Eu adoro viajar. Troco facilmente outras oportunidades de gasto por uma passagem pra quase qualquer lugar. Às vezes largo até a sensatez de lado e deixo de poupar um dinheiro quando a chance de botar o pezinho no avião se apresenta. No momento, inclusive, estou devendo uns dinheiros ao meu irmão caçula, que generosamente me ajudou a financiar uma ida recente a Madri, acompanhando o marido que passou lá uma semana a trabalho (até o fim do ano eu pago de volta, mano, don’t worry). Eu não ia perder essa, né?
Mas esses dias eu tava pensando sobre essa coisa de viagem. Eu gosto de viajar sobretudo para conhecer lugares diferentes, pessoas, costumes, línguas, comidas, jeitos de viver e habitar. Eu AMO cidades diferentes, observar arquiteturas, ruas, calçadas, jardins, traçados, como as pessoas usam o espaço público, como cuidam do patrimônio artístico e histórico, como elas se locomovem (uma boa rede de transporte coletivo é fundamental), o que fazem nas horas de lazer, como tratam os visitantes, os imigrantes, se há velhinhos, crianças, animais de estimação nos lugares, enfim, eu gosto de respirar a vida cotidiana das cidades e de seus cidadãos, e não só me enfurnar nos pontos turísticos tradicionais. É óbvio que não dá pra ir a Madri e não ver o Museu do Prado, ou a Paris e não subir a Torre Eiffel, da mesma forma que a turistada (estrangeira ou não) que vem ao Rio pela primeira vez precisa ir ao Pão de Açúcar ou ao Cristo Redentor, mas o que me encanta mesmo é andar solta pelas ruas, sentar em qualquer café e ficar olhando o movimento.
Tem dois tipos de lojas, se eu puder chamar assim, que eu adoro especialmente, e que me dizem muito sobre a cidade. Livrarias e supermercados.

Não precisa nem fazer compras, só passear já é uma delícia.
Gente, eu não posso visitar uma cidade sem entrar num supermercado. Adoro! Se for em outro país então, nossa! Passear entre as gôndolas, ver a variedade e a quantidade de produtos diferentes, comparar preços. Vocês ficariam fascinados, por exemplo, com a quantidade de leites diferentes que tem na Finlândia. Eles têm (não tem mais esse acento, é? Lamento Update: o acento continua, cortesia da Monix – o esclarecimento, não a continuidade do acento) muitos problemas com alergias a lactose, e tem uma quantidade gigantesca de combinações de com/sem lactose, com/sem adição de ferro, com/sem/mais ou menos gordura, sabores, a gente fica perdidinho. E em Buenos Aires vende leite (leite comum, sem ser achocolatado ou com qualquer outro sabor) em caixinhas longa vida de 300 ml! E você ainda pode escolher com açúcar, com adoçante ou natural! Eu achei ótimo. Há muitos anos, nós estávamos lá, num passeio de carro, e meus filhos eram ainda muito pequenos, tomavam mamadeira. Eu achei super prático, porque você só abre a caixinha na hora de consumir e dá a quantidade certinha, não precisava ficar levando leite em pó, comprando água no caminho, preparando a gororoba. Nunca entendi por que isso não vende no Brasil. Dá pra ficar aqui fazendo uma lista interminável de frutas, produtos de limpeza, biscoitos e histórias inusitadas sobre preços e embalagens.
Mas eu falei em livrarias também. Caramba, eu posso passar horas me perdendo dentro de uma livraria. E pra mim, livrarias (ou a ausência delas) dizem muito sobre uma cidade. Só de ter mercado para livros ou não já significa tanto. Aqui no Rio eu gosto muito da livraria que tem no Unibanco Arteplex, na Praia de Botafogo. Impossível passar por lá pra um cinema ou um café e não entrar na livraria. Quase sempre acabo saindo com mais um item pra pilha que cresce na minha mesa de cabeceira. Céus, por que a gente compra mais livro do que dá conta de ler? Claro, tem outras, várias, e hoje há a febre dos enormes conglomerados de livrarias, editoras e sebos via internet, mas eu gosto mesmo é de passear, ver as estantes, as lombadas, passar a mão nas capas, folhear, sentir o cheiro do papel, arregalar os olhos com as gravuras, descobrir títulos e autores novos. Em Madri eu fiquei algumas horas numa que tinha uns cinco andares, cada andar era uma seção, um tema diferente. Em Buenos Aires (de novo. É que eu gosto mesmo de lá) tem a Ateneo, que é das coisas mais lindas que eu já vi, funciona onde era o antigo Teatro Gran Splendid, todo restaurado, com a arquitetura interna de teatro mantida (sem os assentos, claro), mas estão lá as galerias, os lustres e pinturas e até o palco, que virou um charmoso café. E – viva! – fica numa rua bem movimentada no Centro da cidade (Av. Santa Fe, 1860), e não dentro de um shopping. Tá, também dá pra fazer uma lista gigante de exemplos deliciosos, espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Mas vou deixar a lista por conta de vocês. O que vocês gostam de ver quando viajam?


Opa, eu também adoro supermercado e livraria – tanto cá quanto algures. Em Buenos Aires, o que impressiona é a quantidade de livrarias por esquina quadrada. O que tem de farmácia por aqui, tem de livraria por lá. Cada povo tem o “remédio” que merece.
Ah, a propósito, o acento de “têm” ainda existe sim. O que caiu foi o acento das vogais duplicadas (vêem, dêem, vôo, zôo). (/momento professor pasquale)
Agradeço o esclarecimento. Eu tenho tanta implicância com esta reforma ortográfica que, de birra, continuo escrevendo como sempre, e aí de vez em quando surge a dúvida. É verdade, tem um bocado de livraria em Buenos Aires, e isso é só uma das muitas coisas boas sobre a cidade.
Ah Ana Buenos Aires seria minha segunda casa.
Adoro as ruas. Adoro o vinho. A noite, a boemia Portenha.
Beijs.
Eu gosto da cidade como um todo. Ah, agora vão me apedrejar. Sabe o que é? Eu tenho implicância com a alcunha de “Cidade Maravilhosa” pro Rio de Janeiro. As maiores maravilhas da cidade são de ordem geográfica, natural, é a paisagem de morros e praias, de florestas tão próximas à ocupação urbana. Mas a parte construída em si não é tão espetacular. Há equívocos gigantescos no que diz respeito à preservação de patrimônio histórico, a expansão urbana é mal feita, a arquitetura anda de péssimo gosto, as ruas e praças são mal cuidadas. e é exatamente o que eu gosto em Buenos Aires. A cidade não tem grandes atrativos naturais, mas em compensação, em termos de cidade, é um espetáculo. E tem várias avenidas por lá que eu passo e fico pensando “poxa, o Rio já teve avenidas assim, abertas na mesma época, com os mesmos parâmetros e a mesma arquitetura. Mas descaracterizou de tal forma que não tem mais o mesmo conjunto, a mesma ambiência. Minha resposta dá quase outro post. Enfim.
Eu também sou apaixonado pelo turismo do cotidiano.
Poucos lugares falam tanto de uma comunidade quanto seus supermercados. São, de certa forma, a visão local da globalização, com a adaptação da indústria massificada aos anseios originais da população.
E, em cidades menores (vi isso especialmente na Europa), os mercados e feiras (com as produções locais da comunidade, para seu consumo) são um programa imperdível.
Quanto à livrarias… aí é um outro tipo de consumo, mas igualmente revelador. E – tal como nos mercados – é importante atentar para conteúdo e continente; não apenas as obras à disposição, mas a forma como estão expostas.
Outra mania minha, também muito reveladora dos gostos locais, são os sebos e mercados de pulgas. Adoro!
Feiras! Nossa, como é bom! Aliás, não só em viagens. Feiras são coisas fantásticas como experiências sensoriais. Mas experimentar o exótico, o diferente, tem sempre um gosto a mais.
Eu gosto mesmo é de ver como os “locals” reagem à presença de um turista. São vários exemplos, mas algumas coisas me marcaram para sempre.
1) Nice, França. Nos supermercados, nos ônibus, várias mulheres de véu me abordavam para pedir informações. Descobri por quê. Elas viviam lá e falavam bem o francês, mas tinham dificuldades com a leitura. Perguntavam as coisas para mim não porque eu tivesse cara de francesa e entendida de tudo, mas precisamente porque eu tinha cara de turista! As chances de que eu me comportasse com simpatia eram muito maiores do que se as pobres mulheres abordassem uma pessoa francesa (parece que eles são muito grosseiros com os árabes e africanos, ai, ai….)
2) Em Portugal, eu e o husband conversávamos no trem. Um casal de idosos não resistiu e puxou conversa. Confessaram que adoravam ouvir brasileiros falando: “Vocês falam o Português com açúcar!”
3) Em Kobe, no Japão, as atendentes de lojas e MacDonald’s da vida fugiam de mim. Ficavam empurrando uma para outra a ingrata tarefa de tentar entender o que uma ocidental queria. Elas ficavam dando risadinhas nervosas e quando finalmente uma era designada para falar comigo, a reação era sempre a mesma: respiravam fundo e suavam frio como se estivessem entrando em um jogo de vida ou morte. Era comovente ver quanto pudor e vergonha esse povo sentia (quem dera nós tivéssemos só um milionésimo dessa atitude respeitosa e reservada dos orientais…)
Bjos,
Cláudia.
Puxa, esse é um aspecto realmente diferente e interessante a observar. Vou ficar atenta a isso também nas minhas próximas viagens! Essa experiência em Nice é reveladora e desanimadora também.
Tem sido um aprendizado não sair correndo para ver tudo, fotografar tudo (com agonia que eu sentido com os japonês e chineses e suas máquinas, neste ponto eu já relaxei. Fotografo só com os olhos e o coração)e apreciar o correr natural da cidades. Mercados é um bom ponto. Vitrines eu adoro ver. E quando você for ao Porto, conte-me qual foi a sensação de entrar na Lello. (não deixe de se imaginar com um vestido de cauda na hora de descer a escada ;o)
A Lello é um dos meus sonhos de consumo, Cláudio Luiz. Eu babo pela Lello!
Ah, enquanto não apareceram os atiradores… eu estou aqui aplaudindo DE PÉ a sua resposta a Tati.
(
Eu ainda não consegui ir a Buenos Aires.
Um aplauso seu é uma honra pra mim. Vá a Buenos Aires, sim, e me conte o que você achou, adoraria saber tua opinião!
Ai, Ana…eu amo viajar, né? Pra qualquer lugar, sou que nem você. O que eu mais gosto é andar pelas ruas. Olhar os ônibus, os carros, o vai e vem de pessoas. Como elas se vestem, tentar adivinhar quem é local e quem não é. Adoro supermercado e principalmente a parte de produtos de limpeza (??). É tão diferente de um lugar pra outro. Por exemplo, na Itália e nos EUA têm uma infinidade de produtos de limpeza do tipo “faça vc mesmo a faxina sem stress”. Lencinhos umidecidos de lisoform, pra vc desinfetar banheiros e pias. Lencinhos umidecidos pra tirar gordura do fogão. Panos já umidecidos com cera pra passar no sinteco. Vc usa e joga fora, não tem que ficar lavando pano de chão. E eu acho que isso ocorre pq tanto na Europa qto nos EUA empregada doméstica custa uma pequena fortuna. Então eles criam produtos de fácil utilização pra facilitar a vida de quem trabalha o dia todo.
Nos EUA tem um produto que eu só vi lá: detergente de lavar louça DOVE. Acredita? É meu produto de contrabando preferido pra quem vai pra lá.
Eu podia ficar falando mil anos. Mas não vou não, don´worry
Bjos
Pô, eu tava gostando da lista, só tomando nota!
É isso mesmo, observar essas coisas diz tanto sobre a cultura e os hábitos locais. Eu não entendo povo que viaja e só anda dentro de shopping e van de turismo com guia. Não entendo.
Ah, agora vão me apedrejar. Sabe o que é? Eu tenho implicância com a alcunha de “Cidade Maravilhosa” pro Rio de Janeiro. As maiores maravilhas da cidade são de ordem geográfica, natural, é a paisagem de morros e praias, de florestas tão próximas à ocupação urbana. Mas a parte construída em si não é tão espetacular. Há equívocos gigantescos no que diz respeito à preservação de patrimônio histórico, a expansão urbana é mal feita, a arquitetura anda de péssimo gosto, as ruas e praças são mal cuidadas. e é exatamente o que eu gosto em Buenos Aires. A cidade não tem grandes atrativos naturais, mas em compensação, em termos de cidade, é um espetáculo. E tem várias avenidas por lá que eu passo e fico pensando “poxa, o Rio já teve avenidas assim, abertas na mesma época, com os mesmos parâmetros e a mesma arquitetura. Mas descaracterizou de tal forma que não tem mais o mesmo conjunto, a mesma ambiência. Minha resposta dá quase outro post. Enfim.
Outro post! Outro post!
Hahahahahaha, ok, em breve!
Ah, Ana, minha blogueira querida-querida. Eu sou da exatíssima mesma opinião que vc (ficou engraçada essa construção mas vai assim). Tanto que fui ao rio e não vi o Cristo. Quer dizer, pra mim, vi: vi lá de baixo
mas pelo jeito assim “não conta” né? Mas, no Rio, sentei no boteco, caminhei na orla, conversei com os taxistas.
Como tu sabes, cheguei ontem de Campinas. Lá, gastei uma tarde sentada num café lendo um livro e espiando como que a vida acontecia ao redor. Sozinha. Como, aliás, eu gosto muito. Peguei onibus, falei com pessoas. Interagi com quase todo mundo que encontrei pelos cursos, aulas e palestras. Pra mim, viajar de verdade é isso. E, como eu te disse nessa mesma bat-caixa de comentários, é me afastando assim das minhas coisas que eu consigo me enxergar. É contrastando com o que é do outro que eu consigo enxergar o que é o meu.
Viajar é crescer por dentro né?
“contrastando com o que é do outro que eu consigo enxergar o que é meu”. Gente, pode uma coisa dessas? Paulinha, eu te amo. Não tem nem o que dizer depois disso.
Vem cá, vcs não têm mais interesse em conhecer a noite do lugares, não?
Nem, assim, de leve, sem muita pauleira, voltando para casa às duas, no máximo?
Há uns lugares bem aconchengantes, I mean.
o/
Hahahahaa, é que velho é um problema, sobrinho. Agora, a sério. Eu gosto. O marido, que quase sempre tá acompanhando a viagem, não gosta. Então, fica mais complicado. Mas quando calha da gente ter algum conhecido na cidade, alguém que possa ir junto, recomendar os lugares legais, aí a gente vai. Mas não é meu objeto de observação predileto, vou confessar. Quem sabe se vc viajar comigo da próxima vez?
Thiago sobrinho da Ana, eu gosto de conhecer a night tb. Sem mta badalação. Mas gosto!
Um dia eu TENHO QUE apresentar vcs dois, vcs vão se adorar!
Eu acho mt justo, Alline!
Afinal, é uma forma de conhecer
características do povo… sem a formalidade
de pedir informação para chegar a algum lugar,
a distância de falar com a caixa do supermercado
e etc…
Na night tá todo mundo no seu estado mais
puro (se analisado por um lado da questão),
querendo relaxar, se divertir e papear.
Sem contar que a gente capta
alguns gostos, alguns traços característicos
da galera do lugar, um determinado comportamento
que atinge um grupo.
É quase um estudo antropológico. Falei.
Tá falado.