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Nem tão recentemente

Urbanidades

Eu recebi hoje um e-mail de uma amiga que vem bem a calhar com alguns temas que eu quero discutir aqui.

Ela mora em Sorocaba, com a mãe, uma senhora de mais de 80 anos, em um prédio de apartamentos. Entre seus vizinhos, numa casa próxima, estão alguns rapazes de uma república de estudantes. Ora, os “meninos” só têm aula à tarde, e então passam a noite em rodadas de jogos e música, dormindo a manhã toda. Ela é professora e tradutora, trabalha muitas vezes em casa, no computador, e precisa acordar cedo pro pão de cada dia. Já viram onde eu quero chegar, certo?

A rapaziada faz uma barulheira que só eles acham que não incomoda ninguém, até duas, três, quatro horas da manhã. Ela (e quem sabe quantas outras pessoas) passa a noite em claro, comprometendo a qualidade do dia seguinte, e ainda tem que ouvir as pessoas dizendo que a solução é se mudar, ou usar tampão de ouvido, ou, como os próprios rapazes sugeriram, tomar um calmante pra dormir. Ah, sim, claro que ela já foi lá, amigavelmente, se apresentou, explicou que entende e tal, e pediu a eles que, por favor, combinassem um horário pra terminar o barulho, além de um nível mais baixo pra altura do som. Não deu certo. Ela passou a ligar pra polícia, que evidentemente tem mais o que fazer. Depois de um bom tempo assim, essa semana ela perdeu a paciência e não só chamou a polícia como foi à delegacia de madrugada, praticamente obrigou o policial a fazer a ocorrência (afinal, esses meninos no fundo são tão bonzinhos, é só fazer uma advertência, tsc tsc tsc) e bateu a campainha da casa deles acompanhada de dois policiais, o que resolveu o problema de dormir naquela noite. A seguir, contatou uma advogada e pretende entrar com um processo contra eles, coletivo ainda por cima, porque nesse meio-tempo arrebanhou o apoio de outros vizinhos do mesmo prédio.

Nossa, como dá trabalho a gente garantir direitos que deveriam ser mais óbvios, frequentes, sei lá, não quero usar a palavra “naturais” porque eu sei que não tem nada de natural nisso, é tudo uma construção política e cultural. E recente ainda por cima. Aí, conversando mais um pouco sobre o assunto, ela manda esse mail que resume bem o que eu acho que é a atitude que todos nós deveríamos ter:

Uma vez eu fui a um médico em SP e na frente do restaurante ao lado do prédio do consultório tinha uma vaga mas com um caixote colocado no meio para impedir os carros de estacionar.
Eu perguntei se ia ter entrega e o guarda do restaurante disse que não – eram 2 horas da tarde.
Eu desci do carro, tirei o caixote e estacionei.
O guarda veio me dizer que a vaga era do restaurante.
Respondi que quem tem vaga na rua é farmácia, na frente do restaurante só se tivesse uma placa determinando horário de entrega.
Ele ficou me ameaçando de riscar meu carro, furar o pneu, o diabo a quatro e eu disse que se eu chegasse e tivesse qualquer coisa com meu carro eu chamaria a policia, mas antes peguei o segurança do prédio como testemunha.
O homem ficou possesso mas eu estacionei ali.
É o cúmulo a gente pagar pagar pagar e não ter direitos.
Eu reclamo, chamo policia, vou aos jornais, chamo o rádio e a televisão.
Minha mãe brinca que eu vou ser vereadora, eu não quero ser nada, só quero meus direitos de cidadã respeitados.
Saio para passear o cachorro com sacos de lixo para catar as sujeiras que ele faz.
Não jogo nem bituca de cigarro na rua.
Cuido da minha cidade como cuido da minha casa.
Ah, eu exijo ter meus direitos!
O procom hoje funciona porque as pessoas começaram a botar a boca no trombone.
Se o supermercado não te der o troco direitinho vc reclama e os caras piam fino.

A gente não é menos que ninguém. Nem mais!

11 comentários para Urbanidades

  • vera

    ana, aprendendo com a gisela, talvez eu saia do comodismo. beijos

    Eu também tenho que aprender, Vera…

  • Eu também tenho, Vera.
    Estou aqui esperando horas decentes (domingo de manhã tb não é hora de fazer barulho, né)para aplaudir de pé.
    Mas se tem cartão de congratulações eu assino. Abaixo-assinado contra vizinho chato ganha meu apoio.
    Gisa, se precisar de ajuda, grite.
    Mas, ó, discordo sobre a prisão da outra. Roubou tem que ir presa. Por que só quem rouba pote de manteiga tem que ir presa? Quem rouba milhões não? ela foi presa agora porque continuou roubando depois de ser solta… enfim, este é outro assunto.

  • Cláudia Marcanth

    Moro no 301, vocês não podem imaginar o que rola no ap 302 – de tudo, tudo mesmo… e sempre depois da meia-noite, que o cara chega tarde do trabalho. É festa, jogatinas e muito, muito sexo… Eu, senhôra casada há quase 23 anos, sei que os jovens têm urgência de viver, mas será que têm licença para matar os vizinhos de noites mal-dormidas? Como não consegui muito através da síndica, do livro do condomínio, do porteiro e até de outros vizinhos, uso o causo como uma lição para os meus filhos adolescentes. Dá para “curtir adoidado” sem sair da lei, I guess…

    Claro. E não é só da lei, que a lei nunca dá conta de tudo mesmo. É uma questão de civilidade, de enxergar o outro, em vez de estar inebriado pelo próprio umbigo, de se reconhecer como parte de uma polis, de uma coletividade. A gente começa a pensar em retaliações do mesmo calibre, mas aí… bom, de alguma forma tem a ver com o Gran Torino de que eu falei no outro post também.

  • Ana, to me achando de estar aqui citada na sua casa (por sinal linda).
    Eu acho que os cidadãos tem que se mobilizar, acho que temos direitos E deveres.
    E Claudio, só sou contra a prisão da mulher da Daslu porque acho que não é pelo que ela fez, é apenas e tão somente uma retalhação.
    Eu quero ver o povo da Daslu na cadeia mas tb quero ver todos os deputados, senadores, prefeitos, secretários de estado, ministros enfim, qualquer um que roube o povo!
    Não é não prender a mulher da Daslu e prender o ladrão de galinha. É fazer que a lei seja igual para todos, mas todos mesmo.
    E a gente sabe que isso no Brasil só vai acontecer o dia que o ladrão de galinha e a familia dele pararem de vender o voto.
    O dia que os brasileiros pararem de achar que pra tudo “tem jeitinho” e se orgulharem disso.
    Temos muito a percorrer. Mas eu sou uma otimista nata!
    Ana, beijos amorosos a você e essa familia linda.

    Gi, eu que agradeço. E corroborando o que vc disse, eu acho que os ladrões de galinha só vão parar de vender voto no dia que o voto deixar de ser obrigatório. Mas eu tou pra ver o Congresso aprovando uma reforma dessas…

  • Nápaula, dá licença deu falar coa Gi? Obrigada!
    Gi, tem um método que não resolve coisa nenhuma mas é beeemmm legal de fazer com os moleques mal educados.
    Assim ó: vc já sabe que eles dormem de manhã, não sabe? Então, combine com os demais moradores dos apartamentos vizinhos e todos liguem seu som em altura que seja impossivel qq ser humano dormir e de preferência deixem as portas abertas para que o som chegue ao corredor e consequentemente ao apartamento deles com maior fidelidade. Das 8 as 11. Será um inferno, eu sei, mas não será a glória eles virem reclamar?

    O problema é que não é no mesmo prédio, suzi. E aí, já pensou o inferno que é pros outros vizinhos, também? Eu acho que ela fez certo em ir à delegacia.

  • Mani

    Ná Paula,

    Eu concordo com voce! A gente tem de fazer valer nossos direitos!!!beijocas….

  • adriana

    Já fiz isso de chamar polícia (no quartel) e funcionou tão bem q o dito vizinho mudou, pena que não tenha aprendido nada, aliás perturbação do sossego público é crime em qualquer horário e eu criminosamente já liguei som nas alturas às sete da matina (e contra o mesmo EXvizinho).
    Amei teu canto. Tu é bem lindona.

    Obrigada, Adriana. Às vezes as pessoas não aprendem nada. Mas se elas puderem ser “treinadas” a não fazer as coisas em face das sanções que virão, já é um adianto. O clima de impunidade, de “é assim mesmo” é que não pode rolar, certo?

  • Moniquinha

    Fazer valer nossos direitos,dá trabalho,né?
    Mas, se não formos atrás,ai que não se conquista nada mesmo.

    Gi,
    adorei sua atitude,alguém tinha que dar o pontapé inicial
    para esses”meninos”(futuros o que,hein?ô,os profissionais que teremos pela frente) finalmente também serem incomodados,pq,ter que responder pela bagunça,perde-se tempo,espero que o tempo perdido,seja em festinhas não dadas.

  • Je

    Problemas com vizinhos é uma coisa que simplesmente não há como evitar nos dias de hoje… Tenho uma reunião de condomínio que irá pegar fogo, pois um dos moradores possui um cachorro que toda vez que fica sozinho em casa late desesperadamente, é insuportável. E sendo que a dona já foi notificada, já foi falado amigavelmente… mas o pobre bicho segue latindo madrugadas inteiras sem parar, acabando com o sono dos outros. Isso faz lembrar que a liberdade da gente vai até onde começa a do outro, porém as pessoas esquecem isso. Nada contra animais em apartamentos, festas, ouvir música, mas desde que respeite o meu vizinho.

    Eu não poderia concordar mais com você, Je.

  • joão

    ana, me deixou com um peso enorme na consciência…
    eu também brigo, esbravejo, quero ser respeitado e respeito. saio com o pink – que agora se chama pepino, não levo sacos plásticos mas as folhas das amendoeiras quebram o galho, não jogo papel no chão, na praia reolho até lixo de outras pessoas etc…
    mas acho tão james dean isolar o cigarro no chão!
    ah! são cada vez mais raros encontrar no meio de tanta campanha anti tabagismo uma razão ainda charmosa para continuar fumando… afinal, não temos a tiffany’s para comer um sanduíche na frente da vitrine enquanto seguramos o resto das roupas que usamos na noite anterior ao suposto café da manhã, e menos ainda usamos piteiras…
    e agora?!

    Eu acho que você tá vendo muita Audrey Hepburn! rsrsrsrs
    Mas ninguém tá dizendo que nós todos temos que ser um poço imaculado de virtudes, o mundo seria chatíssimo! É só uma questão de estarmos mais atentos ao fato de que vivemos no coletivo, devemos respeito uns aos outros, temos limites. E você é um gentleman, que eu sei.
    PS: Por que o Pink agora se chama Pepino?
    Bjs

  • Ana Rec

    Me sinto exatamente como a Gisela e fico ainda mais indignada qdo, explicando meu ponto de vista, as pessoas olham pra mim e soltam um “ah, seria o certo, claro, mas aí já é pedir demais”… como assim ‘pedir demais’, cara pálida???
    Exigir o mínimo do seu direito de cidadã que acorda cedo todos os dias pra garantir com que pagar seus impstos é pedir demais, agora? Desde quando, né?
    É nessa hora que eu fico com a sensação renitente e absurda de que ‘num sou desse mundo’, mas sou, hein! Não aceito que as distorções nivelem por baixo a minha capacidade de me indignar.

    Yeah!

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