Estava aqui relendo o trecho que resolvi trazer hoje, ainda na dúvida se usava ou não. É que embora eu ame esse livro e esse trecho, não é exatamente a descrição de uma cidade, mas de uma obra arquitetônica. Só que ao reler, achei tão forte, tão belo, tão apropriado para os dias de hoje, que não tive mais dúvidas. De forma que segue aí pra vocês, tirado do livro Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar (das melhores coisas que eu já comprei num sebo, por 1 real!) o depoimento do famoso imperador romano sobre a construção do Panteão, em Roma.
Só contextualizando o personagem e a obra. Adriano foi imperador de Roma entre os anos 117 e 138 d.C, no auge do Império (auge esse para o qual ele muito contribuiu). Foi um líder militar prudente, que preferiu negociar e consolidar fronteiras a prosseguir em guerras de expansão. É dele, por exemplo, a muralha que durante séculos marcou os limites entre a Inglaterra e a Escócia, da qual existem ainda ruínas, e que passou à História como Muralha de Adriano. Era um homem culto e letrado, que difundiu a cultura clássica grega em suas muitas viagens pelo vasto território imperial, sempre construindo estradas e monumentos. Era também arquiteto e estudioso de materiais de construção. Por outro lado, era um homem vaidosíssimo e de perfil bastante autoritário, que muitas vezes manipulou e alienou o Senado na hora de tomar decisões importantes.
A brilhante autora francesa belga de língua francesa Marguerite Yourcenar escreveu este livro em 1950, fruto de um extenso e seríssimo trabalho de pesquisa. A edição que eu tenho, de 1986, da Editora Record, tem uma nota no final primorosa, em que ela esclarece a metodologia de trabalho, menciona os documentos originais a que teve acesso, incluindo os próprios diários que Adriano deixou, cita os trabalhos de história que leu, revela quais são os dados e personagens que ela inventou, mesclou ou suprimiu para o melhor andamento da narrativa, e quais são os reais. O resultado é um livro delicioso, narrado em primeira pessoa, que mistura um tiquinho de poesia e ficção a um universo fascinantemente real, ou realmente fascinante.
Mas chega, né? Olha aí o Adriano se apresentando e apresentando uma de suas obras mais importantes. No final, eu tenho mais duas palavrinhas pra acrescentar:
“A construção de um templo dedicado a Todos os Deuses, de um Panteon, se me impunha. Escolhera seu lugar sobre as ruínas dos antigos banhos públicos oferecidos ao povo romano por Agripa, o genro de Augusto. Nada restava do antigo edifício além de um pórtico e de uma placa de mármore com uma dedicatória ao povo de Roma. Essa placa foi cuidadosamente recolocada, exatamente como era, no frontão do novo templo. Pouco me importava que meu nome figurasse ou não num monumento que era a expressão do meu pensamento. Agradava-me, muito pelo contrário, que uma velha inscrição de mais de um século o associasse ao princípio do Império, ao reino pacificado de Augusto. Mesmo quando inovava, preferia sentir-me, antes de tudo, um continuador.
O ato de dedicação do templo de Vênus e de Roma foi uma espécie de triunfo acompanhado por corridas de carros, espetáculos públicos, distribuição de especiarias e perfumes.(…) A data escolhida para a festa foi o dia do aniversário de Roma, o oitavo após os Idos de Abril do ano 882 depois da fundação da Cidade. A primavera romana nunca fora mais doce, mais violenta, nem mais azul. No mesmo dia, com uma solenidade mais grave e como que abafada, teve lugar uma cerimônia consagratória no interior do Panteon.
Eu próprio corrigira os planos demasiado tímidos do arquiteto Apolodoro. Utilizando as artes da Grécia como simples ornamentação, ou um luxo a mais, procurei voltar, pela própria estrutura do edifício, à época fabulosa e primitiva de Roma, ao mesmo tempo que reproduzia os templos redondos da Etrúria antiga. Quis que esse santuário de todos os deuses reproduzisse a forma do globo terrestre e da esfera estelar, do globo onde se encerram as origens do fogo eterno, da esfera oca que tudo contém. Era igualmente a forma das cabanas ancestrais, nas quais a fumaça dos mais antigos lumes humanos escapava por um orifício situado no topo. A cúpula construída de uma lava sólida e leve, que parecia participar ainda do movimento ascendente das chamas, comunicava com o céu por uma grande abertura alternadamente negra e azul, tal como a noite e o dia. Esse templo, ao mesmo tempo aberto e secreto, era concebido como um quadrante solar. As horas girariam naqueles caixotes cuidadosamente polidos por artífices gregos, e o disco do dia ficaria suspenso ali como um escudo de ouro. A chuva formaria uma poça de água pura no pavimento e as preces escapar-se-iam como fumaça em direção ao vazio onde costumamos colocar os deuses. Essa festa foi para mim uma dessas horas em que tudo converge.”
Acho que nem cabe falar muito mais, né? Mas eu quero lembrar que esse texto tenta dialogar com o da Fal, em que ela fala do Coliseu como sendo seu monumento romano favorito. Nos comentários a essa crônica, eu disse que o meu era o Panteão, mas como eu não sei falar tão bem quanto ela, deixei o Adriano mesmo descrever tudo.
O outro aspecto que eu quero lembrar é o quanto a gente pode falar ou pensar, a partir desse pedacinho, sobre o papel da arquitetura na composição da paisagem urbana, da identidade da cidade. O que nos leva a pensar em preservação de patrimônio. Eu tenho uma birra infernal com o fato deste templo tão solene e belo ter sido continuamente profanado ao longo dos séculos, a começar pela própria Igreja Católica, que o transformou em igreja, destruindo as imagens dos deuses pagãos que ocupavam os nichos ao redor do salão e instalando ali um altar cristão, com crucifixo e tudo. Eu sei, outros tempos, outra concepção de tudo, hoje o Panteão está aberto à visitação pública como museu, como testemunho da obra de Adriano, mas mesmo assim.
Para os arquitetos e estudantes de arquitetura, atenção para o elegante e corretíssimo memorial justificativo da obra. É aquele documento em que o arquiteto apresenta seu projeto, justifica suas escolhas, descreve os elementos importantes, partido arquitetônico, estrutura, materiais, formas e funções. O cara faz isso ainda por cima com qualidade literária. Mestre.
Por fim, só levantando a bola e deixando pra vocês cortarem, que aula de marketing político, hein? Mais atual, impossível.


Ana, é o NOSSO monumento preferido em Roma, né? Tb fico fula da vida de ver no que se transformou hj, com a “tomada” da igreja catolica. Mas toda vez que eu vou a Roma faço questao de ir la (fico *se achando* quando digo toda vez que vou a Roma).
uma historinha interessante: um caboclo da Reserva Xixuau, no Amazonas, veio a Roma receber um premio. Levaram ele a todos os monumentos de Roma e ele escolheu o Panteao como seu preferido. Disse que ali sentiu uma energia especial, como se todos os “santos” o protegessem (ele nao sabia nada sobre o Panteao). Dai explicaram pra ele que era isso mesmo, que aquele era um templo para todos os deuses.
Eu adorei esta historia. Adriano tinha toda razao, o Panteao é mesmo onde tudo converge…
Eu queria tanto poder dizer “toda vez que vou a Roma”, mas só fui uma vez. Eu acho você insuportável por isso.
Amei a história do caboclo, ele tá certíssimo!
“Mesmo quando inovava, preferia sentir-me, antes de tudo, um continuador.”
Que frase bela! Demonstra preocupação com o patrimônio cultural e respeito com a história do lugar e do monumento.
Doeu lá dentro do peito saber que a Igreja destruiu a imagem dos deuses pagãos do Panteão de Roma. Aliás, dá arrepios pensar em quantos outros templos que cultuavam diferentes deuses foram violentados pela Igreja. Hoje mesmo eu estava lendo o post da Monix (Duas Fridas) sobre o “desbatismo” e fiquei aqui pensando, com os meus botões…
Bjs!
Eu achei esse trecho do Adriano uma aula de política, nesse sentido. E também fiquei pensando no post das Fridas. Bom demais.
Ei! Desculpa lá a confusão, o post que citei é da Helê, a outra Frida.
eu, evidentemente, depois desse texto, eguei o meu sobre o panteão e taquei no lixo. vc é uma linda, ana.
Deixe de ser boba, até parece. Pois saiba que na prova de aula que eu tive que dar pra ser contratada, eu falei de Rembrandt, e foi tudo devidamente copiado das suas brilhantes aulas. O povo adorou, tá?
Ótimo texto. Que me deu vontade de reler “Memórias de Adriano” depois de muitos anos. Mais um pra pilha de livros da mesinha de cabeceira.
Releia, é bom demais! Bjs
Cê sabe que eu não tinha a menor idéia de nada do que você escreveu aqui, não sabe? Quer dizer, eu sabia que o Panteão foi construído para ser um templo. E só. Ah, NáPaula, obrigada, tá? Te amo tanto!
Eu também, clauzinha!
Pôxa, Ana Paula… Encontrar o Calvino aqui é quase óbvio, mas resgatar as Memórias de Adriano, um dos meus livros de cabeceira, é fantástico!
Já colei a srta no GReader, ok?
Abraçãos =^)
Oba! Vou lá visitar o alfarrabio também! Abraços!
Ana, vou ler todos os seus posts.São muito bons!Fiquei encantada com o seu blog.
bjs.
Que bom!
Brilhante. Yourcenar, que não era francesa mas belga de lingua francesa, merece esta recordação sua, que nos faz desejar ler seus eruditos livros novamente. O meu favorito é “A Obra em Negro”. Val.
Olá, Val! Muito obrigada pela correção, eu não sabia que Yourcenar era belga. Eu também tenho “A Obra em Negro” e adoro. Deu mesmo vontade de reler. Um abração pra você.