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Nem tão recentemente

Canadá 5 – Espaço público

Uma coisa que eu sempre observo nas cidades que eu visito são os espaços públicos: seu uso, suas tipologias, sua conservação. Muito da vida, do charme e do fascínio que uma cidade exerce se deve ao que acontece nos espaços públicos: se são bem cuidados, limpos, mas principalmente se as pessoas efetivamente os utilizam, se há feiras, festas, eventos, arte, se é acolhedor e dinâmico ou arrogante e frio, como se dissesse “olha como eu sou chique, não é todo mundo que pode transitar aqui”. Muitas coisas contribuem para que o espaço público de uma cidade seja de um jeito ou de outro. Políticas públicas, questões culturais, padrões de urbanização e a relação da arquitetura com o entorno, ou seja, dos prédios com as ruas e praças que os cercam.

Eu tive excelente impressão do Canadá nesse sentido. As coisas acontecem nas ruas, há vitrines vistosas que tornam o passeio pelas calçadas mais bonito e atrativo; bares, cafés e restaurantes onde se pode parar para beber alguma coisa, fumar um cigarro, ler sossegado ou simplesmente observar o movimento. Há quiosques de frutas frescas e sucos feitos na hora, flores e souvenirs. Há exposições e espetáculos de música, há artistas de rua exibindo suas performances (quantidades de peruanos e bolivianos tocando nas praças), vendendo suas obras (eu cheguei a comprar duas gravuras muito bonitas, feitas a nanquim) e atraindo curiosos. E sobretudo há todo tipo de gente.

espacopublico1

mendigoTodo tipo mesmo. Eu me surpreendi um pouco com a grande quantidade de pedintes nas ruas, tanto em Montreal quanto em Toronto. Há uma expressiva população de rua, e até mesmo o famigerado fenômeno dos limpadores de parabrisa nos sinais de trânsito (será que fomos nós que exportamos esse know-how?). Minha amiga que mora lá me explicou que a maioria absoluta não é pobre, não é uma questão de miséria. São quase todos viciados em drogas ou álcool. Aí me dei conta que de fato, só vi homens adultos nessa situação (na verdade, vi uma única mulher, sentada na calçada). Não há crianças pedintes, não vi nenhuma criança pobre. E mesmo esses homens não são agressivos. Eles pedem, mas se você recusa ou passa direto eles resmungam alguma coisa e fica por isso mesmo.

O Serviço Social é bastante efetivo, e fornece a essa população abrigo e alimentação (cheguei a ver uma distribuição de sopa numa praça, com uma longa fila de necessitados esperando sua vez de receber alimento), além de uma espécie de pensão ou auxílio financeiro mensal que garante que eles estejam assistidos. Eu pensei bastante sobre o assunto, e ouvi muitos argumentos, principalmente de gente que defende que esta atitude do governo “estimula a vagabundagem”, e que se eles tivessem que se virar sozinhos talvez tivesse menos pedinte na rua, já que trabalho não falta. Eu discordo. Esse é o velho discurso (neo)liberalista, que estimula o cada um por si e acredita que o sucesso ou o fracasso de todos e de qualquer um depende só de seus próprios esforços, ignorando as estruturas sociais que empurram pessoas para a margem e perversamente impedem que elas retornem ao jogo, ao mesmo tempo em que finge consternação e culpa os fracassados sociais pela sua própria situação. Eu simpatizo com uma sociedade que acredita que é dever coletivo cuidar de todos os seus membros, inclusive (e talvez principalmente) os rejeitados, os inadequados, os outsiders. Mas eu não vou me alongar nisso agora porque se eu enveredar por essa seara vou escrever três páginas sobre isso e ninguém vai ler. Isso dá outro post.

Voltando ao Canadá. Todo mundo partilha os espaços, adultos, crianças e… cachorros. Agora, parando pra pensar e rever as fotos, eu vi poucos idosos. Talvez até pela política de imigração, e por serem tanto Montreal quanto Toronto cidades com grandes universidades, o perfil etário destas populações seja mais de jovens. Em Quebec tinha mais idosos, principalmente em excursões turísticas. Vi uma coisa que achei particularmente divertida e interessante: casamentos. Não a cerimônia em si, mas o casal de noivos, vestidos a caráter, com suas damas de honra, fazendo as fotos do casamento. Vi um desses na praça, ou melhor, no calçadão da Jacques Cartier; vi outro em Toronto, sexta de tarde, na calçada em frente ao Royal Ontario Museum, e vi ainda um terceiro, também em Toronto, dentro do mercado público, entre barracas de legumes e frutos do mar. Estão aí as fotos pra não me deixar mentir. Muito legal.

casamentos

Com relação aos cachorros, eu devo dizer que ainda não tinha visto uma cidade que os acolhesse tão bem. Não vi um só cachorro de rua, abandonado, mas vi dezenas andando com seus donos, inclusive (os de menor porte) transitando sem problemas nos bondes, metrô e até em algumas lojas. Essa tolerância implica a existência e o cumprimento de códigos de conduta rígidos e claros. Por exemplo, eu não vi cocô de cachorro em nenhum lugar, os bichinhos estão sempre de coleira, independente da raça, e têm um comportamento exemplar. Em Toronto, eu vi uma praça com uma área cercada específica para os donos soltarem seus cachorros, e uma quadro de regras de uso afixado no portão, dizendo o que pode e o que não pode fazer e recomendando aos donos cuidados com higiene, sociabilidade de seus animais e manutenção dos equipamentos públicos. Enquanto eu pude observar, pareceu-me que as recomendações eram seguidas por todos.

Au au au!

Au au au!

A relação do canadense com a luz e o sol é muito forte. Pudera, o inverno é rigoroso e longo, com pouca incidência de luz solar e dias mais curtos. Logo, eles aproveitam, e muito, todo o sol que podem, em praças, parques, jardins, ruas. Até a arquitetura expressa isso. As fachadas e as empenas (as paredes laterais dos edifícios, especialmente aquelas “cegas”, ou sem aberturas de portas e janelas) são quase sempre pintadas e muito coloridas.

Fachadas e empenas coloridas. Na foto do alto à direita, tirada em Quebec, não se iluda: é tudo pintura!

Fachadas e empenas coloridas. Na foto do alto à direita, tirada em Quebec, não se iluda: é tudo pintura!

cafeEu estive lá em setembro, finalzinho de verão, início de outono, temperaturas ainda bem agradáveis, em torno de 18 a 24 graus. Os cafés e terraços estavam cheios, com suas mesinhas na calçada, e era engraçado ver que a calçada onde batia o sol estava sempre cheia, e a que ficava na sombra, vazia. Estudos mostram que a falta muito prolongada de luz solar pode aumentar ou intensificar episódios de depressão e doença mental. Essa minha amiga disse que o índice de tentativas de suicídio aumenta muito no inverno, e o governo faz campanhas maciças, disponibilizando serviços de apoio e estimulando as pessoas a ligarem para esses serviços e se juntarem às atividades comunitárias quando perceberem os primeiros sintomas dos surtos depressivos. Deve ser difícil mesmo. Pra nós, que vivemos num país tropical e luminoso, é difícil até de imaginar essa situação triste.

obrasPra terminar, não posso deixar de dizer que Montreal me chamou a atenção por ser uma cidade em obras. Pra todo lado há uma praça sendo reformada, uma infra-estrutura sendo modernizada, um prédio novo sendo construído (e ruas interditadas e tapumes por conta disso. Não sei se os canadenses reclamam tanto disso quanto a gente reclamaria aqui). Como turista isso não me incomodou em nada. Tem inclusive uma das obras em andamento sobre a qual eu quero falar, mas no próximo post, porque me serviu como contraponto ao que eu penso sobre a tal Cidade da Música, cujas obras foram retomadas essa semana, aqui no Rio.

3DSó mais dois comentários. Um é sobre fotografar o espaço público. Eu achei muito legal poder andar com minha máquina e fotografar tudo, inclusive dentro de shoppings, metrô e museus, sem ter o tempo todo um brutamontes de terno e walkie-talkie preso no cinto me dizendo que não pode, que é bem o que acontece aqui no Rio. Outro é sobre uma exposição específica que eu vi, e que eu amei, com fotos históricas da cidade. As fotos estavam dispostas em painéis numa rua, e os painéis de fotos eram intercalados com outros painéis com lentes verdes e vermelhas, que davam efeito de 3D às fotos. A gente devia olhar as fotos através desses painéis coloridos para ter o efeito, dá pra entender melhor com a foto aí do lado. Lúdico, divertido, instrutivo. O que a gente precisa para ter mais coisas assim por aqui?

À esq., uma praça no complexo Place des Arts; à dir. o campus da Universidade de Toronto, no centro da cidade, aberto à população.

À esq., uma praça no complexo Place des Arts; à dir. o campus da Universidade de Toronto, no centro da cidade, aberto à população.

8 comentários para Canadá 5 – Espaço público

  • Thiago Medeiros

    Abusada! hahahah

    Podia ter um desses serviços comunitários aqui para o calor infernal tb, viu??? heheeh Eu fico deprimido, irritadiço, chato.
    Qualquer um endoida ao colocar os pés na rua e se sentir um ovo fritando aos 40 que fez ontem… sobretudo se estiver por bandas como Copacabana… sirene de polícia, engarrafamento, praia bombaaaando… (eles são mt doidos de encarar ou eu que sou burguês demais??).

    Ah, na próxima vez que for causar pelas bandas do Canadá, leve a Tonks! ;)

    beijos com frio na barriga, moça! hahahaha

    Definitivamente a proximidade da sua viagem não está te fazendo bem (ou está), e você está delirando muito. Mas eu concordo, também fico irritadiça no calorão, não me faz nada bem. A menos que eu esteja de férias e possa ficar na praia/piscina, o que não é o caso. Humpf. A Tonks ia amar o Canadá. ;-)
    (Pra quem não sabe, Tonks é a minha cachorrinha vira-lata e biruta, mas muito amada. E este comentarista, o Thiago, é meu sobrinho também biruta e amado, mas não necessariamente vira-lata)

  • tereza

    Muito bom o seu post.

    “Eu simpatizo com uma sociedade que acredita que é dever coletivo cuidar de todos os seus membros, inclusive (e talvez principalmente) os rejeitados, os inadequados, os outsiders. Mas eu não vou me alongar nisso agora porque se eu enveredar por essa seara vou escrever três páginas sobre isso e ninguém vai ler. Isso dá outro post.”

    Concordo com você. Por que não escreve um post? Acredito que muitos vão ler.Eu vou:)
    bjs.
    Tereza.

    Você é uma querida, Tereza. Eu vou acabar escrevendo, pelo menos eu fico me prometendo isso. É que eu sou lerda e desconcentrada. Levo umas duas horas ou mais pra escrever um post desses, e no momento o tempo está escasso como raras vezes esteve. Vou soltando umas ideias aqui e ali, e nas férias quem sabe escrevo um pouco mais. Bjs

  • madoka

    através do seu olhar humano, conhecer a cidade sob essa ótica é por demais cativante. Vc sempre aborda as questões de acessibilidade e inclusão social, temas que deveriam estar na pauta de discussão de arquitetos, faculdades, políticos, etc. belas são as lentes do seu olhar.
    abraços

    Obrigada, Madoka, você é de uma gentileza ímpar.

  • Estou adorando esta série sobre o Canadá e concordo com suas observações. É por uma sociedade assim que eu trabalho todo dia.

    Que bom que vc está gostando. Eu quero acreditar que sejamos muitos a trabalhar por isso, sinceramente. Abração!

  • Alline

    Ana, tá show esta série sobre o Canadá (sou doida pra conhecer).
    Aqui tb os cachorros podem andar de ônibus, metrô, trem…podem entrar em lojas, as vezes até em restaurantes.
    Mas a cidade é cheia de coco de cachorro.
    Eu fico impressionada como os cachorros são educados, nos restaurantes eles ficam deitadinhos no chão esperando os donos. Petrucchio JAMAIS ficaria quieto, pularia em cima de todas as mesas, comeria as sobras, ahahaha.
    Beijos

    Hahahaha, imagina a Tonks! Eu sou louca pra conhecer o Petrucchio, sério! Beijos, queridona.

  • Oi Ana, Estamos adorando a série do Canadá. Adoramos o blog. Aproveite e visite nosso blog para conhecer uma peça que pode ser usada como prato de aperitivos ou suporte de pratos, xícaras e panelas, e é feita com garrafas de vidro derretidas e achatadas. Abraços!

  • Gutemberg Júnior

    Olá, sou aluno de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Vila Velha, e estou tentando(sempre que dá)… me nutrir do seu belíssimo blog.
    Estou te acompanhando… se me permite.
    Enfim, não é exatamente um comentário a este tag em especial, mais à todos…
    Com tanta poesia, tanto riso, tanta emoção,tão bem recheado.
    Isso é ARQUITETURA,isso é URBANISMO,por isso escolhi este curso,pela Poesia que ele trás em seus desenhos,formas,volumes,cores,paisagens e telespectadores.
    OBRIGADO,
    Muito Obrigado!

    Puxa, Gutemberg, agora eu fiquei emocionada! Obrigada, a presença, a companhia e a contribuição de todos vocês faz isso aqui ficar muito melhor, sempre. Por isso, sinta-se sempre bem-vindo. Boa sorte no seu curso, e na sua vida profissional. Beijos

  • Civilidade… meu paraíso.

    Nosso… Se eu te disser que tem vezes que eu fico completamente descrente de que isso seja possível, você acredita?

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