Agenda

março 2009
D S T Q Q S S
    abr »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Nem tão recentemente

Cineminha. Ops, cinemão, no caso

Fui ver Gran Torino.
E amei.

Eu gosto do Clint Eastwood sem ser exatamente apaixonada por ele. Tenho umas reticências de vez em quando, de conteúdo e de forma, mas desta vez ele construiu uma pequena obra-prima que foi injustamente, ao meu ver, ignorada pelo Oscar. Ele merecia pelo menos estar concorrendo em alguma categoria.

Já há algum tempo ele tem trilhado um caminho de desconstrução dos mitos americanos. Mas diferentemente do Sam Mendes, que faz a crítica grandiloquente da falência do modelo suburbano e seu way of life, o Clint foca no indivíduo, nos valores imaginários que construíram o herói americano. De uma certa forma, ele tá desconstruindo sua própria carreira e os personagens tipo Dirty Harry que ele já encarnou.

Neste filme, ele cria um personagem grosso, mal-educado, veterano orgulhoso da guerra da Coréia, velho, solitário, racista, ultraconservador, homofóbico, o estereótipo do americano do meio-oeste que despreza e se ressente das mudanças do mundo e do seu bairro, cheio de imigrantes chineses. Ao mesmo tempo, é um personagem encantador, comovente, charmoso, com uns flashes de gentileza e fragilidade, que encarna, ainda que de maneira antiquada e torta, valores como integridade de caráter, hombridade, honra e mérito pelo esforço e pelo trabalho duro.

Clint em cena

Clint em cena

O cara é dos que acham que podem resolver tudo sozinhos, no melhor esquema schwarzenegger: Não mexa com a minha vida e com a minha propriedade, que eu bato, arrebento, dou tiro e faço justiça com as próprias mãos, já que o Estado não me garante mais nada e o mundo tá de perna pro alto com essas ganguezinhas aterrorizando geral! Mas até nisso ele fica o tempo inteiro brincando, de maneira amarga, com essa figura, tão cara aos americanos, do self-made hero. Ele fica ali, exatamente no limite, andando na corda bamba, entre encarnar o personagem e, por outro lado, expor a impotência, a inutilidade, a estupidez e até o perigo que esse tipo de atitude representa. E ele brinca com os sentimentos da platéia, que ora se escandaliza com a truculência do sujeito, ora torce por ele, como quem torceria por qualquer herói desses “deixa que eu resolvo, eu sou fodão”. Sabe esses personagens que lavam a alma da gente quando dão o troco, varrem a escória da face da terra, ainda que usando de métodos igualmente violentos? Pois é disso que eu tou falando. Ele põe esse personagem do avesso.

O elemento imigrante ali é um toque a mais de reflexão, sobre xenofobia, globalização, a América apresentada como a pátria da diversidade (é engraçado que os personagens que vão aparecendo são polacos, como o próprio Walt Kowalski representado por Eastwood, irlandeses, italianos), e ao mesmo tempo como ameaçada de perder sua identidade por esse mesmo melting pot. Abre parênteses: os polacos, irlandeses, italianos – todos europeus – são os personagens que fazem parte do mesmo grupo social que o protagonista. Os arruaceiros são latinos e chineses. Tudo bem, fecha parênteses. Mas eu acho que esses são aspectos um pouco menores no filme, ainda que não menos importantes.

Enfim, eu gostei muito, me emocionou, me despertou empatia, e tou recomendando. Se alguém for ver, me conta o que achou também?

PS: eu escrevi esse texto por e-mail pra um grupo de amigos, com quem eu sempre troco idéias sobre filmes e otras cositas más. Aí a Monix, uma das amigas do grupo, perguntou se eu me importava se ela publicasse no Duas Fridas, e eu disse que não, já que eu achava que ainda ia demorar pra botar o Urbanamente no ar. Só que eu fiquei mexendo nisso no fim de semana e o blog ficou pronto, e me deu vontade de estrear minha coluna de cinema com ele. Como ela ainda não tinha publicado, eu “pedi o texto de volta” e estou morrendo de vergonha, que coisa tão feia de se fazer! Só me resta agradecer a ela imensamente, pela (usual) elegância, pela compreensão, e pela generosidade em ajudar uma blogueira iniciante a ter o que publicar nos primeiros dias.

10 comentários para Cineminha. Ops, cinemão, no caso

  • vera

    ana, me aguarde. voce sabe como adoro palpitar sobre filmes. sucesso aqui e em todo lugar! beijos

    Ueba!

  • Eu tô esperando pra ver este filme com o Candelabro. Aliás, vcs dois vão se dar muito bem, pq ele tb adora fazer comentários sobre todos os filmes que vê.

    Vê mesmo e pede pra ELE vir aqui comentar. Já pensou que luxo, um comentário internacional?

  • Cláudia Marcanth

    Dearest,
    Show de bola! Sinto cheiro de primavera (daquelas bem européias), brotos verdes exalando aquela promessa de vida. Amei! Amei! Como estou orgulhosa de você!
    E se vai ter papo sobre cinema, aí eu gostei ainda mais, que você nasceu para falar sobre a tela gigante!
    Bisous, direto de Nice,
    Cláudia.

    Oba! Vem sim, vem sempre, fale à vontade, eu adoro suas opiniões, seu olhar arguto e bitter-sweet, que bom que vc gostou!

  • ge 40 graus

    Oi Ana, parece que até agora fui a única a assitir o filme. Fui de improviso porque a opção número um estava lotada. O Clint Eastwood está na minha memória há muito tempo, estou com 43 anos e então ainda me lembro de Dirt Harry, da macaca (companhia constante) e daquela loira que foi mulher dele na vida real. Tive também uma super amiga de faculdade que era louca por ele e me fez assistir a todos seus filmes. Gosto dele, acho que envelheceu bem, ainda conserva traços de homem de verdade, mesmo do alto de seus 80 e tantos anos… e o filme ? Posso falar a verdade ? Ele me entediou, me emocionou, cansou, quase fez dormir e no final estava chorando…. então não sei dizer ao certo, minha filha de 12 anos adorou, chorou muito, essas relações de suposto pai/avô + suposto filho adotado ou neto me comovem, aulas de comportamento, relações paralelas, verdadeiras… legal mas o ritmo estava arrastado, dou nota 7.3, não assistiria de novo, parabéns pelo blog, alguém indicou, entrei e gostei, sucesso, gostei das primeiras palavras !!! Bjs, Ge.

    Oi, Ge, que bom que você veio! Cinema é assim mesmo e é o que eu mais gosto, pode despertar as mais variadas emoções e respostas. Eu também acabei chorando no final, a música é composta pelo próprio Clint, e é ele que canta a primeira estrofe. Mas não por isso, eu me emocionei mesmo com o desfecho da coisa, a saída que ele arranjou pra resolver a situação. Você tem toda razão, ele envelheceu muito bem. Beijos, volte sempre.

  • Aninha, eu adoro o Clint mesmo ele possuindo apenas duas expressões faciais: com chapéu e sem chapéu.
    Depois de ser eternizado como homem de western na decada de 70 e 80 o cara me vem com seu ultimo filme de caubói, Unforgiven, em muito boa companhia (Gene Hackman e Morgan Freeman) e diz a que veio e porque fica.
    Adorei seus ultimos filmes, Garota de Ouro, Cartas de Iwo Jima, aqueles todos. Não perco Clint no cinema e esse eu tembém verei, muito provavelmente em dvd, mas que vou comentar, vou sim. Beijos!

    Com chapéu e sem chapéu? Huahuahuahua! Vc é ótima!

  • rabbit

    Bom dia e muito prazer

    visitando esse blog via idelber, gostei muito do que estou vendo
    e gostei muito de ter ido ontem à noite assistir o Grand Torino
    faço minhas, se você permitir, as suas palavras sobre o filme e sobre o clint (olha a intimidade!)

    parabéns pelo blog e se você tem falta de tempo, imagina nós leitores vorazes agora de blogs também

    abçs

    Puxa, rabbit, é uma honra ter você aqui, fique à vontade! Grande abraço.

  • Cláudia Marcanth

    Paula, ontem, animada pela sua dica e já saudosa de cinema de um modo geral, peguei a Bella no braço e levei-a para ver o Clint. Encontramos a dupla Zé/Ruth saindo da sala onde entraríamos. E eles estavam emocionados. Concordo com ele: o Clint sabe contar, conduzir uma história. Eu e minha filhota achamos o filme excelente e ela comentou que essa questão da globalização/xenofobia é algo que o professor de geografia tem falado bastante em sala de aula. Então: aquela coisa boa – filme bom e ilustrativo.
    Mas o que eu quero falar aqui nem é sobre o filme em si, mas do que me aconteceu na sala do Artplex. Bella e eu sentadinhas: do lado dela um grupo de 3 senhoras educadíssimas (estávamos com medo de que continuassem o animado papo que rolava antes das luzes se apagarem). Do meu lado, um homem esquisitíssimo, 50 anos mais ou menos, sozinho, inquieto e roendo as unhas SEM PARAR durante o filme todo. Aquilo me incomodou muito! Quando ele notava que eu estava olhando feio para ele, ele parava de roer e mordia os dedos, fazendo barulho e me deixando completamente enojada. Foi uma tortura e eu não tinha opção, já que os lugares são marcados e a sessão estava cheia. Quando saímos, Bella me disse que quem estava parecendo uma velha era eu, que eu tinha que me desligar e pronto. O fato é que quando vou ao cinema, já vou ansiosa com a possibilidade de me irritar com celulares, conversas paralelas, barulho de pipoca. E agora, os malucos também!
    Puro desabafo de quem já adorou ir ao cinema e agora começa a preferir o esquema sofá/dvd…
    Beijos,
    Cláudia

    Nem me fale, eu amo cinema mas tenho tido más experiências também…

  • Oxente, mas se o texto era seu, tem que agradecer o quê? Eu é que teria que agradecer o empréstimo, mas como eu te disse no sábado, só pedi porque não sabia que o Urbanamente já estava quase saindo do forno – e achei um desperdício deixar esse texto tão bom escondido na caixa de entrada do e-mail, né? Bom, agora só falta eu ir ver o filme, talvez essa semana ainda.
    Bjs

    Mas esse negócio de dar e depois pedir de volta é feio assim mesmo! :-D

  • E que bom que o Urbanamente não demorou para ir pro ar.

    Parabéns, sucesso! Voltarei muitas outras vezes.

    Volte, sim, Fer, eu vou ficar muito feliz. Sou grande admiradora do seu trabalho, by the way.

  • rodrigo

    Ontem assisti ao filme e achei demais. Mas tive uma visão diferente, menos individual. Acho que o Eastwood estava também pensando em como se faz uma nação.

    Por um lado, o fato dele personificar o troglodita norte americano proe excelência torna todos os seus filmes alegóricos, já que não dá para pensar “apenas” no personagem do filme, mas em todo o mito norte-americano que o ator encarna – não por acaso, um comentário fala de como ele re-conta a história do oeste americano n’Os Imperdoáveis.

    Dentro desta visão, se me permite, acho que a questão da migração não é secundária. A questão da família diz muito sobre o respeito às tradições, necessárias para manter a sociedade.

    Finalizo contando a última cena do filme, portanto se alguém não o viu, por favor pule esta parte. Dentro disto que falei, a cena final, do jovem chinês dirigindo o Gran Torino (símbolo dos EUA, que numa cena, Eastwood chega a perguntar: – por que todos o querem?) é para lá de provocativa.

    Já me alonguei demais. Abraços,
    Rodrigo

    Oi, Rodrigo! Uma das coisas que me fez gostar tanto desse filme é justamente por ele permitir tanta riqueza de leituras, e a que você faz é muito pertinente também. Alongue-se sempre que quiser, por aqui, que eu adoro conversar. Abs.

Deixe um comentário

 

 

 

Você pode usar estes tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>