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Nem tão recentemente

Sobre dar aulas e sobre dar aulas de História

Ontem, enquanto eu voltava pra casa depois de mais uma aula de História da Cidade na FAU, eu vim pensando um monte de coisas, e me deu vontade de falar sobre elas.

O tema da aula (conforme o programa) era Cidades Islâmicas, e eu comecei questionando a terminologia e dizendo que eu preferia chamar de Cidades Muçulmanas. Claro que os alunos já levantaram a sobrancelha pra perguntar que diferença existe. Aí um levantou o dedo pra saber por que não Cidades Árabes, e eu adorei a deixa.

Não, não vou explicar a diferença agora, porque eu quero falar de outro assunto (depois eu volto nesse, se houver interesse). Mas acabou que eu achei importante falar de algumas questões básicas antes de entrar no assunto urbano propriamente, e no fim das contas vou ter que apresentar o resto da aula em outra semana ou preparar decentemente os slides que eu fiquei devendo, com as imagens que ilustram o que eu falei. Fiquei agradavelmente surpresa com o interesse dos alunos por um tema que a gente tem tão pouca oportunidade de discutir e sobre o qual, de maneira geral, temos uma visão tão parcial, tão limitada. É triste perceber que, quando se fala a palavra “muçulmano”, o estereótipo imediato são as imagens de mulheres de burca e homens-bomba, como se fosse tudo um grande bloco monolítico, cujo foco reside ali naquele miolo do Oriente Médio que o pessoal não sabe nem localizar no mapa. E aí é uma surpresa descobrir que há uma imensa variedade de visões e interpretações doutrinárias dentro da vivência islâmica, que há muçulmanos vivendo em todos os continentes do planeta, e em cada lugar a própria prática da religião assume aspectos diferentes, sem falar nas tradições e costumes sociais, e que há mulheres que gostam de usar o véu e não deixariam de usá-lo nem que deixasse de ser obrigatório. E que isso não impede que elas trabalhem, estudem, usem maquiagem, pintem as unhas de vermelho e comprem lingerie sexy. Não estou dizendo que são todas assim, mas estou dizendo que existem possibilidades distintas dentro do mundo islâmico, uma riqueza e uma multiplicidade de experiências que nós normalmente ignoramos. E perguntar-se POR QUE nós ignoramos é fundamental. A velha história do Outro e do temor que o Outro representa.

Mas aí eu vim pensando essas coisas, e me lembrei que esta mesma semana uma outra aluna veio me procurar no fim da aula pra dizer que queria trocar de turma e vir assistir aula comigo, porque ela tem dificuldades de se concentrar e dispersa muito fácil, daí sempre teve problemas com aulas teóricas e expositivas, porque quando ela se dá conta, o pensamento já tá muito longe e ela não tem idéia do que o professor estava falando, por mais que se esforce por prestar atenção. E que, tendo assistido uma aula minha ela conseguiu acompanhar e entender tudo, porque minha aula era mais “animada”.

Não vou entrar no mérito da saia justa em que isso me coloca, porque o período de alterações de inscrição em disciplina já acabou e o Departamento recomendou expressamente que os alunos permancessem nas turmas em que estão inscritos, nem vou também falar que isso evidentemente alimenta minha vaidade, porque eu luto com ela diaria e sinceramente, e sei que se der sopa ela aparece toda rebolativa e o risco de estragar tudo fica gigante. O que acontece é que isso me botou pra pensar em coisas sobre o ofício de dar aulas, sobre meu jeito particular de dar aulas e refletir sobre os prós e contras de tudo.

Eu saí dali rindo um pouco por dentro, e achando que no fundo o que a aluna quis dizer é que minha aula é performática. E é verdade, tem um pouco de teatro em tudo. Não que eu não seja uma pessoa expansiva e otimista na minha vida em geral, ou que uma aula seja uma farsa, mas há uma certa representação ali, um timing, um ritmo que a gente vai regulando. Tem a hora da piadinha, tem a hora de afrouxar a linguagem, a hora de usar os termos todos corretos e formais. Eu falo alto, eu gesticulo, eu ando pela sala, eu gosto de saber o nome dos alunos para interpelá-los nominalmente, eu fico enfática de vez em quando (e provavelmente vermelha). Os alunos sabem que eu sou flamenguista (e eu sempre brinco quando chega um com camisa de outro time, dizendo que vai perder ponto na prova), sabem que eu tenho dois filhos adolescentes, que eu gosto de cinema e literatura. E eu não sei explicar como, dando aula há vários anos, sempre brincando e tendo um jeito muito afetivo em relação às minhas turmas, eu nunca tive casos de insubordinação em sala, nem nunca alunos que cruzaram o limite da intimidade. A maioria inclusive me chama de “senhora”, mesmo pra fazer alguma brincadeira. Quando eu era bem mais jovem eu achava ruim, tinha vontade de dizer “que isso, pode me tratar por você”, depois passei um tempo encucada achando que eu devia estar ficando mesmo velha, e hoje acho tranquilíssimo. Não me sinto velha por ser chamada de senhora e vejo nisso, pelo contrário, um sinal de respeito e reconhecimento de autoridade quase carinhoso, até. Não ligo e até gosto, embora jamais fosse exigir esse tratamento caso o aluno me trate por você. O respeito não está exclusivamente nas palavras, mas num conjunto muito mais amplo de atitudes e postura.

Claro que já enfrentei discordâncias, algumas mal-humoradas, outras tremendamente respeitosas e pertinentes, com as quais aprendi muito, já revi avaliações, já mantive avaliações apesar do chororô, me dói reprovar aluno, mas eu reprovo se precisar, graças a Deus não sou unanimidade e sei que tem aluno que não gosta de mim ou do meu jeito, mas de maneira geral consigo estabelecer relações muito amistosas com a maioria, que duram às vezes muito além da sala de aula, e gosto disso. Mas quando a menina falou que minha aula é animada, eu me dei conta, talvez pela primeira vez, que é verdade, eu fico mesmo cansada e suada depois de cada aula, como se eu tivesse dispendido ali enorme energia. Não sei se terei esse pique sempre, talvez seja bom se eu aos poucos ficar mais sábia e madura e aprender a dar boas aulas sem me desgastar tanto. O que eu sei é que hoje eu sou assim.

Hoje eu tenho urgência. Eu preciso me apaixonar por um assunto pra poder dar aulas sobre ele. Na minha cabeça, o professor tem um papel que é também de sedução, de cativar o aluno, de trazê-lo para esse universo novo e fazê-lo se interessar por ele. Eu já descobri que o meu prazer maior não é ensinar, é ver o aluno aprender. Testemunhar esse momento em que brilha um olho, ou ouvir um único aluno dentro da turma vir dizer que agora conseguiu entender alguma coisa, ou passou a gostar de uma matéria que ele antes achava um saco, compensa todas as noites em claro preparando aula, todo o cansaço. Adoro quando os alunos tiram notas boas (mas não faço prova mole), e mais ainda quando alguém que começa o semestre mal chega no final com melhora significativa. Sinal de alguma coisa ali fez sentido. Talvez por isso eu goste tanto de dar aulas na graduação, e especialmente nos primeiros períodos. É uma diversão desconstruir alguns mitos e manias que vêm do ensino médio, enfiar minhocas na cabeça da garotada, botar o povo pra pensar e questionar coisas que sempre pareceram tão “naturais”. E aula de História é uma beleza pra isso.

Só que eu também fiquei me perguntando coisas. Deixa eu ver se sei explicar. Eu amo História. Mas há muito tempo eu deixei de ver a História como uma linha universal em que se sucedem períodos (numa pressuposição de escala evolutiva), delimitados por datas específicas, como se o mundo todo estivesse vivendo os mesmos processos ao mesmo tempo e depois passassem todos para a etapa seguinte, e nos bastasse seguir o fio dessa meada. Que é mais ou menos como a gente aprende na escola: os gregos, os romanos, a idade média, o renascimento, a idade moderna, etc. E não é nada disso.

Pra começar, a gente ainda estuda uma história tremendamente eurocêntrica. Tá bom que nós (e aqui eu estou falando de nós, brasileiros) descendemos em grande parte desse ramo aí que vem desde os gregos ou antes. Não estou falando de descendência genética, mas de filiação filosófica, ideológica, política. Mas eu acho que a gente precisa pelo menos de vez em quando alertar os alunos para o fato de que há um mundo vasto e diverso além daquele umbigo. Existem outros povos, com outras formas de viver, de fazer cidades, de pensar. Que o Império Romano não abarcava o mundo inteiro, que tem a Índia, a China e o Japão vivendo outras coisas, sem falar nos povos e civilizações que estavam ali do lado, nas fronteiras do império. Que enquanto a maior parte da Europa vivia a retração urbana da Alta Idade Média, Bagdá tinha mais de um milhão de habitantes e era a maior e mais rica metrópole do mundo, onde florescia não só o comércio intenso, mas a matemática, a literatura, a filosofia. Sem falar na África e nas Américas, que só entram nos nossos livros de História quando os europeus chegam lá, como “descobridores” (parece que esses lugares não existiam antes), como colonizadores, como capturadores de escravos, dizimadores de índios, portadores da civilização. E ainda tem a Oceania que a gente nunca nem estuda pra nada.

Por tudo isso, eu tenho muita dificuldade com essas divisões didáticas de eras e datas. Eu sempre acho que quando tematiza demais a impressão que fica é de que aqueles episódios ou civilizações são estanques, um sucede ao outro ordenadamente, quando na verdade há sobreposições, conflitos, convergências. É preciso fazer leituras sincrônicas (do que acontece em lugares diferentes ao mesmo tempo) e diacrônicas (do que acontece nos lugares ao longo do tempo) meio simultaneamente. Só que ver isso transforma a história (como a vida) num painel multidimensional e dinâmico, com vários sujeitos, várias perspectivas. E como passar isso é algo que me aflige às vezes.

Eu tendo a ver os temas de aula sempre inseridos num panorama mais amplo e me interessa entender os processos, de onde vieram aquelas coisas e pessoas, para onde foram, as relações que estabeleceram. O Outro, de qualquer tempo ou lugar, me interessa. Saber como ele vê as coisas, de que lugar ou posição ele fala, tentar, por um breve instante, ver e sentir o mundo como ele vê e sente, seus objetivos, seu ponto de vista. As idéias me empolgam, os conceitos por trás das ações, os encaixes, as diferenças. O nome ou a data a gente acaba absorvendo de tanto ler e estudar, mas não são o objetivo. Eles têm sua importância: ajudam a pontuar, localizar, identificar, dão nome e rosto, mas estão a reboque de um entendimento mais amplo.

Eu junto muito Urbanismo e Arquitetura. Não dá pra falar de cidade sem falar de arquitetura, e vice-versa. Eu junto também História e Geografia. Eu tenho fascinação por mapas, sempre tem mapa nas minhas aulas, a gente fala de tantos lugares diferentes, eu gosto de dar ao aluno a chance de saber onde é que fica aquilo (ou ficava, quando hoje não existe mais). Relacionar o que está sendo dito com coisas que ele conheça. Por exemplo, em outra turma eu estava essa semana falando sobre a Reforma de Viena no final do século XIX e a construção do ringstrasse. Aí eu me toquei que eu falava da Áustria e provavelmente a maioria ali estava pensando na Áustria de hoje, e eu pus um mapa de 1900, pra lembrar a eles que, quando eu falasse “Áustria” nesse contexto de final do século XIX-início do XX, eu estava me referindo ao grande Império Austro-Húngaro, um território que abarcava partes do que hoje é a Alemanha, a Polônia, A Hungria e os Bálcãs. Historicamente, é outro lugar. Eu fico sempre preocupada e perplexa com o fato de que as pessoas sabem muito menos geografia hoje. Tá bom que decorar por decorar é um saco e não faz sentido, mas eu sabia onde ficavam os principais rios e cadeias de montanhas do mundo todo, e as capitais dos diversos países, e isso caía em prova. Daí, hoje, se alguém falar Mar Cáspio, ou Negro, ou Estreito de Bósforo, ou Pirineus, Apeninos, Rio Danúbio, Rio Arno, Rio Eufrates, o mapa vem na minha cabeça rapidinho e eu sei onde fica. E isso ajuda a fazer relações geopolíticas, entender por que a conquista de determinado território era estratégica, ou por que determinado povo demorou para chegar a determinado lugar em seu processo de ocupação do território.

A minha dificuldade às vezes, é que na minha cabeça vem tudo junto, um quadro grande, tudo ao mesmo tempo agora. E um monte de referências pop também: músicas, filmes, livros. Isso às vezes é um problema, e às vezes causa grandes risadas. Porque de vez em quando eu cito, toda contente, crente que estou abafando, um filme ou música que pra mim é manjadíssimo, e ficam aquelas 30 carinhas me olhando com cara de “hein?”. E aí eu vejo que eu tou ficando velha mesmo. Ou o povo tá ficando menos informado. Caramba, eu nasci na década de 60, mas isso não me impede de conhecer Cole Porter, ou ter visto filmes das décadas de 30 e 40, ou lido Jane Austen. Mas outro dia, falando da colonização dos Estados Unidos, e mencionando a importância, em determinado momento, da cidade de Filadélfia, eu mencionei Philadelphia Freedom do Elton John e ninguém sabia do que se tratava. Pior foi o mico dessa aula sobre Viena, quando eu perguntei se eles já tinham visto Sissi, a Imperatriz. Eu fiquei me achando um Matusalém. Aí zanguei (de brincadeira) e mandei todo mundo ir perguntar pras mães sobre o filme. Não é possível que as mães desses meninos não tenham visto isso na Sessão da Tarde.

Eu sempre mando ver filmes, ler livros, ouvir músicas. Eu levo pilhas de livros meus (de ficção, romances, ou de estudo mesmo) pra sala, pra eles folhearem. Isso tudo pode ser bem legal, e “animado”, como disse a aluna, mas pode também ser cansativo, agitado demais, disperso. Essa coisa de ver o conjunto e cruzar tantas referências pode me levar a perder o foco da aula, e eu sei que vira e mexe eu estouro o tempo antes de ter falado tudo o que eu tinha pensado em apresentar. A gente tem que fatiar a história em pedacinhos (com começo, meio e fim) pra caber no tempo da aula, e ao mesmo tempo articular, contextualizar, costurar os assuntos. E tudo isso tem que fazer sentido. Não é fácil. Talvez às vezes fique confuso. Eu gostaria sempre que os alunos me dessem um feedback se as coisas estão indo rápido demais, ou lento demais, ou repetitivo, ou confuso simplesmente. A vida é confusa, vamos combinar. As coisas não cabem em gavetinhas. Mas o papel da gente ali na frente, pilotando o quadro e o giz (eita coisa antiga) é ajudar a trilhar esse caminho. Eu tenho tantas dúvidas, mas eu amo tanto o que eu faço, que desejo e me esforço para fazer bem. Se tocar alguém, eu fico feliz.