Agenda

maio 2009
D S T Q Q S S
« abr   jun »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Nem tão recentemente

Moldura Maravilhosa

Num post aí embaixo, sobre lugares que a gente conhece em viagem, a Tati fez um comentário e eu me empolguei na resposta. Daí a Monix botou pilha pra eu transformar essa resposta num post à parte e eu resolvi topar.

Eu disse o seguinte:

att00096

Ah, agora vão me apedrejar. Sabe o que é? Eu tenho implicância com a alcunha de “Cidade Maravilhosa” pro Rio de Janeiro. As maiores maravilhas da cidade são de ordem geográfica, natural, é a paisagem de morros e praias, de florestas tão próximas à ocupação urbana. Mas a parte construída em si não é tão espetacular. Há equívocos gigantescos no que diz respeito à preservação de patrimônio histórico, a expansão urbana é mal feita, a arquitetura anda de péssimo gosto, as ruas e praças são mal cuidadas. E é exatamente o que eu gosto em Buenos Aires. A cidade não tem grandes atrativos naturais, mas em compensação, em termos de cidade (aqui significando o ambiente construído), é um espetáculo. E tem várias avenidas por lá que eu passo e fico pensando “poxa, o Rio já teve avenidas assim, abertas na mesma época, com os mesmos parâmetros e a mesma arquitetura. Mas descaracterizou de tal forma que não tem mais o mesmo conjunto, a mesma ambiência”.

E hoje, no jornal, eu vi que o Rio está se candidatando a receber o título de Patrimônio da Humanidade por sua paisagem cultural, pela UNESCO. Tudo bem, de fato, a paisagem é uma construção cultural, o Corcovado deixou de ser só um morro há muito tempo, desde antes de colocarem a estátua do Cristo Redentor lá. O que a gente tá chamando de paisagem natural aqui tem o olhar e a intervenção  urbanos, não tem nem o que discutir. Mas o que eu estou questionando é a qualidade do espaço público e da arquitetura que se produz na nossa cidade. As ruas são mal cuidadas, as calçadas são estreitas, esburacadas, as praças são gradeadas com o argumento da segurança, mas o resultado é que ficam ainda mais vazias e abandonadas, o mobiliário urbano (bancos, postes de iluminação, sinalização, telefones públicos, lixeiras) é inadequado e mal distribuído, e deixa muitíssimo a desejar em termos de acessibilidade, por exemplo. Principalmente isso. As benesses urbanas são mal distribuídas. A imagem de CIDADE maravilhosa se limita à zona sul e praias. O subúrbio, a Zona Oeste, o Centro, não fazem parte da “Cidade”? Porque do “Maravilhosa” parece que não.

Sei lá, precisa acrescentar alguma coisa? Falem, discordem, ponderem, que a conversa anda.

9 comentários para Moldura Maravilhosa

  • Eu não sei o que me incomoda mais: andar em calçadas esburacadas e dirigir em ruas idem ou constatar que o processo de degradação da cidade já chegou a um ponto tão avançado que não dá para vislumbrar soluções num horizonte de tempo que seja razoável. A gente se apega muito ao discurso da deterioração das condições de segurança – e é claro que esse é O tema mais grave – e acabamos esquecendo da cidade que existe por trás da violência. Às vezes parece que a urbanidade deixou de ser um valor – e aí me refiro também ao conceito de cortesia.
    Bjs

    Eu nem sei se a segurança é O tema mais grave. Acho que essa questão da perda da urbanidade como valor é muito emblemática, especialmente para os cariocas, conhecidos nacionalmente (e internacionalmente, talvez) como gente simpática, descolada, amistosa. Mas a verdade é que essa faceta tá dando lugar à imagem de malandro (no pior sentido). E cansa e entristece muito, sim, não enxergar solução a curto prazo.

  • Thais

    Concordo plenamente!
    Se fosse levado em consideração a cidade em sua totalidade, este título nunca se aplicaria ao RJ. Moro na Z.Oeste e reafirmo que em nenhum bairro se vê urbanização decente. Aliás, nem lixeira nós temos nas ruas, se não colocarmos o lixo na bolsa, temos que andar com ele na mão por horas!
    É um descuido em todos os aspectos,uma vergonha!

    Oi, Thais, é exatamente esse o ponto que eu quero levantar. A Zona Oeste é o principal vetor de expansão do Rio há décadas, tem enorme potencial turístico e econômico, e até agora não mereceu o cuidado e a atenção que merece.

  • Tati

    Ai Ana, a coisa mais linda que eu vi ai no Rio foi o metro, salvo engano na estação Largo do Machado ou Arcoverde, não lembro. Nunca vi coisa mais linda. E o centro(?) onde aquela aula foi proferida pela melhor professora de aquitetura que eu conheço? O Rio, apesar das calçadas esburacadas, da discordância de estilos e de tantos outros absurdos (uma praça linda toda gradeada – que eu não lembro onde fica)é uma Cidade adorável, menos que os Cariocas, mas adorável.
    Beijo.

    Os seus olhos e a sua generosidade fazem tudo parecer tão melhor, Tati!

  • Cláudia Marcanth

    Eu não sei não… o carioca (da tal zona sul maravilha) sente na pele os buracos, a deterioração, a negligência, o cheiro de xixi e por aí vai.

    Mas o fato é que os turistas, sejam brasileiros ou estrangeiros, ficam realmente encantados com esse pedaço. Acho que, de alguma forma, a beleza natural da cidade neutraliza o espaço urbano maltratado.

    Conheço pessoas que moram em lugares muito mais agradáveis em termos de planejamento urbano, mas que dariam tudo para ficar perto de todo esse conjunto de mar e montanhas.

    Há alguma coisa na beleza natural que consola muito o ser humano. E isso faz falta, como faz! Quem já morou fora sabe!

    Bjs,
    Cláudia.

    Pode ser. Eu mesma me extasio diariamente olhando o Pão de Açúcar e a Enseada de Botafogo, ali quando a gente passa pelo Aterro. Só que a gente tem que parar de achar que é o suficiente. Porque o turista vem e vai embora, com fotos lindas, mas a gente é que vive diariamente com a falta de transporte, a sujeira, a violência, e tem uma hora que mesmo tanta beleza não dá conta mais, e a gente vai ficando embrutecido e anestesiado como a cidade. Sei lá, misturei alhos com bugalhos. Mas você certamente levantou um ponto importante, que eu não tinha levado suficientemente em conta.

  • Hum. É. Bom, não sei. Acho que eu não conheço o suficiente de Rio (pra não falar em urbanismo) pra dizer se precisa complementar ou não (óbvio ululante). Mas fico triste em ver que o caminho natural de todo mundo acaba sendo a falta de perspectiva, como bem lembrou a Monix ali em cima (ooooi, Monix!). Qual é o horizonte numa situação como essa? Difícil apresentar alguma solução. Se fosse só as partes não-cidade da cidade, se fosse só estrutura física, se fosse só segurança pública, se fosse só educação, mas é tudo junto. E cada um desses aspectos é tão gigante em si mesmo. Ai, meu deus, será que ainda tou falando do Rio, Ana? Cabe pra tantos lugares essa falta de perspectiva.

    Mas eu também não estou falando só do Rio, Paulinha. Por incrível que pareça. Essa é uma reflexão que cabe para qualquer cidade: eleger prioridades, distribuir para todos os cidadãos os benefícios da urbanização, entender que saneamento, moradia, infra-estrutura são tão importantes quanto o embelezamento das áreas nobres da cidade.

  • Também esta foto é maldade.
    Mas, seja como for, uma “faxina” ali nos prédios e a foto ficava melhor. Não seria ter só mato, mas umas construções mais razoáveis.
    É para demonstrar claramente que o ser humano aprende com seus erros é que a barra está sendo construída com tanto bom senso. eheheheheh

    A Barra, né? Sei. Tsc, tsc, tsc…

  • As muralhas do Cabral vai ser o diferencial para a avaliação da UNESCO.

    Falando sério, concordo de “cabo a rabo” com você, Ana.

    Além disso tudo que você disse, acrescento:

    Nenhuma cidade brasileira possui um planejamento sério, quando possui algum planejamento. As políticas públicas são péssimas;

    A metade dos municípios brasileiros estão com os Planos Diretores desatualizados e a outra metade não sabe o que é um Plano Diretor;

    E o cidadão contribui burlando a lei, por exemplo, alterando o projeto depois do “habite-se”.

    Enfim, no Brasil temos Bonito, mas ainda não temos cidade maravilhosa.

    Isso que você falou sobre os Planos Diretores é muito importante. Acho que ele ainda não foi compreendido devidamente como instrumento de Política Urbana. A própria população ainda não entendeu e o grau de participação popular na revisão/elaboração dos planos diretores é menor do que poderia/deveria ser. O do Rio é uma vergonha. Ainda estamos na vigência do Plano de 1992, que já deveria ter sido revisto, segundo a lei, e estamos há quase 10 anos patinando na discussão do novo plano, sem acordo à vista.

  • Alline

    Ana, depois de passar um tempo na Italia, que não é primor de organização pra nada, levei um susto quando cheguei no Centro do Rio. Eu juro pra vc. Não é coisa de brasileiro deslumbrado que mora na Europa não, foi susto mesmo. Achei tudo tão sujo. Tudo tão bagunçado. Aquele monte de camelô nas calçadas, que estão todas esburacadas…tudo tão mal organizado.
    Eu achei horroroso. Fiquei triste de verdade. E me perguntei se sempre foi assim ou se tinha piorado nestes últimos anos (pq antes de morar no exterior eu morava na Amazônia, então juntando tudo são uns 5 anos longe do Rio). Minha mãe disse que sempre foi assim, e que eu era acostumada com o caos. Será?

    É bem o que vc disse, chega uma hora que a só a beleza natural não basta, né? E me entristece essa falta de perspectiva de melhora, como bem sinalizou a Monix.

    Beijos

    Isso sempre acontece comigo quando eu passo algum tempo viajando, e não só pro exterior, não. Na volta, é um choque. Com o trânsito, com a sujeira, com a desorganização em geral. Aí vai passando o tempo, parece que a gente se reacostuma, a capacidade de adaptação do ser humano é fantástica, mecanismo de sobrevivência mesmo. É preciso um esforço pra manter a capacidade crítica aguçada e não achar normal o que é inaceitável.

  • Nápaul, adorei o post.
    Nossa cidade realmente merecia ser tratada com mais zêlo.
    Tem um convite pra vc lá no blog.
    Bjs

    Eu viiiiii! Já tou respondendo!

Deixe um comentário

 

 

 

Você pode usar estes tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>