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Nem tão recentemente

Paisagens cariocas

Hoje de tarde, Marido chegou cedo do trabalho, tava um dia lindo, sol de inverno, e nós fomos andar de bicicleta no Aterro. Daí que eu voltei, mais uma vez encantada com a paisagem espetacular, e lembrei que fiquei de prestar minha homenagem ao Burle Marx.

burle_himselfPra quem não sabe, Burle Marx foi um dos mais importantes paisagistas do mundo no século XX, mas ele gostava mesmo é de se apresentar como artista plástico. Era pintor, ceramista, escultor, desenhou jóias, plantou jardins, idealizou painéis imensos e multicoloridos de azulejos. Tudo com uma delicadeza, uma noção de harmonia de cores, volumes e proporções que é uma coisa de louco. Ou de gênio. Burle nasceu em São Paulo, mas viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro, e podemos dizer que parte significativa da imagem que hoje temos da cidade se deve a ele.

burle2Além de inúmeros projetos para jardins privados, de residências urbanas ou chácaras e sítios, Burle Marx idealizou e executou vários dos mais conhecidos espaços públicos da cidade, entre eles os jardins do Museu de Arte Moderna, do Palácio Gustavo Capanema (antigo prédio do MEC, no Centro), o calçadão de Copacabana e o Aterro do Flamengo (aqui é bom que se diga que a idealização do Aterro é de Carlota Macedo de Soares, o projeto urbanístico e de diversos elementos arquitetônicos é de Afonso Eduardo Reidy e o projeto paisagístico, sim, de Burle Marx). Isso pra falar só de alguns dos seus projetos no Rio de Janeiro, porque os há em todo canto do mundo.

burle1Recentemente houve uma belíssima exposição da obra de Burle Marx no Paço Imperial, que eu tive a oportunidade de ver na companhia deliciosa e encantadora do meu amigo e arquiteto Cláudio Luiz, e eu relembrei o quanto é fantástico admirar o desenho de Burle Marx e seus projetos, em planta baixa. Cada um deles é, em si mesmo, uma obra de arte, um quadro. Ele pensava os jardins como pinturas, com as cores, as formas, a geometria, a plasticidade de uma composição artística.

Eu podia falar também que ele é o responsável pela introdução de um novo conceito no paisagismo moderno, valorizando as árvores e espécies nativas, numa época em que ainda se importava tanta moda. E isso vale não só para as exuberantes palmeiras tropicais, bromélias e agaves, mas para desconhecidos arbustos e folhagens, que antes eram tratados como mato, quando não como erva-daninha, e que, a partir de Burle Marx, foram valorizados e elevados à categoria de protagonistas em canteiros coloridos. Mas o melhor que eu posso fazer é sugerir, pra você que é daqui do Rio, e pra você que venha aqui a passeio, uma visita ao Sítio Burle Marx, lá em Guaratiba. É passeio para um dia inteiro, mas vale cada segundo.

Burle Marx nos deixou em 1994, aos 84 anos, mas sua obra está viva na cidade, literalmente. E a gente pode se emocionar com ela num simples passeio de bicicleta de fim da tarde, não tem coisa melhor.

Calçadão, jardins do MAM e Aterro do Flamengo

Calçadão, jardins do MAM e Aterro do Flamengo

4 comentários para Paisagens cariocas

  • Iiiiii, preciso terminar de colorir aquele desenho.

    É verdade. E ele é tão lindo, eu te acho tão incrivelmente talentoso no manueseio de formas e cores. Termine de colorir e me mostre, hahahaha!

  • Cláudia Marcanth

    Nossa, eu nunca tinha notado o desenho na Av Atlântica. Já conhecia as ondas, é claro, mas jamais me dei conta de que o canteiro central fazia um desenho também. E fiquei surpresa com o desenho – bem doido, nada a ver com a constância das ondas.

    Legal, vivendo e aprendendo.

    Bjs!

    É o que eu disse, os projetos do Burle Marx são para serem vistos de cima. São quadros abstratos, lindos. As ondas não são exatamente dele. Quando o prefeito Pereira Passos fez as reformas no Centro do Rio, no ínício do śeculo XX, trouxe de Portugal uns mestres calceteiros que introduziram aqui a técnica de calçamento com as pedras portuguesas. Em Portugal já havia esses desenhos e eles foram reproduzidos em algumas calçadas no Rio. Na ocasião da duplicação da Av. Atlântica, Burle Marx foi chamado para fazer o projeto paisagístico e teve a sensibilidade e elegância de aproveitar a padronagem. Ele só deu uma outra proporção às ondas, mais condizente com a escala do novo projeto. E voilà, temos aí a identidade visual de Copacabana. Eu acho fantástico como o restante do desenho, no canteiro central e na calçada dos prédios (que não aparece nessa foto, mas também existe), não seguindo a constância das ondas, como você reparou corretamente, ainda assim se harmonize tão bem com elas.

  • Tereza

    Ana Paula, eu não conhecia o seu blog.Descobri o endereço na Fal.Muito bom o seu post sobre Burle Marx.
    bjs.

    Que bom que você gostou, Terezinha. Será um prazer recebê-la sempre!

  • Ana, dá licença?
    Cláudia, até tentei achar, mas não consegui (o tempo anda meio pouco pra mim) imagens do “calçadão” com as ondas iniciais perpendicular ao mar. Depois elas “decidiram” acompanhar o mar e mais adiante o ajuste do mestre.
    Vale a pena tentar achar imagens do calçadão central e da calçada junto aos prédios, os desenhos são lindos.

    Eu preciso dar licença? Be my guests, por favor!

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