A verdade é que estou numa preguiça homérica. Sei perfeitamente bem que o Cidades Literárias, que começou com uma proposta séria e sistemática de ser publicado toda sexta-feira virou algo que eu faço quando dá. Eu adoro a série e ainda tenho dezenas de autores na fila, para publicar, mas não tou dando conta de manter o ritmo. Enfim, um blog também é pra isso, pro meu prazer, e não mais uma guilhotina no meu pescoço, ameaçando com prazos e cobranças de conteúdo e metodologias. Para isto, basta a vida real.
Entretanto, de vez em quando acho que já faz tempo que não aparece um post da série, e hoje foi um caso desses. Com a preguiça supracitada e a pilha de trabalhos para corrigir que me espia ali da mesa, resolvi pelo que era mais prático e rápido (nem por isso menos saboroso), em vez de folhear os livros em busca da citação mais adequada ou mais arrebatadora.
Tem uma piada que classifica as pessoas entre as que amam Beatles e as que amam Rolling Stones, e eu incluiria aí que outra divisão clássica é entre os leitores de Agatha Christie e os de Conan Doyle. Não que não se possa gostar de todos eles, mas a gente sempre tem uma quedinha preferencial por um dos lados. Eu sou Beatles e Agatha Christie, pronto. Amo a maneira leve e arguta com que ela retrata a sociedade inglesa do século XX, especialmente entre os anos 20 e 60, período em que escreveu (e no qual situou) a maioria de suas histórias. Eu tenho e já li mais de 50 livros da Rainha do Crime, com protagonistas variados como o indefectível e empoado Monsieur Hercule Poirot, a perspicaz e vitoriana Miss Marple, o casal moderninho Tommy e Tuppence Beresford, o sólido e prudente Superintendente Battle, entre outros menos frequentes. Gosto dos tipos que ela cria porque há algo sempre de deliciosamente risível e profundamente humano em todos eles, com suas vaidades, preconceitos, e capacidade de observação da sociedade que os cerca. Amo sobretudo a forma como eles vão envelhecendo ao longo do tempo, junto com sua autora. Por baixo de uma narrativa quase tola, que a gente devora em poucas horas, há um estudo sociológico nada desprezível. A parte da psicologia do crime e do criminoso é um pouco barata, eu acho, e reflete um determinado modo de pensar próprio de sua época. Quem sabe falar disso muito melhor do que eu é nossa leitora e amiga querida Paula Clarice, jovem e brilhante advogada, estudiosa dessas questões. Quem sabe ela aparece nos comentários para algum esclarecimento adicional.
Voltando à minha escolha de hoje, eu peguei meia dúzia de livros de Mrs. Christie e dei uma folheada, esperando encontrar descrições deliciosas de cidades, já que ela – como mulher viajadíssima e culta que era – tem romances espalhados pelos quatro cantos do globo, mas dei-me conta de que minha memória me traiu. O seu estilo ágil e intimista se detém muito mais no perfil psicológico dos personagens, tecido ao longo de diálogos e observações concisas e não de longos parágrafos descritivos, do que na análise urbana. As cidades quase nunca são personagens importantes para Agatha Christie, funcionando como molduras incidentais. Seus assassinatos e disputas se passam em ambientes privados, em mansões, escolas, hotéis, propriedades rurais. Ficamos sabendo de salas e quartos, mobílias, cortinas, objetos de decoração, cardápios de jantar e vestimentas dos criados, mas quase nada sobre as cidades em que se passam os eventos. Elas até são mencionadas, mas raramente merecem mais do que duas ou três linhas.
Uma breve exceção está no livro E no final a morte que, de maneira inusitada, se passa no Antigo Egito, mais especificamente por volta de 2000 a.C., em Tebas, margem oeste do Nilo. De maneira original, e baseada em pesquisas sérias (não nos esqueçamos que seu marido era arqueólogo e que ela não só viajou com ele por todo o Oriente Médio como tinha acesso a um prestigioso círculo intelectual) Agatha Christie constrói uma narrativa interessante, em que se destaca uma minuciosa explicação do contexto sócio-cultural da época.
A trama mostra uma família numerosa em que os filhos maiores, já casados e com filhos, trabalham com o pai na agricultura e na pecuária de ovelhas. O filho mais novo, adolescente, quer se envolver nas atividades profissionais e ser tratado como adulto, e a filha, recentemente viúva, retorna para viver com a família de origem, mas não gosta muito de ter que conviver com as cunhadas, preferindo cultivar amizade com o escrivão da família. O grupo inclui também a mãe do dono da casa, meio cega mas muito sábia. Quando o pai traz para viver com eles a sua bela, jovem e maldosa concubina, que se diverte instigando intrigas e manipulando os outros para demonstrar o seu poder, a rotina da família muda. A moça acaba assassinada, seguindo-se depois outras mortes, que fazem suspeitar de fenômenos sobrenaturais. Claro que é alguém muito vivo que está por trás dos crimes, e a filha, o escrivão e a mãe do dono da casa vão desempenhar um papel decisivo na busca da verdade.
Em alguma altura do livro, Hori, o escriba, conversa com Renisenb, a filha do patriarca, do alto de um penhasco:
“Olhe, Renisenb, olhe daqui do alto, através do vale, até o rio e mais além. Isto é o Egito, nossa terra. Enfraquecido por guerras e disputas durante muitos anos, dividido em insignificantes reinos, mas que agora, muito em breve, irá se unir para formar mais uma vez um país unido: Baixo e Alto Egito novamente consolidados em um; espero e acredito na recuperação de sua antiga grandeza! Quando esse dia chegar, o Egito precisará de homens e mulheres de coração e coragem, mulheres como você, Renisenb. Não de homens como Imhotep, eternamente preocupados com seus parcos ganhos e perdas, nem de homens como Sobek, negligentes e faroleiros, nem de rapazes como Ipy, que pensam apenas naquilo que podem ganhar para si próprios; não, nem mesmo de filhos conscienciosos e honestos, como Yahmose o Egito irá precisar. Aqui, sentado, entre os mortos, calculando perdas e ganhos, lançando a contabilidade, eu me deparei com ganhos que não podem ser avaliados em termos de prosperidade e perdas que causam mais dano do que a perda da colheita… Eu olho o rio e vejo o sangue vital do Egito, que existiu antes de nascermos e continuará a existir depois de morrermos… Vida e morte, Renisenb, não contam tanto. Eu sou apenas Hori, o homem de negócios de Imhotep, mas quando observo o Egito, eu conheço a paz e uma exultação que não trocaria nem mesmo pelo cargo de Governador da Província. Você compreende tudo o que eu disse, Renisenb?”
PS Agora, que acabei de escrever, me lembrei que a Cláudia, outra amiga querida que está sempre nos comentários, está justamente indo esta semana em viagem ao Egito. Fica dedicado a ela este post, portanto.


Ana Paula, sou leitora silenciosa do blog. Mas lembrei-me de você e do Cidades Literárias enquanto estava lendo meu segundo Milton Hatoum seguido. A cidade dele e de seus libaneses é Manaus, encantadora e encantada. Não sei se está na lista, mas vale a pena dar uma olhada.
Um beijo!
Oi, Deh, é uma honra ter você como leitora. Eu, vergonhosamente, não li nada do Milton Hatoum ainda, mas já não é a primeira indicação que eu recebo. Vou procurar. Se nesse meio tempo você quiser selecionar algum trecho e me mandar, eu agradeço. Cara de pau a minha, eu sei… Beijinhos!
Quando olho o Egito em imagens de satélite, eu vejo um fio verde que desce como uma serpente no meio de uma imensidão amarela e árida. É o Nilo! E quando eu voltar de lá, eu te conto tudo (seja lá o que for isso!).
Bjs
Aguardo ansiosamente!
Ana Paula, eu tb sou como vc: Beatles e Agatha Christie. Aliás, a Dama do Crime foi parte fundamental do aprender a ler.
E pode ser q Agatha Christie não tenha detalhado cidades em si, mas até hoje eu sonho vividamente com o prédio em que se passa “Um gato entre os pombos”, que não é dos melhores livros dela. Mas q por alguma razão, a estrutura arquitetônica da escola que criei na cabeça ao ler tornou-o marcante o suficiente para virar inesquecível. Pelo menos para mim.
Bjs.
Eu gosto desse livrinho. E ela é boa mesmo nessa coisa de descrever os espaços da intimidade. O recorte que ela faz de uma sociedade em que ainda persistem alguns valores vitorianos de modéstia, pragmatismo e fleugma é genial. E eu adoro me deixar levar pela mão, faço questão de não tentar adivinhar o assassino antes, e só descobrir na última página, quando ele é revelado. Detalhe: mais de 90% dos livros que eu tenho foram comprados em sebos, durante muitos anos foi uma das atividades preferidas das férias: rodar os sebos atrás dos livros que eu ainda não tinha! Bjs pra vc também!
O Egito é mesmo uma “cidade” personificada. Nenhum faraó é maior que o Egito, né? Por outro lado, sempre achei a Grécia algo menos importante do que os gregos. Pra mim “os gregos” é maior do que “A Grécia”. Engraçado isso né? de onde a gente projeta a personficação destes entes não-pessoa. Mas divago.
Queria agradecer a citação fofa, elogiosa. Eu gosto muito de me ver através dos teus olhos, já te disse isso muitas vezes. Teus olhos são generosos comigo, mas sempre são honestos. Obrigada. Por tudo de sempre.
Acredita que só li uma Agatha até hoje? “A noite das bruxas” (até fui googlar, não lembrava mais o nome). Com o Poirot. Até por isso, não sei como é a psicologia do crime nos livros da Agatha, embora, claro, não tivesse mesmo tantos comentários assim pra fazer se soubesse. Mas pra manter o costume de pitacar… O século XX, quando a Agatha escreveu, foi a primeira vez na história da Criminologia que o foco mudou do criminoso pra criminalidade, sabia? E isso fez toda a diferença, claro, pois o contexto, de repente, começou a ser levado em conta e se começou a cogitar que talvez houvessem fatores externos ao criminoso fazendo o delito acontecer.
Um beijo :*