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Nem tão recentemente

Zona Portuária, patrimônio e reurbanização

Eu já comentei, um tempo atrás, que estou fazendo uma série de fotos dos sobrados ecléticos no Rio de Janeiro. Como são pra mim mesma e pra umas ideias que eu tenho na cabeça, não tem pressa, e eu vou fazendo um bocadinho cada vez que tenho tempo. No último fim de semana estive novamente fotografando, dessa vez nos arredores da Praça Mauá e na Zona Portuária – Saúde, Gamboa, Santo Cristo. Andando por um tanto de ruazinhas e becos e praças simpáticas escondidas pelos galpões abandonados e pelo pavoroso viaduto da Perimetral, anotei algumas reflexões, que divido com vocês.

O patrimônio arquitetônico da região é riquíssimo, composto por diversas edificações do final do século XIX, mas majoritariamente de princípios do século XX. Isso se dá porque nas primeiras décadas do século passado a região foi alvo de importantes projetos de reforma e embelezamento, entre os quais se destaca, para efeitos de nossa análise aqui, a reforma do porto conduzida durante o governo do Prefeito Pereira Passos. Este patrimônio, no entanto se encontra bastante deteriorado e a área, de forma geral, está muito empobrecida e feia.

A mesma tipologia arquitetônica pode ser encontrada também em outros bairros como Botafogo, Flamengo, Catete, além de outros trechos no mesmo Centro, como Largo da Carioca, Cinelândia, Praça Tiradentes. Em quase todos esses lugares, os sobrados ecléticos estão degradados, mas em alguns bem mais do que em outros. Eu tirei duas conclusões preliminares:

Antiga sede da Cia. Docas. Hoje funciona ali o IPHAN

Antiga sede da Cia. Docas. Hoje funciona ali o IPHAN

1) De maneira geral, o ecletismo ainda é um estilo desprestigiado. Ou uma falta de estilo, como dizia Lúcio Costa. Um pastiche de elementos “roubados” de outras linguagens e colados todos juntos, resultando numa profusão de ornamentos. Esse é o argumento que justificou a autorização para demolição de diversos exemplares da arquitetura eclética entre 1930 e 1990, mais ou menos, entre eles o Palácio Monroe. De lá pra cá tem havido mais iniciativas de preservação e reconhecimento do valor desses edifícios. Eu confesso que eu me encanto com as composições, a justaposição tantas vezes delicada, ainda que exuberante, de elementos como portadas barroquíssimas com símbolos náuticos e lajes industriais de tijolo de vidro, como acontece na antiga Companhia Docas de Santos (Av. Rio Branco, 44), que hoje serve de sede ao IPHAN. E me encanto mais ainda com pequenos sobrados populares, que tentavam emular a elegância dos ricos prédios oficiais, quase sempre resultando em fachadas mais contidas, ainda que também apresentem as mesmas características de junção de elementos diversos e distintos, com extrema liberdade criativa, numa mesma composição.

Rua do Acre

Rua do Acre

Em alguns casos, tanto no que concerne aos imponentes palacetes quanto aos modestos sobrados, há mesmo valor individual na construção, mas na maioria das vezes, o que faz diferença é o conjunto, que confere uma ambiência urbana peculiar: volumes, detalhes arquitetônicos em balcões, platibandas, colunas, ornamentos.

2) Mesmo que, nos vários bairros já visitados, muitos prédios estejam degradados, com as fachadas pichadas, ornamentos de gesso quebrados, pintura descascada e indícios de infiltração, o que se percebe é que há nítida diferença, na conservação, entre regiões que foram alvo de políticas públicas de preservação e revitalização, como o Largo da Carioca e adjacências (que são objeto de um projeto chamado Corredor Cultural), e outros que não tiveram o mesmo cuidado, como os que eu vi neste fim de semana.

Além da questão do patrimônio, há a fundiária. Observo que há um valiosíssimo estoque de terrenos baldios em toda a Zona Portuária. No período que estamos enfocando (fins do séc. XIX/inícios do XX), esta foi uma região industrial movimentada – o mesmo aconteceu com São Cristóvão, por exemplo – com funções quase sempre ligadas à atividade portuária. Quando o porto se tornou obsoleto e as próprias indústrias ou se modernizaram ou se transferiram para outros locais, a região herdou uma enorme quantidade de galpões, alguns lindos, muitos abandonadíssimos, remanescentes das fábricas falidas ou remanejadas. São galpões destelhados, com apenas partes das paredes ainda de pé, ruínas no centro das quais cresce o mato e proliferam lixo, ratos e famílias miseráveis de sem-teto.

Isso tudo numa região rica. Sim, rica, abastecida de infra-estrutura de água, gás, esgoto, telefone, transportes (muita coisa pode até não estr em bom estado ou oferecer um serviço de má qualidade, mas a rede está instalada), bem localizada e de acesso fácil e rápido para todo o restante da cidade. Ideal para a implantação de projetos de habitação social, e para atrair investimentos de vulto na área comercial e de entretenimento. É um verdadeiro angu de caroço a ser resolvido, em termos de reurbanização das áreas centrais. Falaremos mais do assunto.

5 comentários para Zona Portuária, patrimônio e reurbanização

  • Olá Ana Paula,

    Interessantíssimo seu texto e seu olhar para a cidade do Rio de Janeiro que sem sombra de dúvida tem em suas construções muita história. Ainda mais para uma cidade que já foi capital do Brasil.

    Recentemente resolvi começar a fotografar o que existe ainda na cidade de bacana e criei o blog Chega de Demolir S!P (Não quer fazer o Chega de Demolir R!J? – rs) embasado na idéia de um blog argentino.

    Gostaria que desse uma olhada no blog e nas fotos que já andei fazendo…veja no Panoramio, banner no blog. Parabéns pelo texto e iniciativa.

    Olá, Helio, fui lá no seu blog, achei muito bacana também. Que excelente ideia fotografar São Paulo. Eu adorei o post sobre a exposição dos desenhos do Marcelo Senna, imperdível para quem está em São Paulo. E suas fotos são muito legais, parabéns! Abraços e volte sempre.

  • Oi Ana,
    Legal seu retorno. Vamos nos visitar sim. Ainda não fui ver a exposição do Marcelo, estarei em breve na Galeria que é perto do meu trabalho. Apesar do Rio não ter tanta especulação imobiliária, tem muitas construções que pouca gente conhece. Eu mesmo já fui tantas vezes ao Rio e fui conhecer um lado legal da cidade quando fique na casa de um amigo na Lapa. Que lugar bucólico. Adorei também o Largo do Machado. O Rio é muito mais do que Copacabana e Ipanema. Abs,

    Oi, Helio, a Lapa é mesmo maravilhosa! E certamente o Rio é mais que a Zona Sul. Tem lugares deliciosos escondidos no subúrbio, na Zona Norte, nas áreas centrais. Acho que você faz uma coisa mais ou menos parecida em SP, de divulgar e valorizar essas regiões e esses prédios que a maioria das pessoas nem vê mais. Fundamental. Abs também

  • Alvaro

    Eu sou fascinado por essa área, Ana!

    É impressionante passear por ali, e ver o ocaso atual do que foi uma área de pujança impressionante. Os resquícios arquitetônicos são como as jóias restantes de uma velha senhora falida.

    Tenho minhas reservas (talvez decorram do meu desconhecimento) quanto ao projeto de revitalização que se pretende implementar. Espero que prospere e tenha sucesso! Mas temo pela descaracterização completa da história dessa área.

    Eu tou com umas anotações aqui pra falar mais sobre isso. Recolhi umas matérias de jornal, uns artigos sobre o assunto, e uma hora dessas, ponho no ar.

  • Suzi Brandão

    Boa noite, Ana!
    Sou moradora da cidade de São Gonçalo, no RJ. Sou apaixonada pelo RJ, e no seu texto tive que concordar com a triste atual realidade de destruição das ‘jóias restantes de uma velha senhora falida’ (adorei essa interpretação!). Vou adicionar sua página nos meus favoritos e espero ler mais textos tão interessantes quanto este. Belo trabalho! Parabéns!

    Oi, Suzi, obrigada! Venha sempre mesmo, será um prazer saber que você lê os escritos por aqui e participa das conversas. Preservação de patrimônio é um dos temas que a gente aborda de vez em quand, e eu entendo que é fundamental para a qualidade de vida na cidade.

  • Aloísio Santos

    Excelente observação !!!
    Também acompanho a zona portuária (sou discente de Serviço Social e integrante de um grupo de pesquisa em política urbana que estuda a região central do RJ). Afinal, na minha monografia (em desenvolvimento) abordo algumas questões (principalmente, a questão da moradia popular em tal região que, sofrerá, com o advento dos megaeventos esportivos).
    Irei acompanhar as suas leituras.
    Abraço.

    Aloísio, é um prazer receber sua visita, fique à vontade para voltar sempre. Esse projeto, denominado “Porto Maravilha” (eu tenho uma enorme implicância com o nome…) realmente sofre equívocos sérios, especialmente no que diz respeito à moradia popular. A região vai sofrer sim, com o impacto desses eventos, e nem todo impacto será positivo. Sabe quem fala bastante disso? A Raquel Rolnik. Ela tem um blog: http://raquelrolnik.wordpress.com/ excelente. Ela fala mais de São Paulo, mas as considerações são válidas para todos nós. Abração!

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