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Nem tão recentemente

Cinema como experiência urbana

Nossa, esses últimos dois dias foram meio corridos por aqui, e eu nem consegui vir escrever nada! E olha que eu arrumei um caderninho, onde tenho anotado as idéias que me ocorrem, e já tem uma dúzia de assuntos que eu gostaria de dividir com vocês! Enfim.

Fui ao cinema duas vezes esta semana. Vi Simplesmente Feliz, do Mike Leigh, e Palavra (en)cantada, da Helena Solberg. O filme do Leigh eu tinha visto o trailer, tinha achado assim assim, aí a crítica foi tão elogiosa que u resolvi arriscar. Achei assim assim. Bom, simpático, mas não arrebatador. Um pouco prozac demais pro meu gosto. Não é que eu prefira filmes sombrios, pelo contrário. Mamma mia, por exemplo, foi uma poderosa injeção de alto-astral e eu amei cada minuto. Mas esse, não sei, me pareceu o tipo de “jogo do contente” que forçou um pouco a barra. Já o documentário da Helena Solberg, com depoimentos de diversos artistas sobre a ligação entre música e literatura, é fantástico. Eu me emocionei diversas vezes, e talvez, mais tarde, desenvolva mais minhas opiniões em algum texto. Enquanto isso, pra quem andou falando de literatura nos comentários do post anterior, eu recomendo muito.

É uma pena que alguns bons filmes venham em tão poucas cópias. Eu gosto muito desses filmes “menores”, que correm por fora dos grandes esquemas de distribuição e divulgação, que são exibidos em salinhas mais tranquilas, onde eu posso ficar longe da orgia de sacos mega combo de pipocas e gente atendendo celular durante a sessão. Aqui no Rio tem umas salas assim. O texto que se segue é sobre uma delas.

Supostamente, este post é a continuação do último, sobre a sensação de cidade de cada um. É que na época em que eu escrevi o texto aí de baixo, eu estava fazendo o mestrado, e nos foi proposto escrever sobre um exemplo de experiência urbana. Era uma disciplina meio solta, meio maluca, mas que fazia bastante sentido, pelo menos pra mim. A gente passou o semestre lendo crônicas do Rubens Fonseca, poemas e textos variados de literatura. No fim, deu pra perceber que havia uma costura entre eles, que era o fato de todos expressarem uma experiência, uma sensação, sobre o que é viver numa cidade, ser parte dessa construção coletiva. E os professores (eram dois) pediram que cada aluno elegesse uma experiência pessoal e a descrevesse. Eu escolhi o cinema, e especificamente um cinema, aqui em Botafogo, que hoje se chama Espaço de Cinema e pertence ao Grupo Estação (na época tinha o patrocínio de um banco), e que era então o meu preferido. Ainda gosto muito dele, mas hoje abriu um outro, no mesmo esquema, mas mais moderno, confortável e próximo pra mim, que eu gosto ainda mais ;-)

Ah, por coincidência, os dois filmes a que eu assisti essa semana foram nesse cinema. O texto saiu assim:

cinema

Adoro cinema, e vou sempre que posso, normalmente toda semana. Mas desta vez foi diferente. Eu estava anormalmente alerta para os significados de cada gesto, de cada atuação ali levada a cabo, alerta para a metalinguagem em questão. Eu estava “fazendo” este trabalho, desta disciplina, ao vivo. Eu estava “atuando” o trabalho. Como vocês não estavam lá para testemunhar isso, só me resta transportar o que sobrou da experiência, em memória e sentimento, para as palavras.

Nem o filme, nem o lugar, foram ao acaso. Assisti ao “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho, no Espaço Unibanco de Cinema, em Botafogo. Tudo ali era vivência de cidade, 100%. Descobri que aquele lugar, em especial, é minha síntese de cidade. Meio idealizada, talvez, mas bolas, não é essa a proposta?

Primeiro, é um lugar de encontro. É público. Começa num ante-espaço, que é a bilheteria, num recuo de calçada, que já é o espaço propriamente, mas é também o “lá fora”, onde convivem os que querem entrar, os que estão saindo, os que só estão passando, os que se protegem da chuva ou do sol sob a marquise, os que pedem esmola, os que vendem bala, os que vendem a entrada.

Mas não é preciso pagar para entrar. Paga-se para ver o filme, mas pode-se entrar de graça no saguão para ficar olhando o movimento. Ou tomar um café (bom, nesse caso, volta a intervir o dinheiro).

É um lugar de múltiplas funções. Há o óbvio, que são as salas de cinema, mas há também um café, e uma loja misto de brechó e livraria. Há o exercício de uma função, para a qual foi projetado concretamente o espaço, e há o prazer da permanência, da convivência. Assistir a um filme, em si, é um ato de fruição ao mesmo tempo individual e coletiva, muito similar à fruição que se tem da vida urbana cotidiana.

O bar/café remete à comida, à dimensão física da condição humana, ainda que já irremediavelmente associada aos valores culturais e estéticos de que lhe impregnamos e com os quais lhe vivemos a experiência. O brechó/livraria remete à arte, à dimensão espiritual e transcendente da vida, alimento igualmente fundamental à sobrevivência e à experiência urbana. O fato de ser brechó, de vender coisas usadas e alguma antiguidade, nos lembra, ademais, dos vários tempos da cidade, da reciclagem, da vida impregnada nos pequenos objetos de todos os dias, no afeto emprestado aos artefatos.

É um lugar de diversidade. “Tribos” diferentes frequentam suas salas e espaços, e, sobretudo, colaboram para que aquele lugar exista. Gente de tipos variados, jovens e velhos, mais conservadores ou mais descolados. Gente de classes sociais diferentes, que todos os dias contribui para o funcionamento desse espaço e participa, em maior ou menor grau, de sua vida.

É um lugar onde pulsa o movimento. Onde há fluxos, de informação, de gente, de dinheiro. Onde há produção, consumo, criação. Num mesmo espaço físico, a cada dia transitam vidas diferentes, que configuram paisagens diferentes. E mesmo o espaço físico muda. Acompanha uma moda, uma necessidade de reciclagem, de manutenção. Tudo fala de efemeridade, de transitoriedade. De movimento.

Não foi gratuita, também, a escolha do filme assistido. Um edifício, uma arquitetura, fala do suporte físico da cidade. Mas o que lhe dá vida e significado é o elenco de tipos que por ali passam ou habitam. Foi como eleger uma representação cinematográfica para a vida urbana.

Cidade para mim, é isto. Uma rede de interações e representações em cartaz 24 horas por dia, sem ensaio. Alguns aplaudem, outros vaiam, todos interpretam.

Você me contaria alguma experiência sua, algo que o fez sentir parte da cidade, parte de alguma coisa conjunta, que você ajuda a construir, e fortalece seus vínculos com os outros co-cidadãos?

10 comentários para Cinema como experiência urbana

  • Mani

    Ná Paula,

    Quando eu era jovencita. de grupo de jovens, eu fazia trabalho em comunidades carentes. construimos casas. limpamos ruas. ajeitamos escola. sinto falta disso…de fazer parte de algo maior.

    Que legal, Mani, eu não conhecia essa sua faceta. Acho esse tipo de trabalho voluntário espetacular.

  • Thiago Medeiros

    Caramba! Pode fazer a leitura de frequentamos pequenas ‘cidades’ dentro da cidade?

    Eu, para ilustrar o barulho, o caos, as relações às vezes truncadas, o estresse (mas que até dá um prazer), falaria do supermercado! hohohohoho

    Falando nisso… qual é esse cinema mais perto de vc, hein?
    té, moça!

    Fala do supermercado, oras! Claro que a leitura de “pequenas cidades” dentro da cidade é possível. aliás, é muito pertinente.

  • Thiago Medeiros

    Vem cá… como faço pra escolher um boneco mais digno nesse negócio, hein??

    Hahahaha, eu acho que não tem como, não. É aleatório o negócio, nada pessoal :-D

  • Cláudia Marcanth

    Japão, outubro de 1999, 8:00 hs da manhã. Eu e o husband dentro de um trem lotado que ia de Osaka para não me lembro agora. Silêncio, todos têm celular, mas ninguém liga para ninguém, ninguém recebe telefonema de ninguém. Alguns dormem em pé, outros olham para frente, com o olhar distante. Uau, que agonia! Minha “latinidade” louca para furar aquela imobilidade, louca para se derramar!

    O trem para de repente. As pessoas não se mexem, nem se entreolham. Cinco minutos, dez minutos, nem um movimento. Finalmente o alto falante informa qualquer coisa em japonês. Reação do povo? Retirar o celular da bolsa com um mínimo de gestos, falar qualquer coisa bem baixinho e bem rápido. Imagino que estão avisando a quem interessar possa que estão presos no trem, que vão se atrasar. Depois? Nada. Ninguém fala com o vizinho, ninguém se mexe, ninguém bufa, ninguém solta um palavrão, ninguém surta.

    Foram QUARENTA minutos assim. Eu, subindo pelas paredes mentalmente, constrangida até em trocar palavras com o husband (já pensou, quebrar aquela “suspensão” coletiva? Deus me livre!).

    O insight: eu amo a minha cidade, o meu metrô. Adoro saber que quando ele para repentinamente eu vou poder aliviar a minha ansiedade com os outros passageiros do vagão, sejam lá quem forem, quantos anos tenham, quanto ganhem por mês. Que todo mundo vai bufar e que isso vai criar aquele clima mágico de que formamos um grupo, que a solidão da vida urbana se dissolve na hora do aperto em uma acolhedora comunhão.

    Acho que viajei um pouco na maionese, não sei se a minha experiência tem a ver com o que você perguntou no post, mas isso foi a primeira coisa que me passou pela cabeça, so…

    Outra coisa, aqui não vai nenhum juízo de valor. A cultura oriental é muito diferente da nossa e eu jamais serei capaz de saber quais são os códigos que eles usam para viver urbanamente, como fruem suas cidades, etc. Eu só queria apontar que às vezes é no choque das diferenças que a gente sente qual é a nossa nacionalidade, qual é a nossa tribo.

    Ai, me aloguei de novo.
    Bjs,
    Cláudia.

    Fantástico. Alongou nada, e tem tudo a ver, claro. Você devia cogitar ter um blog seu também, Cláudia, tou falando sério, escrever para que outras pessoas leiam o que você escreve, eu sempre me encanto tanto.

  • Ana, transportes urbanos me dão bem essa “sensação” de cidade que você indicou no texto por conta da diversidade e da aglomeração de pessoas. Acontece que há mais ou menos 15 anos moro num lugar em que o sistema de transporte é mínimo e, por isso, quase todo mundo tem carro, moto, bicicleta ou anda a pé. Ficamos todos meio isolados um dos outros. Aí, lendo os comentários, concordei com o Thiago, porque supermercado é uma coisa bem cidade também. E me lembrei da paixão que tenho por feiras livres, que, por sinal, também não existe aqui em Resende… ai, ai… acho que me perdi nos pensamentos…

    Olha, NáPaula, seu blog tá maravilhoso. Mas ele tinha que ser assim. Quem já teve a oportunidade de ver seus textos em outros contextos (hihihihi… ficou engraçado), sabe que você mandaria muito bem como blogueira. Beijos e sucesso, porque a gente tá mesmo muito precisada de blogs bons!

    Ah, Clau, eu tou adorando isso! Mas sabe o que eu acho? Que uma das coisas que faz um blog ficar legal é a caixa de comentários. E o bate-bola com vocês aqui tá sendo de primeira! Bjs

  • Eu ainda estava na faculdade… então, dá quase para se perder no passado… mas na época me juntei a um grupo de teatro amador. O espetáculo falava de ecologia (olha a antena). Fazíamos umas apresentações nas associações de bairros e na periferia. Ai.. numa manifestação fui falar uma poesia (imagina eu, falando poesia) porque a prefeitura tinha decido derrubar umas árvores CENTENÁRIAS, pois estavam atrapalhando o trânsito – mais o ponto de ônibus. E o fato do prefeito ser o dono da empresa de ônibus é mera coincidência, claro. Esta não foi a minha primeira percepção de cidade, mas é uma das que me orgulho… eles não derrubaram as árvores.

  • Ana Paula, ontem meu amigo Vicente Del Rio, que voce muito provavelmente conhece, me mandou o link desse video que eu acho tem tudo a ver com as questoes que voce levanta nesse post e no anterior. Vale checar
    http://www.youtube.com/watch?v=ZrDxe9gK8Gk

    Puxa, Fernando, que vídeo lindo! Sim, é isso mesmo que eu acho que a gente deve se perguntar e pensar, quando se fala de cidades. Não só os prédios, as ruas, mas as pessoas, são elas que importam realmente.
    Claro que eu conheço o Vicente. Ele deu aula na FAU/UFRJ na época em que eu era aluna da graduação, só não foi meu professor. Abração!

  • Ana, demorei pra ler esse post, venho comentar com “dias” de delay. Bom, primeiro que, lendo, só pude ir agradecendo mentalmente por já ter podido ir a esse cinema com você, viver essa experiência contigo, ser um pouco cidadã da tua very own cidade. Depois cheguei ao final e me dei conta de que eu nao conseguia lembrar da experiência de fazer parte de uma cidade. Foi lendo os comentários que concluí que o meu sentimento de pertença urbana vem mesmo é andando de ônibus. Ou passeando no mercado público. Ou no parque. Me dei conta, também, e com um susto, de que nunca senti esse sentimento aqui na minha cidade. Sempre foi fora, sempre em viagem, sempre me senti incluída em ocasiões nas quais eu era, mesmo, uma outsider. Acho que tem a ver com a minha convicção de que bom mesmo é se unir pela arte, pela vida cultural, pelas perspectivas e pela vontade de transcender. Eu não quero me sentir cidade pelos laços da miséria, da ignorância, do desvio de verbas municipais. Nao quero me sentir unida aos outros cidadãos pelo desprezo à própria cultura, pelo desdém ao artesanato local, pela falta de prestigiar o mercado público só porque “meu deus, isso é coisa de pobre, eu vou é no hipermercado-com-praça-de-alimentação”. Não quero me unir para reclamar e, aqui onde eu moro, já desisti de tentar me unir para construir. Falando assim fica meio melancólico, mas é um sentimento bom.

    Nossa, que lindo e sério isso que você disse. Eu acho que a gente de fato tem experiências diferentes quando está numa outra cidade. A gente fica mais atenta, presta mais atenção, e até frui mais. Na nossa própria cidade, muitas vezes a gente tá tão mergulhado no redemoinho do cotidiano, correndo de um lado pra outro, que é difícil ter essa percepção.

  • Nao vou pedir desculpas pela verborragia pq eu sei que vc gosta, ta? ;)

    É que continuei pensando (e colocar as gentes pra pensar é dos teus grandes talentos, nao é?) e queria te perguntar se vc acha muita loucura ou só um pouquinho eu dizer que, às vezes, encontramos as cidades num plano virtual – como uma comunidade na internet, que se apropria de espaços (virtuais e reais), de linguagem, de regras de conduta… Dá pra ser cidade sem ser cidade? E não tem às vezes cidades virtuais que parecem até mais fechadas e mais solenes (e mais dificeis de mudar) do que as cidades de concreto e tijolo? To falando asneira?

    ***

    Ana, obrigada, ta? Por ter feito o blog. Mesmo. Eu sou uma pessoa melhor porque você tem blog, sabia? Eu penso sobre coisas que eu nunca pensaria, sob pontos de vista que eu nunca ia ser capaz de adotar, eu me conheço melhor através do teu texto. Você me faz uma pessoa melhor e há tanto a melhorar em mim. Um beijo.

    Ô, Paulinha, você me deixa encabulada, querida.
    E você não disse asneira nenhuma. Essa é uma grande questão, e se você quer saber, está ocupando um monte de teses e teorias de pensadores na área do urbanismo e da tecnologia. Porque a gente tende a reproduzir as estruturas mesmo. O meio é outro, mas as pessoas são as mesmas. A idéia é a gente tentar pensar o que pode haver de tão específico numa cidade e que não dá pra ser reproduzido em outros experimentos. Pra mim, cada vez mais, é a questão da diferença, da convivência e do aprendizado da diferença. Vou falar mais sobre isso, me aguarde.

  • nao gostei odiei

    O que eh que vc odiou tanto, gongas?

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