Pois como funcionam essas coisas no Canadá e na Itália?
No Canadá, especialmente em Montreal, não vi engarrafamentos, há poucos ônibus nas áreas centrais, que são servidas por metrô. Basicamente, se o sujeito mora um pouco mais longe do Centro, ele toma um ônibus até onde tenha metrô, e dali segue adiante. A cultura do carro e do transporte rodoviário existe mais do que na Europa, talvez por proximidade com os Estados Unidos. Mas os estacionamentos espalhados pela cidade funcionam na base da maquininha, os famosos parquímetros. Nada de guardador ou flanelinha. Há preços pré-estabelecidos para usar a vaga por determinado espaço de tempo de acordo com a área da cidade, o motorista vai lá na maquininha, coloca as moedas correspondentes, sai impresso o bilhetinho. Ponto. Se funciona? Ô. Posso fazer só um comentário malicioso? As vagas desenhadas nas ruas têm de 6 a 7 metros de comprimento! E como estacionam mal! Modéstia às favas, eu tinha vontade às vezes de ir lá abordar o motorista e perguntar se ele queria que eu pusesse o carro na vaga pra ele. Ou pelo menos ficar ali do lado dizendo “Vem mais, agora desfaz, desfaz, isso, mais pra direita, agora vira tudo…”

Isso é em Milão. Eu vi o mesmo esquema em Montreal. Em Buenos Aires também é muito usado.
Ah, sim, antes que eu esqueça, a caixa das ruas já prevê áreas para estacionar, ao longo da via, assim, os carros não ocupam as pistas onde deveria haver fluxo, estrangulando a circulação, nem tampouco há carros sobre as calçadas, nem sequer meia roda. A mesma coisa eu vi na Itália. Tá aí uma foto pra ilustrar.
Voltando ao Canadá, não vi guardas de trânsito. Aliás, não vi policiais, muito raramente. Em compensação, vi muita bicicleta, pra todo lado. As pessoas usam a bicicleta como meio de transporte e deslocamento entre casa-trabalho-escola, e não apenas lazer. Assim, não há tantas ciclovias em parques, mas, em toda a cidade, sabe-se que uma das faixas das pistas é para os ciclistas e as pessoas respeitam isso. Entendeu? O que existem são ciclofaixas, e não ciclovias (que seriam as pistas exclusivas, fisicamente separadas da pista dos carros, e que os ciclistas dividem com pedestres correndo, gente andando de patins, entre outros).
Essa coisa do uso da bicicleta está crescendo muito neste país tão comprometido, pelo menos mais recentemente, com um discurso de sustentabilidade, ecologia, etc. Eles têm inclusive esse esquema de oferecer uma frota inteira de bicicletas para aluguel, que funciona assim: são diversos pontos onde há um monte de biciletas estacionadas. Em Montreal, chamam-se Bixi (leia-se Bicsí, com biquinho francês, s’il vous plaît). O interessado vai lá, passa o seu cartão de crédito (yes, só com cartão de crédito, nada de dinheiro) e libera uma bixi. É caro pra burro, não sei como o negócio se sustenta. Custa 5 dólares canadenses (R$ 8,50) por meia hora de uso. Mas você pode deixar a bicicleta depois em qualquer outro ponto de bixis. Então, se estiver com pressa e longe do metrô, pega a bicileta aqui, pedala até o trabalho, deixa a bicicleta nas redondezas e pronto, tá resolvido. Apesar do preço, vi alguns turistas usando. Nossa percepção de caro ou barato é, como tudo na vida, muito relativa. O que me surpreende e encanta mais é mesmo a capacidade de organização, o senso de coisa pública, a responsabilidade e o cuidado com tudo. Não tem ninguém ali tomando conta, e eu não vi nada vandalizado. Isso eu invejo.
Falemos de transporte público coletivo. Não é tão bom quanto na Europa, onde as coisas são mais autoexplicativas (preços, como comprar, rotas, horários), mas assim que você se situa, funciona muito bem. Não cheguei a andar de ônibus nem em Montreal nem em Toronto, fora os deslocamentos interurbanos que eu já citei: Montreal-Quebec ida e volta, e Montreal-Toronto. Em Montreal, a rede de metrô é excelente, e cobre maior parte da cidade, com o serviço de ônibus complementando a rede, principalmente na periferia. O bilhete é caro para nossos padrões, mas se contar que o mesmo bilhete dá direito também a uma passagem de ônibus, fica quase a mesma coisa que nosso novo Bilhete Único (nosso aqui no RJ). Uma passagem unitária custa CAN$ 2,75 (R$ 4,70); Mas olha só que beleza, se você compra 6 passagens, custa CAN$ 12,75 (R$ 21,70), ou seja, você economiza CAN$ 3,75, o que dá uma passagem inteira e mais um dólar. Além disso, há cartões mensais, para quem usa todo dia, e aí sai ainda mais barato, mais barato que o preço de 30 bilhetes unitários aqui no Rio. Outra coisa, os bilhetes individuais não têm validade. Ou melhor, têm mas é de um ano inteirinho. Ou seja, sobraram uns dois bilhetes comigo, e se eu voltasse lá antes de setembro, ainda poderia usá-los. Ou poderia ter deixado com a minha amiga que mora lá, e ela poderia guardá-los na carteira para usar na hora que lhe fosse mais conveniente, sem risco de perder a passagem. Independente de o preço do bilhete aumentar nesse meio tempo. E em todas as estações há várias maquininhas self-service, além das cabines de venda pra quem preferir, então você pode comprar sua passagem sem fila, com dinheiro ou cartão de crédito. Que diferença.

Mapa do metrô em Montreal

Acima, um ponto de bixis, m Montreal. Abaixo, bondes em Toronto
Em Toronto, o bilhete individual de metrô tem o mesmo valor. E uma passagem só de metrô vale também para andar de ônibus ou bonde. Mas de segunda a sexta-feira, um adulto pode pagar 9 dólares (pouco mais de 15 reais) e ganhar um passe (Day Pass) que vale para o dia todo, com viagens ilimitadas de metrô e bonde (sim, em Toronto há bondes por toda a cidade, e eles são coligados com o sistema de metrô). Pasme: nos fins de semana, esse mesmo passe, pelos mesmos 9 dólares, vale para um casal, ou até para uma família de 2 adultos e 4 crianças, igualmente com viagens ilimitadas de metrô e bonde. Ou seja, aos sábados e domingos, uma família inteira paga apenas 9 dólares (faça as contas, se fossem 4 bilhetes individuais sairia por CAN$ 2,75 x 4 = 11 dólares), ganha um bilhete e pode andar de metrô e bonde quantas vezes quiser, pra cima e pra baixo, sem pagar mais nada, só mostrando o bilhetinho pro controlador, na catraca especial para este tipo de bilhete. Isso estimula o turismo e incentiva as famílias a se deslocarem para visitar as atrações da cidade, por exemplo. Não sei se é subsidiado pelo Estado, se é parcialmente pago pelo preço alto dos bilhetes individuais nos outros dias da semana, se é bancado por alguma empresa privada em troca de algum outro benefício. Sei que o transporte é controlado pelo Estado, e que eu achei muito confortável andar pra cima e pra baixo.

Metrô de Toronto


Rapaz, olha minha rua ali em cima…ahaha. Mas olha, aqui em Milao so em alguns pontos da cidade é assim (com espaços pra estacionar na rua). pq o povo coloca em cima da calçada também…Tb nao tem flanelinha. Vc compra o bilhete pra X horas num jornaleiro ou numa “tabacaria” e coloca no vidro do carro pro guarda qdo passar controlar. E em alguns lugares tem o parquimetro.
Eu sei, Line, mas não pude deixar de fotografar. Só para registro tipológico, heheheh. No próximo post tu vai reconhecer o bonde que eu pegava aí do lado da tua casa. bjs
Sim, o transporte público é subsidiado. Mas isso é visto como algo absolutamente normal! E de fato é
. Nós fazemos a mesma coisa, subsidiar com dinheiro público, só que nosso beneficiário é o automóvel individual.
Vou dar o exemplo de minha cidade, Natal-RN. Temos um grave problema de trânsito, principalmente na ligação entre as Zonas Norte e Sul da cidade (separadas por um rio). Solução: uma ponte de R$ 200 milhões.
Caramba, eu ficou pensando, se aplicássemos R$ 200 milhões na melhoria do transporte público da cidade!!! Seria revolucionário!
É, Patrick, também acho normal e fundamental! Ponte de 200 milhões é brincadeira. É como botar 4 bilhões aqui no Rio no metrô pra Barra da Tijuca. Aplica esse dinheiro na melhoria do transporte do resto da cidade pra vc ver como melhoraria a vida de muito mais gente!
O que mais me espanta é que tudo o que você escreveu aí sobre o metrô de Montreal é tão lógico e simples, e nós aqui achamos o má-xi-mo.
Está tudo muito errado mesmo.
E mais uma vez: estou amando essa série sobre transporte público no mundo!
Não é? A idéia é essa mesma, mostrar alternativas. Eu que tou amando os comentários de vocês!
Ana Paula, que descoberta sensacional o teu blog (a partir do comentário que você deixou no meu blog)!
O título é fabuloso, as postagens são carinhosamente bem escritas, as fotos são lindas, os temas…
Meus parabéns! Já entrou na minha “boa vizinhança” e nas leituras cotidianas.
Opa, vice-versa ao contrário, Luddista! Também amei o Apocalipse, vamos nos frequentar!
ENQUANTO NO BRASIL A MÍDIA E O SENSO COMUM ACHAR QUE O SUJEITO QUE TEM UM CHEVETTE É MELHOR DO QUE O QUE NÃO TEM, MESMO MORANDO DE ALUGUEL E O ‘PEDESTRE’ TER DOUTORADO, A SITUAÇÃO NÃO VAI MUDAR. BRASILEIRO TEM A MENTALIDADE TACANHA. EM BUENOS AIRES, CIDADE QUASE DO TAMANHO DO RIO DE JANEIRO, A PASSAGEM CUSTA 1 PESO (90 CENTAVOS PARA NÓS)! ELES CRIAM DEMANDA, OU SEJA, É MAIS BARATO IR PRO TRABALHO DE ONIBUS QUE CARRO. AQUI, A MENTALIDADE É EXPLORATORIA: VAMOS COLOCAR A PASSAGEM ALTA, O DIA QUE ACABAR A DEMANDA (TODO MUNDO COMPRAR CARRO, COMO É A TENDENCIA) A GENTE PASSA PRA OUTRO NEGOCIO. FOI ASSIM COM O PAU-BRASIL, COM O OURO…