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Nem tão recentemente

Cidades Literárias: Ken Follett

Mantendo a promessa: sexta-feira é dia de Cidades Literárias. Como eu disse na semana passada, a idéia é destacarmos “um trechinho de algum livro, prosa ou poesia, tanto faz, em que haja uma descrição de uma cidade ou pedaço dela. É uma forma de perceber a cidade apropriada poeticamente pela literatura. Daí que não faz diferença se é uma cidade real ou fictícia, se é uma descrição acurada (pfff…. isso existe?) ou sentimental, se é pra elogiar ou reclamar”.

Na última sexta-feira, falamos de Santa Fé, cidade criada por Erico Verissimo em O Tempo e o Vento. Hoje eu trago outra cidade fictícia, Salisbury, direto da Inglaterra do século XII, no livro Pilares da Terra, de Ken Follett. Neste romance, Follett acompanha a trajetória do mestre-construtor Tom, cujo sonho é construir a maior e mais bela catedral da Inglaterra. Seu caminho se cruza com o de nobres e clérigos, numa luta às vezes sangrenta e traiçoeira, por poder e glória. O livro é muito bom, e tem uma pesquisa muito acurada da vida nas cidades daquela época, que renasciam com o incremento do comércio e o surgimento de uma nova ordem urbana. Nesse trecho que eu trago hoje, que é bem do comecinho da história, o autor está descrevendo a chegada de Tom e sua família à cidade fortificada de Salisbury, onde governa um poderoso bispo. Tom está há muitos dias nas estradas, passando fome e perigos com sua família, batendo nos portões das cidades à procura de trabalho:

“Eles atravessaram o portal e entraram na cidade. O lugar estava tão atulhado de construções, pessoas e animais que parecia em perigo de explodir e derrubar sua muralha circular, caindo dentro da vala. As casas de madeira erguiam-se uma do lado da outra, tão apertadas quanto espectadores de um enforcamento lutando por espaço. Cada pedaço de terra, por minúsculo que fosse, era utilizado para alguma coisa. Onde duas casas tinham sido construídas com uma passagem entre elas, alguém erguera uma habitação de meio tamanho, sem janelas porque a porta tomava quase toda a frente. Onde quer que o terreno fosse pequeno, até mesmo para a mais estreita das casas, havia uma banca para vender cerveja, pão ou maçãs; e se não houvesse espaço nem mesmo para isso, se ergueria um estábulo, uma pocilga, uma esterqueria ou um barril de água.

A cidade era barulhenta, também. A chuva pouco fazia para amortecer o clamor das oficinas de artesãos, dos vendedores ambulantes, apregoando suas mercadorias, das pessoas se cumprimentando, barganhando e discutindo, de animais relinchando, latindo e brigando.

- Que fedor é esse? – perguntou Martha (a filhinha de Tom), erguendo a voz acima do barulho. Tom sorriu, fazia uns dois anos que ela não entrava numa cidade.

- É o cheiro de gente – respondeu.

A rua era apenas um pouco mais larga do que o carro de boi, mas o carroceiro não quis deixar que os animais parassem, com medo de que não voltassem a andar novamente; assim, continuou batendo neles, ignorando todos os obstáculos, e os bois prosseguiram forçando o caminho por entre a multidão, empurrando para o alto, indiscriminadamente, tanto um cavaleiro montado num cavalo de batalha quanto um morador da floresta com um arco, um monge gordo num pônei, homens de armas, mendigos, donas de casa ou prostitutas. “

Sabe uma das coisas que mais me chama a atenção? Quando Tom se dá conta que a filha não entrava numa cidade há dois anos. Isso praticamente não é mais possível hoje. A idéia de entrar numa cidade implica na noção de que há o dentro da cidade e o fora da cidade, a não-cidade. Pensa bem: hoje, como diz Henri Lefèbvre, nós vivemos o fenômeno da urbanização total. Tudo é cidade, tudo é tocado pela ordem urbana, seja do ponto de vista administrativo, político, econômico, de códigos de comportamento. É na cidade que vivemos e não temos escapatória senão buscar o melhor modo possível de fazê-lo.

8 comentários para Cidades Literárias: Ken Follett

  • Não conheço esse livro. Adorei o trecho.
    Verdade, hoje esse fenômeno de urbanização (que eu não domino, hehe)torna quase impossível essa falta (literal) de contato com a cidade. Mas eu fiquei aqui pensando, Ana.
    E os guetos, as partes marginalizadas da cidade. As grandes favelas, por exemplo. Será que as pessoas, será que uma pré-adolescente de uma grande favela, de um subúrbio mais afastado não experimenta de alguma forma essa sensação narrada nas ocasiões em que tem acesso ao centro econômico e cultural da cidade. Que tu acha?

    To ansiosa por Eça nessa brincadeira. A descrição irônica dele sobre as cidade e principalmente da sociedade é o máximo.

    Bjão.

    Posso te responder num post separado? Eu já provoquei de propósito, hehehehe.
    Eça de Queiroz! Como é que eu não tinha pensado nele antes? Tá acrescentado à lista.

  • Cláudia Marcanth

    Em 1999, voando de Tóquio para Osaka, fiquei boquiaberta: não há sequer um espaço sem urbanização. É uma cidade colada na outra, a gente sem saber onde termina uma e onde começa a outra. Põe claustrofobia nisso!

    E já podemos ver fenômeno parecido em algumas estradas do sudeste brasileiro.

    Que saudades do Eça – “As Cidades e as Serras”. Também voto nele para futuros posts!
    Bjs

    Só que justamente esse livro do Eça eu não tenho. Você tem? Quer separar um trecho e mandar?

  • Assisti uma ótima palestra de uma arquiteta brilhante que usou esse texto ;o)
    Vou esperar o desenrolar para saber se concordo com a sua premissa.
    Cidades/urbes temos muitas, mas cidadãos urbanos temos tão poucos.
    É preciso possuir a cidade, mas também é necessário ser possuído por ela.

    Brilhante foi você no seu comentário. Roubarei descaradamente para o próximo texto. ;-)

  • Dividindo o comentário:

    a) “Que fedor é esse?” Interessantíssimo, ao lembrarmos que houve um tempo em que o cavalo era o principal meio de transporte, em que não havia privada e os penicos eram esvaziados nas ruas; para um morador de propriedade rural, as cidades deviam mesmo ser fedorentas e apertadas!

    Hoje em dia, quando vamos pra sítios, reclamamos do cheiro de bosta de vaca…e aqui no Amazonas, é relativamente comum um anedotário popular sobre o “mau cheiro” dos indígenas. Pois os indígenas tribalizados raramente utilizam sabonete,desodorante, pasta de dentes ou perfume… Logicamente, entre si os indígenas nao se consideram fedorentos.

    Fedor ou perfume, é construção cultural, não?

    b) Eu moro na grande exceção do Brasil, eu sei. Uma cidade de milhão e muitos mil habitantes recheada e cercada por floresta amazônica. E por isso mesmo, eu digo que ainda há os que “vão à cidade”. Morar no município de Manaus não significa estar em Manaus. Meu namorado mora na Zona Leste, que é praticamente uma cidade independente. É possível viver uma vida sem sair da Zona Leste – que conta, inclusive, com sistemas “extra-oficiais” de transporte mais eficazes que Manaus. Uma vez, marcamos de ir a um barzinho; eu tive de ficar toda preocupada em pegar táxi, enquanto ele dispunha de várias linhas de kombi-lotação de vinte em vinte minutos, de meia-noite às 4h. Lá só não tem cinema. Ainda. Não é impossível achar algum morador da Zona Leste dizendo que “precisa ir comprar X ou Y na Cidade”.

    C) Além dessas zonas não-urbanas dentro da cidade, o Amazonas é pródigo em famílias como a da Ana Terra: uma palafita isolada, o vizinho mais próximo a duas horas de viagem de canoa. Idas à cidade para comprar pilhas, querosene, sal, revistas, coisas assim. Esse modo de vida está entrando em extinção, mas a Amazônia é muito grande.

    Falei mais que a boca!

    Adoro quando falam! Esse teu comentário excelente vai encaixar dentro do próximo post, quero ver se escrevo hoje ainda. Responde também ao questionamento da Lili. Que bom que você veio! Bjs.

  • off-topic

    Olha, eu não sou uma monstrinha colorida!

    Hahahahaha!

  • Ana, essa coluna vai ser uma das minhas preferidas na blogosfera inteira, viu? (aliás, muito legal que você pinça os trechos, transcreve e contextualiza, porque insere na discussão as pessoas que desconhecem o livro, como, nesse caso, eu) :o *

    A resenha em pdf no link confesso que li mas não li. Quero dizer, li, mas não sei se já entendi – afinal, não domino os conceitos do Urbanismo.

    ***

    Sobre o tema do post, acho que, no post e na discussão aqui nos comentários, o “entrar na cidade” e a consequente existência de um “lado de fora” presumem um conceito de cidade que eu não consegui delimitar qual é.

    Primeiro lembrei, bem empiricamente, da minha experiência de morar em uma cidade paradoxal que é pequena em relação ao estado mas, ao mesmo tempo, é o referencial “urbano” na região. Neste caso cidade seria o centro mais economicamente desenvolvido, com mais recursos na área da saúde, lazer, educação, etc.

    Mas aí vejo, pelas questões já levantadas aqui, que essa definição de cidade pode cair no simplismo, já que ignora os espaços de não-cidade dentro da cidade e também os espaços que ela ocupa no que deveria ser seu “lado de fora”, como a própria “presença” da cidade-polo no cotidiano das pessoas que vivem nas cidades-periferia, as quais contam com ela e com seus recursos em certas situaçoes – por exemplo, para comprar um carro, para fazer um exame médico mais sofisticado; para vivenciar experiências culturais como o cinema.

    Ali no trecho do livro, por exemplo, a cidade não pertencia à realidade da filhinha, mas era viva na memória do Tom e ocupava um espaço fora do que deveriam ser seus limites (pois a cidade ocupava espaço na lembrança dele, através das experiências que ele vivera nela e ajudaram a construir alguns de seus paradigmas, inclusive questões como a que a Eva trouxe, de definir qual cheiro é agradável qual não é). É a cidade fora da cidade. E personificada.

    Teria bem mais questionamentos (e nenhuma resposta, mas acho que a ideia também não é chegarmos a alguma conclusão definitiva), mas acho que só com esses dois já consigo dizer o porquê de ser difícil para mim acompanhar e contribuir com a discussão sobre o dentro e o fora da cidade.

    Talvez eu e a Lili estejamos nos fazendo a mesma pergunta: afinal, o que é cidade?

    Paulinha, quando eu pensei em fazer o blog, foi exatamente pra tentar trazer para a discussão sobre a cidade gente que “não entende os conceitos de urbanismo”. Gente que, afinal, vive a cidade e tem um saber riquíssimo, que não pode ser desqualificado diante do saber dos técnicos. Você foi no coração da questão: afinal, o que é cidade?

  • Minha querida, ao ler os posts das cidades, lembrei deste livro: http://www.travessa.com.br/DICIONARIO_DE_LUGARES_IMAGINARIOS/artigo/e0301b0a-eeb9-4899-9b00-0535a59d7a3a, Dicionário de lugares imaginários. Deliciosérrimo. :)

    Agora você veja. É a segunda pessoa em menos de três dias que me recomenda esse mesmo livro. Fui lá no link e já me apaixonei por ele. Agora vou ter que comprar. Obrigada pela dica! Beijocas enormes.

  • Cláudia Marcanth

    Comentário novo em post já antigo – só para dizer que hoje encontrei o Thiago na Saraiva do Bot.P. Shopping. Eu estava justamente procurando pelos livros do Ken Fowllet… Quando nos vimos, falamos em uníssono: “Eu conheço você!”
    Ele comentou: “Ah, esse autor? A Ana Paula ama o cara!” Combinamos, então, que, mesmo ele trabalhando ali, o melhor seria eu pedir o teu livro emprestado… Fiquei feliz por ele – está no lugar certo: na livraria, dividindo com outros leitores o seu conhecimento sobre os livros.
    Beijão!

    Eu tou feliz demais pelo Thiago. E o livro tá às ordens!

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