Não, eu não desisti do projeto do Cidades Literárias. É só que eu, pra variar, abraço o mundo com as pernas e me proponho a fazer mais coisas do que dou conta, daí algumas acabam caindo e ficando pelo caminho. Mas tenho a intenção de retomar, ainda que bissextamente, a ideia.
Agora no início do ano, estava andando na cidade e, na banca de um sebo, vi por acaso um livrinho de crônicas do Fernando Sabino. Dentre aqueles célebres e excelentes autores que figuravam na coleção “Para gostar de ler”, láááá antigamente quando eu era aluna adolescente e o colégio sempre adotava esses livrinhos pras aulas de Português/Literatura, Sabino sempre foi dos meus prediletos. Acho doce, divertido, perspicaz. Sobretudo aprendi a admirar como ele é conciso e econômico com as palavras, sem perder a essência do pensamento e muito menos a poesia da narrativa. Não tem um adjetivo sobrando, um adjunto adverbial desnecessário. Ai se eu conseguisse ser tão precisa e sintética!
O livrinho em questão, A Volta por Cima, me capturou por conta de um trechinho que está na capa, logo abaixo do nome do autor: “Tudo que acontece tem seu lado bom. Toda mudança é para melhor”. Filosofia de botequim, talvez, mas era o que eu precisava ouvir naquele momento, e eu acabei comprando o livro.
Muito bem, entre as crônicas deliciosas, tinha essa aqui, “Visita a Ouro Preto”. Lembrei imediatamente da minha série de textos literários que falam das cidades, e resolvi trazer para vocês. Procurei na internet de quando é esse texto, mas não encontrei (o livro foi publicado pela Editora Record em 1990). Se alguém souber e puder me avisar, agradeço.
“Hoje, ir de Belo Horizonte a Ouro Preto é uma brincadeira: duas horas limpas, de asfalto suave e bem corrido. A cidade se tornou local para fins de semana, palco de acontecimentos sociais e artísticos, centro de festas cívicas e festivais de música ou cinema. Ouro Preto foi finalmente descoberta pelos bárbaros.
Mas é aquela mesma cor esbranquiçada de osso esquecido há séculos sob a luz do sol, a da cidade morta e descarnada, imune ao bulício dos turistas. Procuro me orientar, relembrar o caminho do Museu – resolvo interpelar uma megera desdentada que espia o tempo passar, debruçada há séculos numa janela.
- Moço, a cidade toda é um museu.
Aquele velho ali na esquina é capaz de me dar alguma orientação:
-Quanto tempo o senhor acha que eu vou precisar pra ver Ouro Preto, visitar essas igrejas, conhecer tudo isso?
O velho coça a cabeça, irresoluto:
- Estou aqui há cinquenta anos e não conheço tudo isso.
A impressão que ele me deu foi de que estava há cinquenta anos ali naquela esquina, esperando um encontro qualquer com um fantasma que desvendasse para ele o mistério de Ouro Preto.
Não preciso tanto. Em meia hora percorro a rua São José, revejo a Casa dos Contos e a sua ponte. E sigo bufando ladeira acima. toda a cidade é uma só ladeira acima. Esta é a rua Bobadela de nome, Direita de tradição. Chego enfim à Praça Tiradentes, com seus dois palácios: o Municipal, que é a Escola de Minas, e o dos Governadores, que é o Museu da Inconfidência. No meio, a estátua de Tiradentes. E o vaivém dos visitantes, atraídos pelas lojas de lembranças ao redor da praça.
O Museu merece uma manhã inteira. Ouro Preto, uma vida inteira. O velho tem razão, cinquenta anos é pouco para rever e reviver tudo isso. Só de igrejas que merecem visita há pelo menos umas dez, não se falando nas capelas. Para se acabar zonzo com tantos enfeites, curvas, dourados, frisos, figuras, formas e cores de todos os tons que enchem a cidade por todo lado. Mas pelo menos mais uma olhada na Igreja de São Francisco de Assis, e a do rosário, e a de Nossa Senhora do Pilar, e a de Santa Efigência do Alto da Cruz, e de São Francisco de Paula…
Basta. Ouro Preto é mais do que isso, e mesmo aos ímpios, a quem aborrece a arte sacra, tem a oferecer outra espécie de atração. alguma coisa que paira no ar e envolve quem se vê nessas ruas do passado. O visitante se sente anulado no tempo, anônimo no espaço, integrado na trama sutil da História, mergulhado na eternidade. Isto é Ouro Preto”.

Fotos tiradas por mim em 2008, durante visita à cidade com os alunos para os quais eu dava aula. À esquerda, uma das muitas ladeiras. À direita, em cima, paisagem urbana; abaixo Igreja de Nossa Senhora do Pilar

Da esquerda para a direita: Nossa Senhora do Rosário, o altar da igreja de São Francisco de Assis, a cidade vista através da janela. Só eu que acho ruim ver tanto carro na rua?
Num momento em que estamos falando de projetos de reforma em áreas históricas, patrimônio, valores urbanos, deixo vocês com estas palavras. Em que medida isto diz respeito às nossas cidades, que importância têm esses sentimentos de integração “na trama sutil da História” para o desenvolvimento e a vida de uma cidade? Enquanto vocês pensam, vou ali e já volto.
Depois de reclamar da falta de férias, eis que uma conjunção de fatores (milhas sobrando que iam vencer aliadas à oferta de hospedagem por parte de uma amiga mais que querida + a generosidade e o amor do Marido) colocou nas minhas mãos a primeira das supresas e oportunidades legais ao longo da jornada, que eu desejei nos meus votos de fim de ano, e eu estou indo hoje para a Itália, passar 10 dias. No circuito, Milão e uma fugida de quatro dias a Roma e Florença. Eu nem acabei a série do Canadá, e já vou me comprometer com mais fotos e relatos de viagem. Aguardem.
PS: Parabéns pra cidade de São Paulo pelos 456 anos!


Que prazer ver Ouro Preto no Urbanamente. Como mineira, fiquei toda orgulhosa, ainda mais pelos olhos sensíveis do Fernando Sabino. De fato, a cidade é cheia de surpresas, não dá pra descobrir todos os segredos de uma única vez, é preciso desvendá-la aos poucos…Boa viagem! Um abraço, Fefê.
Eu amei Ouro Preto, Fefê. Beijos pra você!
Quando eu crescer quero ser igual a vc: fresco, metido, inteligente, bonito, professor e cheio de viagens no curriculo! hahaha
te amo
boa viagem
Bobo. Fresco, metido, inteligente e bonito vc já é. Pra professor não custa nada, e as viagens no currículo já começaram. Eu também te amo, viu?
Ouro Preto – esse nome é tão bonito, tão poético, tão … envelhecido!
Torço para que a sua “giornata particolare” traga bons ventos, nova disposição e muitas fotos e informações sobre esse país tão maravilhoso!
Bjs!
País maravilhoso e contraditório, viu? Quase enchi um caderninho com minhas observações e elocubrações, assim que der venho transcrever tudo.
realmente é muito bom ver ouro preto aqui.. a legenda da foto tem um gostinho todo especial hehe.. a visita foi boa demais!!
obrigado por tudo professora!!
Querido, que saudades de você e da sua turma! Lembro dessa viagem a Ouro Preto com o maior carinho. Fiquei muito chateada de não ter podido ir à sua formatura, ainda mais tendo sido convidada e homenageada de maneira tão gentil. Mas calhou de ser bem no meio da viagem à Itália. Só me resta dizer que eu desejo a vocês toda a sorte e sucesso do mundo, e que a chama do ideal se mantenha viva nos seus corações, iluminando e incentivando uma jornada movida pela ética, pelo amor à cidade, pelo empenho em servir ao bem comum. Abraço bem grande.
Moro aquí desde que nascí, me orgulho sempre de ver minha cidade sendo admirada por pessoas cultas. Amo ver fotos da minha cidade. Ouro Preto envelhecida e eterna!!!
Fabiana, você mora numa cidade linda! Obrigada pela sua visita, venha sempre.
AMEI FAZER UMA PESQUISA SOBRE ISSO QUERO MUITO TE CONHECER ENTRE NO MEU IMAIL