A gente tava ali falando dos refugos da cidade, daquilo que se coloca fora das vistas, porque incomoda, ou é feio, aí eu lembrei.
Esse fim de semana eu peguei um dvd na locadora. É um documentário brasileiro que foi feito há uns dois anos, mais ou menos, chegou a passar no cinema, mas só por pouquíssimo tempo, participou de uns festivais e mostras e depois sumiu. Eu anotei e fiquei esperando. Só saiu em dvd agora. Chama-se Bem-vindo a São Paulo e é uma coletânea de visões, a maioria estrangeiras, apresentadas em 17 pequenos trechos, quase como estrofes de um poema, cada um dirigido a partir da visão de um diretor diferente. Mas o produto final tem uma unicidade plástica e narrativa cativantes, meio dada pela música, pela narração em off, contida e elegante, de Caetano Veloso, meio dada por uma escolha que eu não sei se foi casual, de focar exatamente no que tem de menos óbvio na cidade.
Explico-me. Uma coisa que costuma vir logo à cabeça quando se fala de São Paulo, com um subtítulo que é “visões da metrópole”, é a força econômica da cidade (normalmente representada pelas imagens da Av. Paulista, das grandes sedes de banco e empresas, das indústrias) e a pujança cultural e de lazer que a cidade oferece (sempre com imagens do MASP, dos parques urbanos e museus novos, do circuito vip de gastronomia). Nenhuma dessas imagens aparece no documentário. É um documentário filmado fora do cartão postal. É não mostrar o bordado, mas o avesso do bordado, a tessitura que permite que o bordado exista. O foco é nas pessoas mais simples, na variedade de anônimos – migrantes e imigrantes – que constróem a cidade todos os dias.
Desfilam cenas de mercados, feiras e fins de feira, cortiços, sambas noturnos, calçadas frequentadas por travestis, aposentados jogando truco num Anhangabaú vazio de domingo. Há pouquíssimo texto, sobressaem os sons da cidade, as conversas, as buzinas, o vento nos letreiros e placas desbotados. Reina o Copan, gigante decadente e sinuoso, na selva de concreto. A câmera tranquila, mesmo quando em tomadas curtas e rápidas, consegue captar a mutação constante da cidade, o movimento, a diversidade. Aliás, bem legal quando eles comentam que foi feita uma enquete com os moradores, sobre músicas que exprimem o espírito de São Paulo, e as duas músicas preferidas dos entrevistados são justamente as que falam de locomoção, de passagem: Trem das Onze, de Adoniram Barbosa, e Sampa, do mesmo Caetano.
Eu gostei especialmente de uma rápida conversa com um dos diretores, o Amos Gitai, que tá lá falando sobre enquadramento, e constata que, ao fazer uma escolha, você está automaticamente excluindo todas as outras opções. Se você mostra esse ângulo, é porque não mostra aquele. Aí no quadro seguinte, você mostra o plano que ficou de fora da primeira vez, e exclui o anterior. É sempre um recorte. E neste recorte, o filme resolve dar protagonismo a vozes e rostos que normalmente são os excluídos das outras produções. Mesmo nas inescapáveis panorâmicas que tentam e não conseguem captar toda a gigantesca massa de concreto que é São Paulo, há sempre um olho humano.
O meu olho pra São Paulo sempre foi aquele descrito na letra da música: quando eu te encarei frente a frente, não vi o meu rosto. Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto o mau gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho. São Paulo sempre me intimidou. Eu era ali uma estranha, engolida pela imensidão do labirinto. São Paulo pra mim era exatamente o tamanho do engarrafamento que eu enfrentava uma vez por ano, quando, indo de carro do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul nas férias, ficava mais tempo parada nas Marginais do que o que tinha levado pra cruzar toda a Dutra. São Paulo era fumaça, Tietê e caminhão. Dois pastel e um chopps.
Aí a internet me apresentou amigos e amigas queridas (muuuuito queridas), paulistanas. Depois, amigos cariocas foram morar em sampa, pelos mais variados motivos, quase todos desembocando na impressionante melhoria de status profissional (terra das oportunidades, né?). Eu passei a ir um pouco mais a São Paulo, a ver tudo com outros olhos, a pegar metrô sozinha, a mediar minha relação com a cidade pelo afeto que eu tenho pelas pessoas. E isso transformou tudo. Vou ficar por aqui. No afeto transformando as relações, dando rosto, dando história ao que era uma generalização informe. Tão bom isso.
Alguma coisa acontece no meu coração…


Que lindo texto Ana. O que o Amos Gitai fala eu concordo, idem. E tem a ver com o que cada um sente sobre a cidade, como cada um vê e se relaciona. SP especificamente é pra mim uma relação de amor e ódio. Amo essa cidade, os becos, as esquinas, avenidas, os prédios, o cheiro, os bares, enfim, a cidade tem vida, parece o aqui e agora, e ela muda o tempo todo. Sei lá, estou fora dela há dois anos, e qdo vejo fotos e textos, me dá um aperto de saudade,de poder andar no metrô, nos parques, de buzão…mas dá um aperto também por saber que ela é tão maltratada, mal cuidada (ainda), suja.
um gde abraço
madoka
Oi, madoka. Nem me fale em relação de amor e ódio. Eu tenho lá meus momentos com o Rio de Janeiro, também. Dói no coração ver o quanto maltratam nossas cidades.
Ai, essas Minas de são paulo… sei que conheço algumas que você conhece e com elas São Paulo ganha outro sabor. Outro sentido.
Meu coração transborda por elas.
E não, é? Bjs!
Eu tb comecei a ver Sao Paulo com outros olhos depois que alguns amigos mudaram pra la. E principalmente depois que conheci as minas ixxxxpertas. Agora sempre que eu puder, eu irei a Sao Paulo…pq alguma coisa também aconteceu no meu coraçao peludo! :-p
Beijos
Ah, Alline, eu sei que você me entende…
Napaula, que texto pri-mo-ro-so!
Eu vou fazer um ctrl C + crtl V e guardar na minha pastinha Forever (sim eu tenho uma pastinha Forever nos Meus Documentos), posso?
SP tb mudou totalmente pra mim, depois das nossas queridas. Você, Claudio Luiz e Linoca tão certíssimos. Foi o que transbordou por elas do meu coração que coloriu a cidade, deu outro ar.
Mas o Rio tb mudou pra mim, tá?
Bando de beijos
Mas meu bem, é uma honra gi-gan-te fazer parte da sua pastinha, fique à vontade sempre que quiser! Olha, já que é pra rasgar seda, devo te dizer que eu, nunca tendo morrido de amores por Brasília, agora tenho parte do meu coração aí, e outros olhos pra tudo. Por que será mesmo, hein?
I coraçãozinho São Paulo
Bjs, adorei o texto.
Eu sabia que você ia gostar!
Beijocas, Isa.
ana, fiquei chapada quando vi esse filme!e para mim também são paulo passou a fazer sentido depois do arrastão falmigo. beijos
Desde que você me falou dele, eu fiquei cuidando pra ver quando sairia em dvd. Lembrei de você na hora!
Que texto lindo Ana Paula.
São Paulo é uma Cidade maravilhosa, mas o que a faz maravilhosa são as pessoas. Tão diferentes umas das outras. Assim como a arquitetura da Cidade para todos os gostos.
Confesso ser fã incondicional do COPAN e adjacências, mas há problemas, inúmeros deles, assim como tudo na vida, há um lado bom e uma lado “não bom”.
Beijo.
Tati, eu também sou fã do COPAN, ainda faz parte da mão boa do Niemeyer.
E você faz parte do lado ótimo de qualquer cidade!
Chegando meio atrasada – hoje é sexta, dia de Cidades Literárias, não é? (rs,rs,rs, sem cobranças, claro…). Mas nunca é tarde para endossar as palavras do povo aí de cima: esse texto está lindo, primoroso, afetuoso, trabalhado como um bordado!
Sobre São Paulo, não tenho muito a falar, pois para mim ainda vigora aquela cena típica de ponte aérea, quando, depois de um vôo sobre um oceano azul, uma selva de pedra cinzenta assombra “quem vem de outro sonho feliz de cidade”…
Quem sabe, um dia, eu também não descubro a beleza de Sampa?
Beijos!
Acabei de publicar o Literárias de hoje, tá?
Meeeo, mana, que foto linda do Copan, minha paixão. Que texto bacana e só faltou foto sua, minha outra paixão! Oiiiiii, Claudio Luizzzzz. Oi, minhas minas!
Hahahaha, olha aí uma das minas do meu coração! Foto minha não, deixa o povo incauto achar que eu sou bonita!
Ana, preciso ser redundante e redizer o que todos disseram. Foi um dos textos mais poéticos que já li aqui no Urbanamente. A comparação com o bordado me emocionou.
E São Paulo é mesmo tão plural que só fazendo recortes e mais recortes e mais recortes pra se conhecer. Eu, como você, faço meus recortes pelas pessoas, que são o que eu tenho de mais precioso em São Paulo.
Um beijo, querida.
Beijo, meu amor. Uma saudade danada de você.