Aproveitando que o Rio de Janeiro está na moda, ainda mais agora que será a primeira sede dos Jogos Olímpicos na América Latina, resolvi fazer esta homenagem. Sério, se eu quisesse manter esta coluna só com textos sobre o Rio de Janeiro, eu teria dezenas de posts prontos lendo a obra de João do Rio.

O escritor
João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu e viveu no Rio de Janeiro, entre 1881 e 1921, como jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo. Aos 19 anos, Paulo Barreto conquista popularidade com uma série de reportagens de enorme repercussão, para a Gazeta de Notícias, apresentando um estilo vivo, ágil, num processo inteiramente novo de apresentar a informação. No mesmo jornal, a partir de 1903, adota o pseudônimo com o qual ficaria eternizado. Não é exagero dizer que João do Rio revolucionou o processo de fazer jornalismo no país, introduzindo a reportagem com a feição moderna com que a conhecemos hoje, interessada nos aspectos sociais e humanos da vida urbana, e criando um novo tipo de crônica. Sobretudo, ele foi um arguto e crítico observador na vida da cidade do início do século, deixando deliciosas descrições de espaços e de comportamentos, que nos ajudam a ter uma ideia melhor do que deve ter sido viver no Rio no alvorecer do século XX. O trecho a seguir é retirado de sua obra A alma encantadora das ruas, de 1908, e consta do livro João do Rio, uma antologia, organizado por Luís Martins e publicado pela José Olympio Editora. Ah, o texto completo está disponível para download, gratuitamente, no site Domínio Público, se alguém se interessar.
“Oh, sim, as ruas têm alma. Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, speenéticas, esnobes, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…
(…) Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguém dantes imaginara – a rua dos Ourives – há ruas que, pouco honestas no passado, acabaram tomando vergonha – a da Quitanda. Há ruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras – a das Laranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte – o Largo do Moura, por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o necrotério e, antes do necrotério, lá se erguia a forca. antes da autópsia, o enforcamento.
(…) Há, entretanto, outras ruas que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo sem que todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Um cavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam que deseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. (…) Há ruas oradoras, ruas de meeting – o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largo de São Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade – a rua Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nos vêem – a travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeito próximo do centro urbano e como que dele afastadas; ruas de paixão romântica, que pedem virgens loiras e luar.
Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?”

A Av. Rio Branco (então, Av. Central), recém inaugurada
Acho bacana esse olhar poético sobre as ruas da cidade. Para os moradores do Rio, fica o desafio. Você conhece as ruas e locais citados? Quase todos referentes ao Centro da cidade e adjacências, chegando até a Tijuca, para os lados da Zona Norte, e até Laranjeiras e Botafogo, que era o que existia de Zona Sul. Quando ele escreve esse texto, Copacabana tem menos de 20 anos de criada e ainda é pouco mais que um areal, e Ipanema e Leblon ainda não sonham em existir. Gosto de dar esse destaque ao Centro. Temos falado tanto de Revitalização da Zona Portuária, Pier Mauá, Aquário do Rio, é bom nos familiarizarmos com esta área da cidade.
Para os que identificaram lugares, o que mudou, o que permanece? E para os que moram fora do Rio, qual a alma das ruas da sua cidade?


querida ana, aqui está a alma de uma rua muito especial para mim. http://www.bhdecadaum.com.br/principal.php?n1=cronicas . aliás, acho que voces vão gostar do site todo, http://www.bhdecadaum.com.br, também ele dedicado à cidade, no caso, a uma cidade, belo horizonte. beijos
Ah, Vera, que delícia, que delicadeza! Obrigada!
ui, sorry, minha rua é a rua da bahia, uma no meio das muitas crônicas do bh de cada um.
Vou lá dar uma espiada.
E, já que estamos falando de ruas, aproveito para tocar de novo no “assunto” Avenida das Américas, na Barra da Tijuca. Gente, o que é aquilo? Os lados esquerdo e direito da avenida praticamente não se comunicam (esquizofrenia?), os prédios são autistas e o sol é inclemente naquele vasto deserto. Se é verdade que toda rua tem uma alma, eu imagino que a alma da Avenida deve ser extremamente atormentada.
Alma atormentada? Essa foi genial! Você está coberta de razão. E eu quero, sim falar da Barra, tardarei, mas cumprirei.
Ah, O Wilde brasileiro. Preciso ler mais coisas dele.
Inclusive, em nossa hipócrita e pudica sociedade do início do século XX, João do Rio sofreu muitos preconceitos e má-vontade, pela sua suposta homossexualidade. Eu só digo suposta porque, até onde eu pesquisei, isso não ficou oficial, por mais que as evidências fossem muitas. Ele chegou até a namorar a bailarina Isadora Duncan, dizem que “pra despistar”. Expediente antiiiigo, hein? Mas o que eu ia dizer é que essas suspeitas e acusações cresceram muito exatamente quando João do Rio passou a divulgar entusiasticamente a obra de Oscar Wilde no Rio, fazendo inclusive a tradução de muitas de suas peças e escritos. Leia, sim, que vc vai gostar.