Até fevereiro deste ano eu trabalhei num escritório de arquitetura ali na Lapa, subida de Santa Teresa. E em todos os dias que eu fui ou voltei do trabalho, eu me deliciei em ficar observando o casario eclético que ainda existe, embora tão mal tratado, ali no Centro do Rio.
Eu sempre gostei do eclético, aquele estilo arquitetônico que predominou do final do século XIX até mais ou menos os anos 20-30 do século passado, e que o Lúcio Costa chamava de pastiche, de cópia da cópia, portanto sem valor artístico, histórico, cultural. Hoje todo mundo lamenta a demolição do Palácio Monroe (exemplar típico do estilo), cujo desaparecimento foi autorizado e até recomendado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e todo mundo tece loas ao pouco que sobrou na Avenida Rio Branco, principalmente o conjunto mais visível e bem preservado em torno da Cinelândia, composto pelo Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça, mas houve tempo em que os palacetes ecléticos da cidade iam desaparecendo rapidamente, considerados estorvos ao desenvolvimento e à modernização da cidade.
Mas não era nada disso que eu ia falar. Ou era mais ou menos. Essa historinha inicial é pra dizer que eu admiro o ecletismo, mas tenho um interesse e até – por que não dizer – um carinho especial, nem tanto pelos grandes palacetes e prédios que acabam abrigando instituições importantes, mas pelos sobrados e casas populares que existem aos montes nos bairros mais antigos do Rio. Em todo o Centro e Zona Portuária, Lapa, Catete, Estácio, Catumbi, Santa Teresa, e até em Botafogo, ainda é possível ver os sobrados característicos deste período, alguns com as datas de sua construção exibidas na fachada – 1894, 1903, 1914, e por aí vai. Há os que estão bem cuidados, tinta nova, esquadrias restauradas, balcões e grades inteirinhos, até por força de programas de preservação levados a cabo pela Prefeitura nos últimos 30 anos. Vários hoje abrigam bares, restaurantes, antiquários, principalmente perto da Lapa. Mas dói ver um montão deles vazios, caindo aos pedaços, vidros partidos, transformados em cortiços que oferecem risco (de incêndio, de vazamento de gás, de desabamento) inclusive aos seus próprios moradores e ocupantes.

Olha ela ali, de blusa azul, conversando com mais um passante
Daí eu resolvi, há pouco tempo, fazer um levantamento fotográfico desses sobrados. Por enquanto é só uma brincadeira pessoal, ainda não sei bem o que eu poderei fazer com esse material depois. Quer dizer, eu tenho umas idéias, vamos ver o que vai dar. Hoje de manhã, aproveitando o feriado que deixa tudo mais tranquilo, saí pra tirar umas fotos, no Centro. Estou eu na Av. Gomes Freire, tentando enquadrar mais um prédio, quando a senhora que estava em frente a ele, sacudindo o plástico onde estivera sentada até então, me viu e veio puxar papo.
“Bonitos esses prédios, né, moça?”. “Muito bonitos”, respondi.
“Eu vivo nessa rua há seis anos, moça, todo mundo me conhece aqui. É uma pena tantas dessas casas estarem fechadas. Aqui – e aponta uma das portas cerradas por conta do feriado – funciona um restaurante, mas aqui, aqui e aqui – indica outros térreos – não funciona nada, tá vazio mesmo. Devia ter um comércio, né? Uma loja de calcinhas, uma manicure. Eu pinto unha, sabe, pinto muito direitinho. Mora muita gente aqui, mas é gente pobre. Esses restaurantes atendem o pessoal rico, que trabalha nos escritórios por aí, devia ter alguma coisa pra esse pessoal que mora aqui também. Sei lá, se eu tivesse dinheiro, eu pegava uma casa dessas, eu fazia um escritório assim, como é que chama? Ah, uma agência, pra dar trabalho pras pessoas, indicar uma empregada doméstica, alguém pra passar uma roupa, fazer uma faxina. Eu sei passar muito bem, lavar, dou uma boa faxina, mas o pessoal que me conhece aqui da rua não pode me contratar, e quem pode contratar me vê sentada aqui na calçada, pensa que eu sou uma mendiga, não quer me dar trabalho. Se eu conseguisse alguma coisa assim, pra ganhar meio salário mesmo, com tudo certinho né, os direitos na carteira, mas meio salário mesmo já me bastava, se eu pudesse tomar um café com leite de manhã e um prato de comida no almoço, eu trabalhava bem certinho, aí podia pagar um quartinho pra eu dormir. Mas é difícil, moça”.
Juciara, o nome dela. O que eu vou dizer depois de uma aula dessa? Aula de urbanismo, de economia, de sociologia. Eu desejo boa sorte a ela. Fiquei encantada.


Bonito texto, bonita história. É o reflexo nos vários planos da sociedade da miséria acomete o povo brasileiro. Triste realidade de um rico país governado por gente sem moral, escrupulos ou mesmo compaixão! Uma vergooonha (como diria o Boris Casoy)!!
Foi um encontro realmente interessante. Tremendamente articulada, a Juciara.
Ana, que cena mais carioca! Acho que eu nunca vou deixar de me surpreender com (e amar) esse jeito carioca de viver a vida e conversar com estranhos. Um beijo com saudade (de vc e do Rio).
Eu também adoro essas oportunidades inesperadas de encontro. A gente sempre aprende alguma coisa. Beijos, querida!
Nápaul, ver essas coisas me corta o coração, revolta e mistura outros sentimentos, pq eu adoraria poder colocar em prática todos os planos de dominação mundial que tenho em mente, e que lógico, tem um espaço muito especial pra essa “rapaziada que não foge da raia e segura o rojão”, que só precisa de oportunidade e que pede tão pouco.
Não é?
Rapidinho, que só estou de passagem hoje. Você já viu o casario da Rua Ipiranga? Ontem, depois da nossa conversa, fiquei mais atenta e reparei que a Ipiranga tem alguns sobradinhos até bem conservadinhos, mas não sei se se encaixam naquela coisa do ecletismo.
Juciara é uma pérola e você, uma artista por extrair e acolher um depoimento tão lindo. Parabéns para as duas!
Bjos,
Cláudia.
É verdade, a Rua Ipiranga. Vou dar uma olhada!
Ana,
Você fatalmente conhece o livro Espelhos das Cidades. Em suma, o autor analisa a questão patrimonial urbana.
O autor critica as políticas de preservação no mundo e, principalmente, no Brasil. Segundo ele, preserva-se de acordo com os interesses do turismo.
Talvez esse seja um dos motivos, dentre tantos, desses imóveis estarem abandonados e vazios.
Ainda não li completamente, mas parece ser bom.
Ah, tô devendo um post sobre “O que é a cidade”. Espero poder escrever.
Abraços.
Você acredita que eu conheço o livro, mas nunca o li? Vou dar uma olhada realmente. Os critérios de preservação às vezes são rígidos demais. E quando você aperta demais o parafuso, a rosca espana.
Tenho vontade de comprar um desses e transformar num loft bem bacana… será que dá?
Pra comprar ou pra transformar em loft?
transformar! acho q ficaria bonitão, saca?
Ficaria ótimo!
Ah, querida, pena que ninguém além de ti dá ouvidos às Juciaras…beijos.
Por isso que eu achei por bem contar o que ela disse. Beijos pra ti também!
Juciara para prefeito.
“Cariocas são bonitos
Cariocas são bacanas
…
Cariocas são modernos
Cariocas são espertos”
mas são umas antas na hora das eleições.
O que não falta é povo do bão e beleza natural. Em compensação…
Ah, avise pro seu sobrinho que o projeto vc pode até fazer de graça (até eu ajudo, embora não seja necessário), mas a compra do imóvel e obra é por conta dele.
Mas, tendo saldo para bancar isso ou ganhando na mega-sena, ficará mal ele não lhe pagar pelo projeto.
eheheheheheh
No momento, só ganhando a megasena mesmo. Mas eu boto fé no menino. E faço o projeto com o maior gosto!