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Nem tão recentemente

Posso falar um pouquinho sobre gramática?

Ainda esta semana eu volto para retomar os assuntos pendentes.  Cheguei a pensar que faria isso hoje, mas entre ver a final da Copa (só pra constar: eu não acertei NENHUM prognóstico, ou pelo menos nenhuma torcida. Sou o anti-polvo, rsrsrs) e dormir muito desde sexta-feira, simplesmente não deu. O resultado, inclusive, é que são mais de 11 da noite de domingo e eu ainda estou terminando de corrigir provas que deviam estar prontas há 3 semanas, e ainda vou elaborar a prova de amanhã de manhã. Tudo bem, o semestre já começou a desacelerar e só isso já me dá um alívio enorme. Amanhã acho até que vou ao cinema! :-)

O que me traz aqui com uma certa urgência é a necessidade/desejo de comentar umas coisas que sempre ficam entaladas na minha garganta quando eu corrijo provas e trabalhos de alunos. Há muito tempo. Ultimamente, quando eu leio jornais também, o caso é (cada vez) sério.

Eu não sei o que acontece com o ensino de Língua Portuguesa, que simplesmente não consegue, na maior parte dos casos, se refletir numa prática escrita e oral decente. Ou seja, as criaturas decoram (sim, porque eu desconfio que raros conseguem entender) objetos diretos e indiretos, nomes enormes de classificação sintática de orações, regras sobre verbos defectivos e irregulares, exceções a regras de acentuação, e isso acaba não tendo nenhuma relação prática com o que eles escrevem. E tem piorado.

Eu não sou nenhuma expert no assunto, não sou linguista, ainda não me adaptei inteiramente ao novo acordo ortográfico (e cometo birras propositais ocasionalmente). Vira e mexe, ao revisar um texto meu, encontro erros de toda sorte; tenho dúvidas e consulto dicionários e gramáticas com frequência (ó aí, eu odeio a queda do trema). Porém, peço licença aos professores de português (e peço ajuda também, caso eu diga alguma bobagem) para comentar alguns dos erros mais frequentes que encontro e divagar sobre algumas causas para isso.

Eu encontro principalmente erros de três ordens:

1) ERROS ORTOGRÁFICOS
Caramba (quase que eu falo um palavrão bem cabeludo, deu vontade)! Ninguém mais olha dicionário, não? Tem online, nem precisa ir até a estante abrir o livrão. Letras trocadas, letras comidas, letras sobrando, e não são erros de digitação. São erros mesmo, em provas feitas à mão. Sem falar que o vocabulário anda empobrecendo rapidamente. Nossa língua é belíssima (como é mesmo o verso sobre “a última flor do Lácio”?) e provê vocábulos para quase todas as ocasiões, com distinções sutis que permitem escolher o mais adequado a cada caso. Entretanto, o repertório mais corrente é fraquinho a vida toda, e tome repetições de termos, uso indiscriminado de “coisas” e outros termos genéricos, que prejudicam muitas vezes a própria compreensão correta do que se pretendia dizer, truncando a comunicação da mensagem. Termos que eu cresci ouvindo e utilizando na liguagem oral cotidiana, como corriqueiros, são considerados hoje como “falar difícil”.

Ainda nesta categoria, incluo os erros de acentuação. Isso quando há acentuação. É preguiça? Uma das coisas que eu mais faço em prova é ir colocando (ou tirando) acento, conforme esteja faltando ou sobrando. Eu não sei de cor aquelas regras todas (acentuar ditongos abertos em oxítonas e coisas do gênero, só lembro de certeza que se acentuam as proparoxítonas, com algumas raras e clássicas exceções), e agora, de novo, com esse maldito acordo ortográfico, vou errar muito, porque idéia e herói pra mim são inadmissíveis sem acento, bem como é inadmissível, para mim, deixar de existir acento na flexão do verbo parar (pára), que ajudava tanto a diferenciar da preposição “para”.  Mas enfim. O fato é que de tanto ler a gente acaba absorvendo. E as dúvidas, tá aí o dicionário para dirimí-las (hahaha, essa foi de propósito, não resisti).

Não posso deixar de falar da crase. Ninguém mais sabe usar, não? Nem em placa de trânsito, vamos combinar. Ou muito menos. O que a gente encontra de, sei lá, “Parati à 10 km”, não está no gibi. Cruzes. A irmã da Monix, uma vez, numa conversa, disse uma coisa engraçadíssima que é a pura verdade, e eu vivo repetindo desde então: a impressão que se tem é que a crase é usada como orégano na pizza. A gente acaba de escrever, polvilha umas tantas sobre o texto, onde cair, caiu. Não tem lógica, não tem padrão. Regrinhas básicas, minha gente: a crase, pra começar, não é um acento. Ela é um fenômeno de contração, da preposição “a” com o artigo feminino “a” (tá, eu sei que pode contrair também com os pronomes demonstrativos “aquele”, “aquela”, “aquilo” e seus plurais, mas não vamos complicar agora). Ou seja, se a palavra que você for usar puder ser substituída por uma masculina e o resultado ficar “ao”, então tem crase (antes da feminina), se não, não tem. Exemplo idiota: Vou AO salão de beleza. Troque “salão de beleza” por alguma coisa no feminino, que pressuponha o artigo “a”, tipo “a lavanderia”. Fica: Vou à lavanderia. Mas eu não posso ir à São Paulo, entende? São Paulo não é uma palavra feminina, portanto, não tem nenhum artigo aí escondido. Exatamente por isso, pelamordedeus, não ponham crase antes de verbo no infinitivo! Me dá calafrios ler na prova “não-sei-o-quê levou o rei à decidir que…”. Argh. Nunca mais, prometem? Eu só toquei na pontinha do iceberg, não vou me alongar , caso contrário fica um post gigante só sobre o uso da crase (já vai ficar um post gigante). Releiam as gramáticas de vocês. Ainda se adota Evanildo Bechara no colégio? E adianta alguma coisa?

Pontuação entra aqui, em erros ortográficos? Acho que não. Mas eu vou dizer uma coisinha só, por favor: NÃO EXISTE VÍRGULA ENTRE O SUJEITO E O VERBO! A menos que haja uma outra expressão ou oração intercalada. Olha só: “Fulano de tal, aquele salafrário, me deve um dinheirão”. A expressão “aquele salafrário”, que ficou entre o sujeito “Fulano de tal” e o verbo “me deve”, fez aparecerem as vírgulas (me poupe, eu sei que o pronome “me” não faz parte do verbo, sei até que ele é objeto indireto nessa frase, é só pra facilitar o entendimento pro povo que não deve ter nem idéia do que eu estou falando – idéia com acento emburrado, sim, mas não emburrecido). Se eu dissesse apenas “Fulano de tal me deve um dinheirão”, não haveria vírgula depois do Fulano de Tal.

Eu tenho uma teoria de que as pessoas colocam vírgula onde os repórteres fazem pausas na hora das reportagens. Alguém ensinou um dia que a vírgula é a pausa, a hora em que você pára para respirar (viu? imagina se eu não pusesse o acento no verbo pára? No mínimo, fica muito feio). Aí, a maioria dos repórteres hoje em dia, ao vivo, na TV, sei lá por quê, fala assim, roboticamente: “o delegado titular da 14a. DP… revelou que… o suspeito… já se encontra… sob vigilância”. Tudo picotadinho, já reparou?. E o povo dana de botar vírgula em todas essas pausas, na hora de escrever.

Sim, o Saramago pode (podia) escrever do jeito que ele bem entender, sem vírgula nem ponto nenhum, nem parágrafo, nem travessão para indicar diálogos, e ainda assim estará tudo certíssimo e maravilhoso. Nenhum de nós outros mortais tem esse direito.

Não, eu não vou falar sobre o uso dos por quês, juntos, separados, com ou sem acento. Mas muita gente boa erra demais nisso aí também. Tá, eu vou falar, mas bem rasinho. O critério não é se é pergunta (separado) ou resposta (junto). Isso é ridículo. Eles têm sentidos diferentes, expressam relações diferentes entre as orações que conectam. Não é pra decorar. Tem que entender o sentido da frase pra saber se é junto ou separado. Mas se você, aluno, se deparar com um enunciado de prova assim: “Explique porque tal coisa aconteceu”, me faz um favor? Corrija o professor que escreveu isso. Presta atenção: o que o cara quer perguntar é: “Explique POR QUE RAZÃO tal coisa aconteceu”. Dá até pra trocar por: “Explique POR QUAL MOTIVO tal coisa aconteceu”.  Ou seja, o que você tem aí é uma preposição e um pronome relativo, e não uma conjunção. Tá bom, esquece essa parte. Mas esse é um macetezinho que resolve quase sempre: se você puder enfiar a palavra “razão” ou “motivo” depois da expressão “por que”, sem prejuízo do entendimento da frase, então é pra escrever separado. O “porque” junto exprime a causa do que foi dito imediatamente antes. Assim: “Faltei à aula PORQUE estava doente”. Ou seja, estar doente é a causa de eu ter faltado à aula (ou AO jogo, tá vendo como a gente substitui feminino por masculino pra conferir se tem o artigo e aí colocar a crase?). Conclusão: se eu disser (eu não, mas eu já vi enunciado de prova assim): “Explique porque tal coisa aconteceu”, com o “porque” junto, eu estou assumindo que o acontecimento dessa coisa é a causa da minha explicação, é o que me faz ter que dar explicações. Ficou claro? Eu acho que não o suficiente, mas vamos adiante.

2) ERROS DE CONCORDÂNCIA OU REGÊNCIA VERBAL.
Saber se um verbo pede ou não pede uma preposição é muito difícil?Jura? Eu me sinto pernóstica e pré-histórica. Olha só: eu digo “a regra a que me refiro é essa”. Esse “a” em negrito é uma preposição que rege o verbo referir-se. Quem se refere, se refere A alguma coisa. Então eu não posso dizer “a regra que eu me refiro”, o verbo fica capenga. Quando meus filhos eram menores e traziam deveres para casa e eu tentava ajudar, eu sempre dizia a eles (e eles morriam de rir), que o verbo é O CARA de qualquer oração. Tudo você pergunta pro verbo, se apertar direitinho, ele entrega tudo. Olhem o verbo, sempre, criem outra frase com o mesmo verbo, de preferência bem simples e em ordem direta, e confiram se ele tem preposição ou não.

Nessa mesma seara, do uso das preposições (e de um pronome em particular), eu estou louca pra dar um ponto extra pro aluno que conseguir usar um “cujo” corretamente. Dou dois pontos se a frase estiver corretamente articulada usando “de cujo”, “para cujo”, “com cujo” e suas variantes no plural e/ou no feminino. Pausa para eu suspirar.

Ainda sobre concordâncias. De gênero e número. Queridinhos, prestem atenção ao que vocês escrevem, e a quais coisas vocês estão se referindo. Quando a criatura resolve escrever uma frase comprida e o sujeito fica muito longe do verbo, pronto, danou-se: o verbo perde qualquer relação com esse sujeito. Aí a gente vê sujeitos no plural com verbos no singular, sujeitos no feminino e os complementos, lá no final da frase, no masculino, uma beleza. Vejam isso: “As leis criadas pelo imperador X, no ano Y, determinava que…”. Quem é que determinava alguma coisa? Interroga o verbo que ele é frouxo e responde sempre: aS LeiS. Plural. Então, elas determinavaM. Eu encontro isso nos textos muito mais vezes do que seria tolerável.

3) O tipo de erro mais grave na minha opinião: ERROS DE LÓGICA OU DE CONSTRUÇÃO DE SENTIDO.
Esse é sério porque compromete o entendimento do que se diz, ou seja, compromete a própria comunicação. Uma das partículas que nos ajudam a construir as frases para dizer o que a gente quer são as benditas conjunções. Eu estou me lixando (desculpem-me os professores de português) se você sabe se aquela conjunção é adversativa ou conclusiva, ou mesmo se você sabe identificar quais são as conjunções num trecho de texto qualquer, mas você tem que saber usá-las de forma a dizer o que você quer dizer, ou seja, tem que saber o sentido que elas dão às frases, de que maneira elas ligam as frases umas nas outras. Caso contrário, você acha que está dizendo uma coisa e está dizendo outra completamente diferente.

Eu cansei de ver, nos exercícios que meus filhos traziam para casa da escola, questões que pediam que eles identificassem as conjunções num determinado período, e apontassem o “valor semântico” dessa conjunção. Quem sou eu pra dizer se a maneira de elaborar esse tipo de questão é a mais pertinente ou eficaz, mas eu vejo, diariamente, que isso é uma coisa que os alunos simplesmente não aprendem. As falhas mais constantes são na hora de estabelecer relações de causa e efeito entre fenômenos ou situações diversas. O pessoal não se dá conta do que está dizendo. Eu queria lembrar uns exemplos recentes pra contar pra vocês, mas agora me fogem. Eu estou com sono, larguei o trabalho às 11 da noite pra vir aqui escrever isso, já é mais de 1 da manhã e eu ainda tenho que montar a prova de daqui a pouco.

Tem um monte de outras coisas… ah, lembrei só mais uma que não posso deixar de gritar. Sim, gritar: o verbo HAVER (e as expressões verbais que o utilizam) com o sentido de EXISTIR NÃO FLEXIONA NO PLURAL!!! Ponham isso na cabeça, por mais que possa parecer estranho. HOUVE uma série de acontecimentos, e não “HOUVERAM”. DEVERIA HAVER muitas pessoas lendo isso, e não “DEVERIAM”. Promete que esse você não erra mais? Por favor? Obrigada.

Se eu ficar aqui lembrando de todos os outros casos, eu vou reescrever a gramática, e eu não tenho competência pra isso, além do que excelentes gramáticas já estão escritas. O que eu quero defender aqui é que a gente não escreve corretamente só por obrigação chata. E não só jornalistas, escritores ou gente que se forma em Letras têm obrigação de escrever direito. A linguagem escrita é uma das nossas formas de comunicação mais usadas. Todos os profissionais precisam ou precisarão escrever alguma coisa algum dia: uma dissertação, um artigo, um contrato para um cliente, um memorial de um projeto, uma prova num concurso, um e-mail para um fornecedor, um bilhete de instruções para um funcionário. E não é uma questão apenas de “pegar mal” você cometer erros crassos (embora isso pese um bocado em algumas situações), mas de você transmitir a sua mensagem da melhor forma possível, de maneira a não criar dúvidas, não gerar mal-entendidos, não perder oportunidades por falta de saber se expressar corretamente.

Eu não sei por que (separado, viu?) os alunos escrevem cada vez pior. Não vou culpar internet nem msn, pelo menos não apenas. Acho que se lê muito pouco, e com pouca atenção, e isso é crônico. Acho também que os métodos de ensino contemporâneos estão defasadíssimos. Ainda usamos metodologias didáticas do início de século XX, para uma geração que faz conexões diferentes, domina recursos diferentes, tem ritmos e percepções de mundo diferentes. Não é só culpar o aluno. A escola também precisa se adaptar, se reinventar e ainda não deu conta disso. Precisa aprender a explorar e utilizar os potenciais das novas habilidades destes novos alunos. Como? Eu também não sei. Mas acho que buscar e construir respostas a essas questões é urgente. E escrever direito também. Ô gente, faz um esforço aí, vai?

32 comentários para Posso falar um pouquinho sobre gramática?

  • Eu nunca fui muito bom de gramática. A minha habilidade com a língua vem da leitura. Leio muito. Aqui no trabalho nós fazemos seleção de estagiários e, na entrevista, as respostas mais constrangedoras são ouvidas quando perguntamos o que o candidato leu ultimamente.

    Mas é exatamente isso que eu quis dizer. Saber aquelas coisas e nomes da gramática pode ser legal pros esquisitos que gostam (eu adorava, vai entender), mas não é garantia, por si só, de que você vá saber “praticar” a língua. Nem é condição necessária e exclusiva. Portanto, tem uma lacuna aí que tem que ser preenchida. Você sabe que eu leio o seu blog e gosto muito. E eu acho que você escreve muito bem! Leitura é fundamental.

  • Ou seja, as criaturas decoram (sim, porque eu desconfio que raros conseguem entender) objetos diretos e indiretos, nomes enormes de classificação sintática de orações, regras sobre verbos defectivos e irregulares, exceções a regras de acentuação, e isso acaba não tendo nenhuma relação prática com o que eles escrevem. E tem piorado.

    Eu acho que você acertou na mosca aí. Minha avaliação é que o ensino de Português serve muito mais para dar emprego a professor e vender livros didáticos, do que para realmente ensinar alguma coisa. Estou acompanhando meu neto de 11 anos às turras com os conceitos de “epiceno”, “comum de dois”, etc, mas não vejo exercícios práticos de emprego das ditas palavras. Muito menos com lógica e clareza de apresentação de um raciocínio.

    Quando uma criança aprende a raciocinar e expressar com clareza seu raciocínio, a ortografia é uma consequência (quase que eu meti um trema…). E, se a curiosidade for grande, talvez alguem que não se dedique ao ensino ou a pesquisa da linguagem, vá procurar decorar e entender esses nomes abstrusos como “epiceno”…

    Mas decoreba é a coisa mais facil de cobrar em uma prova, né?…

    É, João Carlos, dá muito menos trabalho. Eu acho que ensinar Português de uma maneira clara e atraente, como ensinar História (ou Matemática, Física, Geografia), é trabalhoso sim, demanda tempo de preparação, pesquisa, estudo e atualização constantes. E na outra ponta, os professores são mal remunerados, mal preparados (nem todos, mas a maioria, provavelmente, principalmente no nível Fundamental), a carreira é socialmente desvalorizada, a cadeia toda de ensino está falha. Eu concordo com você, a ortografia é uma consequência, o mais importante é aprender a pensar, raciocinar, e ter instrumentos para expressar esse pensamento com clareza.

  • madoka

    pois é Ana, agora fico até com receio de errar aqui nos comentários, depois dessa aula porque também não fui boa aluna em gramática, rs. Me lembro do meu sobrinho, hoje com 18 anos quando entrou na escola. As crianças começam a ser alfabetizadas com letra bastão (de forma) porque a cursiva demanda mais tempo? É bem o que a Suzi (vinhos) falou do nivelamento por baixo, ´´ buscar a excelência não é difícil. Mas é muito trabalhoso, e demanda tempo, e poucos educadores se dispõem a oferecer´´, é bem por aí. E estamos só falando de caligrafia né? Escrever é uma arte, tá certo que é outra realidade, a escrita são os ideogramas, os alunos daqui tem aulas desde o ensino fundamental de caligrafia.
    bjk

    Ah, madoka, até parece! Sim, eu li as observações excelentes da Suzi sobre o assunto e concordo com ela.
    Olha, depois que eu escrevi o post, que foi claramente um desabafo no meio da madrugada, depois de passar cinco dias seguidos corrigindo no total quase 200 provas, eu fiquei com receio de ter “pesado a mão”. Deus me livre de algum leitor, qualquer que seja, se sentir constrangido em deixar comentário por receio de que eu vá reparar em erro de português. Em primeiro lugar, isso aqui é um blog, um formato mais informal mesmo, não é revista científica, não é tese, não é “trabalho de escola”. Há que se conceder certas liberdades. Em segundo lugar, eu mesma cometo vários deslizes. Neste post mesmo, em que eu reclamo tanto dos acentos, meu marido (personal-revisator de primeira) me avisou que eu tinha justamente esquecido de colocar um, num verbo, e gentilmente corrigiu pra mim. Eu releio o que escrevo dois dias depois e sempre encontro algum erro, ou descubro que tinha uma forma melhor, mais simples e mais clara de ter dito a mesma coisa (e muitas vezes tenho preguiça de ir lá corrigir). Por fim, mas mais importante que tudo, ninguém está aqui fazendo prova ou sendo avaliado. Eu leio com gosto o que vocês escrevem e simplesmente não me preocupo se tem alguma falha gramatical ou ortográfica. Na maior parte das vezes nem reparo, porque não leio com esse objetivo, nem com esses olhos. É um bate-papo. Por favor, jamais deixe de escrever qualquer coisa por esse motivo. Eu sei que você não deixaria, mas aproveito a resposta que estou dando a você pra passar o recado a qualquer outro que leia isto.

    Nossa, eu admiro demais da conta a caligrafia japonesa, os ideogramas, tudo. Não entra na minha cabeça como funciona isso, é uma forma de raciocinar completamente diferente, mas acho fascinante!

  • Presente.

    Deixe de ser bobo! :)

  • Eu preciso me atualizar, quem vive sem gramática?

    Excelente!

    :) Que bom, eu estava com medo de ter sido “braba” demais. Não retiro nem uma palavra do que disse, eu penso mesmo isso, mas escrever cansada e por impulso pode ser arriscado às vezes. Todos nós precisamos nos atualizar, o tempo todo.

  • Ana, adoro teu blog mas nunca fiz comentários.
    Hoje resolvi comentar porque concordo contigo, quem não tem a leitura como hábito e prazer dificilmente tem como expressar e desenvolver ideias corretamente. Gostaria também de conversar sobre esta questão do professor, atualmente, ser desvalorizado. Meu filho adolescente (justamente agora está numa “hora da leitura oferecida pela PUC-RS), pretende ser professor e por esse motivo tenho conversado bastante com profissionais de educação que se dizem comprometidos com a profissão apesar do desprezo social.Eles se dizem insatisfeitos com a remuneração mas argumentam que a desvalorização social está ligada aos maus profissionais e ao excesso de valor que a sociedade dá a pessoas com fama e poder. Eu fiquei orgulhosa da escolha feita por meu filho porque como arquiteta também não estou satisfeita com os rumos de minha profissão mas continuo aqui trabalhando com responsabilidade e comprometimento.
    Teu desabafo só vem a reforçar a ideia de que muitos educadores ainda se importam. E isso é bonito de se ver.Parabéns.

    Que bacana, Silvia, fico feliz e honrada com tua visita. Eu penso da mesma forma a respeito da desvalorização social. Acho que é uma profissão mal remunerada mesmo, diante da importância que tem na formação e na educação dos alunos, educação entendida aí como muito mais do que simples transmissão de conteúdo didático. Mas eu também tenho orgulho de ser arquiteta e professora, com todos os poréns nos rumos de ambas as atividades, e ainda acho que o prazer que a gente tem no que faz é amplamente compensador. Muito sucesso e abraços para seu filho adolescente. Se ele realmente seguir esse caminho, que seja mais um a engrossar as fileiras dos bons educadores. Abraços para você também, apareça mais vezes!

  • Tania Beatriz

    KKKKK… Esse post veio na hora certa. Meus filhos estão em semana de prova e hoje, mais cedo estava explicando para o meu mais velho, o uso dos Por quês (Até eu fiquei em dúvida agora). Dei vários exemplos e ele acabou por fim entendendo a diferença e onde usar cada um deles. Quando cheguei aqui e me deparei com seu post, logo pensei: ” Ai MEU DEUS, será que a professora dele tem os mesmos problemas com ele??????????? É realmente tem razão, a Gramática esta cada dia mais fora de uso. Pena… Bjs

    Hahaha, mostra o post pra ele, então. Final de semestre a maioria dos professores se vê às voltas com essas questões.

  • Eu

    Eu lia e ria. Quanto mais o texto avançava, e na proporção direta sua “brabeza”, mais eu ria. Não pelo conteúdo – impecável. Pela forma. Esporro clássico. A paciência atingiu o limite. Ou todo mundo se esforça pra escrever certo, ou fica todo mundo de castigo. Ai, ai, ai !!!

    Algumas observações:

    Em referência ao comentário da Madoka, gostaria de dizer que a maior prova de conteúdo intelectual que ela pode nos dar é sua freqüência (com trema, por rebeldia) nesse blog. Isso, por si só, depõe a favor da inteligência dela e, por extensão, da capacidade de escrita. Caso haja erro gramatical no comentário, tenho certeza de que é um mero deslize de digitação.

    A qualidade do ensino básico desceu a ladeira. Melhor, desceu a montanha. Está uma merda. Por uma conjunção de fatores. Maus profissionais, pouca participação dos pais na educação dos filhos, nenhum incentivo à cultura geral, que inclui a leitura e, acima de tudo, super-hiper-mega valorização da cultura de massa. Ter o corpo bonito, estar na moda, saber todas as coreografias do axé-music e letras do funk é mais importante que saber falar/escrever direito ou saber qual é a capital da Alemanha, pra não dificultar muito. A cultura, o conhecimento é tão desprezado que quem sabe um pouco é taxado de arrogante ou metido. Ou pernóstico, pra usar sua expressão.

    O conhecimento aplicado, “academizado” é fundamental. Importantíssimo. Mas a contextualização do conhecimento é, hoje em dia, imprescindível para a absorção do aprendizado. O povinho anda muito fraco para abstrair um conceito, entendê-lo por si só. A evolução (ou involução, sei lá) da capacidade de aprendizado não foi secundada pela evolução da capacidade de ensinar. Há um claro descompasso entre a oferta de conhecimento e a demanda. Quantidade, qualidade e forma.

    Não conheço na língua portuguesa regrinha que não tenha um motivo óbvio e justo. Como conheço muito pouco, pode ser que haja. Se houver, digam. Sou curioso. Um exemplo clássico é o “M” antes de “P” ou “B” vendido como convenção, como regra sem justificativa. Decora-se e pronto. Muito mais fácil que ensinar fonema. O artigo não se chama definido à toa; recebe essa nomenclatura porque tem a missão de DEFINIR o nome que antecede, dar personalidade e definição ao substantivo a que se refere. E por aí vai. Os caras não saíram batizando os troços com os nomes que lhes vinham à cabeça. Tem sentido. E, normalmente, o nome do troço já explica 90% da função ou valor que ele tem. Basta pensar um pouco. Mas essa é que a merda…

    Para encerrar, volto à Madoka, a cujo comentário me referi no início (ganhei o ponto?): de qualquer forma, ainda prefiro locuções e conjunções a aprender ideogramas.

    Você não tem noção da alegria de te ler aqui. Ganhou o ponto extra com louvor!
    Agora eu não vou me dirigir a você, mas aos outros leitores que porventura virem esse comentário e minha resposta a ele:
    Queridos, este é meu irmão João, a quem amo muito, apesar de ele ter um defeito grave e incurável: é vascaíno :-) . Se mais alguém aqui padecer deste lamentável mal, pode se deliciar com o blog dele, dedicado exclusivamente ao assunto: Papo na Colina.
    Volte sempre, mano. Pelo que você conhece de mim, deve ter ouvido até o meu tom de voz e visto o vinco entre as sobrancelhas e os olhos faiscando. Não admira que tenha rido!

  • Eu

    Em tempo:

    http://www.priberam.pt/dlpo/

    Tem me ajudado a errar menos. É grátis e não dói.

    Anotado. Bjs

  • Fiquei aqui lendo e me coçando de vontade de escrever um comentário cometendo os pecados todinhos! Um a um! rsrsr desculpa eu?
    Adouro vc mais ainda qdo fica putaca!!!!

    Suzi Márcia, se você faz uma coisa dessas eu te “acorrejo” em público, e ainda te deixo sem recreio! Ai, ai, ai!!

  • Adorei o texto, mas esta é uma luta inglória, viu? Quem gosta da língua sofre (sem vírgula!). Mas você, que tem algum poder enquanto mestra, deve perseverar sempre! Em tempo: estou para escrever um post sobre minha mais recente aquisição, o Dicionário analógico da língua portuguesa. Você já viu a nova edição que saiu? Mais detalhes em breve, lá no blogue.

    Oba, vou ficar de olho, não sabia nem que tinha edição nova. A luta é inglória, mas eu tenho uma queda por lutar contra moinhos de vento, fazer o quê?

  • Alline

    Putz, fiquei que nem a Suzi com vontade de cometer todos os erros so pra te deixar vermelha de raiva, ahahahaha! ADORO!!!!
    Amei o post! Mas eu não posso falar nada, nega. Depois que virei TROGLODITA (tou longe de ser poliglota) não falo mais nenhuma lingua bem. Nem portugues, nem italiano, nem inglês. Desaprendi tudo! Era melhor ter ficado com uma só…hahaha.
    Bjs

    Você e a Suzi tão tirando onda com a minha cara, já vi tudo. Vai ficar sem recreio de castigo, junto com ela, tá? Eu também sempre chamo poliglota de troglodita, é muito mais divertido!

  • aline "@dojiii" viana

    Adorei o texto e recomendei aos meus amigos.

    Uma coisa que eu vejo muito na internet e que me revolta é o descaso com a Língua Portuguesa. Pessoas que se acham muito por saber falar bem o inglês e com isso ignoram a própria língua tratando-a como se fosse algo dispensável e desnecessário. O inglês é importante sim, hoje em dia, mas não saber e ignorar a própria língua além de inadmissível é uma vergonha.

    Ai, que emoção, pelo menos uma aluna veio aqui ler o que escrevi! Oi, Aline!

  • Olá, Ana.
    Passei por aqui para te desejar felicidades.Hoje é dia dos @migos!

    Oi, silvia, e eu na maior falta de educação do mundo nem te respondi! O próximo post explica meu sumiço…
    Felicidades pra vc também, no dia dos amigos e em todos os outros. E muito obrigada pela lembrança e pelo carinho.

  • Oi Ana, concordo contigo em relação à gramatica. Como representante dos “menos novos”, cresci com contantes visitas à biblioteca Pública e a do colégio, compras na Feira do Livro da Praça da Alfandega de Porto Alegre, entre outras. Aproveitando a oportunidade, postei domingo no meu blog uma reportagem que não fere a gramática ou os sentimentos, chamado de “Quando a Arquitetura torna-se Poesia”. Inspirem-se.
    Arquiteto Paulo Bettanin

    Olá, Paulo, lindo o seu post! Aliás, eu gosto imensamente de Porto Alegre!

  • Ana!!! Obrigada. Mil vezes obrigada!!! você disse tudo o que eu sempre quis dizer, mas não conseguia… rs.
    Excelente post.
    Saudade.
    Beijos.

    Ô minha flor, saudades de você também! Bjs

  • Pri Gomez

    Olá, Ana.
    Boa noite!

    Ana, nem sei por onde começar a elogiar todo seu comentário…
    Para começar, cheguei aqui por acaso. Estava eu, às 04:40h da manhã, procurando pelo Google a classificação da expressão “ai ai”, pois eu faria agora um comentário numa foto de uma amiga no Orkut e precisei pesquisar isso em cima da hora. Fuçando tal título, achei seu blog e comecei a ler.
    Achei extremamente sensacional (sem exageros, de verdade!) e de suma importância o tema abordado.
    Eu canso de ver absurdos, como confundir ou realmente não saber a diferença de “mais/ mas”, “meio/ meia”, “mau/ mal”, “disposição/ desposição”, “houveram/ houve”, entre outros bem piores.
    Erros toscos assim são quase constantes por aqui e é ainda pior quando vejo um superior meu, no meu trabalho, por exemplo, ter conquistado a posição onde está e não saber empregar uma vírgula corretamente! Por essas e outras, na descrição do meu Orkut, cheguei a escrever: “um Português bem escrito é tão excitante, como um sexo bem feito – muitas vezes, pra mim, um é consequência do outro!”.
    É algo que me entristece porque prezo muito, uma vez que pretendo me formar em Letras e inicio o curso agora em agosto.
    Senti ganas de expor teu link no meu perfil; assim, eles entenderiam o porquê de eu ser tão chata e “politicamente correta” – segundo eles – com nosso Português! rs
    Eu respiro isso e sempre me deparo com obstáculos do tipo “aff! vc será mesmo professora?! ganha-se mto mal…”. Penso que, quando se ama a profissão e tem prazer no exercício da mesma, não há porque ser tão infeliz – ok: talvez, ledo engano de quem está começando agora e cheia de gás, querendo abraçar o mundo com as pernas e achando que poderá mudá-lo sozinha! rs

    Em relação ao (suposto ou não) reflexo do mau aprendizado dos alunos devido aos professores mal preparados e/ou mal remunerados… olha, na minha opinião de “principiante”, pode ser mais um caso desses que eu comentei: Pq se formar em algo que você não sente nenhuma inclinação? Em meio ao curso, já é perceptível o que gostamos ou não. Gente, é só migrar pra algo que mais te apeteça! Como posso também dizer que, estando em lugar de aluna, já vi muitos colegas que são práticos” e dizem “ah, importante é que você entendeu o que eu quis dizer, mesmo escrevendo errado! – damn!
    Bom…nessas coisas, eu não dou muito pitaco, pois ainda não vivi os dois lados! Mas já fica minha humilde opinião aí.

    Enfim… Mais uma vez, parabenizo vc pelo aulão (inclusive, relembrei N coisas que já estavam meio esquecidas!) e pelo estilo do texto com toda essa descontração que vc oferece; mesmo tendo percebido certos picos de estresse nas declarações que, por sinal, são os mesmos que sinto quando leio ou ouço esses absurdos! rs
    E, sim, concordo com alguns acima: dá medinho de errar no Português aqui nos comentários! rsrs Espero ter ido bem, pois, as vezes, erro tolices!
    Sendo professora, creio que é dessas que sabe prender a atenção do aluno. Ainda mais dos NERDs que detestam Português, mas têm inclinação para as Exatas (vai entender… rs).
    De fato, guardarei o link e visitarei mais vezes!

    Um abraço e sucesso!

    Pri, que delícia ler você, fiquei lisonjeada e muito agradecida pelo seu carinho. Nada disso de medinho, comente sempre que quiser, será um prazer. Espero que o curso corresponda ao seu entusiasmo, e que você possa ser uma professora que sinta orgulho e alegria com sua profissão! Abs

  • Ana,
    Muito legal seu post. Acho Português uma língua super bonita e sua gramática complicadíssima. Longe do Brasil parece que meu interesse pela nossa língua se intensificou inda mais. Me policio mais para tentar evitar cometer erros. Cheguei ao seu post buscando entender um desses erros que estavam me assombrando rs. Acho que em algum lugar do passado durante meu aprendizado acabei por decorando algumas das regras do Português ao invés de dissecá-las e entendê-las… bad mistake! :)
    obrigado,
    Heguiberto

    Ao seu dispor! :)

  • daniel andriolo

    ana paula, legal você falar sobre esse tema, a oratória também é precária nos diálogos até dos candidatos a presidência, um absurdo. reconheço minhas limitações e por isso me escrevi num curso de português para concurso. estou achando o máximo aprender de novo nossa língua, tão maltratada.
    adoro seu blog.
    bjos e abraços

    Opa, que legal! Eu não sabia que vc acompanhava o blog, uma honra!

  • Alunos de Letras - UFSCar (Heloísa e Cecília)

    Estimada Ana Paula,

    Consideramos importante seu comentário sobre a língua portuguesa, principalmente em relação às redações de universitários. Achamos louvável sua iniciativa como não professora de língua portuguesa o fato de enfatizar a decoreba dos alunos em relação as regras e também sua reflexão sobre o uso dos conectores.
    Porém, parte de seus comentários não saem do senso comum, este partilha a ideia de que a língua portuguesa se reduz à norma culta. Achamos exagerada a sua supervalorização de regras gramaticais como “de cujo”, “para cujo” e “com cujo” nos textos, pois se sua preocupação for com a clareza das ideias que a pessoas querem expressar, nem sempre fazer o uso da norma culta proporciona isso ao texto.
    Sugerimos a leitura do livro “Porque (não) ensinar gramática na escola” de Sírio Possenti para que você possa rever seus conceitos postados neste blog. A exposição de suas ideias foi importante até como forma de incentivo aos seus alunos.

    Estimadas Heloisa e Cecília,
    agradeço sinceramente seus comentários e sugestão de leitura. Fiquei bastante curiosa e confesso que fui com muito gosto pesquisar a respeito do livro que recomendam. Li algumas resenhas na internet, das quais destaco esta, que me pareceu bastante elucidativa. Talvez, no impulso da escrita não tenha ficado suficientemente claro que eu concordo que saber se expressar bem é muito mais importante do que simplesmente saber classificações gramaticais. E, embora não tenha feito curso de Letras, estou razoavelmente familiarizada com algumas das teorias mais recentes no campo da linguística, especialmente as críticas contra a gramática normativa e a valorização de outras formas de linguagem que não a da norma culta, bem como sei perfeitamente que a língua é viva e dinâmica, e muda não só ao longo do tempo, mas comporta variedades por critérios geográficos, culturais, sociais e provavelmente muitos outros. Longe de mim, boa apreciadora da literatura de cordel, para dar só um exemplo, e fã de Guimarães Rosa, desvalorizar estas outras expressões. Claro que falo como uma “amante amadora” da língua, se vocês me permitem essa brincadeira, e não como profissional estudiosa. Mas por outro lado, acredito também – talvez um pouco anacronicamente – que a expressão oral da linguagem apresenta processos muito mais dinâmicos e ricos que a capacidade de a norma culta assimilá-los. Porém, e aí vou me valer de um trecho da resenha citada para sustentar minha conclusão, não creio que possamos abrir mão das referências de correção no uso da língua indiscriminadamente. E quando eu fiz as minhas ressalvas, eu não estava me referindo à lingua falada, mais flexível, mas sim à língua escrita, numa prova, num documento. Algumas divergências em relação às regras de fato não comprometem o entendimento do que se quis dizer, mas outras, sim. Salvo engano, o uso “fora do padrão culto” da língua (para não chamá-lo preconceituosamente de incorreto) ainda não é bem aceito em documentos oficiais, provas, redações de concurso, teses, monografias, artigos científicos e outros meios escritos. Dominar registros distintos para ocasiões específicas ainda é um requisito essencial da boa comunicação. Agora, se devemos questionar o modelo de ensino da língua portuguesa nas escolas, eu mesma concordei com isso no final do post. Mas não me arrogo a competência para teorizar mais profundamente a respeito, porque de fato não é minha área de estudos. Ainda assim, mesmo não sendo professora de língua portuguesa (até porque o amor, o apreço e a vontade de aprender mais sobre a língua materna não é monopólio de nenhuma profissão) sinto-me no direito de cobrar de meus alunos que dominem (o melhor que lhes for possível) a variedade culta vigente da língua ao escrever uma prova. Não fazê-lo seria, até que me convençam do contrário, uma omissão.
    Muito obrigada mais uma vez a vocês pela oportunidade deste diálogo, fico honrada de ter merecido a atenção de tantos alunos de Letras da UFSCar. Embora o tema principal deste blog não seja língua portuguesa, sintam-se bem-vindas a vir comentar sempre que quiserem, porque, da mesma forma, o amor, o apreço e a vontade de aprender mais sobre a cidade e participar dela também não são monopólio de ninguém.
    O trecho da resenha a que eu me referi é este aqui:
    “O primeiro e o último capítulos intitulam-se respectivamente “O papel da escola é ensinar língua padrão” (pp.17-21) e “Ensinar língua ou ensinar gramática?” (pp. 53-56) e são os que mais explicitamente respondem à pergunta que se faz no título do livro. No primeiro, mostra-se, com base em razões políticas, até que ponto seria absurdo dispensar a escola de ensinar a língua padrão. Era necessário dizer que o abandono da língua padrão pela escola seria sociolingüisticamente absurdo e politicamente reacionário porque, desde que os lingüistas começaram a criticar o ensino puramente gramatical, muita gente sinceramente interessada num ensino de boa qualidade (pais, professores e autoridades educacionais) entendeu que estava sendo preconizado o abandono da língua padrão na escola, e que havia começado uma espécie de “vale tudo”. Muitos professores de escola média, por desinformação, acusam a lingüística de ter instaurado o caos no ensino de português, ao declarar equivalentes as variedades não-padrão e a variedade culta. Os lingüistas nunca preconizaram a substituição do português padrão por qualquer forma de português não-padrão como língua-alvo da escola”
    Abraços!

  • Alunos de Letras - UFSCar (Juliano, Fernando, Pedro Guilherme, Eduardo, David, Mariana e Wuendy)

    Cara Ana Paula;

    É muito interessante a crítica que você faz às aulas tradicionais de Língua Portuguesa que muitas vezes não dão conta de aliar teoria e prática. No entanto, em sua argumentação aparecem elementos tipicamente estruturais como por exemplo a exemplificação de regras e a própria menção a Evanildo Bechara, um dos pais do prescritivismo linguístico.
    Deve-se também considerar a existência de múltiplos gêneros discursivos nas mais variadas atividades humanas. Uma dissertação é bem diferente do gênero bilhete, que tem como uma de suas características marcantes a informalidade, não sendo necessária a utilização da chamada língua padrão.
    Por outro lado, a sua reflexão sobre a atual condição do ensino de Português é bastante pertinente, pois questiona a defasagem de algumas metodologias atuais que muitas vezes não levam em conta o perfil e as exigências dos alunos modernos.

    Caros Juliano, Fernando, Pedro Guilherme, Eduardo, David, Mariana e Wuendy,

    Em primeiro lugar, desculpem-me ter levado tanto tempo para liberar e responder o comentário de vocês. O blog tem um sistema anti-spam que retém todos os comentários feitos utilizando um endereço de e-mail pela primeira vez , até que eu os libere. A partir daí, seus próximos comentários serão publicados automaticamente. Para evitar escrever tudo de novo, peço-lhes a gentileza de receberem, como resposta, o mesmo que escrevi às suas colegas Heloísa e Cecília. Reitero meu agradecimento pelo interesse de vocês em conversar tão francamente sobre o tema com uma arquiteta. Estar aberto a novos aprendizados e possibilidades de reflexão é algo que prezo muito. Sintam-se bem-vindos a esta casa. Abs.

  • Alunos de Letras - UFSCar (Ricardo, Naiara, Renata, Daniela, Lara, Andrei, Marina, Luciana, Camila, Júlia e Stéfanie)

    Oi Ana Paula;

    Nosso comentário parte da perspectiva de graduandos em Letras, dessa maneira, discordamos de alguns pontos levantados em seu texto.
    A concepção de Gramática abordada em seu texto corresponde ao senso comum, vendo a Gramática como um sinônimo de Gramática Normativa,que privilegia uma “variante” ideal de língua que não reflete à realidade da Língua Portuguesa. Entretanto, essa é uma discussão muito extensa que não pode ser resumida em um simples comentário.
    Concordamos que o ensino de Gramática não deve se limitar à memorização de regras, mas que o aluno deve ser entendido como um sujeito sócio-historicamente constituído.
    Seu desabafo é válido por nos fazer refletir sobre o ensino de Gramática e ampliar essa questão a fim de que surjam soluções viáveis.

    Oi, Ricardo, Naiara, Renata, Daniela, Lara, Andrei, Marina, Luciana, Camila, Júlia e Stéfanie,

    partindo da perspectiva de alguém que não é graduada em Letras, mas nem por isso se sente menos no direito de se interessar por algumas questões linguísticas, pensá-las e discutí-las, entendo que vocês identifiquem o meu conceito de Gramática como sendo normativo. De fato, foi assim que aprendi na escola, inclusive usando como base a gramática do professor Evanildo Bechara, à qual ainda recorro hoje, com frequência. Confesso que gostei de ter aprendido desta forma. Permitiu-me adquirir as competências linguísticas que tenho hoje, que não são irretocáveis, mas me têm sido úteis em diversas ocasiões. E vejam bem que não estou afirmando que as mesmas competências não poderiam ser adquiridas com outros métodos.
    Pesquisando sobre o livro de Sírio Possenti sugerido por suas colegas Heloísa e Cecília, dei-me conta de que hoje eu até sou bem menos normativa do que pareço, e sinto-me mais alinhada com o que o autor identifica como “terceira alternativa”, segundo a resenha abaixo, extraída daqui:

    “(…) ao passo que a concepção normativa de gramática se caracteriza por ter como alvo uma língua ideal, ou seja, por consistir em um conjunto de princípios e normas que estabelecem como a língua deve(ria) ser, a concepção descritiva de gramática, praticada pela lingüística sincrônica desde o estruturalismo, consiste em representar a língua tal como ela é, elencando as formas ou estruturas que os falantes de uma determinada língua têm à sua disposição, sem atribuir valores positivos ou negativos à escolha entre essas formas. A essas duas concepções opõe-se uma terceira, lançada pela lingüística gerativa, segundo a qual todo falante de uma língua, durante a fase de aquisição, assimila (ou “internaliza”, para usar o neologismo que se tornou habitual nesse contexto) uma série de princípios e regras altamente elaborados, que lhe permitem produzir enunciados que serão reconhecidos como bem formados pelos demais membros de sua comunidade; “gramática” é, então, a palavra mediante a qual se designa esse conjunto de princípios, encarado como uma forma de competência, ou seja, um conhecimento que tem sede na mente do falante.

    Uma vez estabelecida a distinção entre gramática normativa, gramática descritiva e gramática como competência lingüística, o próximo passo do professor Possenti consiste em mostrar que diferentes conceitos de regra, erro e língua são compatíveis com uma dessas concepções de gramática”.

    De resto, vale o mesmo que já escrevi aos seus outros colegas.
    Abraços.

    PS Se vocês não se zangarem muito com a petulância de uma tia velha e ranzinza, e o escorregão irresistível ao abismo da gramática normativa, eu sugeriria a vocês retirarem a crase da frase “… que não reflete a realidade da Língua Portuguesa”.

  • Alunos de Letras - UFSCar

    Ana Paula;

    Talvez você devesse repensar suas opiniões sobre o ensino de língua portuguesa e não reduzir nossa língua apenas à variedade padrão, desconsiderando, dessa forma, as variedades que de fato utilizamos.
    Seus comentários indicam que você partilha do senso comum de que a gramática normativa serve para todas as ocasiões; o que você classifica como erro é na verdade um desvio da norma culta e esses desvios não devem ser rechaçados já que refletem a língua que de fato usamos (e convenhamos, já não é mais a dos grandes escritores que são utilizados para exemplificar a sua tão preciosa gramática normativa).
    É uma contradição você criticar o ensino de nomes enormes de classificação sintática e de regras gramaticais em sala de aula para depois defender a leitura de manuais gramaticais e dicionários para aprender a escrever.

    Prezados Alunos de Letras da UFSCar:

    estou impressionada com a insistência com que vocês se deram ao trabalho de me escrever, com graus maiores ou menores de ênfase e críticas. Só posso interpretar da maneira mais positiva possível, e acreditar que vocês estão sinceramente imbuídos do espírito de debate a respeito do tema. Que coisa boa.
    Dito isto, talvez vocês devessem reler o post e observar que em nenhum momento eu reduzo nossa língua apenas à variedade padrão, desconsiderando ou desvalorizando outras formas de expressão. Se vocês passearem por outros textos do blog perceberão que me permito, inclusive, vários “desvios da norma culta”, por informalidade, por rebeldia e, se forem bem criteriosos, certamente descobrirão outros desvios por desatenção e até por ignorância mesmo. Jamais afirmei que a gramática normativa serve para todas as ocasiões. O que não me impede de afirmar, aqui e agora, que creio, sim, que o domínio da norma culta é – se não imprescindível, pelo menos altamente desejável – em algumas ocasiões. Responder a uma prova escrita formal é uma delas, em minha modesta e não-profissional opinião. Escrevam a sua monografia de final de curso fora da norma culta, cometendo os “desvios” que eu mencionei como exemplos em meu texto, recebam as considerações da banca avaliadora, e voltem para me contar como foi.

  • Ana Abreu

    Ana Paula, eu gostaria de ter lhe escrito antes, mas não tive condições.
    Sou leitora de seu blog, pois participo de um grupo de pesquisas no Laboratório de Estudos Urbanos, na Unicamp, sendo que os temas tratados por você nos interessam.
    Sou também docente na UFSCar, no curso de Letras.Lendo suas reflexões sobre gramática e escola, propus aos alunos mais um debate sobre o tema, em pequenos grupos. Como resultado,a redação de comentários do grupo e o envio para seu blog para uma provável interlocução com você. Assim, agradeço toda sua atenção aos alunos, possibilitando mais um deslocamento nas reflexões sobre o tema.

    Olá, Ana!
    Quando a gente começa a escrever na internet, nem sempre tem noção do alcance das palavras: que bacana estar sendo lida por vocês na Unicamp, e ter proporcionado aos seus alunos da UFSCar uma oportunidade de conversa sobre esta questão da gramática e da escola. Eu é que agradeço, pois para mim também foi importante (re)pensar tudo isso. Ainda por cima, saí com uma nova referência bibliográfica sobre o assunto. :)
    Agradeça aos seus alunos por mim, pelo interesse e empenho na argumentação, e transmita os meus votos de muito sucesso a todos. Sejam sempre bem-vindos. Abraço.

  • edson D.

    Olá, Ana Paula!
    Só por este comentário “PS Se vocês não se zangarem muito com a petulância de uma tia velha e ranzinza, e o escorregão irresistível ao abismo da gramática normativa, eu sugeriria a vocês retirarem a crase da frase “… que não reflete a realidade da Língua Portuguesa”” já su teu fã!
    gostei do escorregao irresistivel pois a gramatica normativa e um lugar escorregadio para que a plebe resvale mesmo…lugares escorregadios no entanto são lugares cheios de emoçao e exigem cuidado e atençao constantes. obrigado pelo curioso debate que voce proporcionou aqui….(matei a vontade de escrever sem virgulas, acento e crases…na proxima uso o internetes…. ;) abçs

    Foi um bom debate, não é? Mas a “tia velha e ranzinza” não se movimenta tão bem pelo internetês… :/

  • edson D.

    obs.: fikei c 1 vontde enorme de cc a tia velha e ranzinza…rsrsrs

  • edson D.

    Claro q vc pode falar de gramática; a língua é sua, minha, nossa, e as regras de ossa língua kem as faz somos nós!!!

  • moniquinha

    Ai ai,
    também fiquei com medo de você,mas
    como sei como é ruim ler textos mal redigidos,entendo e concordo com seu texto/desabafo na madrugada..rsrs.

    Hahahaha, nem vem, deixa de ser boba! ;-)

  • Oi,Ana:
    demorei para vir aqui.Mas, não podia deixar de deixar meus palpites.
    Dá uma olhada neste link:
    http://migre.me/1aAOP

    Beijos

    Fátima, seus palpites pra mim são sempre considerados com a maior atenção. Fiquei com vontade de ver essas gramáticas aí que vc recomenda. Eu tenho que me atualizar mesmo. Ainda sou do tempo em que gramática de escola era só Bechara ou Celso Cunha. :)
    Vou colocar na minha lista! Obrigada pela dica. Bjs, querida.

  • Desculpe. Eu quis dizer: não podia deixar de dar meus palpites.
    Bjs

    Eu nem tinha notado!

  • lenny

    bom legal apezar de não endenter direito é muito entereçande.

  • Ana Paula

    Oi é a primeira vez que escrevo para comentar,principalmente quando o assunto é a língua portuguesa,que é puxado e complicado para algumas pessoas que tem dificuldade.Minha professora de português nesse bimestre ela está revendo matéria de quinta,sexta e sétima série,pois há alguns alunos com dificuldades em gramática,erram nas palavras,não vou dizer que não erro,pois erro de vez em quando.Ninguém sabe mais do que o outro,cada um tem seu potencial.Ana eu achei o seu blog superinteressante,educativo e ajuda bastante quem quer rever a gramática,começar a melhor a escrita…Gostei muito,espero que você possa postar no seu blog mais coisas sobre a língua portuguesa,pois irá ajudar algumas pessoas que precisam e eu sou uma….

    Bjss!!!CONGRADULATIONS on the blog!!!

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