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Nem tão recentemente

Ainda sobre educação, cidade e crianças

Escrevendo o post abaixo, sobre o projeto de Educação Urbana desenvolvido pelo Prof. Pedro Lessa, eu me lembrei de uma experiência recente de viagem, que me impressionou muito.

Em março deste ano eu estive em Madri (acho que já comentei isso aqui) durante uma semana. A cidade é linda, e eu me apaixonei pelas ruas e monumentos, pelos prédios e jardins, pelas comidas e paisagens. Uma das coisas que mais amei foi a oportunidade de visitar, com calma, os museus da cidade, apaixonada que sou por História da Arte. Fui a dois deles, o Centro de Arte Reina Sofia, com um respeitável acervo de arte moderna, e o famoso Museu do Prado, com seus vários andares repletos de Boticcellis, Caravaggios, Rembrandts, El Grecos, e, obviamente, das obras dos mestres espanhóis Velázquez e Goya. Não há palavras para descrever a emoção de contemplar esses quadros de perto.

children-and-art2Porém, o que me faz falar disso agora é que, nos dois museus, eu presenciei uma cena que me chamou a atenção. Excursões escolares, com criancinhas bem pequenas, passeando atentamente pelos salões e corredores. Várias. De escolas diferentes, com turminhas de idades diferentes, variando dos 4-5 aninhos até meninos e meninas de 8-9 anos. Uniformes, mãozinha no ombro do colega da frente, as “tias” orientando as filas. E sabe o que eu mais achei interessante e me fez pensar? Em nenhuma dessas excursões havia uma pessoa “explicando” as obras, falando do autor, do estilo, da época histórica. Nada disso. As crianças apenas passavam e iam olhando, como pequenas esponjinhas absorvendo imagens e cores, sem mediação racional. De vez em quando, alguma criança fazia uma observação qualquer, por livre associação, e jamais era criticada ou corrigida. A professora sorria e perguntava mais alguma coisa, que estimulasse uma elaboração maior, de acordo com a idade da criança. Não eram feitos juízos de valor, do tipo “bonito” ou “feio”, “certo” ou “errado”.

Eu achei fantástico, e passei um bom tempo pensando sobre o assunto. O que é que forma nosso repertório de referências visuais e estéticas? Tudo o que a gente vê, principalmente o que a gente vê repetidamente, nos molda. Se vemos sempre ou principalmente ruas feias, sujas, casas amontoadas e escuras, muros pichados, cenas de violência e miséria, é isso que tendemos a achar natural. Eu não sei o que as criancinhas espanholas vêem no seu dia a dia urbano, mas ali estava uma oportunidade de impregnar suas retinas e almas com algumas das melhores obras de arte  já produzidas pela humanidade, num ambiente igualmente belo e elegante.  E se a gente pensar bem, além das referências visuais, há ainda a chance de conviver por algumas horas com referências de comportamento, de convívio social, de valorização de patrimônio, que certamente contribuem para desenvolver o que chamamos de atitudes civilizadas.

Claro que só visitar museus não resolve, claro que formas variadas de expressão artística devem ser valorizadas, mas eu gostaria que existisse um programa que oferecesse às nossas crianças a chance de, desde bem cedo, e com bastante frequência, ter contato com a beleza, a arte, os espaços bonitos e nobres da cidade, independente de decorar nomes e datas, só pelo prazer da fruição mesmo. Isso também alimenta e ajuda a fazer pessoas melhores.

7 comentários para Ainda sobre educação, cidade e crianças

  • madoka

    Oi Ana,
    Nem sei como cheguei até aqui, quais os links, enfim, cheguei e gostei dentre tantos outros zilhões de blogs que tem por aí. Vou te lendo aos pouquinhos, os arquivos, e vi o vídeo do seu professor Pedro Lessa, dando aulas para crianças, é um fascínio, que professor é esse? Nossa, imagina as crianças. E gostei particularmente do seu olhar sobre as crianças que estavam no Museu na Espanha. Vc pessoa sensível para captar isso. Adorei e foi só o começo. Volto mais vezes. Um gde abraço
    madoka

    Oi, Madoka, que bom que você gostou! Volte sim, é um prazer enorme ter você aqui!

  • fal

    cada criacinha deveria ter sua maliu particular. enche um pouco o saco, mas qd a gente cresce a gente descobre como foi importante. oi ana, beijos grandes.

    Oi, Falzuca! A Maliu topa me adotar, ou eu já tou grandinha demais pra isso? Maliu é tudo, fia!

  • Cláudia Marcanth

    Fiquei encantada com o seu depoimento sobre as criancinhas espanholas no museu. Eu acredito que essa é a melhor parte das viagens que fazemos – esse olhar para aquilo que está acontecendo naquela sociedade e cultura diferentes. Os pontos turísticos são legais e às vezes até indispensáveis, mas o prazer mesmo é bater perna e parar, realmente parar para observar.
    Bjs,
    Cláudia.

    Eu também acho. Tou com saudades de você. Bjs

  • Mani

    Acho que as experiencias sao complementares (visitas com guia e sem)…E acho mais fundamental ainda que as visitas sejam com pais, avós, e que nao se deixe isso só na responsabilidade da escola…

    É o ideal, né, Mani? Mas não sendo possível, se a escola fizer passeios legais já ajuda um pouco. E o que eu achei legal foi esse primeiro contato (nem sei se era o primeiro mesmo pra todo mundo) sem a mediação do racional, sabe? Tem um papel ali que é só o de impregnar e eu achei isso tããão bacana. Aí depois, sim, vem a parte de conhecer objetivamente, aprender nome, estilo, história, que também é bacana.

  • Moniquinha

    Oi,Ana.

    Adorei seu relato da vista ao museu.
    Confesso que fiquei triste,sim,pq a atual diretora escola dos meus filhos,acha passeios em geral,um verdadeiro mata aula,uma pena,mesmo,já que antes da chegada dela,havia vários passeios anuais,envolvendo várias disciplinas.

    Bjocas

    Moniquinha! Que delícia ver vc por aqui.
    Pois é, a escola dos meus filhos também parou com os passeios, porque os alunos quase nunca iam. Uma pena, porque havia passeios bem interessantes. Tantas atividades legais que dá pra fazer com as crianças, não é?

  • Alvaro

    Esse programa de noite no museu já existe, também, no Planeário da Gávea. É bem legal!

    Eu já tinha ouvido falar, não sabia se ainda estava de pé.

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