(Rapaz, eu tou que tou, hein? Postando 3 dias seguidos, que inédito! Hahaha, o que não faz uma criatura que não curte carnaval e não se atreve a sair de casa por causa do calor insuportável…)
Continuando nosso papo sobre transporte. Eu só andei de metrô/bonde em Milão e Roma. Nas outra cidades (Bergamo, Pisa, Siena e Florença) eu desci na estação de trem e andei a cidade toda a pé. Sim, o transporte interurbano se faz de trem. Alguns trajetos, os mais distantes, estão ficando caros pra caramba. Pra vocês terem uma idéia, quando eu fui de Milão pra Roma, saiu mais barato, numa promoção de uma dessas companhias low-cost, ir de avião (26 euros) do que de trem (que sairia mais de 100 euros). Mas a malha ferroviária ainda é ampla, confortável, segura e rápida. Em todas as estações de trem tem pelo menos um escritoriozinho de atendimento ao turista, onde você consegue, gratuitamente, informações, mapas da cidade, dicas de hotéis – caso ainda não tenha feito sua reserva – e passeios.
Milão é uma cidade grande, ao norte da Itália, dá uma olhadinha no mapa ao lado. São quase 1 milhão e meio de habitantes na cidade, e mais de 4 milhões na região metropolitana, numa área de 182 km2, o que dá uma densidade de 7.190 hab/km2. Só pra gente comparar, o Rio de Janeiro tem uma população muito maior, de quase 6 milhões e 200 mil habitantes (4 vezes maior que Milão), mas a área do município é quase 7 vezes maior, alcançando cerca de 1.200 km2. O que significa que a densidade é relativamente menor, de 5200 hab/km2. A gente tem que dar o desconto que o Rio tem áreas imensas não habitadas, que são os maciços encravados no município, o maciço da Tijuca, o da Pedra Branca e o de Gericinó. Se descontar isso, é capaz da densidade ficar igual. Vamos a São Paulo então. A área da cidade de São Paulo é 8 vezes maior que a de Milão, perfazendo 1.500 km2, e abriga uma população de 11 milhões de pessoas. A densidade, portanto, é praticamente a mesma que em Milão (7.200 hab/km2), e isso é um dado importante, é o que faz diferença.
Assim mesmo, Milão é grande. É o terceiro maior núcleo metropolitano da União Européia, e a cidade mais rica da Itália. E é facílimo andar pra cima e pra baixo. Há ônibus (embora poucos, eu mesma não vi muitos), há uma rede imensa de bondes e metrô, que se complementam, e há trens capilarizando para a periferia. Ou seja, você vai e volta de qualquer lugar em transporte público, feliz. A passagem dá um banho na nossa. Vejamos como funciona.
Você compra, por 1 euro (1 euro! Isso dá cerca de R$ 2,80), em qualquer banca de jornal da cidade, um bilhete que eles chamam ordinario urbano. Ele vale por 75 minutos a partir do momento que você usá-lo a primeira vez, e com ele você pode andar de bonde, metrô e ônibus. Pode usar para duas viagens de ônibus, ou quantas quiser de bonde. Só o metrô que vale por uma vez só. Deixa nosso Bilhetinho Único no chinelo. É verdade que não tem ônibus e metrô rodando a noite toda. Mas, funciona com pontualidade, intervalos regulares (e curtos) que você checa nos próprios pontos ou na internet, o que permite que você se planeje, sem riscos de perder as conexões, sem tumulto, sem fila. Ah, sim, se você for comprar no metrô ou nas estações de trem, também tem os terminais self-service, não precisa fila. Só não pode comprar direto com o motorista do ônibus ou bonde, você já tem que entrar no veículo com sua passagem comprada. Aí tem uma maquininha lá dentro, onde você “convalida” o bilhete, ou seja, imprime a hora que você está começando a usar, pra poder contar a validade. Funciona. Claro, se calhar de entrar um fiscal e pedir os bilhetinhos do povo e você não tiver, ou tiver um fora da validade, a multa é pesadíssima, fora a humilhação.

Tem desses bondes modernos, mas tem também uns mais velhinhos, como o amerelinho que está passando ali atrás, dá uma olhada.
Além do bilhete unitário, tem os “abbonamenti”. O mensal custa 30 euros, que você carrega num cartão eletrônico, e isso te dá o direito de usar quantos ônibus e metrô você quiser durante aquele mês, sem limite. O bilhete semanal custa 6,70 euros e te garante passagem de metrô de ida e volta durante 6 dias da semana (se fosse comprar unitário dava 12 euros, é quase 50% de desconto para o trabalhador, o usuário regular. E pra estudante é ainda mais barato) e tem o anual, de 300 euros, que você usa o ano inteiro, quantas vezes quiser. Pra quem tem que utilizar o transporte diariamente, muitas vezes, é jogo. Tá fazendo as comparações e contas?

Metrô de Milão
Em Roma, idem. Não usei ônibus, e não vi bonde em Roma. Mas o metrô funciona bastante bem. Eles têm um problema pra expandir a malha do metrô, que é o do patrimônio histórico-arqueológico. Toda vez que começa a escavar pra qualquer coisa, até infra-estrutura, é um problema, porque sempre se descobrem as fundações de um templo ou coisa parecida. Então, as duas linhas do metrô meio que dão a volta na cidade. Mas estão bem integradas com as linhas de ônibus, e os preços são basicamente os mesmos que em Milão.
Ou seja, dá. Agora, por que é que não dá aqui? Eu quero andar de transporte bom, de preço justo, confiável, com conforto e praticidade. E mais, quero que esse transporte seja oferecido com a mesma boa qualidade em todo o território da cidade e não apenas nas áreas mais nobres.
PS: Sim, o trânsito na Itália em geral e em Roma em particular é caótico. Mas assim como eu já tinha visto no Canadá, os pedestres ainda têm alguma precedência. Nas vias mais movimentadas, com semáforo, espera-se o sinal abrir para atravessar a rua. Mas nas vias sem semáforo, basta colocar o pé na rua para que os carros (e motos e ônibus e até carabinieri) parem automaticamente para que o pedestre atravesse. Simples assim. Vontade de fazer isso aqui na rua de casa pra ver o que acontece. Melhor não…


Olha, estou amando essa série de posts sua sobre transporte público. Uma análise precisa, cheia de detalhes bacanas.
E acrescento: vc “precisa” ir ao leste da Ásia. Para ver um metrô/transporte público de proporções absurdas funcionando, como Tokyo, Seul ou até mesmo Hong Kong.
Nem me fale, Lucia. Eu “preciso” ir a um monte de lugares, nem te conto!
Ana, faço coro com a Lucia. Tou amando esta serie sobre transporte publico…
Eu sofri demais com transporte no Rio (morando em Niteroi e estudando no Maracana) e da ultima vez que eu fui me pareceu ainda pior.
Quando é que vao dar jeito nessa bagunça? Ta, ta, ja sei a resposta
Pois é… Imagina eu trabalhando na Barra da Tijuca? Chance de ir bem de transporte público? Zero. Dá pra ir, mas vou levar mais de duas horas, enfrentar ônibus cheio, engarrafamentos, e ainda vou andar pra caramba do lugar onde descer até a porta do trabalho. E lê o comentário da Vera: uma coisa é andar 500 metros sob marquises ou árvores, em calçadas adequadas, outra coisa é andar no ermo, sob sol e chuva.
Entro no coro. (Alline e Malla é muito chic).
Segundo, como sai em vários blocos (gosto de carnaval. Oi, Alline. Lembrei de vc algumas vezes)e nem me importei com o sol (mais pareço uma zebra ou em processo avançado de vitiligo), então, li todos de uma vez. Vou comentar tudo aqui.
Se tiver algum movimento para pleiteiar melhor transporte, avise-me. Para não ficar só o mimimi como vc alertou no primeiro da série.
Terça de carnaval fui a ipanema. Metrô cheio, mas não lotado. E foi confuso a saida da estação. Gente chegando. Filas pra comprar e absurdo dos absurdos, catracas pra sair. Pensei: carnaval, todo mundo indo pra folia, imagina copa com torcidas adversárias. Será um show. Porque pensar em solução… como pensaram na união da linha 2 com a linha 1 (desrespeitando o traçado original), melhor nem pensar. (não seria mais lógico encomendaram novos trens – pq já fazem falta – e depois fazerem a obra? Mas pra eles, primeiro obra, planejamento nulo e novos trens só daqui a anos).
Em Portugal para compra de 10 passagens (o carregamento é feito pelo valor do Bilhete. Que lá tem uma coisa confusa, pois tem valores diferentes dependendo da zona) ganha-se uma. Para quem usa todos os dias os preços também são bem mais favoráveis. Na época que eu usava ônibus era um pouco mais do que 30 passagens e me dava o direito de usar durante todo o mês quantas vezes quisesse. Tb é por zona. Circular só dentro da cidade do Porto é mais barato do que circular na zona 3 (a maior – pegando o grande Porto). Mas isto também acontece em empresas privadas. Na última ida, que eu usava a Valpi carregando 20 euros, eles creditavam 25.
Detalhe, no mapa de horários, tinha de cada paragem = ponto de ônibus. Não são tão precisos como dizem ser os alemãs, mas ainda assim dava para controlar o horário. E nas paragens da empresa pública vc tem em cada uma os ônibus que ali param, o circuito que fazem e os horários. Dias úteis e finais de semana e feriados. Exatamente como aqui, não?
Vc disse da superposição das linhas, mas tente esperar um onde tem 4 linhas que lhe serve. Ainda assim vc fica ali horas e quando chega um, vem logo os outros 3 juntos. Que é para facilitar.
Outro dia um amigo me alertou, tem vários ficais das empresas que controlam as viagens, o horários e o nº de passageiro. A prefeitura já não poderia ter feito um acordo, para que este controle favorecesse os usuários? Para que as diversas linhas passassem em horários alternados nos pontos em comum?
Mas para isto é preciso interesse político na cidade e nos habitantes e alguém com mais que 2 neurônios – funcionando, é claro.
pronto, já falei de mais.
Adoro quando vcs falam muito. Sinal que o assunto é bom e todo mundo tem alguma coisa pra contribuir. Você tem toda razão: de que adianta ter 4 ônibus que te servem, se todos demoram, e passam ao mesmo tempo, vazios, sem o menor planejamento, a menor racionalização dos recursos?
Para não ficar apenas nas más notícias, publiquei no meu blogue uma matéria sobre um estudo feito em Natal-RN. Envolveu todos os tipos de transporte, inclusive deslocamentos a pé.
Qual não foi a surpresa ao se constatar que 20% dos deslocamentos na cidade são feitos de bicicleta. Maravilhoso! Isso é número digno da Holanda!
http://caderno.allanpatrick.net/2010/02/20/20-dos-deslocamentos-na-grande-natal-sao-feitos-de-bicicleta/
Sabe o que aconteceu quando comentei esse estudo com amigos de classe média? Nenhum acreditou (minto: os que eu já conscientizei acreditaram
.
Mas é o que Hannah Arendt falava: há setores da sociedade que são “invisíveis”. As faxineiras, os pedreiros, os garis, os ambulantes, centenas de pessoas andam de bicicleta todos os dias, mas ninguém “vê”, afinal eles não provocam congestionamento.
Patrick, li o seu post e comemorei, muito boa e esperançosa notícia essa. Sobre a invisibilidade das pessoas, você acertou em cheio, os mais humildes (e suas necessidades) raramente são considerados, só para fins eleitorais.
Oi,
É a primeira vez que me manifesto no blog, mas já acompanho as observações, críticas, discussões, lições e por aí vai há alguns meses.
Ainda que me considere uma arquiteta frustrada (quem sabe um dia?), sou mais precisamente uma economista com especial curiosidade por urbanismo e políticas públicas.
Gostaria de dizer que acho o tema especialmente relevante e importante; diria até que um dos pontos mais críticos para o Rio de Janeiro e definitivamente um dos mais estreitos gargalos para tudo que diz respeito a desenvolvimento e melhoria dessa cidade – e, por que não, para qualquer pretensão de se organizar eventos de grande porte como Copa do Mundo e Olimpíadas.
O assunto é para ser discutido em miudezas – linhas de ônibus integradas, bilhetes, forma de cobrança (será que realmente precisamos de trocadores de ônibus ou isso é só pela dificuldade de se mudar um status quo, um ranço de sindicalismo – essas pessoas não poderiam ser qualificadas para assumir outras funções??), alternativas de transporte público. Eu, por exemplo, nunca entendi porque a gente insiste tanto em metrô subterrâneo em uma área como a Barra, por exemplo?? Esses bondes como o de Milão e Roma não poderiam ser uma alternativa mais economicamente viável? Mas numa cidade onde se acha que ônibus com o símbolo de metrô é metrô, fica difícil…
O maior problema do transporte público no Rio limita qualquer discussão, qualquer proposta, qualquer estudo sério nesse sentido: MÁFIA. Ônibus no Rio é máfia. Van, mais ainda e por aí vai. Não estou dizendo que a culpa de tudo é do poder público, que só tem corrupto etc, etc, etc. Acho esse discurso totalmente ultrapassado, repetitivo, chato. Mas nesse caso, qualquer coisa vai esbarrar no fato de passar pela Câmera Legislativa onde a máfia do transporte é totalmente infiltrada. E se formos falar de transporte intermunicipal, vai esbarrar na Câmera de Deputados Estadual.
Enfim, só gostaria de dar uma contribuição, pois essas questões voltam a minha cabeça sempre que estou parada num ponto e vejo 10 ônibus fazendo o mesmo percurso passando a em 5 minutos. Mas claro, isso porque eu moro e trabalho na Zona Sul. Se fosse na Zona Norte já seria diferente… E ainda assim, como o ônibus que eu preciso é uma companhia péssima (1001), sobe para a Rocinha, esse demora muito – se é que o motorista vai parar, porque geralmente ele passa por fora, lá na 3a fila…
O pior é que não dá para sustentar com o argumento de que “são mazelas de cidade grande”, “que a nossa cidade não foi planejada” e por aí vai. O que dizer de Londres, que é uma cidade que tem até o esquema de cobrar pela circulação nos centros, mas que as linhas de ônibus são racionais? E Paris? Não digo pelo metrô, cuja abrangência já foi sistematicamente frisada, apesar de todas e muitas mazelas. Tive a boa experiência de andar de ônibus em Paris. Pode ter seus problemas, mas as linhas são racionais, como o metrô. E isso é o mínimo que se pode esperar.
Aliáis, uma coisa que nunca entendi e que depois de conhecer algumas dessas cidades, fiquei ainda mais na dúvida: por que temos várias companhias com concessões para linhas de ônibus?? Isso não torna tudo mais difícil?? Na minha cabeça de economista, vai ser vantajoso para as companhias ter sobreposições de linha, porque tem mais chance de cada uma pegar um pouco daquele movimento e por aí vai. Não seria melhor um esquema como o Metrô Rio??
Fica a questão.
Abraços, Mariana
(Desculpe-me pelo mega comentário!!!)
Oi, Mariana, vou te responder no comentário que vc deixou no post seguinte, tá?
Olá!
Antes de tudo, parabéns. Caramba, puta blogue. Afora a relevância dos assuntos, gostei muito da redação, ritmada, pessoal, despretensiosa.
O que eu ia dizer é que a cidade de São Paulo tb tem uma grande área com baixa densidade no seu extremo sul. São os bairros de Marsillac (46 hab/km²)e Parelheiros (791 hab/km²) [1].
Reservas de mata nativa em rápido e constante processo de destruição, resultado da quase inexistência de política habitacional popular na cidade. Comenta-se que a proximidade do novo trecho do Rodoanel deve acelerar ainda mais este processo.
Abraço!
panopticosp
[1] http://www.seade.gov.br/produtos/msp/car/car1_002.htm
Obrigada! Com relação ao seu comentário, no que diz respeito ao rodoanel, eu não tenho dúvida. Infelizmente. Abraços.
Update: fui lá no teu blog e também adorei, já está no meu GReader