A situação dos transportes coletivos no Rio de Janeiro está calamitosa. Até cerca de cinco anos atrás, talvez menos, a grande reclamação dos usuários era com relação aos ônibus e trens, enquanto o metrô era considerado eficiente e confortável. A única e pertinente crítica era com relação à restrita malha do metrô, que, com suas duas linhas, cobria uma área pequena da cidade e atendia a pouca gente. Mas pelo menos era limpo, rápido, confortável (o ar condicionado era um oásis no meio do calorão do verão, por exemplo). Por outro lado, os ônibus passam nos horários que bem entendem, causam um tremendo tumulto no trânsito, em filas duplas e triplas, buzinando, ultrapassando sinais de trânsito, fechando os outros motoristas, parando fora dos pontos, apresentando uma ineficiente e antieconômica superposição de linhas que acaba pondo uma enorme quantidade de veículos subutilizados fazendo trechos enormes de mesmo percurso. Pra variar, a população mais penalizada é a mais pobre, que mora nas periferias, e precisa tomar dois ou três ônibus para chegar ao centro, gastando até 6 horas do seu dia nesses trajetos de ida e volta. Nem vou falar dos trens, que historicamente, nesta cidade, atendem ao proletariado, as zonas industriais, semi-rurais (como é isso agora, sem hífen e com dois rr? que horror), e consequentemente, nunca tiveram o conforto como prioridade. O resultado foi uma escalada de oferta de “transportes alternativos”, em que pontificam vans (em São Paulo chamam de peruas, acho) sem nenhum controle, fiscalização ou segurança, mas que ocupam o buraco deixado por um péssimo serviço público. Sabe a lei da demanda e da oferta, no mercado? Pois é.
Se o Estado é ineficiente (sim, o transporte é um serviço prioritário que funciona como concessão do Estado), a melhor solução é sempre privatizar, certo? Hahahahaha. Como as linhas de ônibus e vans já são loteadas por empresários que, com algumas exceções, talvez, manipulam os seus próprios vereadores (ou são vereadores eles mesmos), nunca se consegue mexer direito nessa ponta do assunto. São muitas promessas, muito “choque de ordem”, e pouca mudança significativa. Os trens foram privatizados, e o que se vê no noticiário é vigilante dando paulada em usuário pra colocar todo mundo pra dentro do vagão, com mais truculência do que se estivesse tocando gado pra dentro do curral. Lê-se também, dia sim dia também, sobre composições que param no meio do trilho, sobre interrupção do serviço, sobre meninos que morrem fazendo “surf” em cima dos vagões.
Aí privatizaram também o metrô. Em meio a novos e brilhantes cartazes anunciando uma nova era, mostrando que o metrô está trabalhando para e por nós (hã?); em meio a inaugurações de novas estações na Zona Sul do Rio (eu me pergunto se a prioridade é mesmo essa), o que mais nós temos tido?
a) um preço que não é um dos mais caros do mundo, mas que é pesado para a população mais pobre, principalmente em função da pouca flexibilidade e praticidade na compra dos bilhetes.
b) reformas nas estações mais antigas na contramão da preservação do patrimônio, em função de uma discutível modernização no design, com o uso dos materiais mais equivocados do mundo, o que significa, em última instância, um gasto considerável de dinheiro, mal-utilizado (não só na reforma em si, mas na necessidade de manutenção por conta dos novos revestimentos que se deterioram mais depressa), sem falar em ambientes de menor qualidade estética.
c) um jeito pouco racional (pra não dizer idiota) de gerenciar a compra dos bilhetes, que causa o acúmulo de filas nas estações e a perda de dinheiro por parte dos usuários. Olha só: se o cara usa o metrô regularmente, o mais indicado é carregar um cartão, nos moldes dos cartões pré-pagos de telefone. Ou seja, ele não carrega com um número de viagens, mas sim com um valor em reais. Se houver aumento no valor das passagens durante a vigência do cartão, o cara se deu mal. Além disso, para quem usa o metrô diariamente, não há nenhuma modalidade de compra que signifique economia, que lhe permita viajar pagando menos. Guarde essa informação pra gente comparar depois. Os valores em reais a colocar no cartão nunca equivalem a um múltiplo do valor da passagem, então, quando vai acabando, sempre fica um resíduo preso no cartão, e o cidadão tem que recarregar, o que precisa ser feito na fila do caixa. Se o cara usa o metrô esporadicamente e resolve comprar o bilhete unitário (na fila do caixa, claro), descobre que o bilhete tem validade de 48 horas! Ou seja, digamos que o sujeito compre dois bilhetes, para ir e voltar do seu destino. Mas por algum motivo, não usa o bilhete de volta (sei lá, ganhou uma carona, resolveu voltar de taxi, whatever). Perdeu o bilhete. Pode dá-lo de presente a alguém, que se não usar logo, também perde. Aí você diz, é melhor comprar então só o que vai usar mesmo. Sim, e entrar na fila todas as vezes que precisar comprar um bilhete novo. Que coisa mais burra. Agora pense nisso em termos de Olimpíadas, Copa, turistas, etc. Tsc, tsc, tsc…
d) o Metrô tem a cara de pau de argumentar que isso é para evitar a falsificação de bilhetes e a venda clandestina de bilhetes, que ocorre, de todo jeito, na porta de várias estações. Ou seja, por falta de capacidade deles de coibir a prática ilegal, pune-se os usuários. Que bonito.
e) a companhia decidiu recentemente (eu não sei com base em quê) alterar o plano original do metrô, que previa uma nova conexão entre as linhas 1 e 2 na Estação da Carioca, que inclusive foi construída, lááá na década de 70, com dimensões pra isso. Aí nós teríamos uma extensão pra a Praça Tiradentes, Cruz Vermelha, Catumbi/Sambódromo. O que foi feito, de alguns meses pra cá, e anunciado como a maravilha das maravilhas, foi uma espécie de fusão das linhas 1 e 2 no trecho Estácio-Ipanema, causando um dos maiores tumultos e transtornos já vistos na história dos transportes coletivos no Rio de Janeiro: aumentos indesculpáveis no intervalo entre os trens, acúmulo insalubre de gente nas plataformas (e consequentes atrasos e irritações por parte dos passageiros), constante falha no funcionamento de algumas estações que vira e mexe ficam fechadas, e – como cereja no bolo do verão carioca – sistema de ventilação inoperante que causa não só desconforto extremo, mas até mesmo gente passando mal de verdade durante a viagem. Além das várias matérias nos jornais escritos e televisados sobre o assunto, tem aqui e aqui posts curtinhos mas muito informativos, falando do assunto.
Resumo da ópera. Temos uma cidade enorme, em que o transporte é caro, cobrindo seu território de maneira ineficiente e irregular, o que estimula a oferta de serviços clandestinos que, se atendem à necessidade imediata do trabalhador, por outro lado estão fora de qualquer possibilidade de controle e fiscalização no que diz respeito às normas de segurança. Além disso, o transporte de baixa qualidade também acaba incentivando o uso excessivo de automóveis e táxis, contribuindo para mais engarrafamentos, poluição, etc, etc. A última panacéia apresentada é o tal de Bilhete Único. Informações a respeito de seu funcionamento, aqui. Melhor que nada, mas eu continuo criticando:
a) a burocracia na aquisição do bilhete (via internet, nas agências – e não todas – de um banco privado que nem sequer é o mais popular, portanto há menos agências disponíveis nos bairros, e nos postos da RioCard. É pouco para uma cidade que deve ser entendida em escala metropolitana e cujos principais usuários serão a população mais pobre), com todos esses passos de desbloquear via internet, esperar 48 horas para ter os créditos gravados, e poucas garantias para o usuário em caso de perda ou roubo do cartão;
b) o fato de não haver incentivo para o usuário regular. Em outras palavras, em todos os lugares do mundo, quem compra bilhetes que valem para o mês todo, que normalmente é o pessoal – trabalhadores, estudantes – que usa diariamente, tem um desconto no valor da passagem, que sai mais barata do que se pagasse, por exemplo, 30 viagens individuais. Aqui não é assim. Por quê não?
Amanhã, sem falta, como funcionam as coisas no Canadá e na Itália. Quem tiver exemplos e experiências pra contar de suas próprias cidades, fique à vontade.


tou esperando seu novo post ansiosamente…sou totalmente de acordo contigo sobre a precariedade do transporte publico no Rio. é vergonhoso! Falta de respeito diario ao cidadao.
Sem falar no preço. é caro demais.
Beijocas
Publico daqui a pouco. Claro que roubei trechos de um e-mail seu contando mais detalhes sobre as modalidades de bilhetes na Itália!
Que bom ler o seu post! Eu sempre quero escrever algo sobre esse problema do transporte público, que é uma coisa que ferra de verdade o Rio de Janeiro, mas nunca o fiz. Agora você fez, com muito mais conteúdo e a mesma medida de indignação.
Um detalhe: o Elio Gaspari, por incrível que pareça, volta e meia usa a coluna dele no Globo para falar com lucidez sobre a safadeza que é o transporte coletivo no RJ. São artigos muito legais, que têm o mérito ainda de lembrar as muitas promessas de campanha não cumpridas.
Beijo grande.
É, Anna, eu leio o Elio de vez em quando. A gente tem que fazer alguma coisa muito séria com relação a essa história do transporte, piorou demais da conta nos últimos meses, tá insuportável mesmo. Beijos procê também.
Eu moro particularmente numa cidade cuja única opção de transporte público é ônibus (e vans de turismo, que só atendem ao turista), e isso é um problema. Mas mesmo aqui, neste sistema de transporte fraco, se vc compra um passe anual, a economia chega a quase 50% do preço da passagem (p/ um usuário regular, q pega ônibus 2x por dia, pra ir e voltar do trabalho). A passagem comum é 2.25 e o bilhete vale por 2h em qqer (e qtos) ônibus vc quer pegar, mas por dia é um gasto de 4.50.
A situação no Rio é simplesmente inexplicável pelas leis da lógica e toda vez q vou ao Rio tem alguma “novidade” do transporte q me faz ficar impressionada em como eles conseguem piorar algo q já está ruim. Não se beneficia os q mais precisam usar o transporte, os moradores da cidade.
Exatamente o meu ponto de vista, Lucia. Os moradores e usuários mais frequentes precisam ser beneficiados de alguma forma. Eu só explico a situação dos transportes no Rio com uma coisa: ganância. E burrice, porque dá pra ganhar dinheiro e oferecer um serviço de qualidade, eu tenho certeza.
Ana Paula,
aqui no Distrito Federal, o transporte público é um problema atávico e, aparentemente, irresolvível. O metrô foi uma promessa de campanha de Joaquim Roriz, quando se candidatou pela primeira vez ao Executivo local. Mais do que uma promessa, foi uma panaceia que resolveria todos os problemas de transporte público no DF. O metrô só foi concluído no governo seguinte, de Cristovam Buarque, e passou um longo período em fase experimental. Nos últimos anos, deu-se prosseguimento à expansão do serviço, com a inauguração de estações previstas no projeto original, mas sem nenhuma preocupação com a ampliação da capacidade em relação ao consequente aumento da demanda provocado pelas novas estações. O resultado é que em certos horários é impossível conseguir entrar em um vagão. O preço de tanta eficiência e de tanto conforto é uma passagem de R$ 3,00! E em breve, a demanda aumentará ainda mais, com a inauguração da nova rodoviária interestadual, que estará ligada diretamente a uma das estações do metrô. Entretanto, nenhum sinal de novos vagões no horizonte.
O metrô está em processo de sucateamento, não obstante, o governador, que atualmente descansa nas dependências da Superintendência da Polícia Federal, deu início à construção de um veículo leve sobre trilhos, que irá percorrer as avenidas W3 Sul e W3 Norte. E como é imprescindível privilegiar os interesses das indústrias automobilísticas, digo, para acabar com os congestionamentos e melhorar o fluxo, avenidas e viadutos estão sendo alargados, e gigantescos e megalomaníacos – não estou exagerando – novos viadutos estão em construção.
Há também um projeto de construção de uma malha cicloviária, cuja construção, em algumas regiões, consistiu na conversão do acostamento em ciclovia.
As empresas de ônibus jamais, nunca ofereceram um serviço que pudesse ser considerado, ao menos, razoável. Todavia, suas permissões são sempre continuamente renovadas.
Um abraço!
Puxa, Fabiano, um raio-x preciso, contundente e lamentável esse que você fez dos transportes no DF. Eu vi alguns dos viadutos novos quando estive em Brasília dois anos atrás. Já é tudo gigantesco por aí, alargar ainda mais as vias não vai resolver o problema do fluxo, anota o que estou te dizendo. Só vai atulhar de mais carros, é um processo sem fim. Ciclovia em acostamento é criminoso, contra todas as leis de segurança e razoabilidade. E nem me fale da renovação das concessões das empresas de ônibus. Aqui no Rio também é assim. Máfia.
ana paula, se alguém disse isso, nao sei quem foi, deve ter ficado num cantinho da minha cabeça. se não disse, eu digo: o transporte público é a nova senzala. beijos
é, Veroca, se non é vero é bene trovato!
fabiano, tb moro na capital federal e assino embaixo do que voce disse. e mais: muitos dos condomínios para onde a classe média foi empurrada não são servidos por transporte público. a moça que trabalha na minha casa vence a pé, debaixo de chuva ou debaixo de sol, os 500m desde o ponto de onibus. 500m onde existe marquise ou sombra de prédios é uma coisa, mas esse trajeto nos vazios urbanos de brasilia é outra muito diferente.
e tem a questão dos estacionamentos nas áreas comerciais e de serviço em geral. como nao existe transporte coletivo, como voce explicou, vamos em nossos carros particulares. tentou-se um sistema de estacionamento chamado VAGA FACIL, mas o lobby dos flanelinhas e das pessoas que trabalham na área central (e que chegam de manhã no seus carros e só desocupam a vaga à noite – claro, eles tb vão de carro porque nao existe transporte coletivo) foi mais forte.
os shoppings e o aeroporto estão deitando e rolando na cobranã extorsiva de estacionamento, lei da oferta e da procura.
abraços
Vera, vc tocou num ponto tão, mas tão importante, que merecia um post só pra falar disso. como as nossas cidades não são pensadas para as pessoas, mas para os carros. E como isso tem desdobramentos implacáveis no uso do solo urbano. A praga dos estacionamentos (necessidade decorrente do uso majoritário de automóveis) é um desses desdobramentos.
Vera,
apenas hoje li seu comentário. Acho que você complementou muito bem o que eu não abordei. Por coincidência, hoje, quando voltava para casa vindo da Leroy Merlin, refleti sobre o fato de que essa megaloja não cobra pela utilização de seu estacionamento, enquanto o Parkshopping, logo em frente, isolou metade de seu estacionamento e passou a cobrar um valor extorsivo pelo seu uso. Isso é algo tão ultrajante, mas a maioria das pessoas que vai aos shopping centers parece não se importar. Os shoppings querem que gastemos nosso dinheiro em suas lojas e ainda exigem que paguemos para usar seus estacionamentos. E essas práticas terminam apartando as pessoas de baixa renda que possuem um automóvel mas não podem se dar ao luxo de gastar dinheiro com um estacionamento.
De resto, acho que a única solução possível para todos os problemas do trânsito no DF é óbvia: investimento em transporte público eficiente e eficaz. Contudo, quem haverá de? Eu fico imaginando como estará o DF em 2014, durante os jogos da Copa do Mundo – ou o Rio em 2014 e em 2016… O DF terá estrutura para permitir que as milhares de pessoas que talvez venham para cá – talvez porque tudo depende das seleções que vierem jogar aqui – possam se locomover com facilidade e conforto? Pelo andar da carruagem, acho muito difícil.
Ana, concordo contigo: os novos viadutos não vão resolver o problema de congestionamento. Funcionarão somente como um paliativo. É evidente, mas quem se importa, não é mesmo? Atualmente, há um carro para cada dois habitantes no DF! Fico espantado com a quantidade de carros nas vias às 22h, 23h das sextas-feiras e dos sábados. São tantos carros que tenho a impressão de que é uma manhã de um dia útil, por volta das 8h, 9h.
Abraços!
Fabiano, o que mais me assusta é o uso extenso de enormes porções do solo urbano como estacionamento. Solo que é caro, frequentemente em áreas infra-estruturadas da cidade, e que poderia ter um uso mais útil à sociedade como um todo. Precisamos começar a pensar nisso também.
voces que sao uns incopetemte nao tem visao de transito sao todos emrolados e culpa os outros pela suas incopetencia
ki bom!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
lecal!!!!!!!!!!!!
Caro, Amigo!
é um prazer poder comentar um texto tão rico.Vc é muito feliz quando fala da pregariedade do transporte! Só precisa compreender que o “Transporte alternativo” surgiu para ocupar um espaço deixado pelos grandes empresários do setor.
Nossa intenção é atender melhor a sociedade, algumas cooperativas do Município do Rio de Janeiro tem se modernizado. Já vêm à alguns anos buscando maiores tecnologias para atender melhor a sociedade! nossa intenção, é fazer com que o usúario escolha o nosso serviço ao invés do serviço da queles que o deixaram anos abandonados.
Ah! caso queira conhecer nossas cooperativas e nossas estruturas se sinta convidado.