Um prédio autista e a cidade
Já estou há dias para escrever sobre a famigerada Cidade da Música, elefante branco plantado aqui no Rio, envolto em polêmicas e escândalos, cuja construção foi retomada semana passada.

Para os leitores de fora do Rio, que talvez não estejam familiarizados com o tema, explico. A Cidade da Música é uma obra idealizada e realizada (leia-se paga com recursos públicos) pela prefeitura do Rio, com o objetivo de dotar a cidade de um equipamento cultural de altíssimo nível, que possa servir de sede para a Orquestra Sinfônica Brasileira, e tenha salas de espetáculos e concertos (estão previstas duas, com capacidade para 1800 pessoas), ópera e ballet, além de sete salas para ensaios, dez salas para aulas e cursos ligados à música, midiateca, três cinemas de arte, bem como o indefectível pacote que sempre acompanha esses grandes centros culturais, ou seja, restaurantes, cafés, lojas e/ou livrarias. Tudo isso mais estacionamento com 800 vagas, em 90 mil metros quadrados, na Barra da Tijuca.

Cité de la Musique, em Paris
Até aí, tudo bem, o Rio de Janeiro comporta e até precisa de espaços assim, e a OSB certamente merece instalações e estrutura de primeiro mundo para trabalhar. O projeto foi encomendado ao arquiteto francês Christian de Portzamparc, autor, entre outras excelentes obras, da Cité de la Musique, em Paris (localizada no Parque La Villette). As obras começaram em 2003 e desde então houve várias inaugurações previstas e adiadas.
Não vou me alongar na questão do dinheiro enterrado nesta obra. Segundo o Estadão, desde que começou a ser construída, a Cidade da Música já teve sua área aumentada em quatro vezes e o custo em seis vezes. Já se gastou mais de 400 milhões de reais e estima-se que outros 150 ainda serão necessários para concluir minimamente o projeto. Os jornais estão cheios de informações sobre malversação de dinheiro público, escândalos de superfaturamento, desperdício de material, atrasos, relatórios, cpi’s. O relatório encaminhado ao Ministério Público mostra, por exemplo, que a calçada de pedras portuguesas já foi danificada, os sacos de cimento estão estragando ao ar livre, o piso das salas que já estavam mais adiantadas está solto, e há diversos problemas na execução do projeto.
Também não vou entrar no mérito do valor arquitetônico da edificação, grande caixa marcada pela superposição de triângulos curvos de concreto, que dão dinamismo e alguma leveza ao volume. Há aqui neste artigo, de janeiro de 2005, uma descrição técnica e uma análise formal bem interessante sobre este projeto, que, talvez em outro lugar, até ficasse bom.

Meu ponto de vista aqui é exatamente sobre a inserção deste projeto no tecido urbano. Pincei esta pérola no artigo que eu acabei de linkar:
“O terreno na Barra da Tijuca, escolhido pelo arquiteto em comum acordo com a prefeitura do Rio, situa-se no centro de dois grandes eixos de circulação, já definidos por Lucio Costa em sua proposta para a urbanização desse bairro há mais de 30 anos. A partir dos estudos do urbanista brasileiro, Portzamparc irá recuperar para a Cidade da Música e para todo o bairro o Parque Trevos das Palmeiras, ponto central da região. Localização privilegiada, área generosa, ausências de restrições e limites em relação ao entorno, ofereceram ao arquiteto condições ideais para projetar”.
Eu não poderia discordar mais. Na minha opinião, um dos principais problemas da Cidade da Música é justamente a localização, infeliz e equivocada. Em primeiro lugar, isso de projetar sem “restrições e limites em relação ao entorno” não existe. Talvez só os alunos dos primeiros anos de arquitetura possam se dar esse luxo. Claro, uma folha de papel em branco (ou tela de computador) aceita qualquer coisa, mas isso não é Arquitetura. A Arquitetura não existe isolada, as obras não são construídas no espaço virtual. Um arquiteto pode até ser liberado de seguir os parâmetros de altura, densidades, taxas de ocupação previstas pelo zoneamento da cidade para o lote onde será erguido seu projeto, mas a Arquitetura está sempre inexoravelmente ligada à cidade, em relação com tudo o que a cerca. O suporte urbano influencia a percepção e fruição do edifício e este, por sua vez, influencia, conforma e impacta a percepção e fruição do tecido urbano ao seu redor. Sempre, queria ou não queira. Daí que projetar desconsiderando o entorno é sempre uma temeridade e um desrespeito.
Em segundo lugar, uma obra deste porte, feita para atrair um movimento considerável de gente (é o que se supõe e pretende, não é?) não pode estar num cruzamento tão importante de avenidas, sob o risco de causar um nó no trânsito que já não é para amadores naquela região. Além do que, rodeada de shoppings e envolta por um anel de vias muito largas e de alta velocidade, a Cidade da Música fica isolada. Só se chegará a ela de carro, o que, por si só, já torna o projeto muito elitizado, e o impede de realizar seu principal papel, que deveria ser o de servir de ponto de encontro, celebração da música, convergência, fluidez.
Como está, a relação com o entorno é zero. É mais um prédio autista, como tantos outros, típicos da Barra Tijuca. O que são prédios autistas? Aqueles voltados para si mesmos, que não se relacionam com o que está em volta, são indiferentes ao que acontece, não conversam com os outros prédios nem com a cidade. A sensação que se tem na Barra, ao longo da Avenida das Américas, é a de que o bairro foi feito para os carros. Sucedem-se condomínios fechados e shoppings, torres e imensas áreas vazias, onde não é possível (ou confortável) andar a pé. As pessoas circulam isoladas em seus automóveis, que funcionam como bolhas entre um espaço privado e outro. Não há convivência no espaço público. Praticamente não há espaço público, pelo menos não um espaço vivo e dinâmico.
Por fim, me espantou a declaração do Secretário de Obras da cidade, publicada no jornal O Globo do último dia 06/11, de que, apesar do reinício das obras, nem toda a estrutura será concluída. A Prefeitura vai concentrar os recursos na sala de música de câmara e na grande sala de concertos, deixando restaurante e cinemas para a iniciativa privada, que deverá arcar com as obras de acabamento destes locais. Segundo o Secretário, “não faz sentido a prefeitura se responsabilizar por restaurante ou cinemas em área que já oferece muitas alternativas dessas, nos shoppings próximos”. Caramba (ou então insira aqui o seu palavrão preferido), então por que estes espaços constavam no programa? A criatura sai de casa, vai de carro à Cidade da Música assistir a um concerto, e depois tem que atravessar a rua (ou melhor, pegar o seu carro e dar uma volta enorme pra fazer o retorno, só para buscar vaga em outro estacionamento gigante logo ali, do outro lado da avenida) para poder jantar?
Vou dizer de novo: sou a favor de haver um espaço digno e até grandioso para a OSB, mas deveria ser num lugar da cidade onde as pessoas pudessem chegar de ônibus, de metrô, onde houvesse gente circulando o tempo todo a pé, e que passasse por ali, cruzando seus saguões e jardins, a caminho de um ou outro lugar. Nesse meio tempo, poderiam aproveitar para um passeio, um lanche, acabariam se informando sobre um curso ou espetáculo, conheceriam talvez a livraria, usariam o lugar como ponto de encontro e referência, isso geraria mais movimento e mais vida, atraindo um público variado e contribuindo para a divulgação do trabalho da orquestra e para a formação de cultura musical em geral, de uma maneira quase casual, familiarizando as pessoas aos poucos. Mas para isso, tem que ser onde haja gente circulando. A pé. De carro, na velocidade do carro, não é possível desfrutar nem perceber o espaço arquitetônico.
Imagine que num fim de ano poderia haver um espetáculo gratuito no térreo, um coral, por exemplo, ou um ensaio aberto, ou quem sabe uma agenda de programas populares no fim de tarde, com ingressos mais baratos, atraindo a população que trabalha nos arredores.
Vocês conseguem imaginar isso acontecendo ali na Barra? Quem é que anda a pé na Barra, pelo amor de Deus? Quem é que vai frequentar esse espaço, dar a ele vida e movimento? Que tipo de público vai transitar por ali e com qual objetivo? Vocês imaginam alguém chegando ali de ônibus e atravessando a avenida para assistir a um concerto? Vai acabar sendo frequentado por gente que vai sair e chegar de carro, certamente para um evento específico, estacionar no subsolo e ter contato zero com a rua. Que benefício isso traz para a cidade (que gastou mais de 500 milhões no projeto)? E para a própria OSB, em termos de divulgação do seu primoroso trabalho?
Essa é a minha crítica: como (e onde) está, a Cidade da Música é mais uma megaestrutura isolada, elitista, que não conecta nada nem ninguém, que não promove o encontro, não democratiza o acesso à cultura, não valoriza o espaço público nem a própria atividade que ali se desenvolve, em suma, não faz sentido.



Olá,Obrigado pela resposta do outro comentário. rsrs
É incrível que muitas coisas das quais estudamos e pensamos, muitas vezes ficam só no papel ou na mente arquitetônica.Não conheço o RJ. Digo porque, desde o meu 1º período (estou atualmente no 3º)tive contato com Jane Jacons, Kevin Lynch, enfim, e desde o início é plantada a idéia de se pensar o todo, pensar no diversificado uso do local nos diversos horários, respeitando normas e blábláblá… Daí vemos uma obra deste porte, que descaracteriza o entorno, piorando o seu fluxo, com um edifício autista. Me cabe perguntar se tudo que estudamos passa de mera utopia? Se nós arquitetos urbanistas (eu como um futuro), precisamos desconsiderar muitas vezes o nosso projeto por causa do contratante. Como algo dessa maneira é aprovado? Enfim acho que falei, falei, e deixei de falar.
Beijos.
Amando Passear no seu blog, a cada passo (uma nova paisagem).
Oi, Gutemberg, acho que a Marcelle te respondeu em parte, no comentário dela. Eu quero acreditar que uma nova geração de arquitetos, e principalmente de cidadãos, possa reverter isso e nos colocar de novo na trilha de uma arquitetura de qualidade.
Pois é, Ana, talvez o maior problemas seja o autismo dos nossos governantes, não é mesmo?
Beijo!
Se fosse só autismo, Deus perdoava, Helê… Bjs
Oi Ana Paula. Tudo bem?
Adorei o texto. Não conheço muito bem o Rio e, principalmente, a Barra, mas você englobou nesse “discurso” o que acontece com muitos prédios que, no papel, serviriam como espaço de domínio privado, mas também está de domínio público. Fora o desvio de dinheiro, é uma pena ver mais um prédio encaminhando para esse fim.
Sobre o comentário do Gutemberg, apesar de estarmos diante disso quase que todos os dias, ainda é importante pensar na arquitetura feita e de qualidade como possível. Que muitos clientes amputam nossas ideias, isso é fato. Mas há aqueles que nos ouvem e, ainda, que aceitam a empreita e deixam-nos mostrar o que consideramos como boa arquitetura. Nesse todo, vamos criando forças para continuar com as nossas ideias.
Ainda no assunto, dou aula em uma faculdade particular, para o primeiro ano. Várias reclamações já apareceram, mas uma coisa é fato: independentemente de ser primeiro ano, deixo claro a eles que projetar não é pegar um papel em branco e sair desenhando. Antes de tudo, é importante conhecer o terreno, o entorno e a orientação solar. E assim vamos o ano inteiro com esse discurso: terreno, entorno e orientação solar. Com um ano quase sendo finalizado, posso dizer que estou satisfeita considerando-se uma turma noturna. Eles, em seus caminhos futuros, poderão até não utilizar o que falei, mas acho que vão lembrar de mim como a professora do “terreno, entorno e orientação solar”.
Beijos
Hahaha, muito bom, Marcele, é isso aí. A gente vai martelando na cabeça dos alunos e quem sabe alguma coisa entra, não é? Chamar a atenção para aspectos como conforto ambiental e sensibilidade com a cidade que está em volta da nova edificação é cada vez mais urgente no ensino e na prática de arquitetura.
Como é que eu expresso que concordo em 110% com o que você está dizendo? (Mesmo sem conhecer o Rio de Janeiro, porque a situação descrita se repete por todo lado, infelizmente).
Pois é, Patrick, infelizmente pra todo lado mesmo. Abração.
A primeira coisa que eu pensei ao ler foi na linha do que todo mundo já comentou: como é difícil exercer uma profissão quando se está ligado ao poder público.
Seja arquiteto, seja advogado, seja diretor de escola, professor. E é triste, porque era pra ser o lócus onde o profissional realiza a totalidade de sua profissão, qualquer que seja: ele trabalha pra fazer do mundo um lugar melhor, usando seu conhecimento técnico e com disponibilidade de recursos. TODOS os juramentos de TODAS as formaturas indicam que o objetivo de qualquer profissão é esse: contribuir para uma sociedade mais igualitária e digna. E tem mais, trabalhando para o poder público é que se deveria ter liberdade de acessar recursos suficientes para executar estes projetos (ora, se é para o bem da coletividade e há dinheiro para isso, por que fazer um projeto meia boca? é diferente de fazer uma casa pra uma família que se envidividou na Caixa pra construir né).
Enquando isso, no mundo real, trabalhar para o poder público é trabalhar, em muitos momentos, para a satisfação de interesses particulares, com verba muito aquém daquela que oficialmente se declara que foi destinada e à margem do interesse da coletividade. Fica difícil continuar acreditando na ideia de Estado como ente que nos representa, zela pela segurança da sociedade, etc etc.
Nem me fale em continuar acreditando no Estado, porque tá difícil, viu? Eu já disse que adoro os seus comentários? Ah, já…
Oi Ana. O que mais gostamos em seu blog é que você sempre divide sua opinião, não se limita em mostrar, você guia.
Voltamos sempre. Parabéns pelo texto. Abraço!
Obrigada, abraço.
Oi Ana. O que mais gostamos em seu blog é que você sempre divide sua opinião, não se limita em mostrar, você guia.
Voltamos sempre. Parabéns pelo texto. Não deixe de conferir em nosso blog, uma dica para refrescar, aumentar a umidade do ar e, ajudar a manter suas plantas hidratadas. Abraço!
Crítica totalmente pertinente! Não conheço o projeto do CP mas sua análise sobre a inserção urbana e os reais benefícios que esta localização irão trazer à cidade são justificáveis! Boa colocação dos fatos!
Valeu, Cláudia, obrigada pela sua visita, volte sempre!
Você registrou bem o incômodo que me causa o isolamento da Barra e áreas congêneres da cidade.
Bem como a revolta que me dá a elitização da cultura.
Agora, lanço uma questão: será que é por causa de uma vontade de isolamento (por parte dos próprios moradores dos prédios autistas) que resiste a precariedade de transportes públicos para aquela área ??
Boa pergunta, Cláudio. Não acho que essa “vontade de isolamento” deva ser considerada como algo dado, ela é construída também, estimulada, instigada. Mas a gente deve falar mais sobre transporte público por aqui. é um tema fundamental.
Olá, estou cursando o 4º periodo de arquitetura e o ultimo comentário me fez voltar a refletir sobre o conteúdo cheio de teorias que estudamos na faculdade. Estava conversando com um colega meu sobre o estágio que ele estava fazendo. Ele disse que não usufrui de nada que aprende na faculdade. Tudo bem.. acontece. Mas vendo um projeto aprovado como o da Cidade da Música eu noto que meus estudos e conceitos que aprendo estão sendo desrespeitados, assim como desrespeita varias outras obras da epoca em que arquitetura era arquitetura. A Cidade da Música não me agrada nem nunca me agradou! (apesar disso não influir em nada neh rs) e mais uma vez a arq contemporânea está passando dos limites. Não é o primeiro nem o último projeto que não respeita o entorno. Junta isso com o lindo governo do estado do Rio neh. Fica difícil. Não quero acreditar que aprovaram isso como mais uma tentativa frustrada de levantar a moral do rio e do Brasil e não quero acreditar que aprovaram o projeto por aprovar soh pra serem gastados milhões.. de reais.
Oi, Antonieta, tudo bom? A realidade é dura e tantas vezes diferente de nossos sonhos, mas é exatamente nela que devemos atuar. Não desista. Construa uma capacidade crítica de avaliação, estude sempre e realize, a cada vez, o melhor projeto que você puder. Beijo grande pra você.
Implantação? Entorno? Critério?
Por conta de um trabalho tenho que passar semanalmente em frente a este… deixa pra lá.
É feia a coisa, Clau.
Aninha!
Convivência, divisão de espaço, harmonização e bem viver. Coisas cada vez mais difíceis no dia a dia. Nós dividimos, setorizamos, rotulamos e definimos cada parte da nossa vida desde o jardim de infância. Rumo a um Blade Runner pós moderno.
beijos!!
Eu tou numa saudade de você, de bater papo contigo e tomar café no seu jardim que nem dá pra descrever!