Viva, porém nervosa. Eu não gosto nadinha de ter deixado este espaço abandonado por tanto tempo. Inclusive penso tanto nisso aqui, tenho tido tantas ideias de temas e escritos borbulhando na cabeça que, se houvesse por mágica (alguns avanços tecnológicos pra mim sempre parecerão mágica) um aparelhinho ou chip que pudesse ser grudado ao cérebro e conectado a um editor de texto, e fosse transcrevendo automaticamente as coisas que a gente vai pensando, nossa, vocês já teriam cansado de tanto me ler. Mas do jeito que as coisas estão, eu só poderia vir mais aqui se dormisse menos, e eu já tenho dormido bem pouco, acreditem. Ontem, por exemplo, eu havia me prometido que viria escrever o Cidades Literárias, já que eu falhei na sexta passada, mas tive algumas coisas inadiáveis pra resolver de manhã, e de tarde minha cabeça zunia tanto, meus olhos ardiam e pesavam, e eu acabei dormindo a tarde toda, considerando que é o único dia da semana que eu estou em casa, pelo menos, quase sempre.
Enfim, a vida já é tão cheia de obrigações e inadiabilidades (hahahaha, isso existe?), que se eu esticar esse peso pra cá também o prazer que isso aqui significa pra mim vai embora. Isto tendo sido concluído, eu relaxei um pouco e lembrei que o bom é inimigo do ótimo, e que trabalhamos somente com o que é possível. Eu não passei na seleção para Super-Mulher. Amém.
Olha só o que temos pelo caminho:
1 – Tou atrasada com as Cidades Literárias. Andei a semana toda com um livro bem interessante nas mãos, Fogo Persa, do americano Tom Holland. Eu o li ano passado, e quero tirar um trechinho dali, mas ainda não consegui folheá-lo para selecionar alguma coisa. Ele fala sobre o embate entre as civilizações persa e grega no século VI a.C., não apenas do ponto de vista militar, mas também cultural, e até urbano. Fala do surgimento e expansão dos persas como um grande império, a partir de mais ou menos 700 a.C. reunindo (e subjugando) forças de tribos do planalto iraniano, parte do Oriente Médio, e sua expansão em direção à Grécia e ao Mediterrâneo. Sua descrição das cidades e costumes persas é fascinante, e o autor nos instiga com a especulação do que teria sido nossa evolução se os persas tivessem vencido a guerra com os gregos. Eu volto com isso.
2 – Por falar em civilização, eu estou há semanas para comentar com vocês sobre as aulas que estou fazendo na PUC. Como parte do projeto eu-vou-fazer-doutorado, me aproximei da PUC, e estou assistindo um curso na pós-graduação de História. MUITO legal. O tema do curso é “O conceito de civilização na América Ibérica no século XIX”. Vocês sabiam que a palavra civilização só surgiu no nosso vocabulário, via França, em meados do século XVIII? A palavra e os conceitos a ela relacionados, claro, que inclusive também sofreram mutações e ressignificações de lá pra cá. E já pararam pra pensar que em períodos de grandes transformações sociais e políticas há sempre também grandes mudanças na linguagem? A gente precisa aprender a nomear ideias e processos que antes não existiam. Isso dá pano para mangas. E bota mangas nisso.
3 – Estou devendo minhas impressões sobre a experiência interessantíssima que tive passeando a pé pela Barra da Tijuca. O que já riram da minha cara por isso não está escrito. E o que eu pude pensar e refletir sobre a nossa cidade a partir desse momento singelo também não.
4 – A propósito, li recentemente um artigo que saiu na revista Vitruvius, escrito por Pablo Benetti, arquiteto e diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. O artigo em si é sobre a Cidade da Música, mas nem é disso que eu queria falar. É que ele usa uma expressão ali no meio, que eu arregalei o olho e achei genial, adotei desde já. Ele diz que os prédios da Barra da Tijuca são autistas (não vou explicar isso agora, aguardem o post propriamente dito, isso aqui é só o trailer. Ou então leiam o artigo linkado). Mas fervi a cabeça pensando no espaço público, sua importância, seus significados, e como ele reflete valores da nossa sociedade.
5 – Se o assunto é espaço público, não posso deixar de mencionar a contribuição (outra, de novo) maravilhosa da Cláudia, que me enviou o link de um vídeo que eu quero recomendar. Ela o viu no lindíssimo blog Caquis Caídos, da ótima escritora Adriana Lisboa (que eu acrescentei na listinha aí do lado). Eu ainda não sei como faz pra colocar aqui a janelinha do youtube pra vocês clicarem direto, mas coloco o link. Está em inglês, eu tou imaginando se será possível legendá-lo. Mas quem entende bem inglês não pode perder. É uma palestra (são vinte minutos, vale cada micro-instante) do autor e crítico social americano James Howard Knustler, falando sobre a tragédia urbanística que é o padrão dos subúrbios americanos. Depois tem umas ponderações que eu gostaria de fazer acerca do que ele propõe como alternativa. Esse papo de New Urbanism pra mim, tem limites. Se alguém assistir e quiser comentar, fique à vontade.
6 – Por fim, mas igualmente importante, eu dormi de ontem pra hoje pensando no papel das mulheres na Arquitetura. Culpa do Fernando Lara (aliás, o artigo que eu linkei ali em cima sobre New Urbanism coincidentemente é dele, vale muito a leitura), que fez dois posts sobre isso lá no Parede de Meia. O assunto é ótimo, rendeu, e o último post teve 25 comentários (até ontem de noite). Sintomaticamente, só dois comentários eram femininos, e ambos da mesma arquiteta, no caso, eu. Fiquei com vontade de me estender no assunto, complementando o que escrevi no meu último comentário lá, e vou fazê-lo aqui, onde eu posso me espalhar mais. Me aguardem.
Volto daqui a pouco com o Cidades Literárias. Deixa eu achar onde eu coloquei o livro do Tom Holland, tava aqui em cima da mesa ontem mesmo, eu juro.


Uma vantagem de ser viciado no RSS é que a gente não se preocupa muito com as atualizações dos blogues que segue
. Não precisa ter data nem frequência rígida.
Hahaha, obrigada, Patrick!
Os seus posts são ótimos e sempre aprendo coisas novas.Muito interessante “E já pararam pra pensar que em períodos de grandes transformações sociais e políticas há sempre também grandes mudanças na linguagem? A gente precisa aprender a nomear ideias e processos que antes não existiam.”
E estou curiosa para saber por que os prédios da Barra são autistas:)
beijos.
Ô, Tereza, assim eu até fico vermelha! Que bom que você gosta. Essa semana ainda eu falo isso da Barra, aguarde. Bjs
Aprender coisas novas?Não, não estava bêbada quando escrevi:) Mil desculpas.
Bjs.
Ui, Tereza, acho que não entendi! Desculpas pelo quê, querida? Muitas beijocas, viu?
O papo do New Urbanism ainda está para chegar aqui, mas não resisti: na edição de julho de 2001 da revista National Geographic (a americana), há uma reportagem sobre o Urban Sprawl assinada por John G. Mitchell. Comentando as alternativas ao tal sprawl, ele fala sobre o New Urbanism e um tal de Smart-growth. Ambos têm como premissa a noção de que o espaço urbano, para ser eficiente, democrático e humano (e que sei mais eu) precisa de densidade, variedade social e racial e de um ambiente que propicie as trocas pessoais e comerciais. Mas aí vem o problema: os imóveis são caros e terminam sendo ocupados, em sua maioria, pela classe média branca americana. A ironia? Os supermercados e outras facilities não encontram, ali na região, pessoas que queiram ocupar os empregos de salários mais baixos, tal como caixas, atendentes, etc. O cúmulo da ironia? É preciso buscar essa mão-de-obra em outros centros, e aí é preciso arranjar transporte barato para essa massa e tal e coisa e coisa e tal…
Que venha o seu post sobre o New Urbanism!
Mas vc praticamente fez o post pra mim! rsrsrsrs…
é isso aí, falemos disso também. bjs
Bjs,
Cláudia.
Aninha, adoro te ler assim: cheia de atividades, cansada sim, mas de bem com tudo e cheia de planos. beijos muitos.
E eu adoro quando vc vem me visitar! Tou cansada, sim, Suzi, pra caramba, mas também cheia de planos, e sim, isso é ótimo. bjs!
Tb fiquei curiosa pelos prédios autistas… mais: pela sua opinião sobre a Barra. E pelas suas pontuações sobre o subúrbio americano. Não se estresse com o quando: como disse o Patrick, o feed serve pra te dar esse respiro mesmo. Aproveite!
Bjs.
Ah, céus, minha responsabilidade triplicou agora. Que honra vc comentar aqui, Lucia, bom demais mesmo. Falarei de tudo isso aos poucos, pode deixar. Bjs