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Nem tão recentemente

Another brick in the wall – Parte 2: Tear down the wall!*

(Essa vida de mãe e dona de casa atrapalha a minha assiduidade internética, ai, ai)

tornwall

Eu tenho um monte de pontas soltas, de fiapos de pensamento que tenho tentado, em vão, costurar num texto contínuo e que faça sentido. Talvez tenha que desdobrar o assunto em mais posts, vamos ver. Por enquanto, seguem algumas notas, com temas em construção:

1 – A primeira coisa é que nós falamos da favela como se ela fosse um objeto inerte do qual podemos dispor à vontade, como um sofá velho que atrapalha a reforma da sala. Muita gente boa, ao falar da favela – remove favela, não remove favela, urbaniza favela – raramente tem em mente que está lidando com as vidas, os cotidianos, a rede de relações familiares, econômicas, sociais, de milhares de pessoas. Gente que tem trabalho, e uma rotina de horários e trajetos, que investiu o dinheiro na construção ou melhoria de suas casas, ainda que ela seja um barraco de dois cômodos e uma laje, que tem filhos matriculados na escola ou na creche, que tem conta anotada no caderninho da venda. Como é que a gente dispõe da vida dessas pessoas assim, sem perguntar o que elas acham? Os moradores das favelas do Rio de Janeiro, hoje, precisam ser considerados como atores legítimos, com direito a voz e participação em qualquer decisão que envolva o destino de suas comunidades.

2 – Ninguém cogita remover um condomínio de classe média, mesmo que ele seja uma ameaça ambiental. E olha que na Barra da Tijuca, aqui no Rio, só pra dar um exemplo, tem um monte deles que causa danos seríssimos ao complexo lagunar da Baixada de Jacarepaguá. O despejo de esgoto in natura desses condomínios e shoppings é grandemente responsável pelo assoreamento e consequente diminuição da superfície das lagoas, com a morte de inúmeras espécies vegetais e animais do ecossistema de restingas, outrora rico e exuberante nessa região. Por que a diferença de pesos e medidas?

3 – Será porque o pessoal que mora nesses condomínios paga seus impostos? As Fridas já falaram, e muito bem: IPTU não é taxa condominial, pra começar a conversa. Pagar um IPTU mais alto não lhe dá mais direito do que aos outros de usufruir de serviços prestados pelo Estado (caso ele os prestasse, mas enfim). Todos temos direito a uma vida digna e a uma cidade habitável.

4 – Eu temo a naturalização do discurso sobre cercar as favelas. Tudo bem que a proposta em questão atualmente é construir muros no limite da favela com a mata (e com que presteza os jornais e revistas se adiantam em apresentar matérias que garantam que é isso mesmo). Mas todas as referências a ela falam do projeto de “cercar as favelas”. Cercar é enclausurar, rodear de cercas, muros, barreiras. E eu acho que não é sem malícia que fica por isso mesmo. A gente vai repetindo “cercar as favelas”, “cercar as favelas”, até que a idéia não parece mais tão estranha assim, não deve ser tão ruim. Já vi até gente comparando com os condomínios que também são cercados e os moradores não reclamam, até gostam. Me poupem. Já seria ruim o bastante se os moradores das favelas resolvessem murar tudo para controlar o acesso do “pessoal do asfalto”, assim, voluntariamente. Mas não me consta que essa seja a idéia que mais circula por aí.

Não se trata de baixar dogmas sobre o que pode ou o que não pode, não se trata de considerar a favela como intocável, não se trata de acobertar invasões ou crescimento ilegal e sim buscar uma solução em conjunto, negociar. Todos temos a ganhar e/ou a perder. Todos.

Soluções para o problema habitacional passam por uma série intrincada de questões que vão desde a construção de unidades residenciais, melhoria das condições de saneamento, oferta de serviços de qualidade (ninguém quer morar longe e não ter transporte ou apanhar dos caras da Supervia pra andar num trem lotado além da capacidade) até a discussão ampla sobre temas espinhosos como controle de natalidade, sem falar na corrupção que sangra os recursos eventualmente alocados para estes projetos.

5 – A Marjorie escreveu um post no início do mês que ficou ecoando na minha cabeça. Ela estava tratando de outro assunto (outro ma non troppo), a mania de tornar estanques e não-misturáveis os grupos políticos de esquerda e de direita. E levantou essa questão de considerar o diferente como Outro, assim mesmo, com maiúsculas. Quando a gente trata o outro como Outro, alvo do nosso medo, da nossa desconfiança, e não raro, do nosso desprezo, a tendência é tirar desse Outro qualquer legitimidade para o diálogo. A gente trata imediatamente de generalizar esse Outro numa espécie distinta de nós, a gente se distancia dele, reforça toda a diferença que possamos ter em relação a ele, objetifica esse Outro, às vezes chegamos a desumanizá-lo, primeiro passo para justificar e naturalizar toda a violência.

Não é mais ou menos isso que fazemos com os diferentes de nós, na cidade? Com os favelados (assim mesmo, numa referência geral que permite que pensemos “os favelados” como uma categoria de análise em bloco)? Não é essa a base para toda xenofobia, discriminação, segregação? É preciso encontrar alguma coisa em comum com o Outro para que valha a pena o esforço do diálogo com ele. Nossa humanidade não seria suficiente? Parece que não mais. Voltamos ao que foi dito antes: para evitar esse diálogo, é preciso naturalizar o discurso que objetifica e desumaniza o Outro, até que a gente nem se dê mais conta disso.

E eu ainda nem falei do Bauman. Tá prometido pro próximo post.

* Referências explícitas à fantástica obra The Wall, do Pink Floyd.

5 comentários para Another brick in the wall – Parte 2: Tear down the wall!*

  • Barbara Lima

    Bauman, URGENTE!!! (é o tema do meu seminário de Urbano 5 para a próxima semana…. hahahah)

    depois eu volto, quando tiver algo mais inteligente para comentar.

    Huahuahua! Me aguarde!

  • Mani

    Ná Paula,

    Existe um conceito em direito constitucional que coloca que sempre que há aparente choque entre principios, há que se ter uma valoração pra que um principio prepondere sobre outro. assim ocorre com os direitos subjacentes à essa questão. Construir um muro para impedir avanço de construções ilegais sobre a mata atlantica é legal???
    A principio, sim. Se a área é de preservaçao definida em lei, o poder público deve agir para manter essa área intacta.
    O que acontece, é que foi manifestada uma desconfiança das intenções do poder publico. Será que é pra preservar a mata ou serviria pra outros fins não tão nobres???
    Acredito que o caminho adequado é colocar a discussão pra sociedade e analisar prós e contras.
    No Brasil, mesmo quando a obra foi realizada em desacordo com a legislação, raramente há a destruição do imovel. Isso ocorre por varias razões, principalmente porque os infratores conseguem medidas judiciais que impedem a ação do governo.
    Bem, não tenho resposta pronta. Só queria contribuir pro debate…beijos…

    Com vocês, nossa assessora especial para assuntos jurídicos. aliás, the best! Bjs, Mani, e gracias, contribuiu e muito.

  • Alvaro

    O Globo de hoje (ou do final de semana, li uns tantos no retorno do feriadão) fala (e ilustra) de uma mansão que está sendo construída em plena encosta do Cristo Redentor. Aparentemente ela havia sido iniciada e proibida, e agora teria conseguido as licenças necessárias.

    Eu já havia visto essa construção, na minha modesta opinião é uma aberração ecológica, um cancro em plena encosta de mata atlântica. E aí fica a questão: Quando é de bacana, e tendo conseguido – nem entro no mérito de como – as licenças, aí pode?

    Pra mim o exemplo maior é aquele condomínio com entrada pela Sacopã, visível de toda a Lagoa. Já estive lá, é agradabilíssimo, mas como ocupação ecológica do espaço, me parece aberrante.

    E estou na torcida pelo Bauman!

    Já, já. Bjks!

  • Com os fios mais soltos que os seus (claro), que nem sei se algum dia conseguirei fazer umas ligações enfim…

    Como é pra dar pitacos…
    Tem mesmo que se pensar em alternativas (que nunca serão simples). Já deixei de entrar em várias discussões sobre favelas (não que eu pudesse contribuir com alguma idéia razoável, mas…) por conta um pouco de tudo ser “imexivel”. Acho que os moradores têm todo direito de opinar e avaliar as alternativas. Mas quando a briga fica sempre de que ninguém pode ser removido, então fica parecendo que quatro paredes e um teto é suficiente. Mesmo que não tenham dimensões adequadas, aberturas insuficientes, acesso razoável, espaços de uso comum etc Meio que dando o aval das pessoas viverem nestas condições.
    Ah, e me tira daquele ninguém. Dando-me meia dúzia de autoridade eu faria vários prédios irem abaixo em dois tempos. Aquele monstrengo ali em Botafogo, então, está na mira sempre.
    Além de vc já me ter ouvido falar mal dos puxadinhos da classe média várias vezes. Isto de fechar varandas (no mais das vezes cada morador fazendo de um jeito) é o mais comum. Como se não houvesse um projeto a ser respeitado.
    Sempre achei que numa cidade com índice de falta de moradias tão alto, manter um imóvel fechado um absurdo (fora o judiciário que demora anos – Alô, Mani – para resolver casos de inventários). Se o iptu é X, imóvel não habitado deveria ser 10X ou 50X, no mínimo.

    Total razão pra vc. E o imbroglio judicial a respeito da propriedade de uma enorme quantidade de imóveis na cidade é algo que realmente emperra uma enorme quantidade de bons projetos na área de política habitacional.

  • Mani

    Claudio Luiz,

    O longo arrastar de inventarios na Justiça é algo tão exasperante. Incompreensivel, mesmo. Nunca consegui entender tanta dificuldade. Nisso, eu sou uma leiga.

    Se você é, Mani, imagina nós…

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