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Nem tão recentemente

Conforme prometido

Eu ouvi falar do Bauman pela primeira vez há uns cinco anos. Eu fazia parte de um grupo de estudos na universidade, durante o mestrado, e a galera tava lendo Comunidade, foi o primeiro livro dele que eu li. Me interessou, porque eu estudava umas questões ligadas ao espaço público, naquele momento mais ligadas a análises de forma e funcionamento, e ele trazia nesse livro uma discussão interessantíssima sobre as dificuldades de conciliar o anseio por segurança com o direito à privacidade, até onde as pessoas estariam preparadas para sacrificar aspectos importantes da vida na cidade, de abertura ao novo, ao diferente, em troca de mais segurança, os conflitos entre a diversidade que caracteriza a vida urbana e a homogeneidade que se vende como proteção nas novas comunidades.

Até então, eu confesso, não sabia que a sociologia podia se interessar por temas como afetos, vínculos, amor, solidariedade. Deparei com um sociólogo profundamente humanista, que crê na possibilidade de mudança, no resultado do esforço coletivo, em valores que eu achava que estavam, infelizmente, ficando fora de moda.

Bauman em Varsóvia, fevereiro de 2005

Bauman em Varsóvia, fevereiro de 2005

Sociólogo polonês, nascido em 1925, Zygmunt Bauman vive desde 1971 na Inglaterra, onde é professor emérito na Universidade de Leeds. Ele faz severas críticas ao nosso modelo econômico, responsável pelo acirramento das desigualdades e sobretudo pelo abandono dos mais frágeis. Mas não necessariamente condena o capitalismo per se, embora certamente desça a lenha no liberalismo e na omissão do Estado na proteção de seus cidadãos.

O conceito com que ele mais trabalha é o de sociedade líquida. Segundo ele, até o início/meados do século XX vivíamos uma fase sólida da Modernidade. Valores como produção, poupança e trabalho eram os dominantes, e as referências e parâmetros morais eram claros (ainda que fosse pra você divergir radicalmente deles). Hoje vivemos uma extrema fluidez em todas as relações, que são mais plásticas, ágeis, versáteis, mas em compensação mais escorregadias e difusas, dando margem a mais dúvidas e omissões e muito mais individualismo e imediatismo.

Pelo menos nos últimos 12 anos, Bauman vem sendo publicado no Brasil por Jorge Zahar Editor, com quase vinte títulos que analisam e destrincham aspectos das relações sócio-culturais existentes hoje no nosso mundo globalizado, transitando por temas como segurança, espaço público, ação política, medo, solidariedade, amor, consumismo, felicidade, xenofobia, desigualdade social, ética. Dentre os livros que eu tenho, recomendo intensa e urgentemente Amor Líquido, em que ele fala da fragilidade dos laços humanos, tanto os amorosos/sexuais, quanto os de amizade e de solidariedade; Vida para consumo, em que ele aponta e explica o processo de transformação das pessoas em mercadoria; e A Arte da Vida, sobre os parâmetros que norteiam nossa incessante (e hoje praticamente obrigatória) busca pela felicidade, ainda que nunca fique bem claro o que ela é.

Não, não tem nada a ver, nem de longe, com manuais de auto-ajuda. Pelo contrário, são socos secos, certeiros e intransigentes num modus vivendi permeado pelo individualismo e pela ambição de ter cada vez mais, na esperança de aplacar uma angústia que tudo à nossa volta tenta nos fazer acreditar que não existe. Não há receitas, propostas salvadoras de solução, apenas o chacoalhar da nossa humanidade e do nosso destino comum diante dos nossos olhos anestesiados, e o convite a ser mais crítico diante das facilidades mefistofélicas dos nossos tempos, e sobretudo dos processos que garantem tanto conforto a alguns, ao mesmo tempo que empurram a miséria para longe das nossas vistas, como se nós não estivéssemos implicados até o pescoço na situação que nos rodeia.

5 comentários para Conforme prometido

  • Eu já li (ganhei, né? :-) e assino embaixo, fiquei super fã do Bauman. Bjs

    Sério? quem terá te dado presente tão bacana? ;-)

  • Cláudia Marcanth

    Lendo o seu texto sobre o Bauman e a sociedade líquida, lembrei-me do filme que assisti ontem – “Entre os Muros da Escola”. A questão da falta de parâmetros e de referências para lidar com novas situações (como as criadas pela globalização) está muito bem delineada no filme. By the way – olha a palavra “muro” de novo na berlinda!
    bjs,
    Cláudia

    É verdade! Eu vi esse filme também. Fiquei muito desconfortável com a falta de capacidade de entendimento, de respeito, de possibilidade de rendenção, da parte de TODO mundo. É aflitivo.

  • Alvaro

    Você viu que o Bauman está com livro novo? E o tema é exatamente esse das cidades…
    Ainda não o tive nas mãos, mas estou super curioso.

    É o “Confiança e Medo na Cidade”? Comprei, muito bom! É curtinho, rápido de ler, na verdade são transcrições de três palestras dele. E ele cita bastante o Brasil, especialmente São Paulo, e as políticas sociais do Lula.

  • Olá, Ana Paula. Tudo bem? Sou a Cecília e trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor. Que bom que gosta de Bauman. Ele é um dos autores mais importantes para a Zahar atualmente. Recentemente fizemos uma promoção intitulada “Pergunte ao Bauman”, onde perguntas dos leitores do site da Zahar e também da comunidade do Orkut foram selecionadas e respondidas pelo Bauman. Se quiser conferir, é só clicar aqui http://www.zahar.com.br/catalogo_exclusivo.asp?id=1266&ide=173
    Um abraço.

    Oi, Cecília, que prazer receber a sua visita! Muito obrigada pela dica, vou lá ver, sem dúvida. Ele é, sim, um dos grandes pensadores da atualidade, e a edição da Zahar é muito caprichada, parabéns.

  • Camila

    Cara Ana,
    Encontrei o link de seu blog por um colega de twitter e fiquei encantada! Infelizmente nunca me dediquei a acompanhar os possíveis blogs na rede, mas desta vez me surpreendi comigo mesma e com a vontade de ler todos os teus posts. rs. O tema “urbano” também faz parte da minha vida, gasto quase que 85% do meu tempo trabalhando, estudando, observando ou pensando a cidade, no meu caso, São Paulo.
    Acabo de ler o Bauman em “Confiança e Medo na Cidade”, como descreve no comentário acima. Espero que comente algo sobre tua leitura algum dia, principalmente considerando que o autor faz menções pouco suaves sobre o planejamento urbano..
    Enfim! Registro que foi um prazer conhecer este cantinho e que ficarei atenta para as futuras atualizações!
    Um abraço, c.n.

    Olá, Camila, que coisa boa você ter chegado até aqui e gostado. Pra mim tem sido um aprendizado constante escrever aqui e ter o retorno de tanta gente bacana, com suas experiências e suas cidades diferentes. Como você deve ter visto, eu gosto muito do Bauman, e pretendo conversar mais sobre outros livros dele, sim. Esse Confiança e Medo na Cidade é ótimo, acho que as críticas que ele faz ao planejamento urbano são muito contundentes e fundamentadas. A gente precisa mesmo aprender a repensar e reconstruir a cidade em outras bases. Grande abraço, venha sempre.

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