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Nem tão recentemente

Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (1)

Esta semana foi punk. Muito trabalho, as aulas entraram no ritmo avassalador de sempre, com o agravante de que este ano eu tenho mais turmas e cada turma tem mais alunos, e entre os vários deslocamentos, os horários de aula, de estudo e atividades domésticas, eu trabalhei demais, dormi de menos e cheguei ao fim da semana exausta. Parece que vai ser assim o semestre todo.

Mas a semana foi punk também em outros sentidos. E um deles foi ter acompanhado, estarrecida, as declarações do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), no Supremo Tribunal Federal, a respeito das cotas para negros nas universidades brasileiras. Veja bem, eu acho perfeitamente legítimo uma pessoa ser contra a adoção das cotas, e já li argumentos honestos e válidos nesse sentido. Eu mesma confesso que no início era contra as cotas, acompanhei por bastante tempo várias discussões a respeito, li artigos e opiniões contra e a favor, fui ficando cada vez mais na dúvida, e hoje estou convencida que a política de cotas raciais nas universidades públicas é um instrumento – que não deve ser o único – mas é um instrumento legal, necessário, e tudo indica que de excelentes resultados, para a inclusão social e econômica de uma parcela imensa da população brasileira que tem especificidades históricas que justificam e demandam ações como essa. No mínimo, acho que a política de cotas trouxe e continua trazendo um benefício gigantesco para o país, que é provocar um debate às claras sobre a discriminação racial no Brasil, trazendo muitas vezes à luz recalques insuspeitos e ressentimentos velados, desmascarando o racismo que infelizmente existe no nosso país, camuflado por uma ilusão de convivência harmônica. Sim, enquanto os negros se comportarem direitinho, souberem seu lugar na sociedade e não perturbarem reivindicando coisas absurdas, o Brasil será um oásis de paz e harmonia nesse aspecto.

Entre as várias estultices proferidas pelo senador, nenhuma me chocou mais do que creditar a miscigenação do povo brasileiro a relações consensuais entre senhores e escravas. Não consigo acreditar que isso seja falta de conhecimento histórico, é tão insultuoso e revoltante que só pode ser má-fé. Alguém precisa explicar para ele que estupro e violência não se dá só quando há sangue, terror e armas apontadas, ou quando a vítima se debate furiosamente. O constrangimento, o medo da punição e a falta de alternativa também caracterizam o estupro. Só se pode falar em relações consensuais quando há possibilidade de escolha. Consentir pressupõe que a alternativa – dizer não – é igualmente possível. E ninguém em sã consciência vai me dizer que as escravas podiam simplesmente virar pros senhores e dizer “não quero” impunemente. Aliás, querer, desejar, é um ato de absoluta subjetividade e os escravos e escravas nunca foram tratados como sujeitos de seus quereres, seus corpos e destinos, mas sim como objetos, como bens, como patrimônio material. Eram contabilizados da mesma maneira que cabeças de gado ou pés de milho, e tinham tanto direito de querer ou decidir alguma coisa sobre suas vidas quanto um boi. Quando o senador diz que a miscigenação no Brasil, como processo histórico, foi majoritariamente consensual, ele ofende milhões de mulheres negras, daquele tempo e de hoje, e por extensão, milhões de mulheres simplesmente, que ainda hoje vivem situações de constrangimento e violência por esse Brasil afora.

Pensando nisso, eu quis trazer hoje um trecho de um livro que estou lendo, escrito por Ana Maria Gonçalves, chamado Um defeito de cor. Eu ia acabar falando dele mesmo, mas achei que a ocasião era especialmente oportuna, e vai como desagravo e homenagem a tantas mulheres, escravas, negras, que fizeram parte da História deste país e tiveram participações importantes na luta pelo fim da escravidão. Eu estou particularmente encantada com o livro. Tem 950 páginas, eu ainda estou na 320, mas estou fascinada. A autora narra com maestria a história de Kehinde, uma mulher que, quando criança, viu sua mãe e seu irmão serem mortos na aldeia em que vivia, na África, após o que se muda com a avó e a irmã gêmea para uma outra cidade, onde acaba sendo capturada e trazida como escrava para o Brasil. Aliás, quem narra a história é a própria Kehinde, que no Brasil recebeu o nome de Luísa Gama. Consta que ela seria a mãe do poeta romântico brasileiro Luís Gama, e que o livro é na verdade, o relato, em primeira pessoa, da vida dela, que, já idosa, conta a história de sua vida para o filho com quem ela perdeu contato. A linguagem é saborosa, flui com facilidade, o leitor vai ficando enredado por aquelas descrições e acontecimentos, e vai querendo saber sempre mais das danças, comidas, roupas, da vida no engenho da Ilha de Itaparica, das andanças na cidade de Salvador na primeira metade do século XIX, dos rituais e orixás, das relações com as sinhás e com os outros escravos e escravas, das tramas e rebeliões, de tudo. Achei muito vívida e bonita a descrição que ela faz da cidade de Uidá, para onde ela, a irmã gêmea e a avó se mudaram após a morte da mãe. A visão que uma criança pode ter de uma cidade, colorida, cheia de movimento e potencial. Como será que nossas crianças vêem as cidades em que vivem?

“Uidá era muito mais interessante que Savalu, e a minha avó segurava as nossas mãos para que não nos perdêssemos. Eu tinha vontade de parar e ficar olhando tudo o que acontecia ao meu redor, as mulheres que andavam com vários colares de contas, as casas que eram maiores do que eu jamais teria imaginado, com cobertura de palha e paredes de barro vazadas por portas muito baixas, e ainda tomavam os dois lados da rua, quase sem nenhum espaço entre elas. Gostei quando chegamos à praça, ao lado do mercado, e ficamos admirando as roupas, as pessoas, muita gente com marcas que nem a minha avó sabia de onde eram. Quase todas as mulheres andavam cobertas, pelo menos da cintura para baixo, e os panos que usavam eram ricos em cores e em bordados com búzios e sementes, que também enfeitavam os diversos colares e pulseiras e, às vezes, os penteados. (…) O mercado era grande e muito bem dividido, com lugares certos para se comprar cerâmicas, tecidos, frutas, artigos de religião, animais e, principalmente, comida. (…) As pessoas circulavam procurando os produtos de que precisavam ou assistiam às apresentações de dança, de acrobacias, de música e até de desafios de versos, que eu nunca tinha visto. A minha avó estendeu uma esteira para mim e para a Taiwo dentro da barraca, ao lado da mulher, e dormi pensando em como seria a feira nos dias seguintes, que grandes novidades estariam esperando por nós em Uidá”.

PS 1: Lá no título do post, o (1) ao lado do nome da Ana Maria é porque, mais adiante, no mesmo livro, há uma descrição da cidade de Salvador que é uma verdadeira aula sobre cidades coloniais no Brasil, e eu pretendo reproduzí-lo aqui em breve.

PS 2: Sobre as asneiras ditas pelo Senador no STF, há estes outros textos que eu também recomendo, lidos via Google Reader do Idelber.

UPDATE: Acabei de ler um post na Mary W que eu achei fora de série, sobre essa questão das cotas. Perfeito pro pessoal que torce o nariz e diz que as cotas deviam ser apenas sociais, por critério de renda. Vai ler.

6 comentários para Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (1)

  • Eu também acompanho o google reader do Idelber Avelar, o que nos restou de sua genialidade depois que fechou (espero que temporariamente!) seu blogue e parou de tuitar.

    Fiquei muito curioso em ler o livro.

    P.S.: Meu Deus, 952 páginas? Onde eu vou arrumar tempo :) .

    Não me fale em arrumar tempo. Você vê pelo tempo que me leva pra responder os comentários… Mas o livro é tão gostoso que a gente não tem vontade de largar. O difícil é arrumar tempo pra fazer o resto todo.

  • Saiu no blogue do Nassif um outro artigo interessante do prof. Flávio Ferreira:

    http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/15/os-investimentos-nas-olimpiadas/

    Opa, obrigada, Patrick, eu não tinha visto o texto no nassif. Esse é um texto que eu recebi pelo mailing list do programa de pós-graduação da ufrj, onde fiz o mestrado. O flávio escreve muito bem mesmo.

  • Um Defeito de Cor é um livraço. Gostei muito. Sobre as insanidades do senador, prefiro nem comentar…
    Beijos.

    Deixemos o senador pra lá. Eu estou adorando o livro. Bjs

  • Gutemberg Júnior

    Ana, estou muito curioso pra ler o livro, aliás.. assim como os filmes.. que tal dar dicas de livros também =))))
    acho até que já disse isso outra vez. ENFIM.

    Li a entrevista do Senador Demóstenes Torres, assim como um blogueiro colocou numa resposta: “Tirando as bobagens da casagrande e da senzala, concordo com ele.” faço dele minhas palavras…
    Lógico que os comentários foram de mau gosto, entretanto o ponto de vista do Torres é bem claro e convincente(pra mim).
    O fato de ter cota pra negros não implicará em um equilíbrio educacional, pelo contrário apenas fomenta o preconceito racial.
    Penso que as cotas deveriam vir para tentar de antemão organizar o programa educacional público que está extremamente defasado. Explicando-me: adotariam as cotas, tratariam do ensino público infanto-juvenil equiparando-o com o particular ou melhor, depois todos teriam os mesmos direitos. Claro que não se deve deixar de lado o histórico do nosso povo, mas existem outras coisas que devem ser levadas em conta.
    Vejo que se continuar com as cotas, o próprio cidadão “negro” não estudará o suficiente, pois pra este em um concurso(vestibular) haverá as cotas.. que estão destinadas a eles independente. Não sei os dados sobre a quantidade de alunos que optam pelas cotas, deve ser grande, porém já o avalia de outra forma… nunca será igual a avaliação do ‘não cotista X o não cotista’.
    Então acredito que se as cotas (de antemão, como já deixei claro acima) forem destinadas aos pobres(alunos oriundos de escolas públicas, com renda familiar abaixo de X valor) AI SIM, estamos incluindo o cidadão(aluno) ao mundo universitário. O que não deixará de incluir os negros, já que a população dos negros é maior que a dos brancos, VIDE:http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u401394.shtml, então continuaremos com a política do “correto” e atenderá a maior parte dos cidadãos em geral.

    Grande abraço;

    Oi, Gutemberg. como eu disse, é perfeitamente possível ter uma opinião contrária às cotas com sinceridade e elegância. Fiquei pensando bastante nisso que você disse, porque era a minha opinião também, assim que as cotas apareceram, e ainda é o principal argumento que eu escuto. Eu estou convencida, entretanto, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Se houver só cotas sociais, por critério de renda, não creio que se atinja plenamente o aspecto da desigualdade racial entranhada na própria estrutura da nossa sociedade. Acho que o que a maioria das pessoas quer dizer quando fala que as cotas acirram o problema racial em vez de ajudar a resolvê-lo é que as cotas expõem dolorosamente uma questão que a gente adora colocar pra debaixo do tapete. Sabe que eu li o seu comentário à noite, antes de dormir, e acordei pensando nisso? E aí me vieram umas imagens à cabeça, vou escrever a respeito e publico, e a gente continua conversando a respeito, se vc quiser.
    Abração

  • Gutemberg Júnior

    Certíssimo Ana,Lóógico que eu quero.
    seu blog é VISITA diária CERTA no meu dia!
    abraços

  • Suel

    Eu morei na Bahia por um bom tempo, na cidade de Jacobina. Mas as cidades ao redor são MUITO dependentes de Salvador, então eu acabei conhecendo um pouco.
    É uma bela cidade, mas bastante mal conservada…
    A propósito, professora: Não resisti e comprei os dois livros! rs

    Hahaha, fez muito bem, eu sabia que você não ia resistir. Vai tirar ótimo proveito de ambos.

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