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Nem tão recentemente

Solto no ar

O reinício das aulas tem esse efeito sobre os professores: a gente enlouquece um pouco até acertar toda a grade, os horários, fazer os planejamentos. Eu ainda não consegui fechar tudo, dia sim dia não a coordenadora me liga ou escreve trocando as aulas que tinha combinado comigo na semana anterior, e eu já fiz plano de aula pra umas quatro disciplinas diferentes, mas só uma delas está realmente certa, inclusive com aulas já começadas. Amanhã de manhã tem mais uma e na sexta uma terceira. Semana que vem tá muito longe ainda e nesse meio tempo tudo pode mudar. Deve ser assim mesmo que funcionam as coisas, mas eu nunca me acostumo, e fico sempre cansada antes mesmo do semestre engrenar.
Enquanto isso, deu vontade de falar de cinema. Afinal, a entrega do Oscar, esse prêmio decadente e imperialista americano (é pra ser lido com seriedade e ironia ao mesmo tempo, entende?) é domingo agora, e não sou eu que vou perder. Digam o que disserem, eu adoro assistir. E torcer. E falar mal dos vestidos, revelando meu momento fútil-mulherzinha, que eu não sou de ferro.
Brincadeiras à parte, eu gostaria de comentar umas coisas sobre três dos filmes que concorrem esse ano, em categorias variadas. São os três que eu vi mais recentemente, e gostei por motivos que explico aqui.

AMOR SEM ESCALAS (Up in the air)

Cartaz original do filme

É o filme em que o George Clooney faz o papel de um executivo cujo papel é demitir as pessoas. Imagine que você trabalha numa grande empresa, essa empresa pretende demitir vários funcionários e contrata uma outra empresa para fazer isso, ou seja, terceiriza o processo de comunicar ao empregado que ele está demitido, e quais são as providências que ele deve tomar agora. Eu achei o filme muito coeso, muito. As imagens todas, e a música, o “clima” do filme, é muito acertado, cada coisa contribui para um todo muito bem amarradinho. Antes de tocar nesses temas mais evidentes, os “grandes” temas do filme, tem pequenos detalhes que me chamaram muito a atenção.

1 – Antes de mais nada, devo deixar o meu protesto com relação ao título que o filme teve em português. Ridículo, idiota, tolo, infeliz, enganador. Absolutamente nada a ver com o filme. Não tenho nenhuma sugestão a fazer, mas Amor sem escalas é inaceitável. Tá, eu sei, atrai um monte de incautos (ou incautas, mais provavelmente), que junta essa promessa de romance com a figura de galã do Clooney, mas se você ainda não assistiu o filme, não vá esperando por essa água com açúcar. O filme dói.

2 – Eu fui capturada pelo filme logo na abertura, com aquela sequência de imagens de paisagens aéreas, cidades vistas de cima, do avião, campos, imagens de satélite quase. Eu amo essas imagens. Tem uma beleza quase abstrata em algumas delas, é plasticamente lindo. E do ponto de vista urbano também, eu gosto dessas imagens macro, em que você vê o desenho da cidade, seus limites (quando há), as bordas imprecisas do tecido urbano, as grandes linhas que cortam e estruturam a cidade (avenidas, auto-estradas, rios, ferrovias), a forma como os terrenos da cidade se constituem, se são pequenos lotes, densamente ocupados, se há verde entremeado, se há (e onde) lotes imensos ocupados por shoppings, estacionamentos, áreas industriais, parques urbanos, campi universitários. Diz tanto sobre a cidade e a história de sua ocupação.

Tipos de imagens a que me refiro. Essas fui eu que fiz, do avião, a da esquerda na viagem ao Canadá, e a da direita na viagem à Italia, na saída de Amsterdam, onde fizemos escala.

3 – Outra coisa que durante o filme me chamou a atenção foi a trilha sonora. Uma coisa meio folk, quase melancólica às vezes, letras que funcionavam como um subtexto para o roteiro (desde a música de abertura, que cobre e percorre o território americano tanto quanto o protagonista). Particularmente linda é a última música que toca, quando a sala já está de luzes acesas, e o restinho dos créditos termina de subir. Logo antes da música tem um som de secretária eletrônica, e um cara liga, aparentemente para o diretor do filme, Jason Reitman, porque ele diz Hi, Jason, e aí se identifica como alguém que também perdeu o seu emprego, e compôs a música para ajudar a entender esse momento, ou superar essa sensação de estar meio solto, sem amarras, meio sem saber onde ir, sem saber como será o futuro. Aí ele diz que espera que o Jason goste da música, e se quiser que pode aproveitá-la no filme. Só violão e voz, e o título da música (a frase que ele repete no refrão) é exatamente Up in the air.

4 – Essa sensação que o cara descreve, de estar sem amarras, sem futuro, esse desconcerto diante de um determinado momento na vida, me parece que descreve bem o estado emocional do Ryan (protagonista da história). Só que pra ele, não é um estado transitório, não é “um determinado momento na vida”, é como ele organizou a própria vida. Acho que é uma das interpretações que eu mais gosto do George Clooney. Ele está tão frágil, tão enclausurado, tem um quê nos olhos dele que é meio amedrontado, e ao mesmo tempo, profissional, evasivo, ele tem uma capacidade de empatia ao mesmo tempo que evita meticulosamente qualquer envolvimento emocional, como se ele soubesse (ou temesse) que também teria que “demitir” as pessoas da sua vida em algum momento, ou tivesse receio de “ser demitido”, porque ele sabe a sensação de abandono que isso causa. O final meio aberto também me agradou, eu gosto de ficar me perguntando o que vai acontecer agora, gosto quando carrego um filme pra fora da sala de projeção, quando fico com aquelas personagens na cabeça, imaginando o destino delas, me identificando com algum sentimento, evocando meus próprios fantasmas e emoções.

6 – Nesse sentido eu adorei as três personagens principais, o Ryan Bingham do Clooney, a Alex Goran da Vera Farmiga e a Natalie Keener da Anna Kendrick. Cada um deles tem alguma coisa com que eu posso me identificar, hoje ou em algum momento da minha vida, e é como se eu pudesse compreendê-los, de alguma forma. Ah, sim, para quem não viu, a Alex é uma executiva que, como ele, viaja o tempo todo a trabalho, e com quem ele acaba tendo um envolvimento amoroso do tipo “somos ambos adultos e livres, vamos nos divertir sem compromisso”. E a Natalie é uma mocinha recém contratada pela empresa, cheia de ideias sobre como otimizar o serviço de demitir pessoas usando uma webcam em vez de indo até cada lugar demitir pessoalmente.

7 – Gostei muito dos embates entre o Ryan e a garota. Achei bacana a maneira como os dois personagens vão se alternando nas demonstrações de maturidade e/ou dificuldades pessoais, com tudo o que cada um tem de melhor e pior, até por conta das experiências próprias de cada idade. Acho que a atriz também se saiu extremamente bem. Difícil não ter uma certa condescendência com aqueles 20 e poucos anos, sua arrogância, seus idealismos, a rigidez de suas expectativas, a falta de noção em determinados comentários (alguns diálogos entre ela e a Alex são hilários), eu me senti meio “caramba, não é que a gente é assim mesmo nessa idade? putz”. Acho que eu meio que viajei pros meus próprios 20 e poucos anos, quando eu tinha tantos pontos em comum com aquela mocinha: um monte de certezas que toda hora eram chacoalhadas mas eu fazia de tudo pra não dar o braço a torcer, eu também me sentia A tal, A brilhante, e tinha no fundo tantos medos, e fazia tantos planos exatamente do mesmo jeito: quando eu tiver tantos anos, eu quero que seja assim ou assado, quero estar fazendo tal coisa, em tal lugar. Coisa mais tolinha, hoje dá vontade até de rir.

8 – Por fim, achei o tema geral tão interessante, e provavelmente, tão oportuno pros americanos. Não gosto dessa palavra aqui, oportuno, mas não consigo achar outra. Tão sincrônico, talvez. É uma experiência que eles estão passando a sério, muito mais do que nós aqui, essa coisa do desemprego, da instabilidade econômica. E dentro desse aspecto mais social, o diretor e o roteirista acharam um jeito de encaixar uma história tão pessoal. Tem camadas e camadas de metáforas ali se a gente pensa na vida do Ryan, no trabalho que ele faz, e no tema geral do filme. A coisa de falar do desemprego aqui é muito mais do que pano de fundo, tá costurado nas entranhas da lente pessoal e psicológica com que se pode olhar o personagem principal, que vive num estado afetivo e emocional de desemprego contínuo, up in the air, solto. A cereja do bolo é que todos os depoimentos dos desempregados no filme são reais, ou seja, não são atores ali, mas gente de verdade, demitida de verdade, falando dos seus medos, de como encarar a família, da sensação de ser traído pela firma em que trabalhou tantos anos da vida. Foi uma forma inteligente e sensível de tratar o assunto, e ficou bem encaixada na estrutura narrativa.

Falei demais, né? Vocês ainda têm fôlego pros outros filmes? Eu queria falar de Invictus e de A Fita Branca. Prometo não falar tanto de cada um deles. Deixa eu ir dar aula, que tá na minha hora. Quando eu voltar, eu escrevo mais.

6 comentários para Solto no ar

  • madoka

    Oi Ana,
    Ainda não vi o filme, vou guardar a dica, e cá entre nós só o George Cloney já vale o filme né? rs. Já que comentou sobre desemprego, ontem mesmo vi Tokyo Sonata de Kiyoshi Kurosawa, é um belo filme e relata a vida de um pai de família que perde o emprego que tinha há anos. O filme é triste e simbólico. Estou com ele na cabeça ainda.
    Então, vem depois comentar dos vestidos que vc viu no tapete vermelho hehehehehe.

    Não me provoque, madoka, que eu venho e comento mesmo! Esse Tokyo Sonata eu não conheço, vou procurar.
    E sim, claro, o clooney vale praticamente qualquer filme. :-)

  • Gutemberg Júnior

    Oi Ana, faz é tempo que não pego um cineminha… preciso voltar ao hábito de ver um filme por semana que seja.
    Então… eu não vi o filme ainda…
    acho muito engraçado essas traduções de títulos, e as próprias dublagem(pra quem gosta de assistir filme dublado)
    o título quase nunca tem haver com o original, e as dublagens colocam vozes também nada haver … nem parecidas ao esteriótipo do personagem.

    Algo interessante que você comentou é que sempre temos esse olhar “amoroso” sobre os filmes… esperando que todos sejam um “lisbela e o prisioneiro”, ou NOVELAS do PLINPLIN.
    e os norte-americanos não são assim, pelo contrário tudo é muito prático, uma frase que define bem é essa sua – “somos ambos adultos e livres, vamos nos divertir sem compromisso”.
    hehehe, pelos seriados que eu assisto, ou tudo acaba em sexo ou em ceveja ou ainda em café com cake!

    Valeu a DICA!
    abração.. Boa semana.

    Pra vc também!

  • Cláudia Marcanth

    E eu que não sabia que os depoimentos dos desempregados eram reais! Muito legal essa idéia. E acho que foi ainda melhor saber disso depois de ter visto o filme. Explico: enquanto eu assitia a fita, me passou pela cabeça que aqueles “atores” que faziam os desempregados eram simplesmente geniais. E era uma quantidade enorme de gente de talento! E eu pensava – “Que desperdício, quantos atores bons fazendo só pontas!” Agora que eu sei da verdade, tudo volta aos eixos, mas com nova configuração. E a magia continua intocada no passado.

    Adorei a informação!
    Quero mais, principalmente Invictus – estou curiosa para saber o que você achou do filme!
    Bjs!

    Fui ver Educação essa semana, adorei também. E estou louca pelo Segredo dos seus olhos, o argentino que concorre ao oscar de melhor filme estrangeiro. Nossa, minha lista de filmes tá crescendo. Mas de maneira geral, achei a safra do ano passado melhor. Não tem como bater O Leitor, Dúvida e Gran Torino.

  • Eu adorei o filme tb. Achei o George Clooney perfeito (pleonasmo). Vc colocou exatamente as mesmas indagações q me fiz ao sair do cinema, a questão do “up in the air” em tudo no filme, em todas as metáforas. E o filme tb me conquistou pelas cenas aéreas – deu vontade de pegar o 1º avião e… viajar. (Outro pleonasmo.) :D

    Mas infelizmente acho q não é um filme q vai levar Oscar. Pq a Academia é aquela caixinha de não-surpresas. :(

    Seus pleonasmos foram perfeitos!
    É, não ganha nada mesmo, quem sabe melhor coadjuvante pra menina, a Anna Kendrick. Ela tá mesmo muito bem como jovenzinha arrogante e insegura. Minha atenção está no filme estrangeiro. dizem que vai ganhar o francês, A Promessa, que eu não vi, não saiu aqui ainda. Eu vi o alemão A Fita Branca e quero muito ver o argentino, O segredo de seus olhos. Domingo tou lá, na frente da telinha.

  • Nêga, no oscar é nóis. Vamos berrar de paixão ou ódio em cada prêmio concedido e esmigalhar vestidos. Pois a teoria é a seguinte: pobre mal-vestido é de lei, né? eu por exemplo só visto que o povo dá então não dá pra julgar, mas aquelas vadias todas recebem vestidos de graça de estilistas internacioais, são ricas pra pagar pelo bom gosto do melhor personal stylist do mundo, cabeleireiros renomados se matam pra fazer os penteados e elas ainda erram? Munida do melhor critério de julgamento do mundo, a inveja assassina, eu prometo marcar em cima.
    bejos

    Hahaha, pronto, as coisas ganharam outra dimensão agora. Você está prenhe de razão (gostou dessa?) e eu estarei contigo na maledicência. É nóis na fita e os preibói no dvd!

  • Alline

    Ai que eu amei este filme tb, NaPaul. George (meu vizinho, gente, por isso a intimidade) tá perfeito mesmo. Um olhar amendrotado, ao mesmo tempo seguro do que decidiu pra sua vida…não sei explicar. Adorei, adorei, adorei. Mas que acho que Avatar leva, pq né, campeão de bilheteria e blabla.
    Vou me juntar a ti e a Suzi pra falar do povo. AHAHA.
    E Ana, modernize-se: é nós na fita e os playboy no Blu-Ray! ahahahahaha.
    Bjs, saudades, volta logo pra cá.

    Isso que dá eu demorar a responder. Perdi o timing. Não deu Avatar, né? Achei bom. Tou louca pra voltar pra aí, pode acreditar. Saudades de você.

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