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Nem tão recentemente

Cidades literárias: Cory Doctorow

Eu vou falar a verdade e confessar minha imensa ignorância: eu não conheço esse autor. Nunca tinha ouvido falar dele até ontem, nem lido nada de sua autoria. Aí eu recebi um e-mail simpaticíssimo da Telinha, amiga querida, contando que o marido dela traduziu um e-book de autoria desse cara, chamado Little Brother, e ela estava revisando quando se deparou com esse trecho e lembrou de mim e deste humilde blog. Fiquei feliz e boba, tanto que resolvi utilizar logo a contribuição. Eu até tinha separado outra coisa pra esta semana, um texto delicioso do João do Rio, sobre a alma das ruas, mas vou deixar pra semana que vem, já fica agendado.

Claro que eu dei uma googlada no nome de Cory Doctorow, e gostei do que li. O cara é jornalista e blogueiro, autor de ficção científica, defensor da liberalização das leis de copyrighte um dos criadores do Creative Commons. Ainda por cima, por coincidência, ele é canadense. Achei que tinha tudo a ver. O motivo? É que desde ontem eu estou exatamente no Canadá, em Montreal. Isso é outra história e eu espero que renda papo por aqui. Alguma vantagem a gente tem que ter em ter marido que trabalha viajando tanto. Juntam-se milhas. Aí, quando a viagem dele é pra algum lugar que me interessa, eu aproveito as milhas e vou junto. Tá bom, a rigor (quase) qualquer lugar me interessa, mas nem sempre dá pra ir, até porque eu trabalho e não posso ficar faltando. Mas dessa vez, eu achei imperdível demais e vim. Sempre quis conhecer o Canadá. Tá sendo bem legal, mas isso fica pra outro post, se não eu disperso muito (aliás, como sempre).

Como eu ia dizendo, a Telinha me mandou e-mail sobre um livro desse cara. Ela disse que é uma história que se passa num futuro próximo, nos Estados Unidos, num clima bem pós 11/09. O país acaba de sofrer mais um atentado, desta vez em São Francisco, vira um estado policial e quase não há mais privacidade. Um menino de 17 anos inicia um movimento em prol dos direitos civis e do cumprimento da constituição. Ela termina dizendo: “Só posso dizer que, apesar de muita parte tecnológica que eu não entendo, o livro é muito bom. E este trecho me lembrou você”. Vê se ela não tem razão?

“Eu sempre odiei o Centro Cívico. Uma coleção de enormes prédios em formato de bolo de noiva, prédios da justiça, museus e outros prédios como a prefeitura. As calçadas eram largas, os prédios eram brancos. Nos guias turísticos de São Francisco eles faziam com que parecesse o Epcot Center, futurístico e austero.

Mas visto do chão era sujo e embrutecido. Sem-tetos dormiam nos bancos. O distrito ficava vazio às 6 da tarde, exceto pelos bêbados e viciados, porque com apenas um tipo de prédio por ali, não havia razão das pessoas aparecerem ali após o pôr do sol. Estava mais para uma avenida do que para uma vizinhança e as únicas casas de comercio ali eram lojas de penhores e mercadinhos de bebidas para atender aos familiares dos vigaristas e vender aos bêbados que faziam desse lugar seu lar durante a noite.

Eu realmente comecei a entender aquilo quando li uma entrevista de uma antiga e fabulosa planejadora urbana chamada Jane Jacobs, a primeira pessoa que realmente pensou no motivo de ser errado fatiar a cidade com autoestradas, enfiar os pobres em projetos habitacionais e usar leis de zoneamento para se controlar o que pode e o que não pode ser feito ali. Jacobs explicava que as cidades são orgânicas e têm uma grande variedade – ricos e pobres, brancos, mestiços, anglo-saxões e mexicanos, áreas comerciais, residenciais e até industriais. Uma vizinhança como aquela que tem todo tipo de gente passando por ela o tempo todo seja dia ou noite precisa ter um tipo de comércio para cada necessidade, ter gente ao redor o tempo inteiro agindo como os olhos da rua.

Você já viu isso antes. Quando caminha pela parte antiga de alguma cidade e você encontra um monte de lojas legais, caras de terno, pessoas usando a última moda, restaurantes finos e cafeterias bacanas, um pequeno cinema talvez, casas com uma fachada transada. É claro que pode ter umas Starbucks também, mas tem sempre um mercado de frutas e uma floricultura cuja dona parece ter trezentos anos e ela cheira as flores gentilmente em suas vitrines. Isso é o oposto de um espaço planejado, como um shopping. É mais como um jardim selvagem ou uma floresta na maneira que surgiu.

Você não poderia estar mais longe disso do que neste Centro Cívico. Li uma entrevista com Jacobs onde ela fala sobre a antiga e ótima vizinhança que eles colocaram abaixo para construir aquilo. Era o tipo de vizinhança que aparece sem permissão ou razão. Jacobs disse que ela havia previsto isso há alguns anos, que o Centro Cívico seria a pior vizinhança na cidade, uma cidade fantasma à noite, um lugar com algumas lojas baratas vendendo birita e motéis pulguentos. Na entrevista ela não parecia feliz em ser inocentada deste fato, soava mais como se falasse sobre um amigo falecido quando descrevia o que o Centro Cívico se tornaria”.

Tudo a ver com tanta coisa que eu tento escrever aqui (só um lembrete: a Jane Jacobs não é um personagem de ficção, ela é mesmo uma urbanista americana importante de meados do século XX, e eu já falei dela aqui),  e pensando bem agora, tem a ver também com o próximo texto, esse do João do Rio que eu mencionei aí em cima. Aguardem, e nesse meio tempo, vamos pensando nisso aí.

3 comentários para Cidades literárias: Cory Doctorow

  • Ei, esse cara está descrevendo o complexo de prédios públicos da SEFAz, aqui em Manaus! :D

    Os prédios da SEFAZ não são brancos, mas são iguaizinhos – especialmente nos bêbados à noite. Também há os travestis e prostitutas.

    Queremos notícias do Canadá.

  • Eu comprei dele o ‘Down and out in the magic kingdom’. Eu sou uma referência ruim pra ficção científica (já que gosto muuuito), mas o livro do cara é muito, muito bom. Tem lá pra baixar também.

    Enfim, eu fiquei impressionado com a mistura dele de tecnologia com comportamento social. Ele transforma todo o negócio da ‘quantidade de amigos’ do orkut ou do twitter em um ‘karma’ que no futuro funciona como dinheiro. É muito muito legal. Fora a história de fazer backup do cérebro em uma máquina e, quando você morre, volta restaurado em um corpo novo igual ao seu antigo.

    Uau, muito interessante. Eu nunca fui muito de ficção, fora uns asimovs, mas admiro quem tem essa capacidade de visualização e/ou imaginação do futuro, e esse Doctorow me pareceu interessante exatamente por isso que vc falou tão bem de misturar tecnologia com comportamento social. E essa ideia do backup do cérebro não me parece tão distante da realidade, acho mesmo que a gente tá caminhando nessa direção. As implicações disso é que precisam ser debatidas, conversadas. Enfim, muito obrigada pelo seu comentário, tremenda dica bacana!

  • Cláudia Marcanth

    Li que a Biblioteca Carlos Drummond de Andrade, em Ceilândia, DF, diminuiu, desde janeiro de 2009, o seu horário de funcionamento. Fundada há mais de 16 anos, ela costumava fechar suas portas às 22hs. A partir do começo desse ano, devido a problemas de segurança, a biblioteca só fica aberta até às 19hs. A população (cuja paixão pelos livros e pelo espaço para estudar me deixou de boca aberta) reclama, mas a polícia diz que não tem como resolver o problema daquela área sem deixar outras áreas a descoberto (ai, o velho problema do cobertor curto…).

    Pelo que li, a tal biblioteca faz parte do Centro Cultural de Ceilândia, projeto que andou e … estacionou. As obras pararam e o povo faz uso das instalações que ficaram prontas ou mais ou menos prontas. Do lado da biblioteca ameaçada pela violência há uma obra embargada – era para ser um ginásio esportivo, mas enquanto voam os papéis da burocracia, tem servido de abrigo para bandidos.

    Fiquei pensando nessa coisa de projetos mal feitos, mal acabados, de como todos eles terminam abandonados e, portanto, mal assombrados. E, nesses casos, muitas vezes é o pôr do sol que dá a medida de todas as coisas: se, a propósito do Centro Cívico de São Francisco, Cory Doctorow escreve “não havia razão das pessoas aparecerem ali após o pôr do sol”, a reportagem sobre a biblioteca de Ceilândia (que segue no link abaixo) diz: “Tudo parece funcionar bem, até quando o sol se põe.”

    E os fantasmas se divertem…

    http://bit.ly/127HbB

    Bjs

    Ai, nem me fala. Sobre essa historia dos projetos que começam e não acabam, Marido tá aqui – no seu lúcido mau-humor habitual – apontando uma coisa tristemente verdadeira: não há interesse político em acabar as obras, só em fazê-las. Ou seja, as construções geram licitações que geram verbas e dinheiro para alguém. Se as obras ficam prontas e funcionam, não vamos precisar de outra obra daquele tipo tão cedo. Se a obra para no meio do caminho e o esqueleto se deteriora, o próximo governo pode abrir outra licitação e começar uma obra nova, com novas promessas, e evidentemente novas comissões indo parar nos bolsos de novos alguéns. Como fazer para estancar um círculo vicioso desses? Eu não sei. Mas dá raiva. Uma biblioteca dessas tinha que funcionar era 24 horas, com o ginásio e quem sabe um teatro ou centro de artes do lado. E ainda por cima acho que isso poderia funcionar como parte de uma política de segurança pública muito mais ampla e eficaz.

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