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Nem tão recentemente

Cidades Literárias: Mark Twain

Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na Universidade Veiga de Almeida (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio novo e interessante para mim, sob vários aspectos. Uma mudança bastante significativa, principalmente em termos de rotina, é que o campus da  Universidade fica na Barra da Tijuca, que é um bairro do Rio bastante longe pra mim, com um trânsito complicado, e sobretudo, uma configuração urbana muito diferente do que eu estou habituada. Quero falar exatamente sobre isso depois, e sobre uma experiência quase, eu diria, antropológica, que eu tive ontem. Mas isso é depois.

Voltando, eu dou aulas por lá às terças e quintas. Um dos cursos é o de Design de Interiores, e estou num processo de imersão nesse novo universo pra mim. Mas dou também uma matéria chamada Planejamento Urbano, no curso de Gestão de Negócios Imobiliários. É uma turma grande, um pessoal mais velho, vários numa segunda graduação, a maioria buscando uma qualificação maior para ingressar ou se aperfeiçoar no ramo da corretagem de imóveis.

Na aula de ontem, eu estava falando com eles sobre o que é o estudo da morfologia da cidade, na tentativa de despertar uma maior sensibilidade para olhar – e ver – os vários elementos que compõem a estrutura urbana: as ruas, os prédios, as praças, a vegetação urbana, os padrões de parcelamento do solo, e até os monumentos e mobiliário. São todos peças que se relacionam e que ajudam a criar o espaço urbano, interferindo na percepção que temos dele e nas sensações que nos despertam.

É um tema que me apaixona. Especialmente quando falo das ruas e praças, espaços públicos tão importantes e tão esvaziados de tudo hoje – de significado, de usos, de conteúdo político.

(Calma que eu tou quase chegando no Mark Twain)

Aí, preparando a aula, na quarta-feira, eu tava pesquisando imagens para os slides. Eu queria falar da importância e das várias funções das ruas. Lá na Barra, especialmente, como em diversos outros locais de desenho modernista, as ruas são quase exclusivamente reduzidas à sua função de canal de deslocamento. Elas servem para a “circulação”, como dizia Le Corbusier na Carta de Atenas (link em pdf). Você usa uma rua para ir de um lugar a outro. Ponto. E isso é tão pouco, tão empobrecedor. As ruas servem para fazer passetas, para eventos cívicos, servem para as crianças jogarem bola no final da tarde, para as pessoas sentarem na calçada e conversarem com os vizinhos. Servem como mercado, como ponto de encontro, no chopp da esquina, bebido de pé na calçada ou sentado no meio-fio, servem para passear com o cachorro, servem  para você cruzar com pessoas diferentes e quem, sabe, até, realizar pequenas trocas sociais, nem que seja respondendo a um passante desconhecido que horas são ou onde fica a rua tal.

Eu queria procurar imagens dessas coisas, e joguei no google: “crianças na calçada”, “velhinhos na calçada”, crianças na rua”, “brincadeiras na rua” e todo tipo de coisas semelhantes. As únicas imagens que atendiam ao que eu estava procurando eram velhas fotos em preto e branco, como essa aí embaixo, que ilustra esse post. De maneira geral, expressões com crianças ou velhinhos ou o que quer que seja na rua ou na calçada, só te devolvem imagens de sem-teto, pivetes, mendigos. Achei tão sintomático. E triste.

Olha a pinta da figura!

Olha a pinta da figura!

No início da semana, sabendo que teria dias de muito trabalho e pouco tempo, eu já estava pensando em que autor escolher para hoje. E já tinha pensado em Mark Twain. Se você nunca leu Mark Twain, faça-o correndo. É delicioso, ele é mordaz, bem-humorado, ácido e doce na medida certa. Eu tenho um livro dele, de não-ficção, chamado Dicas úteis para uma vida fútil: um manual para a maldita raça humana (Ed. Relume Dumará, 2005, tradução de Beatriz Horta), que é uma coleção – organizada postumamente – de pensamentos, pequenas crônicas, trechos de diário, cartas e conselhos: divertidíssima! Mas depois da aula de ontem, eu não tive dúvida. Corri para As Aventuras de Tom Sawyer, e saiu isso aqui:

“Tom caminhou junto às casas e tomou uma rua enlameada, que dava para os fundos do estábulo onde a tia tinha a vaca. Passados momentos estava a salvo de que o apanhassem para o castigar.

Então apressou-se para o largo da aldeia, onde os meninos, formados em duas companhias “militares”, deviam encontrar-se para um combate, segundo uma combinação prévia. Tom era general de um desses exércitos e Joe Harper – um amigo de infância – general do outro. Estes dois grandes comandantes não se dignavam combater em pessoa – o que competia a outros de menos importância -, mas ambos, sentados numa elevação do terreno, dirigiam as operações transmitindo ordens aos seus ajudantes-de-ordens. Depois de um longo e renhido combate, o exército de Tom saiu vitorioso. Nessa altura, contaram-se os mortos, trocaram-se os prisioneiros, combinaram-se os termos do próximo encontro e marcou-se o dia para ele. em seguida, os dois exércitos formaram e marcharam, cada um para seu lado, enquanto Tom voltava sozinho para casa”.

225_166-criancaTambém vou deixar vocês aqui, com minha homenagem às brincadeiras de rua, à sociabilidade que eu ainda creio ser possível resgatar ou incrementar, ainda que de jeitos novos. Esse livro foi escrito em 1876. Cem anos depois, numa cidade do subúrbio, eu, bem pequena, brincava de queimado e pique-bandeira na rua em frente à minha casa na volta da escola, de tarde. Me ajudem a não parecer uma velha coroca resmungando por uma nostalgia ingênua e vazia. Uma cidade melhor é possível. Mas, do meu ponto de vista, passa necessariamente por espaços públicos com mais vida e mais trocas.

3 comentários para Cidades Literárias: Mark Twain

  • Cláudia Marcanth

    Deve ser por isso que eu gostava (e ainda gosto tanto) de ler Luluzinha e Bolinha. Lembra daquelas rixas entre a turma do Bolinha e a turma da Zona Norte? De como Luluzinha e Aninha andavam pelas ruas, sozinhas, levando suas bonecas para passear em carrinhos de bebê de brinquedo? De como havia parques e bosques para eles brincarem e até construir o Clube dos Meninos? De como as casas davam direto para as ruas, apenas uma escadinha separando a porta da calçada (bem americano, isso… eu acho)?. As pessoas esbarravam umas com as outras pelo bairro. Quanto charme!

    E por falar em charme, que inveja desses alunos: ganharam uma professora apaixonada e de altíssimo nível. Espero que façam bom uso!!!
    Bjs!

    Luluzinhaaaaa! Eu amava essas historinhas. É bem isso mesmo, vida na rua, melhor coisa do mundo!

  • ana paula,

    aqui em caxambas, nome cunhado pela fal, se não estou enganada, há um calçadão no centro da cidade ladeado por restaurantes, casa lotérica, papelaria, dois bancos, uma sapataria e uma farmácia.
    um prefeito o construiu. o anterior o demoliu e reconstruiu. no entanto não se sabe o porque do intento dos dois, o calçadão é utilizado apenas para festas da prefeitura. vez por outra. ponto.

    perto dele tem um café. fica na outra rua, frente a ele. neste café as senhoras sentam nos finais da tarde, as crianças brincam com seus pais, os cachorros dentinho, malhada e outros que surgem trocam afetividade com os frequentadores do bar que ocupa duas esquinas.
    nesta que acebei de te falar a gente toma um expresso curto e toma água caxambu. desestrssa, enfim.

    na outra esquina fica a ala da política local onde conjuram e esconjuram. o café do cláudio, que é o dono, cumpre o papel do calçadão que está sempre vazio a não ser quando frequêses das lojas e dos bancos passam por ele.

    no café você tem espaço para só olhar, ver e pensar ou fazer parte de algum grupo que sempre pinta cantando , tocando um instrumento, porque voltou de alguma aula e foi ver os amigos e comer uma torta.

    a cidade mora neste bar. é lá que ela se manifesta. fico intrigada em ver que não são as ruas ou as casas que signigicam caxambu. mas um bar, onde as pessoas das cidade tomam chá nos finais de tarde e apuram sobre a vida. e se alguém morre é por ali que passa, vestido de caixão, levado ao cemitério em romaria, acomanhado por vizinhos, familia e amigos.

    o calçadão, construído para ser área de lazer, para congregar pessoas, que tanto dinheiro custou aos cofres públicos, leia-se cidadãos de caxambu, está às moscas.

    O que mostra que a vida da cidade não está exclusivamente no desenho ou no projeto, mas busca seus caminhos para se manifestar. Em caxambas, é num bar que fica de frente para a rua, uma rua viva, por onde passam pessoas, provavelmente a pé, que é quando a gente tem o tempo suficiente para interagir com o espaço urbano. Não se impõe vida a uma cidade, mas pode-se – também com desenhos e projetos – favorecê-la, ou dificultá-la. É isso que eu acredito. Beijos, Esther, eu gosto tanto quando vc vem aqui.

  • Alvaro

    Adorei achar Mark Twain – e mais ainda, Tom Sawyer – por aqui!

    Junto com o Monteiro Lobato e o Julio Verne, foram referências de leitura na minha formação infanto-juvenil. Ah! Teve ainda o Emilio Salgari, com San-Dokan, Tremal-Naik e os Piratas da Malásia, mas aí já é outra história.

    O Mark Twain é, de novo, um homem de seu tempo e de seu espaço. Um espaço que era o Sul norteamericano, que havia recém-perdido a Guerra da Secessão; de resquícios de um passado colonial de riqueza, às margens do Mississipi; com seus casarões, suas barcaças a vapor, e as rodas d’água as impulsionando, molemente. E a escravidão e o racismo, é claro.

    Aliás, o pseudônimo (Mark Twain) é uma referência a um artefato para que se usava para medir a profundidade do rio, de maneira a permitir a passagem das embarcações.

    O Tom Sawyer é um Pedrinho das margens do Mississipi, com suas aventuras, e vivendo o seu amadurecimento. E parte dele vem com o contato com o Huckleberry (Huck) Finn, um menino órfão e muito pobre, que vivia nas ruas, e que faz um contraponto fascinante com ele. E ainda um negro (Joe Harper, se não me falha a memória), que corporifica toda o preconceito existenteà época. Mas, ainda, a cultura dos negros americanos, inclusive musicalmente.

    Tem ainda o vilão Injun Joe (um índio, politicamente incorretíssimo); a figura materna da Tia Polly.

    E tem – principalmente – Becky Thather, a menina, linda e sardenta, por quem Tom vai descobrir, em algum momento do romance, que é apaixonado (e correspondido).

    Eu também fui, durante muito tempo, apaixonado pela Becky.

    Álvaro, eu AMO as suas participações, fico honradíssima quando você vem! Eu não sabia isso sobre a origem do pseudônimo Mark Twain. E achei a comparação do Tom Sawyer com o Pedrinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo perfeita!. Eu definitivamente preciso conhecer mais a literatura norte-americana.

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