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Nem tão recentemente

Cidades Literárias: Patrick Süskind

Este é um dos textos mais eloquentes (não me conformo com a ausência do trema) e vívidos, em termos de descrição de cheiros e ambiência de uma cidade, que eu conheço. Sim, estamos falando de O Perfume, que narra a vida de Jean-Baptiste Grenouille na França do século XVIII,  um homem cujo maior talento era conseguir identificar com rara presteza e eficiência odores e componentes individuais de todos os perfumes existentes, e cuja característica pessoal mais estranha era não ter, ele próprio, cheiro algum. Há alguns anos, rendeu um filme bastante interessante, que conseguiu captar quase todo o espírito do livro.

Mas por mais que uma imagem valha mil palavras, não houve, pelo menos para mim, imagem alguma que desse conta de transpor para a tela as sensações despertadas pela descrição que consta nos primeiros parágrafos do livro, e que eu selecionei para hoje. Eu fico imaginando viver em Paris nessa época… Ou em quase qualquer outra grande cidade do mundo. As condições de higiene e habitabilidade eram mesmo terríveis. Fiquei aqui pensando duas coisas. Uma é na nossa obsessão moderna com escamotear cheiros corporais, e como os cheiros e perfumes têm significados que vão tão além do “conforto olfativo”. Outra coisa que me ocorreu é que estas condições de (falta de) higiene e as sensações e consequências delas decorrentes não diferem muito de hoje, em tantas de nossas favelas miseráveis. Mas nos nossos dias, acho que nada fede mais que o Congresso Nacional. Tapemos nossos narizes.

“Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia o enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram mais bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e arainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.

Naturalmente, em Paris o fedor era maior, pois Paris era a maior cidade da França. E em Paris, por sua vez, um lugar havia onde o fedor imperava de modo especialmente infernal, entre a Rue aux Fers e a Rue de la Ferronerie, ou seja, no Cimetière des Innocents. Ao longo de oitocentos anos, tinham sido para ali trazidos os mortos do hospital Hôtel-Dieu e das comunidades eclesiais das redondezas.; ao longo de oitocentos anos, carretas traziam até ali, dia após dia, cadáveres às dúzias, jogados em longas covas; ao longo de oitocentos anos, acumulados nas criptas e ossários, camadas e mais camadas de ossinhos. e só mais tarde, às vésperas da Revolução Francesa, depois que algumas das covas haviam desabado perigosamente e o fedor do saturado cemitério havia levado os moradores das cercanias não mais a meros protestos, mas a verdadeiros levantes, é que ele foi finalmente fechado e transferido, tendo os milhões de ossos e crânios sido enterrados nas catacumbas de Montmartre e, no seu lugar, surgiu uma praça com uma feira livre”.

2 comentários para Cidades Literárias: Patrick Süskind

  • Cláudia Marcanth

    Meio off topic: a discussão sobre o cheiro de um livro e o cheiro de um filme também se deu acerca do “Ensaio sobre a cegueira”. O livro é muito mais fedorento, dizem. Incrível o poder da literatura, não é mesmo? Ela consegue expressar todos os sentidos: visão, audição, tato, olfato e…e…. caraca, me esqueci do outro: gosto, será?
    Bjs atrasados!

    Hahahaha, paladar? É, a literatura é mesmo poderosa, exatamente por não nos entregar a cena pronta, e nos permitir criar imageticamente o universo do que lemos. Isso não tem preço.

  • Ana, eu conhecia este texto :

    http://simples-escritos.blogspot.com/2007/06/paris-descrio-do-sculo-18.html

    Perfeito, Nelson! Muito bom, mesmo, obrigada.

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