O prefeito decidiu que…
Se eu tivesse publicado todos os posts que eu escrevi mentalmente nas últimas semanas, dava pra publicar um livreto. Sério mesmo. Vamos tentar minimizar esta defasagem.
Dia desses, eu estava almoçando e assistindo desleixadamente a um telejornal, quando uma frase capturou a minha atenção. A apresentadora chamou a reportagem dizendo que “o prefeito do Rio, Eduardo Paes, decidiu mudar o projeto até então previsto para o Pier Mauá…”. Eu me arrepiei todinha.
Há duas questões aí que eu queria mencionar. A primeira e mais óbvia diz respeito ao encaminhamento autoritário que esta prefeitura vem dando a todas as questões urbanas. Não falo de outras questões (educação, saúde, finanças) porque não tenho conhecimento, mas pelo estilo do prefeito dá pra imaginar que não seja muito diferente. Participação popular e discussão com a sociedade, zero. Desenvolverei adiante.
A segunda questão é técnica e diz respeito à discussão sobre o tipo de ocupação mais adequada para o Pier Mauá, um dos pontos previstos de reforma e urbanização no projeto de revitalização da Zona Portuária do Rio, chamado, num arroubo de marketing, de Porto Maravilha.
Pra vocês terem uma ideia, segue um mapinha com a localização do Pier. É esta “ponta”, essa faixa retangular de solo que avança sobre o mar a partir da Praça Mauá, no coração da cidade, bem ali onde começa a Avenida Rio Branco.

Fruto de um aterro da década de 50, esse pier tem cerca de 90 metros de largura por 375 de comprimento, o que dá uma área total de 33.750 m². Ele está há muitos anos desocupado, vazio, degradado até. Algum tempo atrás, quando o ex-prefeito Cesar Maia tentou trazer uma franquia do Museu Guggenheim para o Rio de Janeiro, o projeto encomendado ao arquiteto francês Jean Nouvel estava previsto pra se localizar exatamente aí. É sem dúvida um ponto nobre, e recentemente passou a receber eventos temporários como shows de música e a última edição do Fashion Rio. Do pier se descortina uma visão magnífica do Porto do Rio, delineando-se aos olhos do observador a própria história da cidade, no perfil dos morros de São Bento e da Conceição, que estão entre os primeiros a terem sido ocupados pelos portugueses, lá no śeculo XVI.
Muito bem, voltando então às nossas questões iniciais. Vou começar pela segunda. No projeto apresentado pela própria prefeitura, com as propostas para a reurbanização da área, o Pier Mauá consta como um imenso espaço público, uma espécie de parque linear, com restaurantes, quiosques, banheiros públicos, estacionamento, espaço multiuso, lâmina d’água e um anfiteatro.
É um uso perfeitamente compatível com a área, que suporta os eventos que já se realizam nele. O esboço inicial é simpático, esteticamente agradável, funcionalmente adequado, confortável, e, principalmente, ao privilegiar a pouca densidade construída, oferece permeabilidade, valoriza a vista da cidade, convida ao uso constante, por todos os cidadãos e transeuntes. Com um orçamento inicial razoavelmente baixo (pouco mais de 28 milhões de reais), e prazo de execução curto (cerca de um ano), ainda temos a vantagem de que é uma área de lazer que rapidamente seria incorporada à cidade, ajudando a alavancar as outras obras da reforma, em vez de termos mais um elefante branco que consome centenas de milhões de reais e não fica pronto nunca, contribuindo para uma degradação ainda maior da área. De quebra, é um projeto idealizado e desenhado pelos nossos próprios arquitetos, parte do corpo técnico da prefeitura, que abriga profissionais muito competentes, por sinal.
O que o prefeito “decidiu” agora, é mudar isso, trazendo para a área a construção de um grande complexo, que ele ainda nem decidiu qual é, mas que, segundo a reportagem, será um equipamento (os urbanistas chamam de “equipamento” os prédios de uso coletivo, muitas vezes públicos, como museus, escolas, hospitais e teatros, por exemplo) de grande porte, cujo projeto será encomendado a um arquiteto estrangeiro de prestígio internacional.
Dá licença? PQP! Tudo errado, né? Primeiro, que mania de encomendar tudo a arquitetos estrangeiros! Talvez, como aponta aqui o cético que eu tenho por Marido, fique mais fácil de operacionalizar as falcatruas, os desvios de verba, os superfaturamentos. Não tenho como afirmar isso (só desconfiar). Mas onde está o salutar e enriquecedor hábito de se organizar concurso público para esse tipo de projeto? Pode até ser um concurso internacional, e aí os mais renomados escritórios de arquitetura do mundo podem submeter suas propostas, juntamente com os nossos próprios escritórios e até jovens arquitetos, cheios de disposição, idéias frescas e fome de mostrar trabalho. Tudo com transparência, fiscalização, orçamentos claros. Mas antes mesmo de entrar nesse mérito tem o fato de que uma construção de grande porte não é a ocupação mais acertada para o Pier – na minha opinião, claro. Por tudo o que falei aqui, eu creio que o pier deveria ser um espaço mais aberto mesmo, bem horizontal, cujo grande atrativo fosse poder caminhar e observar a cidade, com amplidão, sem obstáculos visuais. Erigir qualquer coisa ali de monumental seria um equívoco.
Quanto à primeira questão, e talvez a mais importante, porque está na raiz de tudo, o que temos visto é que o prefeito é mesmo avesso à discussão franca e ao debate de idéias. Tem sido assim com relação ao projeto do Porto, com relação ao chamado PEU (Projeto de Estruturação Urbana) das Vargens (Vargem Grande e Vargem Pequena, bairros da Zona Oeste do Rio), com relação ao criminoso prédio da Eletrobrás que o prefeito quer autorizar na Lapa (falarei disso em breve).
A área portuária do Rio não é para amadores. Tem um grau de complexidade, por qualquer ângulo que se analise, que requer um projeto igualmente complexo. É preciso ter bem claro que, por seu caráter de centralidade, e pela extensão e profundidade da reforma em vista, esse projeto tem potencial para impactar toda a cidade. Simplesmente não pode ficar à mercê dos caprichos, ou mesmo da boa intenção, de um só tomador de decisões. É preciso pressionar e exigir a abertura de canais de participação para toda a sociedade. Urgentemente.




Concordo com tudo que vc disse. Apesar dos políticos brasileiros (incluindo empreiteiros, juízes (inclusive os do futebol), articuladores) nunca terem me dado motivos para duvidar da honestidade deles, devo dizer que tb compartilho da opinião do seu marido.
Agora, o b… do prefeito me pegou pelo pé com o convite ao Calatrava para a construção no Pier. Calatrava eu acho um grande arquiteto. Mas, pensando melhor, mantenho a posição… um concurso público seria bem melhor. E se o Calatrava quisesse participar, melhor para todos.
Pois ele fazer um projeto pedido pelo prefeito sem analisar – detalhadamente – o que será melhor para aquela área é f… vide cidade da música. Apesar de não gostar nem do projeto – do que vejo dele – que é só as fachadas e a localização – eventualmente, construindo em outro lugar poderia achar que é só uma “questão de gosto”. E sua proposta ” eu creio que o pier deveria ser um espaço mais aberto mesmo, bem horizontal, cujo grande atrativo fosse poder caminhar e observar a cidade, com amplidão, sem obstáculos visuais.” é ótima. Quem sabe assim a Mary W iria entender logo a “questão da vista”. eheheheh
Eu também gosto muito do Calatrava, Clau, mas mesmo assim acho que devia ser concurso público. Imagina você que os prédios da Petrobrás e do BNDES, ali no Centro do Rio, Esplanada de Santo Antônio, foram fruto de concurso. Se fosse hoje, chamava um figurão e pronto. Não me conformo.
Só uma professora como você para me fazer ficar interessada em um assunto que, de outra forma, passaria completamente em branco na minha vida.
É aquilo que eu te falava um dia desses – um post seu, unzinho só, vale por 10!
Então vamos lá – as idéias para o porto não eram todas no sentido de liberar a vista, de abrir o horizonte (inclusive derrubando a Perimetral?) Ué, não estou entendendo nada… Que zona, esses projetos!
É justamente esse o ponto. Primeiro, discute-se, chega-se a uma proposta conjunta. Depois, vem um cara só e muda o que ele acha que deve, sem perguntar mais nada a ninguém. No final, sai um projeto todo mutilado e distante do que tinha sido pactuado inicialmente.
Não estava sabendo de nada disso, estou pasma. Gosto muito daquela área (acho que falei no dia que nos conhecemos, que passei 2 anos apresentando um programa semanal na Rádio Nacional, ali no histórico edifício A Noite), e torço à beça pela revitalização, mas pelamor, sem mais elefantes brancos!
Exatamente. Você trabalhou no A Noite? Que legal!
Como já tinha comentado também sobre o caso “cidade da música”, não entendo esse PODER que os governantes exercem sobre a cidade, (que é do povo). Não se sabe ao menos o que o povo quer, lembro-me do Lynch… que fez aqueles mapas mentais com a população,e este seria uma boa pro local, logicamente os transeuntes destacariam as vistas a beleza que é não ter nenhum bloqueio visual ( o que me parece é que o Prefeito está querendo ignorar isso, não é?).
Concordo plenamente com os concursos, e no meu ponto de vista nem abriria pra INTERNACIONAIS, não é um preconceito… pois também adoro o Calatrava, mais assim como você disse Ana, temos muitos profissionais bons no nosso meio, e estudantes (novos profissionais) cheio de idéias, que conhecem o local, viveram ali, cresceram… cabe a prefeitura valorizar isso.
Uma certa vez assistindo algum filme, vi um médico dizendo pro paciente que se recusava a tomar um medicamento: _ você estudou medicina?
Temos que manter uma voz mais ativa sobre nossos projetos, que são pensados e repensados, perdemos noites… pra vir esses ” açogueiros públicos” tentar mutilar nossos projetos, e colocar os “elefantes brancos”.
Cheeega disso!
É, Gutemberg, a gente tem que pensar sobre essas coisas mesmo, e implementar mecanismos de regular esse poder de que você fala.