Rapidinho, fugindo entre um texto e outro que eu tou escrevendo. No momento, estou montando a ementa pra uma disciplina chamada Espaço Urbano, que será oferecida num curso de Pós-Graduação em Design de Mobiliário que a universidade onde dou aula está montando para o ano que vem. Eu sugeri que um dos módulos fosse sobre mobiliário urbano, porque a gente precisa tanto disso, que não sejam só bancos, quiosques e postes de iluminação “modernos”, “bonitos” e “arrojados”, mas que sejam elementos de inclusão social, de acessibilidade, que ajudem a cidade a funcionar melhor e ofereçam oportunidades de melhores relações interpessoais e entre as pessoas e o espaço urbano, que contribuam efetivamente para uma melhor qualidade de vida urbana para todos. E para isso, os caras que vão desenhar, projetar esse mobiliário precisam pensar a cidade e os habitantes da cidade de maneira mais completa, mais crítica.
Bom, enquanto eu tou aqui selecionando livros para montar uma bibliografia básica, abri por acaso um que eu adoro, e que nunca li com a devida atenção. E olha onde eu bato o olho:
“Os problemas urbanos não podem ficar à espera de soluções automáticas fornecidas pelo avanço tecnológico. Eles só podem ser tratados por meio da ação política. Continuamos presos à nossa localização, e cada um de nós está preso ao seu próprio corpo. Desconfio que, mesmo quando forem descobertos meios para nos transformar em bits de informação, ainda seremos as criaturas dos nossos sentidos, uma vez que
O olho – ele não pode fazer outra coisa senão ver;
Não podemos exigir do ouvido que não ouça;
Nossos corpos sentem, onde quer que estejam,
Contra a nossa vontade ou com a sua permissão.*
É por isso que a noção de que o espaço virtual irá executar, em um tempo futuro, as funções da realidade pública tangível vai continuar sendo uma quimera. Nem agora nem em um futuro próximo, não há um modo possível de nos livrarmos do aqui e agora da presença física – uma presença que nunca se sentiu confortável, que nunca este à vontade na cidade dos abrigos. A presença física tem também exigências de outro tipo, exigências de memória e de ordem que tiveram que ser atendidas por substitutos tais como o parque temático. Há já um século, os reformadores propunham cidades em que todas as nossas exigências poderiam ser atendidas.”
O livro é A Sedução do Lugar: A História e o Futuro da Cidade, de Joseph Rykwert. Editora Martins Fontes, 2004, p. 222.
Tá, eu sei que aparentemente não tem a ver com esse assunto do mobiliário urbano, mas eu estava pensando hoje mesmo sobre isso, essa coisa de realidade virtual, de não precisar (será?) de contato físico para realizarmos as trocas e relações sociais que antes só eram possíveis no espaço urbano. Achei fantástico. Agora vou voltar pro trabalho, com licença.
* William Wordsworth, “Expostulation and Reply”, linhas 16-20, citado no livro de Rykwert.


Sei que posso estar meio abilolada por causa das malas e do calor, mas eu estava aqui, bagagens quase prontas, fazendo hora … encontrei o seu post. Tem dois trechos do Rykwert que eu adorei, mas que preciso conversar mais a respeito (ou pensar mais a respeito, sei lá):
“…presença física – uma presença que nunca se sentiu confortável, que nunca este à vontade na cidade dos abrigos.”
E, logo depois:
“A presença física tem também exigências de outro tipo, exigências de memória e de ordem que tiveram que ser atendidas por substitutos tais como o parque temático.”
As questões são – cidade dos abrigos? O que é isso? Há alguma referência anterior no livro?
Exigências de memória e de ordem? Como é isso? E em que medida o parque temático daria conta dessas demandas?
Sorry, teacher, ou eu estou lelé ou a tradução está esquisita.
Rumo ao Cairo, then. Mas estarei online! Qualquer luz aí no texto, me dá um plá, ok?
Beijos!
Já vai, vou te dar essa resposta lá na frente, pode ser?
Oi Ana! eu também gosto muito do seu blog! pena que muitas vezes o tempo seja escasso para passar mais tempo pesquisando por aqui! Faz tempo que ando querendo ler este livro do Rykvert e mais do que isso, acho que vou comprá-lo. Não é a primeira vez que esbarro em citações e passagens envolvendo os seus conceitos. Adorei suas postagens sobre a viagem ao canadá, muito bom ler a cidade com os seus olhos!! Eu estive recentemente na Holanda (2007) mas na ocasião ainda não tinha o blog…..mas acho que vale a pena trazer à tona as coisas que vi por lá! bjos,
Esse livro do Rykwert é muito bom, muito mesmo, recomendo comprar mesmo, porque a gente volta sempre a ele, sublinha, faz anotações. Eu vou adorar que você escreva sobre a Holanda. Eu estive lá em 2003 e amei. Bjs