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Nem tão recentemente

E pra você, o que é uma cidade?

Há alguns anos, eu tive que escrever um texto sobre a percepção de cidade que eu tinha. Transcrevo agora, para vocês. De lá para cá, andei lendo umas coisas que já me fizeram aprofundar algumas dessas idéias, ou criticá-las também. Mas é um bom começo.

O que é cidade? É quem? É quando? É onde?

É por quê?

É evidente que, a esta altura, tenho noção de que cada cidade são várias, mediada cada imagem, para cada um, por suas experiências, sonhos, expectativas, desejos e frustrações.

No princípio, era a barbárie. A selva, a lei do mais forte, o comer o que tinha, o dormir onde dava, o ser sem saber que era. Depois vieram a consciência, a reflexão, o trabalho, o querer mais, o querer melhor, o querer diferente, a civilização, a história. A cidade. Ao preço de reprimir os instintos, criar a lei, identificar o certo, punir o errado, sublimar desejos. Ao preço de se tornar homem. Segundo Freud, ao preço de um tremendo e eterno mal-estar, que ao mesmo tempo nos incomoda, nos confronta com sombras e heranças escondidas, e nos impulsiona, nos possibilita o convívio e a experiência urbana, nos põe em movimento.

A cidade é, assim, o lugar que resultou desse salto, o habitat do homo urbes. A cidade – e tudo o que ela significa, em cada uma de suas faces – é o lugar, por excelência, onde se manifestam e resolvem os conflitos, se criam e dissolvem as tensões, onde se encontra e se desencontra todo tipo de gente, de jeito e de atuação. É o lugar da diferença, e por conseguinte, da negociação constante, muda ou deflagrada, cordial ou belicosa.

O bárbaro ainda está aí, à espreita, e quanto mais esgarçados os laços que nos fizeram urbanos, que nos fizeram cidade; quanto mais fragmentados nossos vínculos de urbanidade e solidariedade, mais frágeis nos tornamos, mais vulneráveis ao retorno à selva, à violência. Por baixo da pele de cidadãos, ainda habita um homem cheio de potência e contradição.

A questão é que não há e nem haverá mais inocência. Mesmo o selvagem que irrompe aqui e ali tem alguma reflexão sobre seus atos, alguma idéia, por absurda ou desprezível que possa parecer a outrem. Há valores em jogo, todo o tempo. Vários, distintos. Valores irrefletidos e repetidos em coro, decalcados de representações alheias. E valores bem pesados, frutos de uma lucidez aguda e pungente, ou pelo menos de uma busca genuína dessa auto-avaliação. Mas desde que se fundou a primeira cidade da história, se fundou também a idéia e a prática do palco. Somos atores e platéia, críticos, diretores, produtores, figurinistas, bilheteiros, lanterninhas, de um grande e ininterrupto espetáculo coletivo. Olhamos e somos olhados. A cidade é um conjunto das representações que fazemos dela. E nela. É um mosaico em movimento, um caleidoscópio.

Em si, esta definição já é uma representação, uma imagem. Neste caso, conscientemente, uma alegoria.

To be continued…. ;-)

5 comentários para E pra você, o que é uma cidade?

  • Cláudia Marcanth

    Nunca pensei sobre o assunto, mas ao pensar sobre a cidade, o mosaico, o caleidoscópio, lembrei-me de um romance do Luiz Ruffato, autor brasileiro e contemporâneo. Na orelha do livro “Eles Eram Muitos Cavalos” lemos:

    “Tomado em seu todo, se poderia dizer que a personagem principal de …Cavalos é a cidade de São Paulo, como se contemplada do mais alto de seus edifícios, ou do avião que se aproxima, à noite, dos aeroportos de Congonhas ou Cumbica.
    Em terra, o elenco imenso de habitantes da metrópole assustadora, mas cheia de uma poesia de sons, luzes e formas em movimento e, sobretudo, seres vivos, humanos e bichos, cada um, por mais humilde que seja – como um vira-lata ou um índio -, formando um universo tão rico de matizes quanto a própria cidade.”

    Sempre achei que a literatura é uma das formas de transmissão de saber mais eficientes, pois chega lá no afetivo, entra no coração das coisas. Mas atenção: esse romance não é daqueles tradicionais, em que o autor pega o leitor pela mão para contar uma história. Ruffato, premiadíssimo escritor, é conhecido pela sua audácia de usar a forma para expressar suas idéias. Portanto, ao representar a cidade, ele não deixa de lado essa realidade do todo que é composto pelas múltiplas pedrinhas de um caledoscópio. Leitura diferente, mas sem non-sense, perfeitamente legível. Fica aí a sugestão para a turma que gosta de literatura.

    Cara, me empolguei!
    Bjs,
    Cláudia.

    Adoro quando você se empolga. Todo mundo aí anotou a dica?

  • pensar que a china moderna foi construída a partir de um game, sin city, onde os grandes espaços são privilegiados, me empolga, principalmente se cotejo com a cidade medieval e as nossas, embasadas naquelas: estreitas ruas, amontoadas casas, poucos jardins, muitos mercados, postos de vendas e trocas, como se vê em outros games, age of empires ou cesar, e nas projeções para o futuro, como em blade runner etc…. tudo porque as cidades nasceram do medo. a partir do medo da morte, de ser subjugado por conquistadores, os seres humanos inventaram seus conglomerado onde não seria possível a privacidade pois ela remete ao reconhecimento de nossa finitude. e mais, a família que constitui a cidade provê sua subsistência e sobrevivência e possibilita a inclusão, fazemos parte de… e isto permite que nos reconheçamos como um todo, do qual somos parte, olha o paradoxo.

    obrigada por sua instigação. desculpe a prolixidade.

    Fala mais, Esther. Não liga pra esse papo de prolixidade, que aqui não tem disso. Eu gosto de ouvir você.

  • vou pegar carona no comentário da Claudia pra contar uma estória minha que pouca gente na bogosfera conhece. Logo depois de formado em arquitetura me deu uma vontade de estudar mais e acabei indo fazer mestrado em letras, semiótica, e a dissertação, minha estréia desastrada no mundo acadêmico, foi uma comparação entre a Belo Horizonte real e aquela descrita por Pedro Nava em Beira-Mar. As discrepâncias são muitas, a cidade de Nava muitas vezes não coincide com o traçado da Aarão Reis. Mas qual delas é mais real? Qual delas é mais cidade, o amontoado de ruas e prédios que já não existia quando Nava escrevera ou a narrativa deliciosa e por isso eterna de seus livros?

    Uau! Revelações bombásticas e inéditas, isso tá ficando bom.
    Eu, que mantenho com a literatura uma relação apenas de leitora, ainda que voraz, sempre tendo a crer nas cidades imaginárias, literárias, poéticas. A experiência da cidade é tão, ou às vezes, mais vívida que a traça dos arquitetos. Aliás, acho que nós nos beneficiaríamos imensamente de uma relação mais estreita com a literatura.

  • Ana, eu fico tão feliz que você aderiu ao blog. Porque você escreve tão bem e as suas imagens são tão ricas. Que bom, que bom, que bom! Eu li ou vi em algum filme que eu infelizmente não lembro o nome que a cidade é um grande jogo de espelhos. De nós mesmos e também da arquitetura. Vida longa ao blog e muitos beijos pra ti

    Meu querido, que delícia receber o seu carinho! Volte sempre, viu?

  • Menina…que mote bão!
    Eu vivo numa cidade diferente, pra dizer o mínimo. Brasília consegue mesclar a impessoalidade e a solidão das avenidas largas, com o calor do sol tão próximo e o verde que molha os meus olhos na sêca(olhai eu colando meu caquinho no caleidoscópio). …mas padece de uma quase assepsia (é assim que escreve isso?). Não tem gente andando a pé nas ruas! E as favelas ficam longe dos olhos. E tudo aqui dentro é tão organizadinho, que quase impede a ação humana, no sentido de ver a cidade se mover pra cima, pros lados, ir inchando…crescer. Eu estranho esse crescimento esparramado, horizontal, que vc precisa procurar pra ver, sabe?
    Mas é a minha cidade e eu adoro. Aliás, quando vc volta mesmo?

    beijos, queridíssima. Isso aqui ta bom demais!

    ps: apresentei o Urbanamente lá no blogue, pros desavisados de plantão.

    Que bom que vc acha, porque eu tô adorando! De tudo que tem em Brasília, sabe o que eu mais gosto? Você e a Vera! Bjks, vou lá ver minha “apresentação”.

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