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Nem tão recentemente

Affonso Eduardo Reidy

Eu tinha outros temas na fila, mas relendo os comentários postados aqui no último post, especialmente os de estudantes de arquitetura e colegas de profissão achei que já estava passando da hora de escrever sobre este arquiteto brilhante, cujo centenário de nascimento se comemora este ano, e para quem eu não tenho visto tantas homenagens quanto deveria.

Olha que eu nem sou uma modernista de carteirinha. Eu sempre brinco com isso, ao me definir com um pé no Barroco, porque eu já gosto de um ornamento, um friso aqui, uma voluta acolá. Mas não tem como a gente não reconhecer valor e admirar a elegância, a pureza das linhas e formas, o rigor técnico e estético de obras exemplares da produção de Reidy, como o Conjunto Residencial Pedregulho e o Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, pra ficar só entre as mais famosas. E a gente tem falado tanto aqui sobre a inserção da arquitetura na cidade, o respeito ao entorno, às condições de conforto ambiental e o papel social da arquitetura, aspectos em que Reidy – esse cara que a história trata com a mesma discrição que ele teve em vida – foi mestre imbatível. Ele é a prova de que é possível, sim, fazer uma arquitetura bela e arrojada e ao mesmo tempo voltada prioritariamente para o bem-estar das pessoas que vão usá-la, vê-la, passar por ela, para o bem-estar, em última instância, da cidade em que ela se insere e dos cidadãos que nela vivem.

O arquiteto e o MAM

O arquiteto e o MAM

Affonso Eduardo Reidy nasceu em 1909, em Paris, filho de pai inglês e mãe brasileira, e em 1930 formou-se em Arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde recebeu, como todos os outros seus contemporâneos, uma formação acadêmica e tradicional. Mas cedo teve contato com o pensamento de Le Corbusier e com as propostas dos arquitetos racionalistas da Bauhaus, que tiveram grande impacto em sua vida e obra.

Por opção própria e singular, Reidy trilhou a carreira pública, onde ingressou recém-formado, por concurso, trabalhando como arquiteto da Prefeitura do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, por mais de 30 anos. Ficou à margem da especulação imobiliária, e jamais projetou palácios ou obras suntuosas, consciente e defensor da enorme responsabilidade social da arquitetura. Foi estagiário, e depois, assistente do urbanista francês Alfred Agache, convidado pela prefeitura do Rio, em 1929, para a elaboração de um Plano Diretor para a cidade; foi professor da Faculdade Nacional de Arquitetura e ganhador de diversas medalhas e prêmios desde o início da carreira. Seu trabalho começa a ter projeção quando ganha o primeiro prêmio no concurso público para o projeto do Albergue da Boa Vontade, que viria a ser o seu primeiro projeto construído. Era um projeto audacioso, em que aparecem as características funcionalistas que marcaram os primeiros trabalhos de Reidy na prefeitura, priorizando aspectos construtivos e buscando praticidade, conforto e economia, em detrimento da ostentação e ornamentação excessivas.

Linhas bem afinadas com a Bauhaus, e um flerte com o Art Decô

Linhas bem afinadas com a Bauhaus, e um flerte com o Art Decô

Até 1935 realizou alguns dos seus raros projetos de residências, e algumas escolas, sendo importante mencionar uma escola rural primária, em Ricardo de Albuquerque, por ter sido a primeira construção dirigida pela também engenheira municipal Carmem Portinho, que se tornou sua companheira e presença marcante em toda a sua carreira. Essa parceria com Carmem me é particularmente cara, porque de alguma forma fala também de um homem com arroubos feministas, o que só faz crescer minha admiração por ele. Portinho foi a terceira mulher a se formar engenheira no país, em 1926, e teve participação importante nos primeiros movimentos feministas organizados no Brasil, ainda nos anos 20. Ela era mais velha que ele 6 anos, e faleceu em agosto/2001, aos 98 anos de idade. A dupla que fez com Reidy no Departamento de Habitação Popular nos legou algumas das mais importantes obras da arquitetura brasileira.

Residência Carmem Portinho, no Bairro de Jacarepaguá, 1950

Residência Carmem Portinho, no Bairro de Jacarepaguá, 1950

Reidy participou, nos anos 30, da equipe que elaborou o projeto do Ministério da Educação, situado na Esplanada do Castelo, e marco na arquitetura modernista no Brasil, junto com colegas igualmente jovens como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos, o que contribuiu para lhe dar grande projeção profissional.

Conjunto Residencial do Pedregulho, um marco na Arquitetura Moderna no Brasil

Conjunto Residencial do Pedregulho, um marco na Arquitetura Moderna no Brasil

Entretanto, foi seu próximo trabalho que o alçou à posição de um dos grandes arquitetos no mundo. De 1947 a 1958, Reidy se dedicou ao projeto e construção do Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, conhecido como Pedregulho, em São Cristóvao, pelo Departamento de Habitação Popular* da prefeitura. O objetivo do projeto era oferecer moradia digna a famílias de baixa renda, em local próximo ao trabalho, e seguiu conceitos revolucionários e inovadores para a época, desde a concepção plástica, a adequação à topografia acidentada até o programa proposto, que incluía quatro blocos de habitação, com lavanderia comunitária, escola primária, ginásio, piscina e campos de jogos ao ar livre, mercado e posto de saúde. O paisagismo era de Burle Marx e os painéis de mosaicos de azulejo e pintura eram de Burle Marx, Cândido Portinari e Anísio Medeiros. O que havia de melhor, em recursos humanos e materiais, foi reunido para executar uma obra que atenderia à classe trabalhadora. O projeto ganhou o primeiro prêmio na Bienal Internacional de São Paulo e tornou-se um dos projetos brasileiros mais divulgados no exterior, até hoje.

Durante esse período, ele ainda coordenou o Plano de Urbanização do Centro da Cidade, que compreendia o Plano para a Esplanada de Santo Antônio, com o desmonte do morro, e o Aterro do Flamengo, projeto só retomado muitos anos depois. Elaborou também o projeto do Conjunto Residencial da Gávea, nos moldes do Pedregulho, e que foi posteriormente mutilado e descaracterizado pela construção da autoestrada Lagoa-Barra.

Estudos para o projeto da nova Esplana de Santo Antônio

Estudos para o projeto da nova Esplana de Santo Antônio

A proposta original de Reidy para o Conjunto da Gávea, ali perto da PUC, e como é hoje, com a autoestrada Lagoa-Barra passando por baixo do edifício

A proposta original de Reidy para o Conjunto da Gávea, ali perto da PUC, e como é hoje, com a autoestrada Lagoa-Barra passando por baixo do edifício

A partir de 1954, Reidy dedicou-se ainda a outro projeto que se tornou um dos marcos da cidade: o Museu de Arte Moderna. Sua estrutura elegante e sua brilhante inserção na paisagem da Baía de Guanabara e no Centro da Cidade se tornaram referência e fonte de estudo obrigatória para todos os estudantes, além de ser, para os moradores da cidade, uma enorme fonte de prazer estético e um justificado motivo de orgulho.

Seu último trabalho, antes de nos deixar, aos 55 anos, vítima de câncer, foi a participação, como coordenador de urbanismo, do grupo que construiu o Aterro do Flamengo, presidido por Carlota Macedo de Soares. Além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coreto, oficinas e edifícios administrativos.

O MAM e o Aterro, presentes de Reidy para o Rio de Janeiro e o Brasil

O MAM e o Aterro, presentes de Reidy para o Rio de Janeiro e o Brasil

Nós poderíamos dizer que sua maneira de trabalhar consiste para nós, estudantes, arquitetos e cidadãos em geral, numa verdadeira aula. Sua dedicação a cada etapa do projeto e da obra, seu apuro técnico, seu rigor, são motivos suficientes de reverência. Mas a grande lição que aprendemos aqui é de outra ordem. Nós vemos – e temos falado aqui toda hora – tanta improbidade no uso do dinheiro público, tanta obra superfaturada, ou caindo aos pedaços por economia nos materiais e estrutura, visando a maiores lucros, que é um alívio e – visto com os olhos cansados e descrentes de hoje – quase um milagre que um homem como este tenha existido.

Pode-se discordar de certos pontos ideológicos ou formais, pode-se enxergar (olha o cinismo aí) algo de utópico ou ingênuo na crença radical que ele tinha de poder mudar ou melhorar a sociedade com seus projetos, mas tem-se que respeitar a coerência entre pensamento e ação, a correção de caráter que norteava suas atitudes e trabalhos, a competência profissional com que planejava e executava cada obra, e, talvez mais importante que tudo, a coragem com que ofereceu sua contribuição, com toda a responsabilidade que isso acarreta, quando seria tão mais cômodo juntar-se ao côro dos que só criticam, sem nada apresentar em troca.

Affonso Eduardo Reidy é o alerta constante, que não nos deixa desviar a atenção do verdadeiro sentido e função do arquiteto: servir a toda a sociedade, porque nosso trabalho atinge a todos, e não pode se limitar à glória da execução dos grandes edifícios, de impacto internacional. Mesmo porque a história ensina que o que é material passa, desmorona. O verdadeiro valor da arquitetura não está aí, mas no que se agrega ao que há de mais humano em nós: o afeto, a memória, o abrigo. E antes que alguém imagine que esta homenagem está impregnada de um sentimento de lamentação do tipo “olha como era bom, isso não existe mais”, quero reafirmar que isto é, antes, uma tentativa de acender um farol de esperança do tipo “olha o que eu acredito que nós podemos voltar a fazer”.

Por fim, se pudéssemos sintetizar Reidy em poucas palavras, usaríamos as que o historiador Geraldo Ferraz pronunciou em 1964, por ocasião de sua morte: “Correção, cavalheirismo, finura, sensibilidade – e tudo com uma franqueza de palavras e gestos, uma contida maneira de estar sempre entre humildes e poderosos, sem causar ressentimento a uns ou demonstrar submissão a outros. O gentil-homem da arquitetura brasileira, eis o que ele era”.

* Sobre o trabalho do Departamento de Habitação Popular no Rio, eu recomendo o livro Entre a estética e o hábito: o Departamento de Habitação Popular, Rio de Janeiro, 1946-1960, escrito pela arquiteta, historiadora e minha queridíssima amiga Flávia Brito do Nascimento, publicado ano passado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, dentro da coleção Biblioteca Carioca. Vários dos dados e imagens aqui utilizados foram retirados do belíssimo livro Affonso Eduardo Reidy, uma edição bilíngue muito caprichada e diria até que obrigatória para o pessoal da área, organizada por Nabil Bonduki e publicada pelo Editorial Blau e Instituto Lina Bo e P. M. Bardi.

4 comentários para Affonso Eduardo Reidy

  • Muito boa postagem Ana!! Reidy foi um grande mestre sem almejar ser estrela! Acredito que um dos maiores entraves da arquitetura que se faz no Brasil é que uma grande parcela de arquitetos quer se destacar e aparecer com obras muitas vezes inúteis ou mesmo desconectadas do seu contexto! Fazem arquitetura pensando mais no glamur e prestígio social do que no bem que ela fará às pessoas e à cidade! Eu sou super fã desse homem! Deveríamos ter mais discípulos deste que foi um grande arquiteto brasileiro!

    É isso aí, Cláudia, concordo 100%. Bjs

  • Você como sempre ótima e ele uma grande figura.

    E você como sempre gentil!

  • vera

    ana, que bom ter voce me guiando por pessoas e projetos tão unicos e generosos. beijos

    Verinha, assim eu fico vremeia! Bjs

  • Ana Paula é com imenso prazer que deixo este comentario. Eu acompanhava teu blog desde Paris mas chegando no Brasil tive que formatar o computador e perdi todos os meu favoritos. Hoje te achei de novo e é por textos assim e por tudo que teu blog me ensina que continuarei vindo aqui como leitora fiel.
    Um lindo fim de semana para você

    Puxa, Samya, obrigada. Venha sempre que quiser, é um prazer partilhar esses pensamentos e ideias com vocês. Bom fim de semana também!

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