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Nem tão recentemente

Canadá 2 – Pequenas gentilezas urbanas

Sexta-feira eu fui ao supermercado e eu acabei lembrando de algumas coisas que anotei no meu caderninho durante a viagem.

Por exemplo, uma coisa que certamente me chamou a atenção foi a cortesia e gentileza que eu observei nas condutas sociais. Não como algo caricato e forçado, sorrisos e mesuras, mas como algo tão natural e inerente às pessoas, que os comportamentos já saem no automático. As pessoas dizem “obrigado”, “desculpe” e “com licença” o tempo todo. Elas cedem passagem umas às outras para subir a escada rolante ou passar numa porta de acesso, se só cabe uma pessoa de cada vez. Se esbarram em você, pedem desculpas. Aliás, por falar em escada rolante, as pessoas se posicionam alinhadas à direita da escada, para deixar o lado esquerdo liberado para aqueles que estão com pressa e querem “subir” os degraus da escada. Mesmo quando estão em dupla ou em grupo, as pessoas se alinham, uma atrás da outra, ao invés de obstruir a passagem alheia ficando em bloco no meio da escada.

E quando eu digo “as pessoas”, eu quero dizer TODAS as pessoas, jovens, crianças, adultos, não importa. Eu vi hordas de jovens de cabelos coloridos, roupas extravagantes e piercings, fazendo alarido e rindo, mas dizendo “com licença” para passar e “obrigado” para alguém que segurou a porta para eles na saída da estação do metrô.

img_0914Na rua, então, achei o máximo. Não há carros sobre as calçadas, nunca, jamais. Avenidas de grande movimento têm sinais nos cruzamentos e tanto pedestres quanto veículos respeitam essas regras. Nas ruas secundárias, onde não há sinais de trânsito ou faixas de pedestres, a convenção estabelecida e seguida estritamente, é que a precedência é sempre do pedestre. Assim, os carros se aproximam desses cruzamentos mais vagarosamente, e se um pedestre põe o pé na rua, eles param e aguardam. Vou repetir: não é o pedestre que fica esperando na esquina até que não venha carro para poder atravessar. É o carro que só passa se não houver pedestre para atravessar a rua. Não é fantástico? Não é lógico? A máquina subordinada ao homem. A gentileza: a pessoa que está a pé, tantas vezes debaixo de chuva ou de sol escaldante, carregando peso, tem prioridade sobre a que está dentro do carro, protegida das intempéries e mais confortável.

Lembrei disso no mercado porque me dei conta de que estamos tão embrutecidos no nosso cotidiano que já não temos essas gentilezas com quase ninguém. Estou falando genericamente, como sociedade. Claro que alguns de nós ainda procuramos guardar essa delicadeza de olhar e agir, mas deixou de ser um padrão, mesmo para cariocas outrora famosos por sua simpatia e acolhimento. Sexta-feira no mercado, vi gente trombando carrinhos e seguindo adiante, gente passando à frente sem cerimônia para entrar num dos corredores entre as gôndolas, sem um sorriso ou um pedido de licença. Gente parando carrinhos de qualquer maneira, atrapalhando o “trânsito”, enquanto vai até o outro corredor buscar um produto que esqueceu, e achando ruim se outra pessoa reclama.

Mesma coisa no shopping, onde as pessoas se posicionam no meio da escada rolante, ainda abrem os braços e apóiam uma mão em cada lado, indiferentes ao movimento das outras pessoas. Dentro de carro, então… eu preciso escrever sobre como eu acho que as pessoas se transformam quando estão atrás do volante. E sim, eu também dirijo. Algumas das coisas que eu penso eu já observei em mim mesma, e tenho tentado prestar mais atenção desde que comecei a refletir sobre o assunto.

Tem alguma coisa sobre a cidade que eu acho que se encaixa nisso. Sobre a forma como vivemos em conjunto, nosso grau de individualismo versus a nossa capacidade de olhar e enxergar o outro como igualmente parte da mesma coletividade. Ainda não consegui verbalizar bem todos os nós embricados nessa questão, estou aceitando opiniões, sugestões, me ajudem a pensar.

Comecei pensando que é mais fácil ser cortês e educado quando suas necessidades materiais mais imediatas estão satisfeitas. Mas não creio que seja uma questão econômica. Se fosse assim, as pessoas mais ricas seriam as mais gentis, e infelizmente o que vemos está longe disso. Há centenas de crianças e adolescentes mimados (e adultos também) por aí, se achando donos do mundo e olhando com desprezo para o resto da humanidade como se os outros fossem seus serviçais. Ainda assim, penso que de alguma forma a fome e a miséria crônicas embrutecem os sentidos e os abismos sociais agudos tornam a sociedade doente e esquizofrênica como um todo.

Talvez seja uma questão de educação. Mas também não apenas de educação formal, acadêmica, é bem mais profundo, é algo que tem que fazer parte, estruturalmente, de todos os segmentos da sociedade, família, escola, relações de trabalho. Entretanto, creio que isso é dificílimo de atingir numa sociedade que estimula seus cidadãos a olharem cada vez mais só para si mesmos, a acreditarem que podem tudo e que tudo o que conseguem é apenas por seus próprios méritos, a salvarem suas peles primeiro e os outros que salvem as suas, se puderem.

Sem um forte sentido de coletividade, de nos sentirmos parte de um conjunto, e de nos importarmos uns com os outros, acho que essas pequenas gentilezas urbanas tendem a desaparecer mesmo.

4 comentários para Canadá 2 – Pequenas gentilezas urbanas

  • Passo aqui para registrar minha absoluta concordância. E como eu sofro no trânsito por respeitar faixas e seus pedestres. Tenho que dirigir com um olho no retrovisor, para evitar batidas na traseira. E ter uma tolerância extra com as buzinadas. E ainda buzinar muito de leve e fazer gestos para chamar a atenção do pedestre distraído para a possibilidade de atravessar a rua. E isso que eu vivo entre duas cidades (Natal-RN e Mossoró-RN) onde se respeita a faixa numa proporção bem acima da média brasileira. Mas eu não desisto nunca.

    Somos dois, Patrick…

  • vera

    ana, perfeito! eu adoraria saber como eles se comportam no cinema… beijos

    Vera, eu também gostaria. Ontem lembrei de você e desse assunto. Fui ao cinema e amarguei uma sessão com um bando de adolescentes malcriados que falaram e riram alto durante todo o filme. Ah, algumas das meninas saíram também no meio da sessão e voltaram depois, tudo ao som de gargalhadas e conversas como se estivessem em casa. Eu não aguento com isso.

  • Pois.
    E esse é o padrão que eu acho minimamente aceitável.

    Eu não esperava outra coisa de você! :-)

  • Paula Clarice

    Ana, eu também acho que não dá pra vincular essas condutas com situação financeira. De um lado, é verdade que é bem mais fácil ser gentil quando as necessidades materiais imediatas estão satisfeitas, como você escreveu. Por outro lado, também, há uma espécie de solidariedade que é bem própria de quem passa necessidade, um estar disponível de boa vontade para o outro, por empatia mesmo. Concordo contigo que não é esse o ponto. Na minha opinião a falta de boas maneiras é reflexo da falta de uma atitude que, pra mim, seria a solução de todos os problemas ou quase: colocar-se no lugar do outro.

    Para ilustrar, vou contar um causo que me aconteceu semana passada. Ano passado tive um pequeno problema dermatológico que me levou a fazer um tratamento com uma certa médica. Há uns dias, percebendo que o problema retornara, voltei ao consultório dela. Consulta, remédio, etc. Na saída, ela disse “fiquei muito feliz em revê-la, mas é claro que gostaria que fosse por outra razão nosso reencontro”. Saí de lá pensando muito na delicadeza da frase. É lógico que eu sei que ela não estava feliz em me ver com problema de pele, mas ela fez questão de pontuar isso em sua fala porque é capaz de se colocar no lugar da paciente (eu) e pensar “como será que ela pode interpretar o que eu falei?”.

    E eu acho que é por aí. A delicadeza, a gentileza, até o bom atendimento em um comércio, são coisas que vêm de um importar-se com o outro, projetar-se no outro. Dar-se conta da existência do outro e do espaço dele. A pessoa que pára à direita na escada rolante é aquela que, naquele momento, está se lembrando de que existem outros usuários da escada. Quem abaixa o volume do rádio é porque se lembra que tem vizinho, pensa no vizinho, respeita as atividades do vizinho. Coloca-se no lugar do vizinho. Quem está focado no próprio umbigo não consegue ser gentil simplesmente porque as outras pessoas não pertencem ao seu mundo naquele momento.

    Toda vez que vc escreve eu só tenho vontade de responder “obrigada!”. Tou com tanta vontade de te dar um abraço apertado e um beijo!

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