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Nem tão recentemente

Cidades Literárias: Clarice Lispector

A história de hoje é com Clarice e Brasília. Só que envolve uma dúvida, para a qual eu peço a ajuda de vocês. Eu recebi o texto abaixo de uma amiga, por e-mail, atribuído à Clarice. Gostei muito e tem realmente o jeito dela. Mas eu não sei (nem a amiga, porque eu perguntei pra ela), qual a fonte do texto. Em que livro foi publicado, ou se foi uma crônica de jornal, quando ou qual o título. Assim, se algum de vocês tiver essa informação, eu agradeço que partilhem conosco. Hoje eu não vou fazer nenhuma outra consideração sobre o texto, vou deixar vocês lerem e darem sua opinião, eu tenho lá as minhas… A gente vai trocando impressões nos comentários.

Update: consultando o oráculo, vi que a autoria é mesmo dela, Clarice Lispector, e que a crônica foi publicada em 1962, portanto, quando Brasília estava recém-inaugurada. Só ainda não sei onde foi a publicação. O pedido de ajuda continua de pé.

Update 2: A Monix salvou a pátria: o livro em que consta essa crônica é o Visões do Esplendor, e parece que está esgotado. Mas fica aí a referência. Valeu, Monix!

“Brasília é construída na linha do horizonte. Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades.

Brasília ainda não tem o homem de Brasília. – Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério.

brasilia(…) Brasília foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construções com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete nos jornais.

(…) Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. Nunca vi nada igual no mundo.

(…) Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. Cadê as girafas de Brasília? É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la. E se acontecer, será tarde demais: não haverá lugar para pessoas. Elas se sentirão tacitamente expulsas.

A alma aqui não faz sombra no chão.
Por mais perto que se esteja, tudo aqui é visto de longe. (…) A cidade de Brasília fica fora da cidade.

Essa beleza assustadora, esta cidade traçada no ar. Por enquanto não pode nascer samba em Brasília. Brasília não me deixa ficar cansada. Persegue um pouco. Bem-disposta, bem-disposta, bem-disposta, sinto-me bem. E afinal sempre cultivei meu cansaço, como a minha mais rica passividade. Tudo isso é hoje apenas. Só Deus sabe o que acontecerá com Brasília. É que o acaso aqui é abrupto.

Brasília é mal-assombrada. É o perfil imóvel de uma coisa. De minha insônia olho pela janela do hotel às três horas da madrugada. Brasília é paisagem da insônia. Nunca adormece. Aqui o ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se. Eu queria ver espalhadas por Brasília 500 mil águias do mais negro ônix.

Brasília é assexuada. O primeiro instante de ver é como certo instante da embriaguez: os pés não tocam na terra. Como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira, começa a querer. E querer, é que não pode. Não tem. Será que vai ter? É que não estou vendo onde. (…) Se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui inaugurado. E tão pouco secreto, tão bem adequado ao planalto, que ninguém jamais saberá.

Aqui é o lugar onde o espaço mais se parece com o tempo. (…) Fazem tanta falta cavalos brancos soltos em Brasília. De noite eles seriam verdes ao luar. Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que também é a idéia que faço da eternidade. Os dois criaram o retrato de uma cidade eterna.

Há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui. O medo sempre me guiou para o que eu quero; e, porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo quem me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que amo é arriscado.

Em Brasília estão as crateras da Lua. A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis”.

12 comentários para Cidades Literárias: Clarice Lispector

  • Clarice tem que se ler mais de uma vez.
    O racado lá está assim: Se eu não tivesse descoberta agora de tal efemérides, poderia sugerir pra Ana fazer o post desta sexta com cidades submersas.
    Se é que você gosta de Chico Buarque.

    (ps – será que vou parecer hermético que nem a Helê? eheheheh)

    Bom, não sei se eu entendi o recado todo. :-) Mas adoro Chico, e cidades submersas pode perfeitamente entrar pra lista.

  • Ana, o livro chama-se “Visão do Esplendor” e tem várias crônicas, entre elas esta sobre Brasília. Eu li emprestado de uma amiga lá no século passado, mas agora fui procurar e encontrei: http://www.sebodomessias.com.br/sebo/(S(ins5en45v0wpos555i3tug45))/detalheproduto.aspx?idItem=4301
    Deve estar esgotado, né? :-(
    Bjs

    Aaaahhhhh, eu sabia que alguém iria acabar me salvando! Muito obrigada! é verdade, eu não tenho visto esse livro por aí. Acho até que nunca vi, na verdade. Mas é bom saber de onde saiu a crônica. Valeu.

  • Cláudia Marcanth

    Clarice realmente tem que ser lida várias vezes! Mas a recompensa é ouro puro!

    Estava aqui pensando no horror que a Brasília recém-inaugurada devia despertar em muitos dos seus visitantes. Como Clarice diz muito bem, as ruas e as construções estavam ali, mas faltava o “homem de Brasília”. E o elemento humano, se eu aprendi direito, é a alma da cidade, é a razão de ser de uma cidade.

    Brasília foi uma cidade “ao contrário”, nasceu antes do seu povo. E, sem o povo para interpretar aquele espaço urbano, era impossível saber, naquele momento, qual era o sexo e o samba de Brasília.

    Mas ali, da janela do seu hotel, Clarice também sentia uma grande atração por aquele esqueleto de cidade. Talvez fosse o assombro de ver até que ponto a criatura era capaz de ir para poder tomar para si o papel do Criador.

    Paradoxalmente, Brasília tinha dentro de si aquilo que, durante toda a nossa história, vem nos definindo como humanos – o desejo de dominar a Natureza, de “roubar” dos deuses a chama divina. Ou seja, no meio do extra-terreno, no meio das crateras da lua de Brasília estava o próprio coração do homem, do desejo humano.

    Acho que viajei… mas isso é o que acontece quando a gente tem a Clarice por perto.
    Adorei o texto dessa semana.
    Bjs!

    Eu tou dizendo… você tem que escrever mais, escrever sempre. Que lindo, tão à altura do que clarice escreveu. Muito obrigada. Mesmo.

  • A minha cultura é rasa, a minha formação tem lacunas incomensuráveis, a minha biblioteca (?) é bem fraquinha, mas eu não sou … um qualquer.
    Visão do Esplendor – impressões leves – página 9 – Brasília.
    É o primeiro texto do livro. Um dos pontos de marcação da época, passo a citar – ” O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é um manchete invisível nos jornais. – Aqui eu tenho medo. – A construção de Brasília: a de um Estado totalitário. – Este grande silêncio visual que eu amo. Também a minha insônia teria criado esta paz do nunca. … Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo, meu Deus?”
    Os livros continuam caros, mas parecem um pouco melhores (estou falando da encadernação). O exemplar está com as folhas todas soltas, mas se lhe interessar posso emprestar.

    A sua cultura não é rasa, todas as nossas lacunas são, por definição, incomensuráveis, o gosto por ler os livros é mais importante do que ter a biblioteca em si, e você é absolutamente especial. Dito isso, não, eu não quero o livro emprestado (por enquanto). Eu já estou com um livro seu, lembra? E mais 20 na mesinha de cabeceira, enfileirados. Mas muito obrigada, pela oferta e pelas informações!

  • A comparação que CL fez de Brasília sem habitante com o mundo antes da criação do homem foi muito bonita. E concordo com a idéia de que somos o resultado da nossa adaptação ao meio ambiente. Eu, pelo menos, mudo tanto quando mudo de cidade. Por exemplo, até os 18 anos, morei no Rio e era uma carioquinha padrão. Depois, morei seis anos em Itaocara, cidade minúscula, e virei minúscula também nos meus interesses. Agora, há 15 anos, estou aqui em Resende e parece que nunca fui de outro lugar.

    Se a gente é o resultado eu não sei, mas certamente há uma tendência, principalmente a longo prazo, de adaptação. Dá o que pensar isso.

  • Christi

    Olá,

    sim, eu acho que o texto é da Clarice. Eu ja li, num dos livros dela publicado pela editora Rocco, mas nao posso fornecer a exata citaçao porque nao tenho o livro comigo. Vamos ver, se nao é dela, parece-se muito com o texto do que estou falando. Quando poder, vou procurar a referência certa.

    Vou tentar mais. Agora procurei na internet e tenho quase certeza que o texto aparece no livro Para nao esquecer. E nao, nao está esgotado.

    Até mais. Tchauzinho,

    Christi

  • Rogerio Barata

    Olá, gente
    Ando sempre perseguindo as sombras e as luzes da querida Clarice Lispector em seus textos cheios de enigmas, imagens e acertos corajosos. Procurava eu por uma crônica fantástica escrita por ela – chama-se A Mudez Cantada, A Mudez Dançada -e deparei com este sítio com um outro texto, não menos interessante como Brasília 1962. Ainda não li todos os comentários devido à pressa, mas relei tudo para “entrar no bonde” (que Brasília nunca teve..).
    Só pediria a vocês para publicar este texto na íntegra, pois faltam partes muito interessantes, por exemplo a descrição que ela faz das pessoas que nasceriam em Brasília. É no mínimo hilário o perfil que ela constrói. Não deixem de buscar e publicar.
    Eu faria isto, não fosse a minha adolesência, em que vários dos meus livros emprestei ou dei mesmo! E nunca mais os recuperei… Foi o que aconteceu com meu exemplar, e de uma das primeiras edições.
    Bem, inauguro aqui minha humilde colaboração, esperando ser bem recebido e poder qualificar minha participação nesta conversa genial sobre a inigualável Clarice.
    Um abraço (que também não senti quando em Brasília),
    Rogério Barata

    Oi, Rogério, seja bem-vindo. A Clarice é mesmo maravilhosa. Venha sempre.

  • Paulo Roberto Bressan

    Tenho um comentário, aliás é uma musica que foi feita na época da inauguração de Brasilia. Naquele tempo um disquinho pequeno, com a seguinte musica: Eis a letra, que guardo na memoria do tempo de criança em Minas Gerais, Ubá.
    Brasilia.
    Sob um céu de esperança eu nasci outro dia,
    E ainda criança, me chamaram Brasilia.
    Menina moça me fizeram Capital.
    Brasilia, Brasilia…
    Exuberante has de ser!
    Pioneiro! Pioneiro! Pioneiro!
    Eu sou Pioneiro hei de ser ate morrer.
    Tu és Brasilia gigante do progresso.
    No Brasil Central.
    Brasilia! Brasilia!
    Nacional!

    Nossa, Paulo, que delícia, bem no espírito da época! Eu não conhecia, adorei você ter vindo contar, obrigada!

  • rochely

    eu e patricia estamos muito comovidas com tanta coisa que descobrimos a re´peito da Brazilia ahhhhh?que coisa brega

    ???

  • Luguesi

    Muito legal o bate papo…
    Estou nesse momento pesquisando a Clarice e joao Almino para um futuro trabalho na Univ. aqui nos US.
    Observei os comentarios e acredito que serao de muita valia para o meu paper.

    Ha duas edicoes que Clarice trabalha o espaco (Brasilia) PARA NAO ESQUECER – com data 1988 (Rocco) e outro A DESCOBERTA DO MUNDO – datado 1999

    Abraco a todos…

    Oi, Luguesi, desculpe a demora em liberar seu comentário, eu estou enroladíssima com um trabalho aqui, como vc pode ver pelo post mais recente. Mas adorei sua participação, e fico muito feliz que a gente aqui possa ter tido utilidade pra você e seus estudos. Volte sempre. Abração.

  • Mariana

    Muito interessante também, é a continuação deste conto!
    Dê uma olhada em Brasília: Esplendor.
    CL volta a capital, anos mais tarde…
    É belíssimo.

    Oba, vou ler, obrigada!

  • Luiz

    Estou tentando achar essa música.
    Enxertei algo que (acho) me lembro.

    Sob um céu de esperança eu nasci outro dia,
    E ainda criança, me chamaram Brasilia.
    Menina moça me fizeram Capital.

    (Sou orgulho de uma raça
    Sou produto nacional)

    Brasilia, Brasilia…

    (No meio do planalto eu te vi nascer)

    Brasilia, Brasilia…
    Exuberante has de ser!
    Pioneiro! Eu sou
    Pioneiro hei de ser ate morrer.
    Tu és Brasilia a nova Capital gigante do progresso.
    No Brasil Central.
    Brasilia! Brasilia!
    Nacional!

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