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Nem tão recentemente

A volta ao mundo em muitos exotismos

Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.

Pra quem não acompanhou, na coluna de sexta-feira retrasada, eu optei por selecionar um trecho de A cidade flutuante, em detrimento d’A volta ao mundo em 80 dias, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar esse livro, porque fala tão bem do que eu chamei de fascínio e estranhamento com outros povos e lugares, sentimentos bastante comuns ao século XIX. Aí, nesta última sexta, eu trouxe o Mário Quintana, e ele dá um beliscão no turista deslumbrado, que acha tudo exótico e pitoresco, como se ele representasse algum tipo de norma universal, e o resto do mundo fosse um zoológico que se visita para desfrutar de algo que está ali para o seu entretenimento. Achei perfeito.

Esse tema do turismo é quentíssimo, sei de bastante gente boa que tem estudado isso, suas implicações para a vida da cidade, o surgimento cada vez mais intenso e sofisticado não só de parques temáticos, mas de verdadeiras cidades temáticas cuja existência só faz sentido em função de um apelo de marketing e turismo, e uma série de críticas e reflexões que se estão construindo, pesando os aspectos econômicos e culturais envolvidos para a vida da cidade e seus cidadãos. E é algo que, se não surge efetivamente a partir do século XIX com todas essas questões que eu levantei, do surgimento e disseminação de novos meios de transporte encurtando distâncias e tempos, pelo menos tem, aí, o estabelecimento de bases materiais para começar a se desenvolver.

Tergiversei um pouco, mas o que eu queria era mostrar esse trechinho do Julio Verne, que complementa o que falamos nas últimas semanas: tem a avidez com que as pessoas no século XIX queriam conhecer novos mundos; tem uma visão que hoje parece bastante romântica, de um inglês visitando “terras exóticas” (embora nesse trecho específico, a paisagem seja vista por um francês); tem um texto que pode ser lido como o embrião das crônicas de viagem mais modernas; tem a própria descrição da paisagem, o que nos remete de novo ao texto do Quintana sobre o assunto (o narrador nos mostra uma paisagem, mas não nos impõe a paisagem, ele nos transporta para ela e permite que nós a vejamos com nossos próprios olhos do coração e da imaginação); mas não sei se tem esse ranço para o qual o Quintana nos alerta. Ou talvez eu seja muito indulgente com o Verne. Leia e me diga o que você acha. *

do-trem

“Passepartout, ao acordar e olhar para fora, não absorveu de imediato o fato de que ele estava realmente cruzando a Índia num trem. A locomotiva, guiada por um maquinista inglês e alimentada com carvão inglês, cuspia sua fumaça sobre plantações de algodão, café, cravo e pimenta, enquanto o vapor espiralava em redor de palmeiras, no meio das quais podiam se avistar bangalôs pitorescos, viharis (um tipo de monastério abandonado), e templos maravilhosos, adornados com os ornamentos inesgotáveis da arquitetura indiana. Então eles atravessaram vastos campos que se estendiam pelo horizonte, com selvas habitadas por serpentes e tigres, que fugiam ao ruído do trem; a estas se sucediam florestas rasgadas pela estrada de ferro, e ainda assombradas por elefantes que, com seus olhos pensativos, contemplavam o trem que passava. Os viajantes cruzaram, acima de Malligaum, as terras mortais, tão frequentemente manchadas de sangue, pelos seguidores da deusa Kali. Não muito longe dali se elevava Ellora, com seus graciosos pagodes, e a famosa Aurungabad, capital da temível Aureng-Zeb, agora a principal cidade de uma das províncias emancipadas do reino de Nizam”.

* Se alguém não conhece, a história narra as aventuras de um inglês muito rico e entediado, Phileas Fogg, que aceita uma aposta com seus amigos do clube londrino, de dar a volta ao mundo em apenas 80 dias, acompanhado de seu empregado, o francês Jean Passepartout.

3 comentários para A volta ao mundo em muitos exotismos

  • .

    Temos nos encontrado no Obvious, por aí.
    Segui o seu caminho e hoje me vejo apertando
    a sua campainha…

    silvioafonso.

    Puxa, Silvio, que legal. Venha sempre! O Obvious é bem legal, não é?

    .

  • Oi, Ana, desculpa meu sumiço. Estou super atrasada na leitura do urbanamente e lamento muito por isso, porque adoro. Comento hoje correndo o risco de estar falando fora de contexto, já que não li todos os textos e comentários anteriores, pode? Pode né. hahaha!

    Este trecho é romantiquinho mesmo. A parte que me chamou a atenção foi o comecinho, onde ele diz que o personagem acordou e não se deu conta imediatamente de que estava na Índia, pois os elementos imediatamente próximos a ele (locomotiva e maquinista e, daí presumo, a língua falada no trem) eram ingleses. Fiquei pensando em quantas vezes se viaja sem viajar de verdade – sem sair de perto do guia, do hotel, do pessoal da excursão, dos pontos turísticos óbvios (e já despersonalizados, pertencentes muito mais aos turistas que os frequentam do que ao lugar que os contém).

    Saudades de você, dos teus leitores, deste blog. Um beijo!

    Mas é só o que me faltava, ter que desculpar sumiço de leitor. Paula, põe na tua cabeça que tua visita e teus comentários só me honram, mas só valem se for por prazer, jamais por obrigação. Pra variar, você tocou num ponto importantíssimo. Gostei.

  • Cláudia Marcanth

    Adorei o comentário da Paula Clarice e aproveito a deixa para fazer o meu. Os europeus, confiantes na robustez da máquina conduzida por um inglês e alimentada pelo carvão do mesmo país, “curtiam” aquela excitação de estar cruzando terras perigosas. Vejam só como os elementos exteriores são descritos:

    “Selvas habitadas por SERPENTES e TIGRES”
    “Florestas … ainda ASSOMBRADAS por elefantes”
    “Malligaum, as TERRAS MORTAIS, tão frequentemente MANCHADAS DE SANGUE, pelos seguidores da deusa Kali.”
    “A famosa Aurungabad, capital da TEMÍVEL Aureng-Zeb.”

    Em termos de turismo, isso ainda acontece aos montes. Lembrei-me agora do filme “Babel”, onde um ônibus refrigerado e lotado de gente “civilizada” cruza, arrogante, a paisagem inóspita do Marrocos. Eis que o Marrocos entra dentro do luxuoso ônibus, através de um tiro que acerta uma americana sonolenta, que cochilava com a cabeça encostada na janela panorâmica do ônibus.

    Pronto, a Paula Clarice levantou a bola e a Cláudia deu uma cortada certeira. E nem me fale desse filme, que eu amei tanto, tanto. É uma chacoalhada visceral em tanta coisa, e nessa visão de turismo “exótico”, do confronto “civilização” x “barbárie”, acima de tudo. O que é “civilização”? Quem é o bárbaro?

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