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Nem tão recentemente

Cidades Literárias: Eça de Queiroz

Até meia-noite ainda é hoje, certo? Então, tá.

Dias corridos, lerdeza e divagações da minha parte, o meu básico. Daí chegou ontem, algumas tarefas de última hora pipocaram, o dia de hoje foi uma correria só e eu não tive condições de preparar nada. Quem vai me salvar dessa vez (o que seria de nós sem os amigos?) é a Cláudia, que me mandou por e-mail, um tempinho atrás, um trecho do livro A cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, com maravilhosos comentários. Não li o livro – ainda – mas desde que ela recomendou, estou me coçando para ler. Eu já tinha pensado em Eça, e estava querendo mesmo separar alguma coisa dele, dentro os que eu tenho em casa, talvez Os Maias ou O crime do Padre Amaro. Mas hoje vamos de A cidade e as Serras.

A Cláudia contou que é uma história que gira em torno de dois amigos, Jacinto e Zé Fernandes. O primeiro é um fidalgo português que vive em Paris desde que nasceu e nunca visitou Portugal. O segundo é um português, homem do campo, que vem para Paris para estudar e depois retorna a Portugal. Jacinto é um ardoroso defensor da Cidade e suas benesses, mas está entediado com a vida parisiense. Zé Fernandes acredita que a Cidade é uma aberração medonha.

Essa antinomia Cidade/Campo é bem comum no século XIX, o século que urbanizou o mundo (tá bom, a Europa) numa velocidade nunca antes vista. Revolução Industrial, migração em massa para a cidade, novas formas de viver, habitar, novas relações sociais e de trabalho, tudo isso transformou radicalmente a cara da cidade, suscitou novas questões, apresentou novos problemas, alguns dos quais nós ainda não conseguimos resolver. Naturalmente, grupos diferentes reivindicaram soluções e explicações diferentes para o que estava acontecendo, e um dos embates mais característicos é esse entre os que defendem o progresso, a vida urbana e acreditam que a tecnologia traria, no devido tempo, a solução para todos os problemas, e aqueles que sentem uma profunda nostalgia da vida simples do campo, e crêem que todos os males morais e sociais advêm da vida insana que se leva nas novas, agitadas e populosas cidades.

Olha só como isso aparece com clareza nesse trecho do livro que ela me mandou:

“Nessa mesma tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda, eriçado de chaminés de lata negra, com as janelas sempre fechadas, as cortinas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, ângulos ásperos: tudo seco, tudo rígido. E dos chãos aos telhados,  por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os muros, tabuletas, tabuletas…

- Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro bazar!

E, mais para sondar a meu Príncipe do que por persuasão, insisti na fealdade e tristeza destes prédios, duros armazéns, cujos andares são prateleiras onde se apinha humanidade! E uma humanidade impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, bem envernizadas. A reles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre pranchas de pinho nu,  entre o pó e a traça…

Jacinto murmurou, com a face arrepiada:

- É feio, é muito feio!

E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:

- Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que produção!”

Mais adiante, um trecho que fala da Serra:

“E, como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o suntuoso céu de verão. Filosofamos então com pachorra e facúndia. Na cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os astros – por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de eletricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa comunhão com o Universo que é a única glória e única consolação da Vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que, como pedaços de chumbo, puxam a alma para o pó rasteiro – um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiais duma janela, olham para os astros e os astros olham para eles.”

Quanto deste discurso ainda existe em nós? O que ainda há de válido nele e o que é pura ingenuidade?

7 comentários para Cidades Literárias: Eça de Queiroz

  • Cláudia Marcanth

    E, para o meu deleite, você transforma umas pérolas soltas em um colar ricamente trabalhado. Eu mandei trechos dispersos e você me deu uma aula! E agora eu valorizo ainda mais a minha leitura. Coisa típica de professora! Essa é a sua road, amiga!
    Bjs e obrigada!
    PS: Vou pensar nas questões que você trouxe à baila e depois eu volto.

    Imagina, o teu texto já estava pronto, eu fiz uma cópia descarada. Só posso te agradecer!

  • fal

    só o século XIX poderia ter nos dado um Eça de Queiroz. E o qe uma Nápaula genial faz nesse lixo de século XXI, não consigo entender. Vc é espetacular, Ana.

    Fal, se é você que tá dizendo, eu vou acabar acreditando. Ainda que ruborizadíssima! Beijos, amoreca.

  • falei lá no Idelber, mas faltou vir aqui te parabenizar pelo blog, pelos lindos textos e pela simpatia, Ana.

    sobre essa coisa arquitetura/urbanismo+geografia, te digo que já tive conversas magníficas com arquitetos amigos meus que, muitas vezes, me entregaram visões sobre a questão urbana que eu nunca tinha reparado. o contrário também, é claro. é sempre uma troca muito válida.

    voltarei mais vezes. porque gosto do assunto, porque ele é bem tratado aqui e porque, bom, porque sim. :)

    um abraço,

    Oi, Thiago, que coisa boa te receber por aqui! Sim, inclusive alguns dos melhores textos que eu discuto com os alunos de planejamento urbano são da geografia, Marcelo Lopes de Souza, Paulo Cesar da Costa Gomes, além do Milton, sempre. É uma troca muito rica. Volte, sim, será um prazer.

  • ah! uma coisa que eu esqueci. se você puder, disponibilize o feed do blog por completo. é um pouco frustrante receber só um trechinho do texto no Google Reader. mas, claro, é um pedido. veja aí. :)

    Opa, rapaz, eu mesma não sei mexer nesse trem, não. Mas é claro que vou verificar isso aí e aviso. Obrigada pelo toque.

  • madoka

    me veio a imagem da frase da música do Caetano Veloso, quando lia os trechos que vc nos trouxe: ´e aquilo, que nesse momento se revelará aos povos surpreenderá a todos nao por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.´
    então, na verdade existe esse discurso, sim Ana, só que oculto, como bem colocou Caetano.
    ´nunca se entra nessa comunhão com o universo que é a única glória e única consolação da vida.´ que lindo Ana, dá me Eça de Queiroz, obrigada por tê-lo trazido aqui pra nós.
    um gde abraço

    Abraço, madoka! Seus comentários sempre acrescentam alguma coisa, que delícia.

  • Cláudia Marcanth

    oba! fotos novas! adouro!!!!

    Hahahaha, eu sabia que você ia reparar! Já reconheceu alguma das suas, de NY?

  • Ai Ana. Eu amo Eça. Falei né? Tava ansiosa por ele aqui. E era por isso. “Que enorme, que grosseiro bazar”, “…nunca se entra nessa comunhão com o Universo que é a única glória e única consolação da Vida.”.

    Não acho que seja ingenuidade não. Essa dificuldade de comunhão existe mesmo, atrapalha cada vez mais. Adoecemos por conta dela (também). Talvez o que tenha se perdido desde o século XIX tenha sido a capacidade de ver isso mais claramente.

    Parabéns. Bjão. Boa semana pra ti.

    Sem dúvida. Eu só belisquei porque não gosto do maniqueísmo de achar que a cidade (e a vida urbana) é a fonte de todos os males sociais. Mas que não tem coisa melhor que olhar pros astros e senti-los olhando pra gente, isso é verdade! Boa semana, Lili!

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