
Brasília - vista do Eixo Rodoviário - ao fundo Esplanada dos Ministérios. Fonte: Revista Manchete n. 417, RJ, 16 abr 1960
Falamos sobre a cidade de Salvador, em seu período colonial, aí no post de baixo. E eu me dei conta de que não comentei até agora uma efeméride importantíssima , que é o aniversário de 50 anos de Brasília, nossa capital idealizada e construída sob a égide do Movimento Modernista.
Antes de qualquer outra coisa, quero saudar os candangos, o povo todo que faz de Brasília, entendida em sua totalidade e não apenas reduzida a seu Plano Piloto, uma cidade realmente especial, múltipla, com tanto a nos ensinar. Quero dizer que, como arquiteta e urbanista, considero Brasília um momento importantíssimo na história do planejamento urbano, tanto no Brasil quanto no mundo, e um laboratório sem igual para a análise e o aprendizado de modelos, propostas, soluções. Repudio a redução que muita gente faz de Brasília, como se a cidade se resumisse às mazelas da classe política que mal e mal habita seu território quando comparece às sessões do Congresso. Brasília é muito mais do que o Eixo Monumental, a Esplanada dos Ministérios, o Palácio da Alvorada, o Senado e a Câmara, muito mais inclusive que as superquadras imaginadas por Lúcio Costa. Brasília é também Taguatinga, Gama, Sobradinho, Planaltina, Ceilândia, é todo o povo que foi trabalhar na sua construção, saído de tudo que é lugar do Brasil, e que não foi considerado na hora de prever habitação para todos. O povo e seus descendentes que ficaram ali, em volta do Plano Piloto, e que hoje demandam serviços públicos, equipamentos de saúde, educação, lazer, infra-estrutura, transporte coletivo.
Brasília é uma conquista imensa para o Brasil. O Rio de Janeiro pode ter tido perdas consideráveis com a mudança da capital, e até hoje se ressente do esvaziamento que isso causou, embora eu acredite que esteja mais do que na hora de superar isso e olhar pra frente, ocupar seu lugar no país. Um país como o Brasil tem espaço para o destaque e a importância de muitas cidades. Sem dúvida que a interiorização da capital levou crescimento às áreas centrais do território brasileiro, contribuindo para o desenvolvimento de Goiânia, de Belo Horizonte, do Triângulo Mineiro, de partes do Nordeste, entre tantas outras regiões ao longo do eixo que liga Brasília aos centros de poder econômico do sudeste.
Sobre a análise do traçado de Brasília, os princípios funcionalistas de sua concepção, e até sua arquitetura, que inclui alguns ícones da produção de Oscar Niemeyer, numa fase de apogeu do mestre, e todas as suas consequências, hoje, para a integração e desenvolvimento democrático do conjunto do Distrito Federal, eu vou sugerir dois livros e uma visita. Os livros são:
A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia, de James Holston, publicado pela Companhia das Letras, em 1993.
O concurso de Brasília: sete projetos para uma capital, de Milton Braga, publicado pela Cosac Naify, este ano.
Claro que há inúmeros outros livros maravilhosos, eu destaquei esses dois porque o primeiro eu tenho e gosto muito dele, por incorporar uma análise que privilegia a questão da cidadania e da inclusão das várias Brasílias, numa perspectiva contemporânea, ao mesmo tempo que não descuida da história, das teorias e até das polêmicas que envolveram o concurso e a adoção daquele modelo específico. O segundo, porque foi recém-lançado, eu estou louca para comprar, e apresenta os outros projetos que participaram do concurso, com autoria de gente grande como os irmãos Roberto (excelente artigo em pdf), Rino Levi e Villanova Artigas, o que nos permite fazer comparações e até especulações interessantes.
A visita, imperdível para quem mora ou está no Rio, é à exposição As construções de Brasília, em cartaz no Instituto Moreira Sales, na Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 476, telefone 2274-2149), em cartaz até o final de julho, com entrada franca e visitas guiadas de 3a a 6a feira, sempre às 17 horas. Esta semana, entre os dias 24 e 28 de maio, acontece também um Seminário que complementa a exposição. No site do Instituto haverá outras informações sobre horários e endereço exato. Eu já combinei de ir sexta agora com uma amiga, no fim da tarde.
Uma das nossas primeiras colunas do Cidades Literárias foi justamente sobre Brasília, numa crônica de Clarice Lispector, vale a pena reler.



To com tanta saudade de vc NaPaula que até dói.
Beijos
Ah, querida, eu também, mas vc tem visto que a minha correria tá insana, né? Muitos beijos pra vc também.
Vou mandar roubar o seu post.
Não vai ter jeito.
Sempre às ordens!
Brasília, cidade querida que me adotou há 5 ou 6 anos. A cidade está muito além do que imaginam por aí. Sou de Vitória-ES, mas Brasília tem algo que me hipnotiza.
Pois eu vou confessar uma coisa. Eu sou do time que ainda tem um pezinho atrás com Brasília. Acho que me assusta. Certamente até por falta de maior conhecimento prático, em vez de só ficar lendo livros e teorias sobre a cidade. Mas isso está começando a se desfazer. Em 2005 eu participei, como consultora pelo IBAM aqui do Rio (Instituto Brasileiro de Administração Municipal), do processo de revisão do Plano Diretor do Distrito Federal. O IBAM estava responsável pela condução de metodologias e consultorias no aspecto de participação popular, prevista pelo Estatuto da Cidade. Teoricamente, nós deveríamos elaborar o processo, conduzir as reuniões, sistematizar os resultados e, em conjunto com os técnicos do governo, estudar o DF e apresentar algumas propostas. Até hoje eu não sei direito o que aconteceu (eu era arraia miúda, não tinha acesso a muitas informações), eu estava na equipe que ficou sediada aqui no Rio, não cheguei a ir às reuniões, mas lia, transcrevia e organizava os resultados dos debates. Em algum momento a coisa desandou, em função de divergências políticas ou algo que o valha, e o contrato acabou sendo rescindido antes do término do trabalho. Muito esquisito. Tenho curiosidade de saber o que rolou de lá pra cá. Mas numa coisa vc tem razão: Brasília é muito mais do que o que aparece nos noticiários.
Acho que pra gostar de Brasília tem que conhecer o seu povo. A maneira como as pessoas se relacionam com cidade, principalmente as que nasceram aqui, foi o que mais me encantou. Depois disso, ficou ainda mais fácil gostar do Plano de Lúcio Costa, mesmo com seus “defeitos”. As cidades satélites então nem se fala. Que aqui tudo é muito diferente do restante do Brasil, não tenha dúvida. No entanto, essa diferença que é incrível. E no momento que a população daqui passou a aceitar essa diferença, a se adaptar ao que não pode ser tocado (Patrimônio da Humanidade) é que floresceu uma cultura própria, lapidada por nordestinos, mineiros, paulistas, cariocas e quem mais viesse, mas definitivamente única. É claro que até isso ser percebido demorou bem uns 40 anos após a inauguração. Precisou nascer uma geração de brasilienses natos e que também assumisse a cidade do jeitinho que ela foi “dada”.
Você tocou no ponto certo. Creio que, passados esses anos, com uma geração já inteira de adultos que nasceram e viveram suas vidas em Brasília, a cidade deve ter mesmo uma outra dinâmica. Inclusive, a minha percepção, da última vez que estive aí, há dois anos, é de que a cidade está buscando sua própria maneira de crescer, sem o gesso do plano piloto, mas ainda orientada de alguma forma por ele. Isso me encanta nas cidades: a força e a vida com que as coisas se transformam, com que as pessoas vão produzindo os espaços, buscando suas soluções. E Brasília não é exceção. Tenho amigas muito queridas e especiais em Brasília. Vou ver se dou um jeito de voltar aí em breve. Abs
“Acho que pra gostar de Brasília tem que conhecer o seu povo” Voce deve estar de brincadeira, meu amigo…
Acho que o povo é o maior patrimônio de qualquer cidade. É o que lhe dá vida e alma.