligeiramente diferente, mas meu inglês não deu pra tanto. Não importa. Loose é soltar, afrouxar. Lose, literalmente, é perder. Se soltar pode ser também se perder. Quando a gente se solta, abre mão do controle (o que pode dar a sensação de perder o controle) e isso pode assustar, travar.
Nina tem medo. E o sofrimento de parir/soltar esse personagem, leva-a gradativamente a perder a sanidade.
Esse tema é muito caro para mim. Eu fui uma criança e uma adolescente com esse ímpeto: ser a melhor aluna, a filha exemplar, a mocinha educada, simpática, gentil, inteligente, ser perfeita. Só assim eu seria amada. Desagradar a alguém, quem quer que fosse, era uma dor insuportável, uma vergonha e um fracasso. Não, meus pais não eram tiranos, isso era um traço meu, a minha forma de perceber o meu mundo e lidar com ele. Claro, eu sei, (claro hoje, tsc tsc tsc), a perfeição não existe. Lutar por ela, nesse nível, exige, entre outras coisas, abdicar de uma ampla gama de emoções. Domar, sufocar o cisne negro, mantê-lo sob controle (e isso cansa e aprisiona, eu garanto).
Todos temos dentro de nós luz e sombra, bondade e crueldade, generosidade e mesquinharia. Quando cindimos e exilamos de nós qualquer dessas dimensões, dessas facetas, há frustração, dor, e em casos muito extremos, como acontece no filme, pode haver loucura, esquizofrenia. Eu passei bem longe disso, vamos deixar claro, mas tive minha cota de sofrimento nessa batalha inglória e inócua. Demorei muitos anos para, já na minha vida adulta, conciliar em paz as duas partes em mim. Aliás, minto. Hoje eu vejo tudo de uma forma que eu não sei se sei explicar direito. Porque não são duas partes, como se existisse ora uma, ora outra. Eu não vejo a vida de maneira tão dicotômica. É tudo junto, misturado, camadas que formam um uno complexo e fascinante, imperfeito e maravilhoso. A falha, a falta, esse indizível buraco escuro e estranho em nosso peito, são parte integrante e inalienável de todos nós, o que nos faz humanos, o que nos faz andar.
Se eu aceito e integro isso em mim, eu não preciso ser o cisne branco OU o cisne negro, eu posso ser simultaneamente os dois e muito mais. Não existe mais isso de ter que ser educada, doce e inteligente ou então botar tudo a perder e ser porralouca, respondona, arrogante. Casta ou vagabunda. Careta ou drogada. Disciplinada ou desleixada. Perfeita ou fracassada. Sim, porque quando a gente se dá conta do horror, do peso de ter sido “a certinha” tanto tempo, o risco de pendular para o lado oposto é enorme. Principalmente quando a gente é muito jovem e tudo tem tanto contraste. E o pior é que a gente não percebe que a moeda é a mesma. Cara e coroa. Então, eu não preciso abrir mão de ser gentil para viver (em paz) com o fato de que eu posso ocasionalmente cometer uma grosseria. Inadvertidamente… ou não. Como todo mundo. Ser uma “garota meiga”, como a Nina é chamada pela mãe, não deveria impedir ninguém de sentir (e poder externar de alguma forma) raiva, inveja, ciúme, medo, desejo. Afinal, forçar a existência de um só lado é se mutilar…
Quando, no final do filme, o cisne negro eclode, a fórceps, de dentro dela, Nina precisa fazer os dois cisnes lutarem entre si, porque, na sua experiência desesperada, só um pode sobreviver. E quando só um lado existe, nenhum dos dois consegue viver, realmente.
Meu encantamento com a arte é esse. Ela nos permite vivenciar simbolicamente todos os limites. Vislumbrar ou fantasiar o que poderíamos ser se nosso próprio trem descarrilhasse. Uma pausa aqui. Eu lembro que, numa certa fase da adolescência, toda vez (foram poucas, confesso) que eu tinha essa sensação de que ninguém me entendia, e ficava tão exageradamente devastada que flertava com a idéia de morrer só pra ver os outros se martirizando por não terem me dado a devida atenção (adolescentes podem ser muito dramáticos e teatrais – e horrivelmente narcisistas), eu me trancava no quarto e ouvia Pink Floyd. De olhos fechados, no escuro. Especialmente The Wall e The dark side of the moon. Eu me emociono até hoje com a sequência de Time e The great gig in the sky. Me confortava realizar qualquer fantasia (principalmente as dolorosas) através da música. Aí eu chorava um balde, desanuviava e seguia a minha vida, feliz e contente. Não, eu não fui uma adolescente depressiva, longe disso. Mas é como eu estou dizendo: existe de tudo lá dentro da gente. Fim da pausa.
Pela arte, a gente pode se soltar sem se perder, experimentar sensações que não conseguiria externar de outra forma, se aproximar emocionalmente não só das nossas próprias (e de vez em quando ocultas) entranhas, como dos outros em geral, porque todas as emoções existem potencialmente dentro de nós e nos conectam uns aos outros, nos igualam de certa forma, ou estabelecem um denominador comum pelo menos.
Quando eu chorei no fim do filme foi porque, ao abandonar a “perfeição” da análise técnica e psicológica, eu relaxei e fui inundada de empatia por aquela personagem. Eu pude sentir, por um minúsculo instante, todo o peso de sua dor, de seu medo, de sua cisão interna, até sua trágica libertação. Pude sentir quão frágil é nossa humanidade, minha humanidade imperfeita, quão tênues são às vezes os véus que nos separam ou nos resguardaram, ao longo da vida, de caminhos mais turbulentos. Chorei por mim, pelas minhas falhas, mas também pela minha sorte e pela minha força, pela minha história e pelos meus próprios cisnes, entrelaçados em mim. Como numa dança contínua, eles se espreitam, se atraem, se afastam, se tocam, e por fim se abraçam e se fundem no que eu sou. E entre o branco e o negro eu sou também todos os infinitos matizes e nuances aí no meio. O cisne negro não é meu lado escuro e falho. Ele simplesmente é parte integrante de mim, uma das muitas manifestações do meu ser, em toda a imperfeita inteireza que me constitui.
O meu cisne negro não precisa ser destrutivo, no sentido de aniquilador, embora possa ser transformador. Às vezes é preciso destruir algumas coisas para que surjam outras novas, quebrar o ovo para fazer o omelete, sabe como? Quando eu abraço meu cisne negro e permito que ele venha à tona, ele pode ser uma força poderosamente criativa, propulsora e até bem-humorada. Buscar esse equilíbrio e essa integração é o espetáculo da nossa vida inteira.
Assim. (Odeio frase que começa com “assim”. Pior, só se começar com “então”. Mas vamos lá, que como quebra-gelo é bem bom).
Como eu ia dizendo, oi. Tudo bem? Você vem sempre aqui? (Tá, melhor pular esse pedaço).
Vou poupá-los das desculpas pelo sumiço, as reclamações pelo cansaço de fim de ano, bla bla bla. Eu tirei férias, é isso. Merecidas e necessitadas. Na verdade, continuo de férias. Não que eu não tenha o que fazer, mas atividades profissionais com hora e prazo marcado só em março. Nesse meio tempo, escrevi uma dezena de posts mentalmente e tive preguiça ou faltou oportunidade de colocar no papel/computador. Aliás, eu me dei conta recentemente de uma coisa. Eu escrevo melhor à mão. Acontece isso com você? O pensamento é rápido demais, e, por incrível que pareça, à mão eu acompanho melhor do que no teclado. E olha que eu digito rápido.
O que mais acontece é eu estar lavando louça, ou parada no engarrafamento, ou naqueles minutos antes de adormecer, e começar a pensar como se estivesse escrevendo. Saem coisas legais que eu jamais dou conta de reproduzir depois. Esta retomada mesmo já foi ensaiada váááárias vezes, desde dezembro, mas na hora que eu poderia escrever de verdade, cadê que eu lembrava aquilo tudo que eu tinha pensado? Aí o que me vinha à cabeça e aos dedos me parecia tão sem graça que eu deixava pra lá. Pras horas de engarrafamento eu já aprendi que existe o gravador de voz do celular! Alguns trechos do projeto que eu apresentei na seleção do doutorado, por exemplo, acabaram vindo de pensamentos fisgados em momentos assim. Em viagens e determinados passeios eu adotei a sempre recomendada e eficiente tática de andar sempre com uma cadernetinha e caneta na bolsa, e fazer anotações a cada vez que dou uma parada: enquanto tomo um café, ou contemplo uma paisagem. Às vezes entro em algum lugar tranquilo, uma igreja, por exemplo, só pra sentar e escrever o que me passa na cabeça. Para quem gosta, eu acho ainda melhor que a cadernetinha seja sem pauta, porque a gente aproveita para rabiscar desenhos toscos, que depois a gente não mostra pra ninguém, mas que são relaxantes e ótimos exercícios. Infelizmente, na maior parte das vezes em que eu começo a devanear, não há nenhum desses recursos à mão.
Devanear é uma palavra ótima. Eu vim aqui pensando escrever uma coisa e já enveredei por outro caminho completamente diferente. Voltemos, pois.
Tenho novidades para contar (não sei se ainda é novidade pra muita gente, mas vou contar – de novo – assim mesmo) e uns assuntos e links para partilhar.
1 – A novidade que já não é novidade, mas que está me deixando particularmente feliz neste início de ano é que eu fui aprovada na seleção do doutorado, no PROURB/UFRJ (Programa de Pós-Graduação em Urbanismo), onde serei orientada pela Prof. Dra. Rachel Coutinho Marques da Silva, que já me acompanhou no mestrado e com quem eu gosto muito de trabalhar. O título do projeto apresentado é Histórias, riscos e possibilidades nos subúrbios da Leopoldina. Pretendo, aos poucos, contar um pouco pra vocês do que se trata, em que projeto de pesquisa se insere, e ouvir opiniões e sugestões. Meus próximos 4 anos, portanto, estão comprometidos com a produção desta pesquisa. Eu sei que vou reclamar muito, vou ficar exausta, vou me perguntar onde estava com a cabeça quando me meti nessa furada, vou ler e escrever mais vezes por obrigação do que por prazer, mas vou saber o tempo todo que é exatamente isso que eu queria, pelo que eu trabalhei tanto, e cujos frutos me trazem tanto prazer.
2 – Em função desta nova atividade, que vai me acrescentar bastante trabalho e tomar um bocado de tempo, eu precisei abrir mão da função de professora na Universidade Veiga de Almeida. A diretora me ofereceu a possibilidade de tirar licença sem vencimentos por um ano, enquanto eu termino meu contrato de professora substituta na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, e eu aceitei. Em 2011, portanto, concentro minhas atividades na Ilha do Fundão, o que me poupa, pelo menos, um bocado de deslocamentos. Sentirei falta dos alunos, a quem eu sempre me apego tanto, e dos colegas de trabalho, com quem eu sempre tive um ótimo relacionamento, mas a internet está aí pra isso mesmo, facilitar a aproximação, minimizar as distâncias, possibilitar os contatos.
3 – Há muita coisa que eu gostaria ainda de falar sobre as enchentes de janeiro deste ano, que maltrataram tanto a Região Serrana do Rio de Janeiro e seus moradores. Poucos dias depois das chuvas mais fortes, fui convidada pela TV Brasil para um sobrevôo pelas áreas atingidas, para conversar um pouco sobre os efeitos destes fenômenos naturais sobre a cidade e o que pode ser feito para evitar estas tragédias anunciadíssimas, em vez de ficar cinicamente com cara de quem foi pego de surpresa (de novo?), ou jogar a culpa sobre a “natureza” e sua fúria inclemente. A entrevista foi ao ar em quatro blocos, na edição do dia 14 de janeiro, durante o telejornal Repórter Brasil, e pode ser vista na internet, aqui:
4 – Depois disso, as queridíssimas Esther Lúcio Bittencourt e Ana Laura Diniz, competentes jornalistas e delicadas amigas, de Caxambu-MG, que dirigem o jornal Primeira Fonte, também tiveram a generosidade de publicar um bate-papo comigo numa coluna chamada Correspondência Urbana. Entre outras coisas, esse tema das enchentes e da relação das cidades com o ambiente natural também foi abordado. Eu adorei participar, embora tenha deixado um monte de fios soltos, e pretendo voltar a trocar cartas e impressões com elas. No mesmo jornal há outros escritos deliciosos, como a descrição que Vera Guimarães faz da Belo Horizonte de sua mocidade universitária, ou as dicas da Menina Eva sobre Manaus. Passeiem por lá.
5 – Como não podia deixar de ser, estando de férias, tenho lido um bocado (embora menos do que gostaria, eu sou uma leitora lenta, essa que é a verdade) e tenho ido ao cinema de vez em quando. A entrega do Oscar vem aí, dia 27 de fevereiro, e eu estou aqui lembrando dos meus comentários no ano passado. Ontem fui ver A última estação (The last station), que retrata as últimas semanas de vida de Leon Tolstói, e adorei, achei um filme de enorme sensibilidade, que me tocou profundamente. Há um post pronto, já escrito sobre o assunto, a ser publicado em breve (a cadernetinha estava comigo na bolsa e eu rabisquei umas linhas lá mesmo, de luz apagada, enquanto me emocionava com as interpretações magistrais de Christopher Plummer e Helen Mirren). Com relação a livros, também há um post pronto sobre o que estou terminando de ler. Na verdade, foi um e-mail trocado com amigos que eu vou aproveitar descaradamente. O livro se chama Uma história de Deus, de uma das minhas autoras preferidas sobre o assunto, Karen Armstrong.
6 – Por fim, viagens. Ano retrasado eu fui a Montreal, o que rendeu algumas ótimas conversas aqui. Ano passado, estive em Milão. Este ano, especificamente semana passada, fui a uma cidade diferente. Cosmopolita, rica, enorme, com um centro histórico belíssimo, ainda que um pouco decadente. Uma cidade fascinante, com um monte de problemas e um monte de possibilidades, em que eu já tinha estado mais de uma vez, mas na qual eu nunca tinha reparado tanto, que eu nunca tinha visitado de coração tão aberto, e pela qual me apaixonei. Fui a São Paulo. Aguardem relatos (sim, a cadernetinha, de novo).
Está aberta, oficialmente, a temporada 2011 deste boteco.
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