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Nem tão recentemente

Desculpa esfarrapada, de novo.

Eu não vou me alongar muito, porque todo mundo já leu, já viu, já reclamou. É só pra não deixar passar em branco e marcar minha posição também.

O evento foi evangélico, como podia ter sido católico, espírita ou budista, não interessa. Foi na Zona Sul, como podia ter sido no Centro ou na Zona Oeste, tanto faz. Foi uma sucessão de erros grossos e teve uma lista de consequências danosas à cidade como um todo, além de desnudar, mais uma vez, o despreparo dos nossos governantes para administrar a cidade, começando pelo argumento estapafúrdio de que dimensionaram mal a proporção do evento, passando pelo desencontro de informações e o repetitivo empurra-empurra de responsabilidades e terminando com o pedido de desculpas (de novo) patético do prefeito, com a promessa vã de que “não vai acontecer de novo”. Pode começar lendo aqui a bravata do Sr. Edir Macedo, que desafia a cidade e as autoridades impunemente, sabendo do poder de fogo que tem. Leia-se aí, com todas as letras, poder político, além do econômico.

Aliás, parênteses. Não é novidade pra ninguém, mas eu vou deixar bem claro que não há a mais remota possibilidade de eu vir a votar no Serra nem pra síndico de prédio, que dirá pra presidente. Não voto e faço campanha contra. Mas quando eu vejo o PT negociando apoio com Garotinho ou Crivella me dá um desespero e uma vergonha tão grandes que chacoalham todas as minhas mais tolerantes convicções. Eu queria mesmo era que o Idelber viesse me explicar por que cargas d’água, em nome do tabuleiro político-eleitoral, eu devo engolir esse tipo de aliança. Isso é um apelo sincero e numa boa, de quem quer aprender e entender mesmo. Fecha parênteses.

Mas voltando ao nosso feriado. Foi um espetáculo de mídia, ocorreu em várias capitais do país simultaneamente (olha aqui o Diário de São Paulo contando dos 16 km de engarrafamento na Marginal Pinheiros por conta da igreja de lá), e muito mais do que “louvar a Deus”, isso só pode ser demonstração de poder em ano eleitoral (pra quem tiver interesse, esse link é de uma matéria no Jornal do Brasil, em que a presidente da Associação de Moradores de Botafogo afirma que o administrador regional da área, Rodrigo Pian, comunicou aos representantes comunitários, durante reunião, que o culto era um acontecimento político, porque “o prefeito não pode desperdiçar um milhão de votos”).

Agora, como é que a prefeitura autoriza uma coisa dessas? Baseado no fato de que os organizadores prometeram que só dava 100 mil pessoas e os ônibus iam ficar estacionados nos locais autorizados? Se a Associação de Moradores da minha rua solicitar licença pra fazer uma festinha na praça com 500 pessoas e aparecerem 5.000, infernizando a vida do bairro, quem é que vai pagar o pato? É fácil assim? Eu digo um número, a prefeitura engole e depois eu faço o que bem entendo? Se fosse a primeira vez que isso tivesse acontecido, a gente ainda podia dar desconto, mas não é. E não será a última, a julgar pela ameaça do líder da igreja (sim, o que ele fez foi ameaça, no mesmo nível de qualquer bandido que peita a polícia dizendo que vai “barbarizar”). Bom, depois de tudo que eu acabei de falar essas perguntas ficam até um pouco sem sentido…

Além do aspecto abominável mas pontual do trânsito caótico (eu digo pontual porque circunscrito num tempo curto, ainda que inaceitável assim mesmo), há os custos e danos do dia seguinte, com a sujeira deixada e a depredação de árvores do parque. Há o cerceamento do direito das pessoas de circular (porque não só os ônibus regulares quase desapareceram, já que as empresas deslocaram todos para transportar os fiéis, por mais que digam o contrário, mas os poucos que rodavam não conseguiam fazer seus trajetos por causa dos engarrafamentos e obstruções no trânsito); há o cerceamento do direito ao lazer porque as pistas do Aterro, que em dias de feriado deveriam ser espaço público de recreação ficaram tomadas por filas intermináveis de ônibus estacionados irregularmente. Mas sobretudo, ao meu ver, há o desprezo debochado e o desrespeito a qualquer traço de ordem pública, e a sensação de que nossos governantes não têm força, coragem ou interesse para fazer valer a lei. E quando, numa cidade, a população se vê assim abandonada por quem deveria cuidar do bem público, isso abre ou alimenta o precedente perigoso do salve-se quem puder, que agora vale tudo. E isso, sim, é preocupante.

6 comentários para Desculpa esfarrapada, de novo.

  • Alline

    Melhor resenha sobre o “acontecido” que eu li, Ana.
    é um absurdo tao grande…
    E eu tou com vc chamando o Idelber pra me explicar a aliança com o Garotinho. Eu sou limitada, nao consigo entender isso nao.
    Beijos

    Ai, Alline, eu tomei puxão de orelha do Idelber por um texto que tá mesmo meio desordenado, ele tem toda razão. Minha indignação continua, mas eu precisaria deixar mais claro exatamente o que é que aconteceu de errado no episódio, e não ficar brandindo leis em vão e sobretudo dando ibope pros caras, que é exatamente o que eles querem.

  • madoka

    Decepção total né Ana. Garotinho, Crivella? é sério? Uma vez dentro da política, muitas àguas devem rolar, vai entender os caras. Então, até do outro lado deste mundo de Deus o tal Macedo com seus tentáculos tá abocanhando seu espaço, é inacreditável. Batem na sua porta.
    E as aulas na UFRJ já começaram?
    beijão

    Oi, madoka, começaram, e por isso eu tou tão sumida. Tempo zero, tá punk o troço pro meu lado (mas eu tou adorando, claro). Acho que vou fazer uns posts “embromation”, só pra não deixar o blog às moscas.

  • Bom dia, moro agora numa cidadezinha no sul da Bahia, Itacaré e os eventos evangélicos são parte da rotina ja que nosso prefeito é evangélico. Para você ter uma idéia da força desses cultos aqui, o carnaval acabou, pelo menos o carnaval oficial, com trios elétricos, que traziam turistas e dava uma força para a economia local que diga-se de passagem esta indo à falência.
    Este ano não havia lixeiras na cidade nem banheiro publico durante o periodo de carnaval, até porque você sabe, esses seguidores do demônio tem que fazer xixi na rua mesmo.
    Outro problema que preocupa e muito qualquer um que não é politico por aqui são as chuvas.
    Ja tivemos um alagamento, coisa pouca, casas de pobre cheias d’agua, algumas pousadas, a minha inclusive com o jardim que virou um brejo e por ai vai.
    Itacaré não tem rede de esgoto, apesar da embasa estar construindo uns bueiros aqui e ali e prometerem que dentro de seis meses toda a cidade sera servida pelo saneamento basico, ops, isso eles prometeram acho que faz um ano mais ou menos, todo o esgoto da cidade continua sendo jogado na praia da coroa, no centro historico, ou no que sobrou dele.
    Estou preocupada com o morro, um morro onde empurraram as pessoas mais pobres para vender o centro ao melhor oferente. Pois é, la a agua esta ja derrubando as encostas e a coisa esta ficando perigosa.
    Não temos nem bombeiro e nem defesa civil, e no dia dos alagamentos o secretario de obras não se dignou a mostrar a cara, mas não tem problema não, deus deve ajudar que nada aconteça. E eu so espero que ele tenha compaixão pelos ateus, senão estou frita.

    Desculpe pelo desabafo mal escrito, mas estou tão braba e me sinto uma louca falando sozinha por aqui, ja que sou a unica que acredita que tudo pode cair.
    Beijos e um fim de semana lindo pra você, de preferência sem chuva que aqui ja começou a chover de novo.

    Oi, Samya, fique à vontade, você não está sozinha, não, nem muito menos louca. Itacaré não merece esse descaso. Venha sempre que quiser e bote a boca no trombone, mesmo. Bjs

  • Barbara Lima

    Querida, dá uma olhada no evento sobre cidades e literaturas que vai acontecer no IMS… Sua cara.

    beijos

    Em primeiro lugar, que saudades de você! Em segundo, que droga eu só ter visto isso agora, é um curso, começou dia 13 de maio e já não há mais vagas. Mas você tem razão, é a minha cara, eu adoraria ter me inscrito. Mas não perderei a exposição sobre Brasília, vc já foi? Me escreva, não percamos contato.

  • Passei só pra te desejar um feliz Dia das Mães!
    beijos

    Bom, com uma semana de atraso, mas que tenha sido feliz pra vc também. Bjs!

  • Não tenho comentado, mas sempre leio os seus posts.
    Beijos.

    Tereza, querida, obrigada. Comente quando e se quiser, o que vale é a sua companhia. Bjs

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