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Nem tão recentemente

Cidades Literárias: Fernando Pessoa

Ou eu devia dizer: Álvaro de Campos. Porque a poesia que eu selecionei, Ode Triunfal (na íntegra aqui), é de autoria deste que é um dos mais conhecidos e prolíficos heterônimos do poeta português*. Escrita em 1914, em Londres – berço da Revolução Industrial, é uma peça que ao mesmo tempo elogia o progresso e se desencanta com ele. Os versos encarnam a velocidade, os sons, a textura dessa nova cidade subordinada à indústria, transformando-se num “passeio vertiginoso pela paisagem de um mundo povoado por máquinas, circuitos, cores”. Mais do que à descrição física da cidade e seus elementos, prestem atenção à síntese que ele faz da sociedade, que esta, em quase cem anos que se passaram desde a composição, não mudou grande coisa, vamos combinar.

industrial_revolutionAo mesmo tempo, no próprio ritmo e sonoridade do poema transparecem um cansaço imenso e a sombra de uma dúvida, sob a capa da ironia, de que todo este progresso vá trazer alguma solução aos problemas fundamentais do homem. Quem sabe vá até agravá-los e criar outros novos. Dilemas dos quais não nos livramos ainda. A gente vê a imagem que ilustra este post, e pode achar que esta cidade de chaminés e fumaças pertence ao século XIX, mas se a indústria foi afastada dos centros urbanos, a crença e o elogio do progresso, não. Continuamos apostando nossas fichas em máquinas (ainda que de design mais arrojado), na ciência, na tecnologia. Tudo isso pode ser uma maravilha, e tem uma capacidade de transformação do espaço e das relações absurdamente grande. Mas no que tange o essencial, o buraco continua mais embaixo.

“À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

(…)
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres inúteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés – oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!

(…)
Hé-la as ruas, hé-la as praças, hé-lá-hô
la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubs aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada de cocottes;
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

(…)
Adubos, debulhadoras a vapor, progressos de agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

(…)
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos da escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada a eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!”

* O livro de onde eu tirei a poesia é o Ficções do Interlúdio, que reúne diversos poemas de Fernando Pessoa, e de seus vários heterônimos, publicado pela Companhia das Letras, edição de 1998.

1 comentário para Cidades Literárias: Fernando Pessoa

  • O seu blog é muito bom! Venho aqui sempre caminhar contigo pelas cidades literárias.
    Este seu olhar sensível e apurado tal qual o de Marco Polo nos leva junto em suas viagens – imaginárias ou reais. Somos todos Kublai Khan viajando nas suas narrativas por cidades invisíveis.

    Grande abraço!

    Que coisa doce e linda, Cristiane, muito obrigada! O prazer é todo meu, de receber você por aqui!

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