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Nem tão recentemente

A materialização do amor

Estamos nós, de novo, na proximidade de mais uma dessas datas tão queridas à indústria do consumo: o Dia dos Namorados. Não que ter um(a) namorado(a) não seja uma delícia, e que fazer um agrado ao ser amado, seja na forma de um presente ou um carinho especial, não seja importante. Imagina. O problema está em alguns detalhinhos escondidos nesse massacre publicitário em torno da data:

1) Eu me rebelo contra essa ditadura do calendário publicitário. Já repararam que a gente divide o ano nos temas importantes para o comércio? (a gente quem, cara pálida?, vc pode se perguntar e eu direi: ok, nem todo mundo, mas a maioria, do meu ponto de vista).  Pulamos do Reveillon para o Carnaval, desse para a Volta às Aulas, seguida de perto pela Páscoa (ovos de chocolate nas lojas no final de fevereiro!), e pelo Dia das Mães. Mal acaba o Dia das Mães vem o Dia dos Namorados, a Festa Junina, o Dia dos Pais. Aí segue o Dia das Crianças e o Natal, que agora começa em outubro, com árvores e luzinhas pra todo lado, afinal, há que se ter uma motivação para o consumo, não dá pra deixar um mês inteiro, como novembro, passar em brancas nuvens. Tá bom, eu visito minha mãe no dia das Mães, participo das festas familiares natalinas, acredito no valor de algumas datas como sinais que nos ajudam – nesse mundo tão enlouquecido – a parar em algum momento, nem que seja assim, para dar atenção ao que realmente importa: as pessoas que amamos. Mas eu me recuso a regular meus afetos e sobretudo a expressão do meu afeto pela propaganda.

2) Essa ditadura das datas acaba concentrando as manifestações de amor e carinho em torno desses dias, ou pelo menos privilegiando esses dias em detrimento de outros; gerando expectativas e criando mal-entendidos. Então um namorado te dá amor, atenção, sempre, mas justo naquele dia ele não tem como escapar de uma reunião, ou então a namorada que está sempre lá pra você, desmarca compromisso pra te ajudar com alguma coisa, mas no dia 12 por qualquer motivo não pode te ver. Ou está exausta e prefere ficar em casa, ou – pecado supremo – não teve tempo para a depilação ou para comprar lingerie nova. Por isso, você deixou de ser importante para ele/ela?

namorados2

3) A cereja do bolo: o tamanho do seu amor e da importância que você confere ao ser amado fica atrelado ao preço do presente que você se dispõe a dar. Nossa, se você fizer o sacrifício de empenhar parte do salário em 5 prestações numa coisa que nem teria condições de comprar agora, isso então é mostra de um amor supremo!

Foi nisso que eu pensei quando eu li esse trechinho aqui, no livro do Bauman (sempre ele), Vida para Consumo (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007). Nesse trechinho, inclusive, tirado da página 153, ele está fazendo uma citação a a outro autor, Arlie Russel Hochschild, no livro “The commercialization of intimate life”. Mas vejam se vocês não acham uma pequena pérola:

“O consumismo atua para manter a reversão emocional do trabalho e da família. Expostos a um bombardeio contínuo de anúncios graças a uma média diária de três horas de televisão (metade de todo o seu tempo de lazer), os trabalhadores são persuadidos a ‘precisar’ de mais coisas. Para comprar aquilo de que agora necessitam, precisam de dinheiro. Para ganhar dinheiro, aumentam sua jornada de trabalho. Estando fora de casa por tantas horas, compensam sua ausência do lar com presentes que custam dinheiro. Materializam o amor. E assim continua o ciclo.”

Tem tantas coisas a mais que se pode pensar e dizer sobre o assunto, mas eu deixo pra vocês. Não estou dizendo ao Marido que ele não vai ganhar presente esse ano, porque ele até vai (hohoho). Mas às vezes, ter mais tempo, olhar para o outro de verdade, com amor, sair pra andar de mãos dadas, conversar de coração aberto, podem ser presentes muito mais valiosos e necessários que todas as promoções anunciadas na tv e nos shoppings. E não, não são coisas grátis. Mas o que elas custam não nos endivida: pelo contrário, nos enriquece.

7 comentários para A materialização do amor

  • Falou e disse!
    Beijos

    Beijos, querida.

  • Olá Ana!

    Olha eu concordo com você. Mas tem partes desse discurso (justo) “anticalendáriopublicitário” que me incomodam bastantinho.
    Aquele incômodo sobre o qual dificilmente reflito (até pela importância da reflexão no caso, hehe) mas vejamos, é algo mais ou menos assim:
    Penso que essa fala da não comercialização de datas é bastante usado para encobrir uma espécie de “preguiça” ou acomodação, sei lá.
    Ou seja, só vale o discurso (do não às datas festivas) se nos outros dias você, voluntariamente e a despeito de nada, enche sua mãe de mimos e carinhos. Se lembra, fora do aniversário, daquele amigo querido e liga pra ele pra mencionar (ou demosntrar, vá lá) que ele é muito importante e tal.

    Então, se costumamos mesmo fazer sua parte no relacionamento. Se cuidamos bem das nossas relações.
    Se lembramos de vez em quando passando numa confeitaria, floricultura ou numa vitrine de Shopping do nosso “ser amado” (Presentinho sim, porque presentinho também implica em algum desapego monetário, em favor da vontade de ver aquele rosto iluminado, porque afinal de presente todo mundo gosta), aí dia dos namorados é mesmo desnecessário.

    Do contrário essas datas acabam cumprindo (talvez infelizmente) um papel de manter digamos, “o mínimo” nas relações de afeto nessa nossa sociedade onde ninguém pára pra nada.

    Bom mesmo é tentar fugir dessa corrida maluca. Buscar na criatividade e no sentimento que você tem por aquela pessoa, alternativas de comemorações e presentinhos menos óbvios e deprimentes que, por exemplo, aquelas filas imensas em restaurantes carésimos (se é que alguém chama isso de presente).
    Bjão e boa semana.

    PS.: nunca venho e quando venho sempre estrapolo no espaço, desculpe.

    PS1.: Tu viu, né? Não comentei uma linha sobre o jogo da Copa do Brasil. Eu sou uma lady, hehehe.

    Liliiiiii! Você nunca extrapola, só acrescenta. Eu concordo 100% contigo. Só não quis me alongar demais no post porque eu tinha certeza que vcs iam complementar lindamente. É isso aí. Só o discurso “não ligo pra essas datas” é tão vazio quanto se escravizar por elas. Na verdade, o que conta, é o afeto, o vínculo amoroso, em todas as suas manifestações. E você tá certíssima, essas datas cumprem mesmo muitas vezes com esse papel de garantir “o mínimo”.
    Copa do Brasil? Do que é que você está falando? Não sei nem o que é isso, hahahaha!
    ;-)

  • Bom, concordar é fácil, então nem vou me estender muito sobre a pressão que se faz para que a gente compre, se produza, esteja com lingerie nova, maquiada, depilada etc etc e ainda com um presente comprado – que não pode ser insignificante, nada de “lembrancinha” no dia dos namorados.
    Mas indo um pouco na linha da Lili, acho que em vez de escolher o caminho difícil (e pouco desafiador) de se recusar a entrar no “jogo do mercado”, podemos usar a criatividade e aproveitar esses momentos para, sim, de certa forma expressar nossos afetos com data marcada; mas, num mundo em que a gente vive correndo contra o tempo, talvez a ideia de uma pausa obrigatória para isso não seja, em si, totalmente ruim.
    Meu namorado detesta fila e só de pensar em sair para jantar no dia 12 já começa a ficar meio nervoso. Para evitar esse problema, em geral eu preparo um jantar bacana em casa, o que é uma boa oportunidade inclusive para cozinhar para ele, que é uma coisa que eu gosto de fazer. Fazemos as coisas com calma, aproveitamos o momento com muito mais alegria e não precisamos entrar na roda-viva das disputadíssimas reservas e filas de espera.
    É a mesma coisa no dia das mães. Antigamente as pessoas almoçavam em casa, caprichavam no almoço de domingo e tal. Agora, é claro que nenhuma mãe vai querer ir pro fogão “justo no seu dia”, e o resultado é que os restaurantes ficam insuportáveis. A gente tem feito um brunch na casa da minha mãe, que é uma coisa fácil, não exige preparação prévia, é só comprar uns frios, umas folhas para a salada verde, e às vezes até usamos pratos descartáveis pra não ficar nem louça na pia. A mãe, os filhos e os netos curtem, é uma reunião de família sem estresse.
    É claro que essas datas sempre motivam a compra de um presente. Mas, como a Lili observou bem, comprar um presente também é uma forma de agradar quem a gente gosta. E o presente, assim como a vírgula (ou a crase?), não foi feito para humilhar ninguém… O importante, eu acho, é o prazer de escolher uma coisa bacana, que tenha a cara daquela pessoa, que conte um pouco da história dos dois, ou que mostre que você prestou atenção quando ele disse que estava pensando em comprar aquele livro/CD/filme… Enfim, é um gesto de delicadeza, e não mais um item para nossa lista de tarefas. E se endividar para comprar presente realmente é uma loucura, uma coisa que eu nunca entendi, e acho que no fundo carrega um tal narcisismo (“vou mostrar o quanto sou poderosa, olha o presentão que eu dei”) que perde completamente o sentido original da coisa.
    No mais, tenha um feliz dia dos namorados – acho que o maior presente é ter um espírito “namorador” depois de, sei lá, 16 anos? 18? Enfim, curtam bastante, vocês merecem.
    Bjs

    18 anos, bom, né? É isso mesmo, eu já escrevi mais um pouco na resposta pra Lili. Claro que ninguém tá dizendo pra fazer birra com a data e se recusar a comprar presente. É só uma questão de colocar as coisas na sua perspectiva correta. O presente, o brunch (excelente idéia), o jantar em casa, são ótimos, quando eles complementam um amor que vai além da obrigação da data. Como eu mesma disse, eu visito minha mãe e comprei presente pro marido (bobaginha, mas é dessas coisas que dizem da atenção que a gente presta no detalhe do cotidiano). Eu valorizo, sim, as paradas no dia-a-dia frenético, e usar uma data pra isso é um recurso muito válido. O que eu quis pontuar, e que eu sei que vocês entenderam, é que devemos cuidar pra não resvalar no piloto automático, e não deixar o presente material tomar conta e substituir a atenção, o tempo, o carinho que não se compra na esquina. E que eu me esforço pra não deixar a publicidade ditar a forma/intensidade/momento em que eu demonstro os meus sentimentos, pelo menos não sem pensar criticamente a respeito. Feliz Dia dos Namorados pra vocês também!

  • Cláudia Marcanth

    Podem me chamar de scrooge, eu não ligo, mas eu já não suporto mais aquele negócio de ter que aguentar papai noel de outubro até o Natal; trilha sonora de samba-enredo de dezembro até o carnaval; ovos de chocolate despencando em cima das nossas cabeças de fevereiro até a Páscoa; propagandas de mamães pedindo celulares da Páscoa até o segundo domingo de maio; poluição visual de corações de todos os tamanhos e cores de maio até o dia dos namorados; de barraquinhas e bandeirinhas juninas de junho até julho; de fotos de papais provedores e participantes de junho até o dia dos pais; de anúncios de crianças bem alimentadas e mimadas pedindo mais brinquedos de agosto até o dia das crianças; e depois tudo de novo…

    E, nessa ciranda massacrante, eu até esqueci dos professores. E ainda querem enfiar avó, secretária, médico e mais uma miríade de profissões nessa roda infernal? Deus me livre!

    Como bem diz a Fal: “Chamem a Nave-mãe, por favor!!!!!”

    Hahahaha, somos duas!

  • Hoje um amigo aqui do trabalho resumiu, com aquela objetividade bem masculina: esse desespero para sair no dia dos namorados, para fazer alguma coisa “especial”, pega mais para aquelas pessoas que não saem nunca e precisam aproveitar o pretexto para mudar a rotina. Quem está sempre junto, sempre passeando, curtindo a vida e aproveitando juntos, não entra nessa pilha. :P
    Bjs

    Bingo!

  • Isso sim. Tem coisa que encha mais o coraçãozinho de tristeza que ouvir nessaq época um infeliz que na oficina, no ônibus ou na padaria com sair com aquele: “Hoje é dia de levar a ‘patroa’ pra comer fora”??
    Pode ser só impressão, mas fica parecendo que jantar fora, só se houver um excelente motivo, hehehe

    Aliás, chamar de “patroa” já é um tremendo fora, né?

  • Oi, Ana Paula. O consumismo desenfreado é um dos responsáveis pelo aumento da infelicidade em massa. “Ter”, “querer” e “comprar” são máximas exploradas por datas comerciais e pela publicidade. Esta questão também é tratada no livro “A Arte da Vida”, do Bauman. Nele, ele discorre sobre o que significa a felicidade hoje e como o conceito de ser feliz está (erroneamente) vinculado aos bens materiais. Acredito que você vai gostar de lê-lo também – http://www.zahar.com.br/catalogo_detalhe.asp?id=1266&ORDEM=A.htm
    Um beijo.

    Oi, Cecília, já li e é mesmo muito bom!

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