Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação com os outros.
Pra começar, o mundo começou a ficar realmente pequeno, ali. Outros momentos na história já tinham conhecido suas nuances de globalização, o conhecimento, além dos produtos, já circulava. Mas isso ainda era razoavelmente restrito. E sobretudo demorava demais. O cidadão viajava pra um lugar distante e exótico (distante podia ser, por exemplo, da Grécia para a Península Ibérica, ou dos planaltos persas para o norte da Índia), e isso já levava alguns meses. Depois, escrevia um longo relato, que precisava viajar fisicamente de volta, com o risco do pergaminho se perder num naufrágio ou se perder com a morte de seu portador. O original precisava ser copiado à mão algumas dezenas de vezes, e pouca gente seria letrada o suficiente para lê-lo. Mesmo assim, tantas maravilhas chegaram até nós.
Agora imagine que no século XIX a imprensa já existia há 400 anos, a porcentagem de gente capaz de ler era bem maior (embora ainda pequena para os padrões de hoje.. er…quer dizer… dependendo de onde a gente tome como referencial) e sobretudo, a invenção da máquina a vapor trouxe para a realidade as ferrovias e os navios a vapor. Nossa, o mundo ficou quase uma ervilha. E ainda tinha o telégrafo! Comunicações em alta velocidade! Praticamente todo mundo podia se deslocar com razoável conforto (compare com a viagem de carroça que se fazia antes) e rapidez, e visitar outros continentes, ver outras gentes, outros hábitos, outras arquiteturas, comidas, roupas, línguas, ambientes, se tornou quase comum. Esses novos referenciais de imagens inundaram o Velho Continente, e o Novo também, e isso ficou evidente nos elementos de decoração e arquitetura, nas padronagens da moda, na música e na arte em geral. Tudo era fascinante e causava deslumbramento. Quer dizer, talvez alguns eurocentristas se horrorizassem com a barbárie alheia (a barbárie nunca é nossa, já reparou?), com o atraso das outras civilizações, mas ainda que fosse pra olhar com cara de esnobe, ou com curiosidade condescendente, o fato é que o diferente estava na moda.
Esta semana, como vocês viram pelo título, eu selecionei um trecho de Júlio Verne. Este escritor francês é mais conhecido por suas aventuras fantásticas, nas quais ele engendra artefatos inexistentes à época – submarinos, foguetes de viagem à lua – e isso por si só já é tão característico desse momento de fé no progresso, mas além disso Verne era também um arguto observador da sociedade e das transformações de seu mundo. Procurando uma história para colocar aqui, eu me deparei com um conto que não conhecia, e do qual gostei. Chama-se A cidade flutuante (1887). Eu o tenho numa coleção de 40 obras de Júlio Verne chamada Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos, editado pela Livraria Bertrand, Lisboa. Não encontrei a data da edição em nenhum dos volumes da coleção, mas suponho que seja da década de 50 ou 60.
Pra começar, o texto é narrado em primeira pessoa, mas em nenhum momento fica-se sabendo nada sobre o narrador, nem sequer seu nome. Dá pra desconfiar, por um que outro detalhe, que ele seja inglês. Posso fazer mais um parêntese? Só pra dizer que é muito significativo que a literatura inglesa fosse tão rica nesse período, dado que o Império Britânico praticamente dominava o mundo. A cidade a que ele se refere no título é na verdade o fabuloso navio Great Eastern, e a história se passa numa longa viagem a bordo, entre Liverpool, na Inglaterra, e Nova York, nos Estados Unidos, em 1867. Achei legal de saída a forma como ele se refere ao navio como uma grande cidade: “Resolvi então visitar todos os buracos deste formigueiro imenso e comecei o meu passeio como faria qualquer turista em cidade desconhecida”.
Depois de inúmeras aventuras e personagens interessantíssimos, como o Dr. Dean Pitferge, que viaja constantemente de navio porque tem um sonho bizarro e romântico de morrer num naufrágio, eis que o protagonista chega à América, onde poderia ficar por oito dias. Segundo ele, para os viajantes-expressos, esse tempo seria suficiente para visitar todo o território norte-americano! Mas ele pretendia visitar seriamente Nova York e “escrever, depois de detido exame, um livro sobre os costumes e caráter dos americanos”. E segue-se uma descrição da Nova York de 1867 assim:
“Mas a forma, o aspecto físico de Nova Ypork vê-se depressa. Tem a variedade do tabuleiro de xadrez. As ruas são traçadas perpendicularmente umas às outras. Se correm longitudinalmente, chamam-se avenues, se são transversais, recebem o nome de streets. Todas estas vias de comunicação têm números de ordem. é disposição prática, sem dúvida, mas muito monótona. Carros americanos correm por todas as avenues. Quem viu um bairro de Nova York conhece toda a grande cidade, com exceção talvez daquela confusão de ruas e travessas na ponta do sul, onde se acumulou a população comercial. Nova York é uma língua de terra, no extremo sul da qual se concentrou toda a atividade. De um lado corre o Hudson, do outro o rio de Leste, verdadeiros braços de mar sulcados de navios e de ferry-boats, os quais ligam o lado direito da cidade a Brooklyn, e o esquerdo às praias de Nova Jersey. Uma única artéria corta a simétrica aglomeração dos quarteirões de Nova York e lhe dá vida. É o antigo Broadway, o Strand de Londres, o boulevard Montmartre de Paris. Impossível de transitar na sua parte baixa, onde a multidão aflui, é em cima quase deserta, rua em que as casinhas insignificantes se misturam com ricos palácios de mármore, verdadeiro rio de carruagens, ônibus, cabs, carroças e cavalos, tendo por margens os passeios, e sendo atravessados por pontes para dar passagem aos peões. Broadway é Nova York, foi lá que Pitferge e eu passamos até a noite”.
Tá bom por hoje. Eu tinha selecionado mais um trecho, d’A volta ao mundo em 80 dias, que fala desse fascínio e estranhamento com outros povos e países, mas já ficou longo demais. Posso trazer esse outro trecho semana que vem?
Última palavrinha. Eu (ainda) não conheço Nova York pessoalmente, mas os que já a visitaram sintam-se à vontade para partilhar suas impressões, em face deste texto de 130 anos atrás. Coloquei pra vocês, aí do lado, uma planta de época da região,. Sobre essa questão do traçado, sim, eu posso falar, se alguém tiver interesse.



Adorei o texto do Julio Verne sobre NY! Por coincidência, estou lendo “Washington Square”, do Henry James. O livro é de 1881 e também oferece valiosas passagens sobre o rápido desenvolvimento de NY no final do século XIX.
Conheci a big apple no ano passado. Cheguei lá justamente no meio de um feriado nacional. Era começo de primavera e a excitação do povo nas ruas (composto mainly de turistas) parecia não ter limites. Confesso que não gostei da cidade… Não sei se o problema estava dentro de mim ou fora, mas tive claustrofobia!
Só para ilustrar: maior sol, eu e o husband na parte superior de um double deck bus, todo mundo se levantando para tirar fotos. Eu mal conseguia enxergar a guia e a sua camiseta “I Love NY”. Depois de um trânsito infernal, estávamos na Times Square. Com um forte sotaque oriental, a guia começou a falar sobre o One Times Square, aquele edifício famoso, o da bola que desce no ano novo. Eu escutei só a metade das explicações da moça, mas era mais ou menos isso:
O prédio era lindo e abrigava pessoas que trabalhavam (inclusive foi headquarters do NY Times). Ao longo dos anos foi sendo vendido. Já tem algumas décadas que o prédio não abriga mais ninguém acima do terceiro andar. Isso porque os últimos proprietários descobriram que ganhariam MUITO mais dinheiro alugando sua fachada para grandes anúncios luminosos do que ganhariam se alugassem todas as suas salas. Então é isso: o prédio não passa de um poste gigante para propaganda. Suas salas estão vazias, a manutenção interna (hidráulica, etc) do edifício foi deixada para lá. É uma construção sem alma, desvitalizada, fantasma com capa de purpurina e strass… Eca!!!!!
Desculpa aí a rabugice! Um dia você me leva para NY e me ensina a gostar daquilo?
Sobre o traçado – sim, sim, sim!
Bjs
Nossa, eu não sabia disso sobre o prédio da Times Square, que coisa triste. Eu topo muito ir a NY com você!
Gosto de Julio Verne e me identifico com sua minúcia, e a identifico com Machado. O que nos leva a perceber o momento literário da época. Assim é no traçado e numeração das “streets” e “avenues”. Posso identificar o iluminismo no seu modo de dizer, com pretensa precisão cirúgica, e o seu objeto temático. Uma cidade projetada, só com esquinas de 90°, é coisa do mecanicismo da época. Ótimo texto parabéns!!!
Valeu, Pedro. Sua observação sobre identificar o iluminismo nos textos do Verne é muito interessante, acho que é isso mesmo!
Entro no coro. Sim… sim… sim…
Cláudia, pedi licença a Ana e deixei recado pra vc no post paisagens cariocas.
Tou adorando a conversa paralela. Tá anotado: um post sobre o traçado ortogonal de NY e de tantas outras cidades nas Américas.
Paula, dá licença?
Cláudio: Obrigada pela dica. Vou procurar já pelas imagens das ondas que ondulam ao sabor de quem as projeta. Quanto aos canteiros centrais e os outros, junto aos prédios, foi realmente um choque! Morei quinze anos perto do posto seis, caminhando e olhando para baixo sem nunca pensar na possibilidade de que aquelas pedrinhas brancas e pretas compunham um desenho. Eu simplesmente pulava entre o riscado, como toda criança gosta de fazer. A visão do todo é sempre uma revelação, mesmo que ela chegue tarde.
Bjs da sua xará!
Acho que deve ter muito mais gente que nunca se deu conta disso. E é tão lindo o desenho!
ana, querida, vou a NY pela 1a. vez agora, nos meus 68 anos. amei esse texto. e pretendo tomar coragem e ver GANGUES DE NOVA IORQUE, que até hoje só vi aos pedacinhos, DE TANTO MEDO. mas tenho fascínio por aquela história da confluencia de cincvo ruas que eram a muvuca-mor do pedaço.
e, sim, sim, sim.
e quero voce como companheira de todas as viagens.
beijos
Veroca, a honra seria toda minha, de ser companheira de qualquer viagem sua. Aproveite muito, e depois me conte de sua viagem, suas impressões, tudo. Bjs
passo brevemente para parabenizar o bom gosto ao tratar de J.Verne,autor com o qual passei muitas horas da minha infancia e que considero um classico.acredito ter lidoa maioria de seus livros,incluido o último(que possuo)mais gostaria de reler a coleção completa.obrigado
Olá, Julio, é um prazer recebê-lo aqui. Nem precisa passar tão brevemente, pode voltar sempre! Julio Verne é realmente um autor especial. Eu lembro de ter ganhado de presente (acho que da minha avó) um livro dele, Da Terra à Lua, quando eu era bem pequena, foi meu primeiro Julio Verne. Depois vieram outros, e várias adaptações para o cinema. Também estou precisando reler algumas coisas… Abraços
Adorei essa idéia de fazer o enfoque de Nova York através do olho maravilhado do Julio Verne. Ele, como muitos de sua época (e de um pouco mais tarde no Brasil) se encantavam com o triunfo da burguesia industrialista, e sua cultura.
E a Nova York daquela época é, efetivamente, um enorme monumento ao triunfo dessa classe de imigrantes. Exilados, fugidos de uma Inglaterra monárquica que os excluía, foram encontrar no Mundo Novo todas as oportunidades para o seu empreendedorismo.
E a primeira grande manifestação foi a vitória do Norte Industrialista sobre as colônias do Sul, agrárias e escravocratas.
Nova York nasceu desse pragmatismo, e cresceu e prosperou juntamente com o apogeu da segunda fase da Revolução Industrial: O apogeu do Ferro e do Vapor, da tecnologia e do individualismo burguês.
A fachada de progresso escondia a enorme exploração, e as péssimas condições de infraestrutura. E a tal igualdade tampouco existia. Tanto que assim que possível, a recém-criada aristocracia industrial e financeira drenou o pântano que é hoje o Central Park, e em suas margens instalou os seus palácios suspensos – os arranha-céus que maravilhavam o mundo.
O tal traçado retilíneo da cidade tinha um dúplice efeito: Ao racionalizar os trajetos, não apenas facilitava e agilizava os deslocamentos, mas ainda maximizava o poder de controle estatal sobre a cidade. Essa foi uma máxima da época; é só lembrar dos boulevares de Paris, criados pelo Haussman, ou mesmo (mais tarde) a nossa Av. Rio Branco e – posteriormente – a Presidente Vargas.
Aqui no Brasil, um autor que era tão maravilhado com esse apogeu de progresso era Monteiro Lobato. Tanto em sua literatura infantil (vale ver a Geografia de Dona Benta) quanto em seus textos adultos, esse fascínio está evidente.
E junto com o fascínio, vêm os preconceitos: Julio Verne era etnocêntrico; Monteiro Lobato, racista e sexista. Ambos, produto de seu tempo.
Esse é um assunto maravilhoso, Ana! Adorei, vale a pena explorar e aprofundar.
Senhoras e senhores, nem preciso mais fazer post. Olha aí a aula prontinha e deliciosa. Tks, Alvaro!
Olá
Gostaria de saber um pouco mais sobre o traçado do mapa
Já que você falou que pode explicar um pouco do traçado
Fico aguardando
Obrigada desde já
Ednara
Oi, Ednara. Falo, sim. Você pode me dar um tempinho? Eu tou numa semana muito vertiginosa, e quero te responder com calma, como você merece. Só quis liberar logo o comentário e te dizer que seu pedido está anotado e será atendido.