Separei a conversinha aí debaixo, senão ia ficar um post muito grande.
Eu sou do time que gosta muito de José Saramago. Gosto dele como escritor (embora não consiga ler muitos de seus livros um atrás do outro, preciso de uma pausa), e gosto muito de algumas de suas posições e opiniões como cidadão. Ensaio sobre a cegueira e As intermitências da morte estão entre alguns de meus livros favoritos. Eu certamente poderia extrair de qualquer um deles trechos ótimos pra esta série, mas tive vontade de partilhar um outro, simples mas que me tocou profundamente, e eu nem sei explicar bem por quê.
O livro se chama As pequenas memórias (Companhia das Letras, 2006) e nele o autor narra episódios e lembranças de sua infância e juventude, em Portugal, lá pelos idos das décadas de 30 e 40. É leve, gostoso, um pouco nostálgico, muito bem humorado e escrito numa linguagem um pouco mais direta e fluida do que a que ele utiliza em seus romances. A pontuação, por exemplo, é quase “normal” (Saramago quase nunca usa vírgulas ou pontos e jamais indica as falas dos personagens por travessões, aspas ou qualquer outro recurso em seus livros, o que confunde um bocado o leitor desavisado ou desacostumado).
Esse trecho que eu escolhi, em que ele fala da aldeia em que nasceu e onde viveu os primeiros anos de vida, não é um relato bem urbano, é quase rural, mas ao mesmo tempo diz tanto sobre mecanismos que atingem as vidas das pequenas e médias cidades, até hoje, sua economia, seu ritmo, e sobretudo, as vidas das pessoas que aí residem, e eu achei lindo, então está aí pra vocês:
“Dizem os entendidos que a aldeia nasceu e cresceu ao longo de uma vereda, de uma azinhaga, termo que vem de uma palavra árabe, as-zinaik, “rua estreita”, o que em sentido literal não poderia ter sido naqueles começos, pois uma rua, seja estreita, seja larga, sempre será uma rua, ao passo que uma vereda nunca será mais que um atalho, um desvio para chegar mais depressa aonde se pretende, e em geral sem outro futuro nem desmedidas ambições de distância. Ignoro em que altura se terá introduzido na região o cultivo extensivo da oliveira, mas não duvido, porque assim o afirmava a tradição pela boca dos velhos, de que por cima dos mais antigos daqueles olivais já teriam passado, pelo menos, dois ou três séculos. Não passarão outros. Hectares e hectares de terra plantados de oliveiras foram impiedosamente rasoirados há alguns anos, cortaram-se centenas de milhares de árvores, extirparam-se do solo profundo, ou ali se deixaram a apodrecer, as velhas raízes que, durante gerações e gerações, haviam dado luz às candeias e sabor ao caldo.
Por cada pé de oliveira arrancado, a Comunidade Européia pagou um prêmio aos proprietários das terras, na sua maioria grandes latifundiários, e hoje, em lugar dos misteriosos e vagamente inquietantes olivais do meu tempo de criança e adolescente, em lugar dos troncos retorcidos, cobertos de musgo e líquenes, esburacados de locas onde se acoitavam os lagartos, em lugar dos dosséis de ramos carregados de azeitonas negras e de pássaros, o que se nos apresenta aos olhos é um enorme, um monótono, um interminável campo de milho híbrido, todo com a mesma altura, talvez com o mesmo número de folhas nas canoilas, e amanhã talvez com a mesma disposição e o mesmo número de maçarocas, e cada maçaroca talvez com o mesmo número de bagos. Não estou a queixar-me, não estou a chorar a perda de algo que nem sequer me pertencia, estou só a tentar explicar que esta paisagem não é a minha, que não foi neste sítio que nasci, que não me criei aqui. Já sabemos que o milho é um cereal de primeira necessidade, para muita gente ainda mais que o azeite, e eu próprio, nos meus tempos de rapaz, nos verdes anos da primeira adolescência, andei pelos milharais de então, depois de terminada a apanha pelos trabalhadores, com uma sacola de pano pendurada ao pescoço, a rabiscar as maçarocas que tivessem passado em claro. Confesso, no entanto, que experimento agora algo assim como uma satisfação maliciosa, uma desforra que não procurei nem quis, mas que veio ao meu encontro, quando ouço dizer à gente da aldeia que foi um erro, um disparate dos maiores, terem-se arrancado os velhos olivais. Também inutilmente se chorará o azeite derramado. Contam-me agora que se está voltando a plantar oliveiras, mas daquelas que, por muitos anos que vivam, serão sempre pequenas. Crescem mais depressa e as azeitonas colhem-se mais facilmente. O que não sei é onde se irão meter os lagartos”.



Aninha, Saramago é Rei e Meirelles é seu profeta!
Mas já peço desculpas pois hoje eu vim pra cá com ódia no coração. Vi partes do programa do Caco Barcello ontem, sobre as gangues das cidades satélites de Brasília e fiquei pensando: cada vez que alguém pede um exemplo de cidade planejada no Brasil a resposta padrão é Brasília. Planejada pra quem cara-pálida? Os egípcios, pelo menos, matavam os escravos que haviam trabalhado na construção e enterravam ao redor das pirâmides, que não deixa de ser uma espécie de planejamento. Amontoar os candangos em assentamentos ao redor de Brasilia, que acabou formando as cidades satélites nas condições precárias de hoje é um conceito de planejamento que me escapa totalmente. Ou Lucio Costa mais compadre Niemeyer pensaram que aqueles trem tudo seriam construídos por robôs?
Não, meu bem, é pior. Eles pensaram que aquele povo, uma vez terminado o trabalho e pronta a cidade, voltaria pacificamente para suas cidades de origem, onde o problema de arranjar emprego e moradia praquele tanto de gente era dos outros, e não deles. Difícil a coisa, viu.
“Não estou a queixar-me, não estou a chorar a perda de algo que nem sequer me pertencia, estou só a tentar explicar que esta paisagem não é a minha, que não foi neste sítio que nasci, que não me criei aqui.”
De novo, a questão do pertencimento. Mas Saramago, sábio, está um passo na nossa frente: ele sabe que a antiga aldeia com seus olivais e lembranças nunca foi “sua”, que esse troço de pertencer e ser pertencido é coisa de guerra entre umbigos humanos. Aliás, atrevo-me a dizer que ele sabe que os verdadeiros donos daquele pedaço são os lagartos, digo, eram, eram…
Eu até acho que a gente pertence aos lugares, sim, pelo menos àqueles que guardamos na memória ou na imaginação, mas não tenho dúvida de que os donos daqueles olivais eram os lagartos.