No final de 2008, eu me inscrevi no processo de seleção para o doutorado em Urbanismo na UFRJ, no mesmo programa em que havia feito o mestrado. Passei na primeira fase, cheguei a fazer a entrevista, mas no final, não fui selecionada, e isso – confesso – me deixou bem chateada durante um tempo. Conversando semanas depois com a professora que coordenava o processo de seleção, ela me disse que o meu projeto de tese era bom, mas que faltavam, no meu currículo, mais publicações, e que era importante – para mim e, evidentemente, para o programa de pós-graduação – ter uma inserção maior no circuito acadêmico, com artigos em revistas, anais de eventos, participação em seminários e congressos (juro que eu só pensei na hora: quem tem tempo pra tudo isso, meu deus?). O tal do Currículo Lattes. Claro, o programa é excelente, nota máxima na avaliação da CAPES, e parte disso se deve à qualificação não só dos professores, mas também dos mestrandos e doutorandos que estudam lá.
Fiquei um bocado abatida, porque havia sido uma tour de force, pra mim, sequer ter produzido aquele projeto de tese, praticamente sozinha, num ano difícil e cansativo. Volta a fita um bocado pra eu te contar a história.
Ao terminar o Ensino Médio, na época em que ele ainda se chamava Científico (ou já era 2o. Grau, não lembro, pra você ver que faz tempo), eu fiz vestibular para Comunicação Social. Passei, fiz UERJ, me formei. Engraçado olhar hoje pra trás e ver que eu, voluntariamente, optei por um curso noturno, só porque, sendo garota de família com recursos muito reduzidos, moradora da Baixada Fluminense, eu queria poder trabalhar durante o dia. Trabalhei como jornalista um tempo, sentindo, desde o princípio, que aquela não era bem a minha praia.
Foram anos até surgir a oportunidade de voltar a estudar. Já estava casada, tinha dois filhos bem pequenos, e por motivos que eu nem sei explicar direito, resolvi fazer Arquitetura. Foi muito legal voltar à faculdade aos 30 anos de idade, entrei achando que queria me dedicar à composição de interiores, sem muita noção do amplo espectro de possibilidades de atuação profissional do arquiteto, e logo nos primeiros períodos me apaixonei pela área do Urbanismo, que não deixei de estudar nunca mais.
Fazer um curso tão trabalhoso com dois filhos tão pequenos não é fácil. Os meninos tinham 3 anos (o mais velho) e 1 ano e meio (o caçula) quando eu comecei. Eu queria fazer os trabalhos todos, ler os textos, tirar boas notas, participar das festas e viagens da turma, mas também queria continuar dando atenção ao marido, fazer o supermercado, levar os meninos à pediatra, acompanhar as festinhas e apresentações na creche e, mais tarde, na escolinha. Estudando com uma turma em que a média de idade era 18 anos, eu olhava em volta e ainda por cima também queria ser magra e linda e jovem como as minhas amiguinhas de classe. Queria, ué, fazer o quê, estou sendo franca. Depois a gente aprende a ter uma visão mais crítica dessas coisas todas, dessa pressão toda, aprende a olhar pros próprios valores, mas atire o primeiro tênis de ginástica a mulher que nunca se viu assaltada por essas questões.
Pra variar, tergiverso. Não é à toa que meus posts saem tão compridos.
Acabei optando por priorizar minha família, eu quis estar mais perto dos meus filhos, acompanhar com mais tempo o seu crescimento. Eu tinha essa possibilidade e não me arrependo de tê-la aproveitado. Abri mão de fazer mais estágios e investir mais no meu sucesso profissional, preferindo me dedicar às bolsas de iniciação científica que me davam mais flexibilidade de horário. Acabei a faculdade, emendei o mestrado, defendido em 2004, e cansei. Meus colegas estavam todos trabalhando, eu tinha feito relativamente pouca coisa até então, estava exausta do ritmo acadêmico e, com os meninos já maiores, eu queria começar a trabalhar. Todo mundo diz que eu devia ter aproveitado o embalo e feito o doutorado logo, mas eu simplesmente não dava conta.
Entre diversos outros projetos, comecei a dar aulas, que era uma coisa que eu sempre soube que adorava fazer. E aí entra a questão. Para ter alguma chance de crescimento no mundo acadêmico, hoje, o mestrado só já não basta. Perdi mais de um concurso na hora da prova de títulos, porque embora a minha prova ou entrevista tenha sido das melhores, algum concorrente pontuava mais por ser doutor, e levava a vaga. Então, chegamos no ponto em que eu comecei este post. A gente se afasta um tiquinho da Universidade e é impressionante como perde ritmo e sobretudo contatos. Deixa de fazer parte da turminha, sabe como?
Ao longo de 2009, refeita da chateação por não ter passado da primeira vez, eu resolvi que se a questão era essa – publicar – então eu ia me dedicar a isso. Criei o blog (uau, fui conferir, e faremos 1 ano de existência neste próximo domingo, 28 de março! Oba!), saí de uma faculdade e passei a dar aula em outra, e escrevi. Tenho inveja de quem consegue escrever muito, postar quase diariamente, ler mais de dois livros por mês, participar de tanto congresso, escrever em tanto jornal, blog, revista, coluna. Fico me perguntando se eu é que sou preguiçosa, ou se estou romanceando demais sobre a vida dos outros que é tão corrida e cansativa quanto a minha. É que eu quero escrever e estudar, mas também quero ir ao cinema, e preparar boas aulas, e namorar, e jantar com meus filhos já tão grandes, e dormir depois do almoço no domingo, e sair com os amigos de vez em quando. Fazer ginástica não tá dando tempo mesmo, mas até isso eu queria poder corrigir. Não mais pra ser magra e linda e jovem, mas pra não sentir tanta dor na lombar e no pescoço, pra controlar a pressão e o colesterol sem precisar de tanto remédio e pra poder conseguir subir os dois andares de escada até minha casa sem chegar ofegante na porta.
Daí que ao longo do ano, foram meia dúzia de artigos emplacados por aí, tem um já aceito para publicação, mas que eu tenho que fazer umas alterações até 14 de abril, outro que eu quero muito poder terminar, e o prazo é segunda-feira agora (e tá atrasaaaaaado), e este aqui,que é o meu primeiro artigo publicado em revista estrangeira. É uma publicação ligada à Rede de Pesquisa Urbana do México, e o artigo está em espanhol. Nele, eu apresento parte das conclusões da minha dissertação de mestrado, que foi sobre quadras residenciais com pátio central, uma tipologia não muito comum aqui no Rio. O objetivo era analisar qual o papel que a forma, o uso e a gestão teriam sobre o desempenho destas quadras. Neste artigo, eu me atenho à questão da gestão (era o tema da revista), avaliando a atuação das associações de moradores e seu impacto na percepção que os habitantes locais têm do espaço em que residem. Se alguém tiver interesse, tem aqui a versão em português.
Se tudo correr bem, no fim do ano, eu tento o doutorado de novo. Vamos ver.
PS, fora do assunto: o texto do Thiago fez tanto sucesso (merecido) que teve gente (oi, Hele), nos comentários, perguntando se ele tem blog. Tem, mas escreve menos do que devia, o bandido. Anotem, visitem e cobrem dele: http://www.item21.blogspot.com/
Outro PS: Cansada e com sono ontem à noite, eu esqueci de acrescentar um detalhe importantíssimo. Como eu, pra variar, estava atrasada e sem tempo pra fazer a tradução do artigo para o espanhol, recorri a serviços profissionais. E fiquei feliz da vida com a competência e rapidez do trabalho. Estou falando, nada mais nada menos, que da nossa Fal, tradutora de mão cheia. Sem a ajuda dela, eu não teria conseguido enviar este artigo. Recomendo muito.


Ana querida… Como sempre você escreve divinamente. ( quero ser seu alunooooo)… vem pra Vila Velha dar aula pra nóóóós!!!
OU uma palestra que seja..
passo depois teu contato pra minha coordenadora.
Estou querendo montar um blog ( com um meeedo tamanho )… mas acredito que superarei..
Que linda a história… entrar na faculdade depois de casamento e filhos… tenho colegas de sala assim nessa mesma situação.. e indicarei MAIS uma vez seu BLOG… para nutrir de poesia e bons “arq.urbe-textos”
Parabéééns pelo 1 ano de BLOG.
e estou na torcida pelo Doutorado!!!
grande e forte abraço!!!
Obrigada! Se você montar seu blog, não deixe de nos avisar! Abração.
Sempre muito bom entrar aqui, na sua casa e conhecer um tiquinho a mais de você. E saber essas coisas todas que vc falou. Eu acredito que não seja científico e sim 2o. grau, pois vi suas fotos lá na Suzi, e temos quase a mesma faixa etária eu acho né, então é 2o. grau menina, ôchê!
E que pique vc tem, com dois filhos voltar a estudar , prestar vestibular e ainda passar numa pública? É muito bom o ambiente universitário, fala sério? Eu ainda volto, apesar de estar longe em todos os sentidos. Quem sabe né?
É bem aquela música dos titãs, a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade…tomara que seja aprovada no doutorado, também estou torcendo. E que dê tempo pra todas as coisas aí.
Queria uma prof assim como vc viu?
bjo
madoka
É, madoka, era 2o. grau, sim, rsrsrsrs. Eu vou fazer 45 esse ano. E ter voltado a estudar ajudou muito a manter esse pique. Dar aula também é legal nesse aspecto, a gente rejuvenesce, se mantém em contato com o novo, se força a estar atualizado. Eu adoro essa música do Titãs que vc mencionou. Você tem fome de quê, não é mesmo?
Vida louca
. Eu sei como é isso. Trabalho 10 horas por dia, faço (?) uma segunda faculdade à noite (pensando em desistir pra fazer uma especialização), com uma namorada a 280 km de distância (e eu não gosto de dirigir!). Ufa, mas nem se compara. Você é uma heroína.
Somos todos, Patrick. Esse país tá cheio de gente com cada história pra contar que até Deus duvida.
Ai que orgulho, nega!
Bao demais.
E que venham outros artigos. E outros concursos e a prova de doutorado…
Um beijo enorme. Na torcida sempre, com pom-pom em punho e tudo mais!
Sabia que vc é um exemplo pra mim? E que seu estímulo e apoio tem a maior importância? Pois é. Bjs
A sua trajetória eu conheço e acompanho bem de perto (Meu Deus, quanto tempo já se passou desde aquela foto sua no jornal amamentando o Pedro enquanto realizava as provas para o vestibular!).
Eu fico sempre aqui, por perto, torcendo e reafirmando a minha admiração pelo seu empenho, coragem e inteligência. A nossa vida é sempre de formiguinha, cada dia uma conquista. E você tem provado que vale a pena não desistir, mesmo quando as pedras no caminho parecem pesadas demais para movê-las de lugar.
Sou sua fã!
PS: Sobre o doutorado, fiquei curiosa – UFRJ? Urbanismo? Ou continua aquela idéia de virada? Acho que precisamos acertar aquele nosso café para colocar o papo em dia!
E parabéns para o filhão, que começa na semana que vem na Engenharia da UFRJ!
Sou muito a favor do café, mas acho que antes de 15 de abril eu praticamente não existo fora do trabalho. Prazos, prazos, prazos. A idéia não mudou em nada, é só que tem coisas que precisam ser mais palpáveis antes da gente sair anunciando.
Acabei de ler o teu artigo – estava há anos para te pedir o texto e sempre esquecia. Adorei conhecer a história da “nossa praça” pública. E você explica muito bem o paradoxo. Texto claro e inteligente – como você!
Vou aproveitar as palavras da Alline e da Cláudia.
“E que venham outros artigos. E outros concursos e a prova de doutorado…”
“Eu fico sempre aqui torcendo e reafirmando a minha admiração pelo seu empenho, coragem e inteligência.
Sou seu fã!”
Obrigada, Clau. Eu também torço tanto por você, sempre, vc sabe disso.
Eu e seu pai aqui na torcida.
Estamos muito orgulhosos de voce.
Pra vcs eu nem preciso dizer nada. Eu amo vocês dois.