Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na UFRJ. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga horária na outra universidade, eu ainda estou dando quase 30 horas/aula semanais, o que é muito (conte por fora os tempos de deslocamento, com aulas na Barra, na Ilha do Fundão e na Tijuca, morando em Botafogo, e o tempo necessário para preparar as aulas, estudar, montar avaliações e corrigir trabalhos e/ou provas de mais de 250 alunos no total e você vai entender que eu tenho trabalhado sem fim de semana e sem feriado). E ainda peguei um projeto de reforma para fazer, como se o tempo estivesse sobrando. Eu estou cansada mesmo. Para o próximo semestre eu vou ter que rever isso, diminuir o ritmo, me reorganizar.
O que uma blogueira faz numa situação dessas? Inventa umas “embromations” pra não deixar a peteca cair. Tanta coisa mais urgente para discutir, tanto assunto quente coçando os meus dedos aqui, mas vou recorrer a um expediente manjado nessas emergências: deixar outra pessoa falar por mim. E nem é tão despropositado. Vejam bem, eu estou lecionando três matérias lá na Arquitetura, dentro do Departamento de Urbanismo. Eles chamam de HCU: História da Cidade e do Urbanismo. Daí que eu fiquei com HCU 2, HCU 3 e HCU 4, para alunos do segundo, terceiro e quarto períodos, respectivamente. Nesta sequência, eu acabo cobrindo a História da Cidade desde os primórdios, láááá atrás, no momento em que as aldeias neolíticas viraram cidades, passando por todos os períodos, até o final do século XIX. Não reclamo, isso é uma cachaça pra mim e a maior parte já é assunto velho conhecido, que eu já ensinei antes.
Mas o que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim, dentro da disciplina de HCU 3, em algum momento nas próximas semanas, nós vamos começar a falar da colonização do Brasil, e da formação das redes urbanas no período colonial. E eu me lembrei que já tinha avisado aqui que voltaria a citar o livro da Ana Maria, porque tem uma descrição deliciosa da cidade de Salvador, vista pelos olhos da personagem principal, a Kehinde/Luísa, quando lá chega nos primeiros anos do século XIX. Eu – infelizmente – ainda não conheço Salvador, mas quem conhece podia vir aqui contar pra gente o que disso tudo ainda existe, qual a sua percepção da cidade.
O texto é grande, mas vale cada sílaba:
“Para sempre ficou gravada na minha memória a São Salvador daquele dia. Anos depois, em África, a tantos quilômetros e a tanto tempo de distância, era naquelas impressões e sensações que eu pensava ao me lembrar da Bahia ou mesmo do Brasil. Lembro-me ainda hoje dos nomes das praças e das ruas que percorri por anos e anos, e por onde muitas vezes refiz o caminho daquele dia, tentando vê-lo com meus olhos de menina, sem nunca mais conseguir. Quando o barco contornou o Forte de São Marcelo, o sol ainda estava baixo por trás das colinas que sustentavam a cidade, o que fazia com que ela ficasse emoldurada por uma luz mágica que mais parecia um véu, embaçando os olhos da gente e tornando as cores mais delicadas. Algumas construções, as mais altas, com três, quatro ou até mais andares, e muitos templos e palacetes, pareciam flutuar de encontro ao teto do céu. A encosta era formada por partes de rocha preta, terra vermelha e vegetação, sendo que algumas árvores tinham crescido quase deitadas, como se tivessem sido atiradas, como setas, a partir do mar.
Ao desembarcarmos, fizemos um caminho que eu já conhecia, do ancoradouro até a rua principal da cidade baixa, mas que naquele dia parecia diferente por estar quase vazio. Havia pouca gente nas ruas, como se a cidade ainda estivesse espreguiçando antes de acordar direito. Eram apenas duas as mulheres que vendiam comida, com suas roupas bonitas e seus tabuleiros, e até mesmo o Arsenal, onde mais tarde vi que a construção de barcos e mais barcos quase não era interrompida, naquela manhã estaria deserto se não fossem três pretos conversando, sentados sobre pilhas altas de madeira. Apenas uma ou outra casa já tinha as portas e janelas abertas para becos tão estreitos que davam a impressão de que podíamos interromper a passagem por eles apenas abrindo os braços. Nem mesmo a fedentina causada pelos dejetos jogados na rua estava tão forte quanto da primeira vez, talvez porque o sol ainda não a tivesse acordado também. Na rua principal, um pouco mais larga e bastante tortuosa, olhando de longe às vezes eu tinha a impressão de que algumas casas estavam construídas exatamente no meio do caminho, barrando a passagem. Mas, ao chegarmos perto, a rua quebrava em outra direção, contornando as construções e seguindo adiante, para a frente e para cima. Alguém do grupo comentou que aquela rua principal acompanhava a praia de um canto a outro da cidade, ora mais, ora menos habitada, com mais casas de moradia ou mais casas de comércio e depósitos de pretos.
Poucas construções tinham um só andar; a maioria era de casas engaioladas umas sobre as outras, com varandas sob janelas laterais que quase se encontravam no ar, ligando uma casa a outra, de tão próximas. Tais varandas também avançavam na frente das casas, nos andares superiores, debruçando-se umas sobre as outras e todas juntas sobre a rua, de um lado e do outro, tornando o caminho escuro e sufocante nos pontos mais estreitos. Havia ruelas que saíam dos dois lados da rua principal, curtas, porque, se de um lado algumas casas já quase se jogavam sobre o mar, do outro, em certos trechos, estavam apoiadas no barranco, mesmo com risco de a qualquer momento serem esmagadas pela queda das construções que se equilibravam na parte de cima, na cidade alta.
Os nomes dos lugares eu vim a saber depois, mas naquele dia caminhamos até uma construção onde funcionava um hospício, onde dobramos, bem na quina com a Ladeira da Preguiça, que subia, íngreme, até metade da montanha. (…) Calados para poupar fôlego, inclinávamos o corpo para frente e caminhávamos, seguindo as construções e os muros da torta Rua Direita da Preguiça, pegando uma outra ladeira, que ia dar no Largo das Portas de São Bento. De lá, sempre a medo de escorregar, tomamos outra ladeira que nos levou à parte mais alta da cidade, ao lado do Palácio do Governo, onde enfim paramos para descansar e aproveitar a vista. Dava para ver a Baía de Todos os Santos quase inteira, com suas pequenas ilhas e a Ilha de Itaparica como um imenso jardim plantado no meio das águas. No Palácio, uma construção de dois andares que ficava em um dos cantos da praça que levava o seu nome, a Praça do Palácio, contei onze janelas e uma porta muito alta, que se abriam para uma varanda que o abraçava por todos os lados. Em outro canto da Praça do Palácio, que tinha a forma de um quadrado, ficava a Cadeia Pública, um prédio tão bonito que, se não fosse pelas grades, poderia ser confundido com uma casa, bem como as construções que ocupavam os outros dois cantos, a Casa da Moeda e a Câmara Municipal.

Vista do Terreiro de Jesus, com a Catedral Basílica ao fundo, em 1862. Ao lado da igreja vê-se o antigo Colégio dos Jesuítas de Salvador.
Descansados da subida, seguimos caminhando em direção ao Terreiro de Jesus, passando por lindos sobrados, que tanto eram comércio como casas de moradia, e principalmente por belas igrejas, como a Catedral da Sé. De um dos lados do Paço da Catedral ficava um templo que tinha sido dos jesuítas e que mais tarde foi ocupado por um colégio e depois por um hospital, para então ceder lugar à Faculdade de Medicina, que não sei se ainda está lá nos dias de hoje. (…) A praça do Terreiro de Jesus abrigava também o templo da Irmandade dos Clérigos de São Pedro e muitas casas mais simples, e dava saída para ruas que partiam em direção a todas as outras freguesias da cidade. Um pouco mais adiante, perto do Convento e da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, dava para se ter uma visão melhor do que era a cidade de São Salvador. Para todos os lados que se olhava, menos o do mar, a cidade era uma sucessão de vales cobertos por verde abundante e de montanhas cortadas por ruas de terra ou de pedra, quase sempre desertas. De longe em longe, principalmente nas partes mais altas, surgiam algumas construções que, sendo pequenas, estavam quase sempre grudadas umas nas outras, e sendo grandes, estavam separadas por imensos jardins. Os palacetes se destacavam, brancos e grandiosos sobre gramados verdes e jardins coloridos, guardados por muitas árvores. Alguns morros tinham perdido os picos para dar lugar a um ajuntamento de construções ao longo de três ou quatro ruas que giravam em torno da praça central, onde sempre havia uma ou mais igrejas.”
(GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2007)
Só com isso, já dava pra gente pensar e falar sobre um monte de coisas, não é? Me aguardem que eu já volto (vou tentar, pelo menos).


Oi Prof, sou sua aluna de HCU3 e só estou passando pra te pedir que não deixe de postar. Entendo que vc não deva ter muito tempo, mas estou adorando seu blog! rs
Bjs
Que bom, Tais! Espero que possa ser útil pra vocês mesmo. É uma alegria pra mim que vocês apareçam por aqui e participem, questionem, enriqueçam a conversa.
Ana,
Salvador ainda é isso mesmo, com um toque de modernidade constrastando com essa paisagem colonial. Isso dá um charme enorme à cidade.E a preguiça, bem essa é do baiano…
Na descrição, pensei no Rio de “antão”, nas cidades mineiras, altas e baixas, ruelas e becos, casa com varanda, nossas cidades coloniais…
Helena, que prazer ler seu comentário. E é isso mesmo, nossas cidades coloniais têm todas o mesmo DNA. Bjs