Agenda

abril 2009
D S T Q Q S S
« mar   mai »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

Nem tão recentemente

Mania de cercadinho

Isso aqui é uma provocação inicial, um teaser, vamos dizer assim.

Eu tenho pensado um bocado sobre esse assunto dos muros de contenção das favelas, no Rio. Tem tantos aspectos que podem ser debatidos, que isso merece um post mais demoradinho, um pouco de pesquisa e leitura, e é isso que eu estou fazendo.

Enquanto isso, vou levantar só uma lebre, que me incomoda profundamente, e que é um fenômeno que por si só, precisa ser pensado e questionado, e não dado como normal e/ou inevitável: a proliferação de “cercadinhos” na nossa vida urbana. Não só no Rio de Janeiro, não. Como tendência geral. Tendência à fragmentação, a criar grupos estanques de pessoas, de coisas. Tendência a reforçar a cisão entre grupos sociais distintos, a criar barreiras, a excluir. Seja com o intuito de enfatizar a exclusividade e o privilégio, como os currais vip dos shows, seja disfarçando com o argumento da preservação ambiental, como é o caso da atual discussão envolvendo as favelas do Rio, seja escancaradamente alegando medida de segurança, como os muros de Gaza, o muro polêmico e recente entre duas cidades argentinas, os muros da fronteira dos Estados Unidos e do México, e outros que, se ainda não existem, são cada vez mais abertamente defendidos por tanta gente.

Em todos esses casos, eu acredito que, pra começar, há duas coisas em jogo. Uma é a falência cada vez mais evidente da nossa disposição e capacidade para negociar, porque negociar significa em primeiro lugar que você considera o seu interlocutor como igual, como alguém que tem tanto direito a voz quanto você, e por isso, negociar implica em ceder de vez em quando, e nós toleramos cada vez menos perder espaço ou ceder o que quer que seja. Voltarei a esse ponto. A outra coisa é que eu suspeito muito de todo papo que começa a ficar hegemônico a ponto de virar cortina de fumaça. É o que acontece com o tema da segurança, hoje. Independente dos reais riscos que a cidade do Rio (e tantas outras) oferece, das estatísticas da violência, existe um discurso sobre segurança que é preconceituoso, excludente, e encobre as verdadeiras questões e problemas que afligem nossas cidades.

Eu quero desenvolver um tiquinho mais essas idéias. Enquanto isso, convido vocês a darem uma espiada no que o Fernando Lara escreveu a respeito. Leiam os comentários, que é onde o debate esquenta. Pensem a respeito, deixa eu tomar aqui um fôlego, e vamos conversar sobre o assunto.

10 comentários para Mania de cercadinho

  • Alline

    uebaaaaaaa, adoro qdo vc vem aqui colocar minhoca na minha cabeça de vento!
    Vou ler o Fernando Lara e depois volto.
    Beijos

    Hahaha! Servimos bem para servir sempre!

  • Adorei seu questionamento, mas o que eu quero mesmo saber é onde foi tirada a foto do topo desta página. :-)
    Bjs

    Hahaha, sei lá, qual é a foto que apareceu pra vc hoje?

  • Cláudia Marcanth

    Já que sou amadora no assunto, vou atacar de “associação livre”:

    Cercadinho – crianças e cachorros. Deve ser porque precisam de coisas concretas para entender a noção de limite. Ironia: alguns cachorros chegarão ao estágio de abstração, alguns humanos, entretanto…

    Cavernas, fortificações – estão na nossa história, desde sempre. Às vezes penso que os muros é que são naturais, já o desejo de abrir as portas e portões seriam conquistas de uma cultura avançada, que luta contra o “tique” de criar muros protetores. E o mais difícil, como já dizia Freud, é reprimir os impulsos para viabilizar a civilização.

    Panelinhas – o maior pesadelo dos adolescentes. Muros invisíveis mais asfixiantes do que muitos muros de concreto!

    Por último: O Muro na literatura. Não tem nada melhor do que aquele conto do Herman Melville, “Bartleby, the Scrivener”. É uma história que foi escrita em 1853 e se passa em NY, mais precisamente em um escritório na Wall Street. A palavra “wall” aparece várias vezes no texto, literalmente ou disfarçada em sinônimos, metáforas e símbolos.

    Concordo com a Alline – adoro quando alguém põe minhocas na minha cabeça. E você é expert nisso!
    Bjinhos,
    Cláudia.

    Tou só anotando. Essa caixa de comentários tá chiquérrima. Não conheço o conto do Melville. Mas você falou uma coisa que eu achei muito interessante: as portas e portões é que são conquistas da cultura. Vou pensar sobre isso.

  • Do pouco que ouvi e li (confesso)me pareceu apenas uma medida segregatória. Por enquanto não tenho conhecimento para externar qualquer opinião, mas de pronto, não me pareceu nada simpático.
    Beijo.

    Mais do que segregatória. O que tem de conceito e idéia embutida nisso aí, debaixo da capa do argumento que tentam nos empurrar goela abaixo não tá na história.

  • Reflexões importantíssimas de serem feitas, Ana. Não pude deixar de cantarolar mentalmente os versos do Rappa: “As grades do condomínio/ São pra trazer proteção/ Mas também trazem a dúvida/ Se é você que está nessa prisão”.

    Antes de mais nada, benvindo (eu sei lá como escreve isso!), Ina! Eu adoro essa música. Dentro do espírito do post eu diria mais: paz sem voz não é paz, é medo!

  • Alvaro

    Tema muito interessante, e que dá pano pras mangas, Ana Paula!

    Esse retorno ao conceito da cidade murada foi desenvolvido de maneira bem interessante pelo italiano Roberto Vacca, em seu “A nova Idade Média”.

    Realmente vivemos um tempo que busca, obsessivamente, a identificação (dos supostos iguais) e integração com tais iguais, e a consequente exclusão dos demais.

    Vive-se, então, a ilusão da segurança que seria dada pelo exílio voluntário para um espaço ocupado unicamente por aqueles que (supostamente) se conhece.

    Vivemos ainda um paradoxo interessante: a obsessão contemporânea pela visibilidade (o ver e ser visto, a notoriedade pela superexposição), que se conjuga, de maneira contrastante, com a busca (também obsessiva) da preservação da intimidade e dos espaços privados. Mais um dos paradoxos pós-modernos…

    E aí os cercadinhos proliferam: os geográficos, os físicos, os sociais, os virtuais.

    Exatamente. Nossa, que interessante esse título do Roberto Vacca. Vou procurar, porque é uma coisa que vira e mexe eu penso. Que a gente tá vivendo uma espécie de retorno à Idade Média, em muitos aspectos, não só físicos, mas de idéias também, com um monte de obscurantismo e tal. Mas há diferenças também, de escala, de um monte de coisas.

  • Ana,

    aqui nos EUA tem se falado muito na formacao de cluster de pensamento unico, aos poucos as pessoas de esquerda vao se mudando para cidades mais de esquerda e os de direita vao se mudando para cidades mais conservadoras e o abismo vai aaumentando a ponto do dialogo ficar impossivel. Minha propria experiencia diz isso, em Ann Arbor nao convivo com ninguem que tenha votado no Bush ou no McCain (ou que tenha coragem de dize-lo abertamente). Isso eh bem triste.

    Nem fala. Ouvir vozes diferentes é importante até pra afiar o nosso próprio pensamento. E pra aprender, sempre, claro.

  • oi Ana,
    a-do-rei!!!
    Perái que eu vou ali ler ele todinho e volto.
    Beijos,
    Mel

    Ô, querida, que bom ver vc aqui. Tás boinha?

  • Ana Paula,
    sou eu de novo!
    Pq você demorou tanto?! Aff, estou gostando tanto… vc escreve tão bem… devorei quase todo e vou voltar sempresempre.
    Saudade!
    mais beijos,
    Mel

    Volta sim. E eu vou lá no Dona Melina te visitar. Eu não tinha esse endereço de blog, é novo?

  • “a falência cada vez mais evidente da nossa disposição e capacidade para negociar, porque negociar significa em primeiro lugar que você considera o seu interlocutor como igual”.

    THIS. Vendo os comentários internet afora, fica muito latente a generalização favelado=bandido.

    Mas o que mais me intriga mesmo é essa necessidade de diferenciação. De um marcador. Não basta sentir-se superior, é preciso mesmo uma barreira física.

    Pra mim, isso é a cultura da disseminação do medo. Pra alguma coisa deve servir nos fazerem sentir tanto medo, do Outro, de tudo, e é isso que eu quero também investigar.

Deixe um comentário

 

 

 

Você pode usar estes tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>