Acharam que eu tinha desistido, não é? Nananina. Mas não deu mesmo pra vir esses últimos dias (nossa, tem mais de uma semana) e ninguém sentiu mais falta disso do que eu. Fiquei fervilhando de idéias sobre assuntos, anotei tudo numa cadernetinha, mas tempo mesmo que é bom pra escrever, nada.
Aí, resolvi que ia recomeçar com uma das idéias que tive nesse período, que é a de criar uma coluna fixa. Sempre achei chique essa coisa de blog que tem uma coluna fixa, uma śerie, resolvi ter uma também
É assim: eu proponho que toda sexta-feira (assim também é uma forma de eu garantir que virei pelo menos uma vez por semana, a intenção é – ou era – ser mais frequente que isso) a gente tenha uma coluna que eu chamei de Cidades Literárias. É um trechinho de algum livro, prosa ou poesia, tanto faz, em que haja uma descrição de uma cidade ou pedaço dela. É uma forma de perceber a cidade apropriada poeticamente pela literatura. Daí que não faz diferença se é uma cidade real ou fictícia, se é uma descrição acurada (pfff…. isso existe?) ou sentimental, se é pra elogiar ou reclamar.
Tem um tempo já que eu penso nisso, montar um curso de História da Cidade através da literatura. Só não sei se tenho cacife pra isso, pra parte de literatura, eu digo. História da Cidade eu já leciono há algum tempo, e amo. Não que eu saiba tanto, mas já sei onde buscar as informações, pelo menos. E literatura é uma paixão antiga, mas é um campo por onde eu caminho às cegas, movida exclusivamente pelo gosto, pelo sentimento. De toda forma, não seria uma análise literária, seria uma conversa sobre História. Só que em vez de começar com dados, fatos, descrições, começaria com um texto que tocasse em algo mais intangível, e a partir daí a gente veria as cidades se desdobrarem à nossa frente, em tantas camadas, e poderíamos tentar entender características, estruturas, paisagens, a partir de uma abordagem menos acadêmica. Não sei, estou pensando. Se rolar, eu aviso aqui.
Mas me desviei. Estou propondo a gente falar sobre isso toda sexta, começando hoje. Eu escolhi, para começar, a cidade (fictícia) de Santa Fé, cujo nascimento e crescimento, tal qual um arquétipo de tantas cidades gaúchas, permeia a obra O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo*. Esse épico fabuloso que narra, ao longo de vários volumes, a própria constituição do território e da identidade gaúcha, acompanha a saga de uma família, os Terra-Cambará, desde o século XVIII até meados do século XX, através de muitas gerações e revoluções, e pode ser lido em vários eixos diferentes. Um deles, talvez não o mais importante, mas um dos que me chamou muito a atenção, é a evolução urbana desta cidade, onde os personagens principais vivem e transitam. O trechinho abaixo saiu do segundo tomo do terceiro volume, O Arquipélago, e fala da Santa Fé da década de 20. A gauchada tá no meio de mais uma guerra, dessa vez tentando depor Borges de Medeiros do Governo do Estado, e um dos personagens, ao se reaproximar da terra natal, vê o seguinte:
“Aproximou-se da cerca de pedras e olhou para a cidade que queria conquistar. Casas e muros branquejavam no meio do maciço escuro do arvoredo dos quintais. As torres brancas da Matriz quase se diluíam na palidez do céu, contra o qual se desenhava, dura e sombria como um capacete de aço, a cúpula da Intendência”.
Fiquei pensando nesse tempo em que as torres das igrejas se destacavam no skyline da cidade, o perfil da paisagem. E nesse padrão de ocupação urbana em que as casas ocupavam o centro do lote, deixando boa parte do terreno, os quintais, cobertos de árvores, jardins. E no meio da terra batida, o poeirão vermelho, as casas brancas, de janelas azuis e telhado de barro. Aposto que todo mundo aqui conhece uma cidadezinha assim.
Nas próximas edições, Marguerite Yourcenar, Clarice Lispector, Ken Follet, Italo Calvino e outros. Aceitamos e solicitamos contribuições. Mas vou tentar voltar antes de sexta. Tem montes de coisas pra falar aqui.
* Só pra constar, essa semana eu li sobre a mudança do acervo do Erico Verissimo de Porto Alegre para o Rio e lamentei profundamente. Entendi que o Instituto Moreira Sales está patrocinando a conservação e digitalização do acervo, bacana, mas será que não dava pra fazer isso lá? Porto Alegre não merecia isso.


Adorei a idéia e vou acompanhar a coluna. Cá pra nós é covardia começar com Érico Veríssimo, mas lá vamos nós!
Quanto ao acervo do Érico, eu lamento demais pelo RS, particularmente por POA, mas entendo a resolução da familia pois cuidar de um acervo custa, dá trabalho e há muito poucos governos que se responsabilizam. O acervo de Jorge Amado certa feita quase foi pros EUA, só não foi pois a Zélia comprou a briga e fez ficar. Mas agora que morreu, atá a Casa do Rio Vermelho está a perigo. Triste. Ainda acho bom que o acervo do Érico tenha ficado no Brasil. Pois certamente há muitas fundações e universidades mundo afora de olho nele.
beijos!
Acompanhar só não, né, Suzi? Participar. Pode tratar de mandar seus trechinhos favoritos também.
E em relação ao acervo, claro que é melhor ficar no Brasil. Mas eu não posso deixar de lamentar. Já que tem um grande banco custeando a preservação, será que não dava pra fazer isso mantendo o acervo na terra natal do escritor? Por que essa centralização de tudo no Rio-São Paulo? O Brasil só teria a ganhar garantindo atrações culturais de peso em outras cidades também.
Se a gente estivesse falando do interior do Nordeste… mas Porto Alegre!? O que é que o acervo de Quintana e de Veríssimo vêm fazer aqui?? É fogo né?!
Olha, a-do-rei a idéia de uma coluna semanal e o assunto, tsk!, sem comentário. Bom demais!!
Beijos beijos,
Beijos, Mel, tou te esperando aqui!
Concordo com voce quanto ao arquivo do EV. E estou morrendo de vontade de acompanhar a coluna…beijos.
Oba, acompanhe sim!
Ana, eu adorei a ideia da coluna, já estou puxando a memória pra lembrar espaços urbanos dos livros que eu tenha ficado com vontade de conhecer. Sabe qual foi o primeiro que lembrei? Harry Potter. Aquelas descrições são bem vívidas, tanto na parte “trouxa” quanto na parte “bruxa” (Hogwarts, Beco Diagonal, etc). Nos primeiros livros, com a rua dos Alfeneiros, o espaço é bem ‘cidadezinha’, ‘subúrbio’. Nos últimos livros, quando a história vai ficando mais dark, os espaços urbanos descritos também sao mais sombrios, marginais e até depredados, como a cena de vandalismo dos amigos do primo do Harry na pracinha.
***
Quanto à cidadezinha que você mencionou no post, que todos conhecem uma assim. Bem, eu moro em uma cidade assim,né? onde as torres das igrejas fazem parte do skyline (aprendi palavra nova) e é fácil ter uma vista panorâmica da cidade a partir da janela de qualquer dos poucos prédios com mais de 10 andares. Eu adoro que seja assim. Coincidentemente hoje soube que na minha rua (ao lado da casa dos meus pais, que você conheceu), vão construir um prédio. Vão tapar um por-do-sol lindo, que dá pra ver do quarto que era meu, uma pena. Mas parece que o plano diretor ainda limita um pouco a altura do prédio nessa área da cidade.
***
Estou adorando o Urbanamente. Beijoconas!
Rá, adorei você ter lembrado do Harry Potter, tem toda razão, a Rua dos Alfeneiros e o Beco Diagonal se enquadram bem nisso que eu tou falando, quando a paisagem urbana se torna personagem da história.
Quanto a Lages, tomara que o Plano Diretor seja seguido. Nada contra o crescimento das cidades, mas a gente deve realmente cuidar para que isso se dê com critérios. Beijos
Oi, Ana, é a minha primeira vez aqui, mas conheço você de longa data: desde a época em que você surgiu no LV do Mothern, com seus comentários inteligentes e verdadeiros, com os quais eu sempre me identifiquei muito. De uns tempos pra cá, eu vinha lendo seus comentários no Duas Fridas. E hoje me aventurei pelo seu blog. Adorei. Tudo. Você tem um olhar muito especial sobre as coisas, e a maneira poética como você “fala” sobre as cidades é encantadora. Achei ótima a ideia da coluna. E permita-me, já que pediu, dar-lhe uma sugestão: A “Cidades dos Imortais”, do conto “O Imortal”, in “O Aleph”, de Borges. Quanto ao seu blog, serei uma leitora assídua. Beijo.
Dani, que legal! Eu também lembro de você do LV do Mothern, e claro que te vejo sempre lá nas Fridas. Maior alegria ter você aqui. Ainda mais já chegando com uma sugestão tão boa. Eu não tenho esse livro do Borges, mas vou procurar, muito obrigada pela dica.
amei a idéia!
agora vou ficar atenta a todas as descrições de cidade que eu for lendo por aí…
beijocas
A idéia é essa!
Adorei a idéia, Ana!
Andava com saudades dos seus escritos…
E desde logo, sugiro as (muitas e deliciosas) descrições de Barcelona dos livros do Carlos Ruiz Zafon (especialmente “A Sombra do Vento”, mas ainda o livro posterior, “el Juego del Angel”).
Beijo grande, saudades!
Aaahhhh, esse eu não conheço! Traz pra roda! Transcreve um pedacinho aqui, ou me manda por e-mail que eu ponho lá na frente, numa das sextas-feiras!
Querida,
Na nossa região essa “Santa Fé” ainda é tão presente…
Essa obra de Érico Veríssimo (minha favorita. Não dele, mas de tudo que já li na vida), você não imagina o quanto essas histórias contadas por ele e que se fundem com outras tantas histórias e persongens tão reais quanto os que ele narrou permeiam ainda a vida e os costumes do interior desses dois estados (Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que tem sua região mais ocidental muito mais influenciada pelos costumes e vivencias gaúchas).
Mesmo a cidade onde eu moro, que já conta com algo em torno de 160 mil habitantes (não ria!), ainda tem a paisagem central dominada pela igreja matriz e suas torres altas, a praça na frente da igreja, o cemitério atrás e a prefeitura (ou ao menos parte da estrutura administrativa logo ao lado)… Santa Fé é aqui, hehehe.
Bjão.
Tornou-se uma das minhas obras favoritas também. É engraçado que parte da minha família, por parte de mãe, tem origens gaúchas, avó de São Borja, avô de Uruguaiana. Mas eu nunca tinha ido ao Rio Grande nem tido grandes contatos com a cultura do sul, até que casei com um gaúcho e passei a frequentar essa região do país. E estranhamente, ou não, me reconheci tanto naquela terra, nas gentes, nos costumes, tudo me bateu de forma tão familiar, parece uma coisa que corre no sangue sem nem a gente se dar conta.
te amo, babe
Óia os meus olhinhos piscando pra você!
Descobri, recentemente, o livro “Dublinenses”, do temido James Joyce. Pois não é que o livro é legível, sem piruetas formais ou longos trechos de “stream of consciousness”? Pelo contrário, é uma das primeiras obras do Joyce, tocante e escrita com o propósito de retratar Dublin como o grande escritor a enxergava.
Pensei em procurar um trecho legal e fazer uma tradução livre, que tal?
Bjs,
Cláudia.
Please, please, please! Faça isso!