Eu sempre fui fascinada com a história das primeiras civilizações, especialmente as mesopotâmicas. Eu fico horrorizada que ali, onde floresceram culturas fervilhantes de vida e glórias, onde reinaram sumérios, assírios, babilônios, persas e gregos, onde se construíram tantas cidades esplendorosas, se fizeram lutas, se aprendeu pela primeira vez na história da humanidade a plantar e a escrever, ali no berço de tudo, hoje exista um Iraque devastado por uma guerra idiota e ameaçado por um obscurantismo fanático. Uma coisa é certa. Ontem, como hoje, aquela terra entre os rios Tigre e Eufrates sempre foi cobiçada. Os motivos são variados, hoje é petróleo, antes foram as riquezas conquistadas em guerras e comércio, as cidades fulgurantes e fortificadas, mas o resultado é o mesmo: pilhagens, destruição e reconstrução sob nova ordem, submissão.
E no meio de tudo, a força da vida sempre fazendo brotarem novamente as muralhas, os castelos, os templos, o mercado. As gentes entoando seus cânticos, cozendo e empilhando tijolos, comprando e vendendo mercadorias, assando pães e bebendo vinho.
Subjugar cidades e construir cidades novas sempre foram estratégias de dominação, desde essas priscas eras. Quem elevou essa estratégia a um requintado auge foi Alexandre, o Grande, de quem podemos falar um dia, meu personagem favorito da História Antiga. Ele e suas narcísicas Alexandrias, construídas por todo o seu vasto império, o único a derrotar os poderosos persas, ocupando e expandindo as fronteiras do império que até então tinha sido o maior de todos os tempos.
Mas antes de Alexandre houve Ciro. E Dario, e Xerxes. O surgimento dos persas no cenário internacional da época foi um fenômeno sem precedentes. Ninguém nunca tinha ouvido falar daquele povo. Enquanto a Mesopotâmia estava ali, habitada e exibindo cidades cosmopolitas desde 2500 a.C, enquanto minóicos e micênicos ocupavam o Sul da Grécia desde quase o mesmo tempo, e Homero já escrevia a Ilíada em 800 a.C, 400 anos depois da Guerra de Tróia, o planalto pra leste, que se estendia até o norte da Índia era ocupado por tribos nômades e guerreiras, mal saídas da pré-história. Pois em cem anos esse pessoal varreu todo o mundo conhecido, conquistou os poderosos e sentou no topo do mundo. E só não tomou conta de tudo porque uns gregos teimosos de Atenas e de Esparta seguraram o rolo compressor, e na Batalha de Salamina marcaram bem firmes os limites ocidentais dos territórios persas. Vocês ficam daqui pra lá, eles disseram. Esse território aqui é nosso.
Diz o Tom Holland, no livro Fogo Persa, que narra toda essa história com requintes de detalhes e alguma ficção, que a própria noção de Ocidente que se tem hoje poderia jamais ter existido se Xerxes tivesse vencido aquela batalha e varrido os gregos do mapa. Já pensou? Eu achei aqui o meu livrinho que tinha se perdido na bagunça da mesa no escritório, e fiquei enlouquecida com tantas passagens deliciosas e curiosas descrevendo cidades cujos nomes e fama a gente conhece desde a escola, mas que eu não sei se todo mundo consegue imaginar em toda a sua grandeza. Assim, eu trago hoje pra vocês a Babilônia, de Nabucodonosor e seus jardins suspensos, construídos pelos braços de milhares de escravos trazidos para trabalhar na cidade após terem suas próprias cidades destruídas em conquistas sangrentas. Posso começar com o mito da criação da humanidade segundo os babilônicos? Façam suas analogias com o barro de que fala o Gênesis. A primeira frase já é genial:
“Sem poeira, nunca poderia haver cidades e grandes reis. (…) Remontando ao princípio, quando toda a terra era um oceano, o Senhor Marduk, rei dos deuses, havia construído uma jangada de juncos, coberta de poeira, e a misturara com água para forjar o lodo primevo e disso ergueu o seu lar, o Esagila, a primeira construção do mundo. (…) “Vou pegar sangue”, anunciou Marduk, nos primeiros dias do mundo, “e daí vou esculpir a carne e criar o primeiro homem”. Exatamente como havia dito, misturou cuidadosamente poeira com sangue coagulado de um rival que matara, e da massa pegajosa que resultou forjou toda a humanidade. Aqui, no ato original da criação do primeiro homem, foi estabelecido um padrão para toda a eternidade. As lavouras nos campos, os tijolos nas muralhas da cidade: o que seria de tudo isso se não fosse a lama?”.
De todas as cidades daquele tempo, talvez uma das mais famosas seja a Babilônia, planificada por volta de 2000 a.C. como um retângulo de 2500 x 1500 metros, fortemente murada, cortada ao meio pelo Rio Eufrates. Tendo liderado a revolta que derrotou os assírios, a Babilônia ergueu seus próprios domínios impondo a seus vizinhos os mesmos métodos cruéis, descritos até pelo profeta Jeremias, no relato bíblico, como sendo de “um jugo de ferro, impondo a servidão”. Segue o Holland:
“Em 586 a.C., Jerusalém foi tomada e reduzida a um monturo negro de escombros, e todos os infelizes judeus foram arrastados para o exílio, (…) onde tiveram a companhia de exilados de outras nações de todo o Oriente Próximo. (…) Imigrantes, quer fossem escravos, mercenários ou mercadores, apinhavam-se pelas ruas da Babilônia – a primeira cidade verdadeiramente multicultural da história. Mesmo depois de perder sua independência para Ciro, ela permaneceu como o supremo cadinho de misturas do Oriente Próximo, com suas ruas povoadas por milhares de idiomas, rugidos de animais exóticos e a visão de estranhos pássaros dourados, escarlates e nácar dos confins do mundo.

Maquete com uma reconstrução do que deve ter sido a Babilônia
(…) Uma população sem precedentes de um quarto de milhão de pessoas vivia em Babilônia, apinhando suas ruas estreitas e sinuosas. No entanto, mesmo tão cheia de gente, uma densa aglomeração de corpos, tijolos e fezes, ainda assim exigia a mais comprida fortificação urbana jamais construída para encerrar apenas uma porção de sua área. Estupenda, como tudo o mais em Babilônia, a muralha encerrava quase cinco quilômetros quadrados e estava protegida, nos pontos onde o Eufrates não supria uma barreira natural, por fossos. (…) Babilônia, cidade da opulência; Babilônia, a cidade onde o povo é abarrotado de riquezas; Babilônia, a cidade das celebrações, do divertimento e da perpétua dança.
As muralhas da cidade, alardeava-se com confiança, tinham mais de 90 km de comprimento e uma centena de portões de bronze. Mais do que uma cidade, Babilônia era um verdadeiro mundo em si mesmo”.

